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| Capítulo 03 - A cantora lírica
A data marcada para a viagem ao redor do mundo estava próxima. Faltava menos de duas semanas para a partida, e Sorento foi visitar o jovem mercador em seu escritório no Porto de Pireus. Encontrou ali o Sr. Dellas, que o olhou com visível desaprovação. Assim como o advogado de Julian, o contador também tinha certeza que o aquele desconhecido ia acompanhar o Sr. Solo naquela viagem apenas por interesse em sua fortuna. _ Kalíméra, Sorento! cumprimentou Julian, assim que o Sr. Dellas se retirou. _ Kalíméra, Sr. Julian! respondeu o flautista, com uma leve reverência Desculpe-me por aparecer sem avisar, mas estava passando aqui perto. _ Está tudo bem. Deu sorte de eu estar nas docas hoje. Veio providenciar alguma coisa para viagem aqui nas redondezas? _ Na verdade não. Estou a caminho da escola de música da qual eu faço parte. Vou trancar minha matrícula para retomar meu curso quando voltarmos, e também vou me despedir de alguns amigos. _ Entendo... sorriu Julian. Sorento pareceu um pouco em dúvida por um instante. _ Sr. Julian... Não gostaria de me acompanhar? Minha escola fica em um lugar muito bonito, tenho certeza que achará o passeio muito agradável. Prometo que não nos demoraremos por lá. Julian pensou um pouco. Consultou o relógio e depois a agenda que tinha em mãos. _ Não seria uma má idéia sair para espairecer um pouco. Recentemente só saio da mansão para ver de perto meus negócios aqui no porto. Só que preciso voltar logo para resolver algumas coisas antes do fim do dia. O local é muito longe daqui? _ Não muito. De carro é rápido e o trânsito hoje está bom. Minha escola fica no bairro balneário de Glyfada. _ Era um belo lugar antes do Segundo Dilúvio, um dos meus bairros prediletos de Atenas. Pena que ficou quase todo destruído com o mar e as chuvas falou Julian, com visível pesar Mas ainda assim vou aceitar o passeio. O jovem milionário terminou algumas coisas ainda pendentes sobre sua mesa, e pouco tempo depois desceu com Sorento até a rua do porto, onde entrou no carro do flautista (1). Dali os dois seguiram por estradas a beira-mar até chegar ao seu destino. O conservatório de música onde Sorento estudava era um casarