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| Capítulo 04 - Convite
O bairro balneário de Vouliagmeni, assim como o famoso bairro de Glyfada, fica ao sul de Athenas. Era um lindo local antes de sofrer com o mar e as chuvas, e por isso atraia muitos turistas. Ainda assim, ele sempre manteve alguns recantos escondidos de sossego e silêncio. Um desses lugares era uma antiga e grande construção tipicamente grega, com suas paredes brancas e seus telhados azuis: o Convento de Santa Luzia, onde Thetis era uma das atuais moradoras. Não que ela quisesse seguir a vida religiosa, mas as freiras mantinham alguns quartos a disposição, que alugavam para moças. E para uma jovem estrangeira sozinha e envolta com seus estudos, este era um lugar perfeito. No primeiro sábado após o encontro com Julian fez uma tarde especialmente quente, e por isso a garota dinamarquesa seguiu um hábito que aprendera na Grécia. Ela sempre fazia uma "sesta" após o almoço, para escapar do forte calor. Assim podia descansar um pouco e estar pronta para as noites em que cantava nos restaurantes do centro do bairro. Sendo originária de um país frio, a cantora sofria muito com o verão grego, que alcançava temperaturas entre 30ºC e 40ºC. Depois de acordar naquela tarde, Thetis preferiu ficar lendo junto à janela de seu quarto, mas logo ouviu baterem em sua porta. Pediu para que a pessoa entrasse, e nisso surgiu uma jovem e simpática noviça. _ Srta. Dalgaard, lamento por incomodá-la, mas tem uma visita lhe esperando no pátio leste. – disse sorrindo a garota, com uma expressão levemente travessa, que a dinamarquesa não entendeu o motivo. _ Obrigada, Irmã Theresa. Eu já vou. A sereia colocou o marca-página no lugar, fechou o livro e encaminhou-se ao local onde as inquilinas recebiam visitas, especialmente porque homens não eram permitidos dentro da área interna do convento. E no caso de Thetis, a única visita que ela recebia era de Sorento. O pátio leste era um lugar aconchegante, que obedecia aos moldes da arquitetura grega do prédio. Tinha um formato geométrico e uma parte do telhado do convento se estendia em toda a sua volta, formando uma pequena área coberta. No centro havia um chafariz, onde terminavam todos os caminhos que cruzavam o jardim interno. Bancos simples, mas confortáveis, estavam espalhados pelo local a uma distância suficiente boa para que pequenos grupos pudessem conversar simultaneamente, mantendo ainda assim certa privacidade entre eles. Quando Thetis entrou no local, o sol do meio da tarde ainda iluminava de dourado a água do chafariz, mas a cantora nem notou isso, tamanha a sua surpresa. _ Imperador Posei... – ia murmurando ela, mas corrigiu-se a tempo, exclamando em voz alta - Sr. Julian Solo! Julian, que olhava o jardim sentando em um dos bancos da parte coberta do pátio, virou em sua direção. _ Desculpe-me por vir assim, sem avisar. – disse ele ao se levantar, enquanto Thetis se aproximava – Espero não estar incomodando... _ Oh, não! Claro que não! Eu só estou surpresa. Jamais imaginaria o senhor por aqui. Como me encontrou? _ Liguei para Sorento e ele me deu o seu endereço. – respondeu o mercador, sorridente. _ Sorento, é claro! – riu a garota – Quem mais poderia ser? Mas, por favor, sente-se e fique a vontade. Deseja tomar alguma coisa? Um suco ou um chá gelado? _ Não quero dar trabalho... – desculpou-se Julian, voltando a sentar. _ Não é trabalho algum! – respondeu ela, imediatamente – As freiras sempre têm algo pronto para servir aos visitantes. Basta pedir. _ Se é assim, eu aceito um chá. Obrigado. _ Vou buscar, então. Volto logo. – falou a cantora, com um sorriso. Entretanto, Thetis nem chegou a sair do pátio. A poucos passos do portal de entrada, ela sentiu-se tonta, e sua visão começou a ficar turva. “Não, por favor! Agora não... Não na frente do Sr. Julian!” – pensou, desesperada. Isso de nada adiantou. Antes que pudesse se apoiar em algum lugar, Thetis perdeu os sentidos. Julian, que a observava sair, percebeu a tempo que algo estava errado, e com velocidade sobre-humana correu até ela, chegando a tempo de ampará-la. Preocupado, olhou em volta, mas não havia mais ninguém no pátio naquele momento. Então levantou a garota nos braços e a colocou deitada no banco onde esteve sentado anteriormente, saindo em seguida para procurar ajuda. Quando Thetis recobrou os sentidos, a primeira coisa que viu foi um borrão azulado, que aos poucos foi se transformando no rosto preocupado do jovem grego. _ Que bom que acordou! – exclamou ele, com uma clara expressão de alívio. Assim que percebeu a situação em que se encontrava, Thetis corou violentamente. Havia desmaiado na frente de Julian! Morrendo de vergonha, tentou se levantar, mas o rapaz não deixou. _ Melhor não fazer movimentos bruscos ainda... Uma segunda voz foi ouvida, e só então a dinamarquesa percebeu que Irmã Theresa estava ao lado dele. Tinha um copo na mão e, ao contrário do rapaz, aparentava calma. _ Por favor, Sr. Solo, ajude-a a se sentar para que possa tomar isto. Sempre a ajuda a se sentir melhor quando o calor faz a pressão dela baixar tanto assim. Julian seguiu as instruções da noviça que, vendo a garota melhor, retirou-se. _ Creio que seja melhor eu ir também... – ele falou, em seguida – É bom que descanse em seu quarto. _ Por favor, Sr. Julian, não vá ainda. Peço desculpas pelo susto que lhe dei a pouco, mas se uma pessoa tão importante veio me procurar, o mínimo que posso fazer é ouvir o que ela tem a me dizer. _ Tem certeza? Posso voltar outra hora... _ Já estou bem, não se preocupe! Não é a primeira vez que isso acontece. – sorriu ela – Pode me dizer, sem receios, o que o trouxe até aqui. O grego ainda ponderou um pouco, pensando se não seria realmente prudente ir embora, mas vendo que a face da garota loira já havia recuperado um pouco a cor, resolveu falar. _ Sua voz, sua bela voz. Desde o dia em que nos conhecemos que não consigo deixar de pensar nela. Tenho certeza que, assim como a flauta de Sorento, sua voz é capaz de confortar o coração sofrido das pessoas. _ O que exatamente o senhor quer dizer com isso, Sr. Julian? – Thetis perguntou, intrigada. _ Quero dizer que estarei embarcando em minha viagem ao redor do mundo dentro de 10 dias. Por isso vim aqui, para convidá-la a se juntar a Sorento e a mim nesta viagem. Thetis espantou-se com a proposta. _ Eu? Mas sou apenas uma iniciante! Não sou talentosa como Sorento, e nem tenho condições de fazer uma viagem como essa! _ O fato de ser uma iniciante não significa que não tenha talento. Sua voz é lindíssima e você sabe cantar muito bem, tão bem como Sorento sabe tocar flauta. Agora, se a questão é dinheiro, não há com o que se preocupar. – falou Julian, com a calma de alguém que já esperava uma reação como aquela – Acho que Sorento não comentou com você um pequeno detalhe sobre esse assunto. As despesas da viagem serão por minha conta, mas o nosso acordo é que ele será pago para me acompanhar. A profissão dele é a música, e como bom profissional, acho justo que ele receba por seus serviços. O mesmo se aplicará a você, caso aceite. Minha viagem é um assunto sério, senhorita. Não é um alegre passeio. Quero ajudar pessoas que, em alguns casos, perderam tudo o que tinham, mas sei muito bem que meu dinheiro não será suficiente para curar todas as feridas que elas sofreram com essa perda. É por isso que preciso de vocês. Você e Sorento poderão ajudá-las onde eu não serei capaz de fazê-lo. A garota ouviu tudo com atenção, e depois ficou pensativa por longos minutos. _ Fico honrada com seu convite, Sr. Julian, mas preciso de um tempo para pensar sobre o assunto. Entendo que essa viagem seja uma grande responsabilidade, e exatamente por isso, não posso tomar minha decisão de maneira precipitada. _ Entendo, mas infelizmente não temos muito tempo. Nossa partida já está programada para o dia três de julho. Acha que consegue me dar uma resposta em três ou quatro dias, para que eu mande providenciar sua passagem e hospedagem? _ Creio que sim... – respondeu meio hesitante. O milionário grego se levantou e entregou-lhe seu cartão. Julian despediu-se e assim que ele deixou o convento, Thetis retornou ao seu quarto. Fechou a porta com calma, mas em seguida tornou-se eufórica. Demorou mais do que o previsto, mas por fim, ela e Sorento iram finalmente cumprir a promessa que fizeram. A sereia também seguiria viagem! |
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| Notas da autora: |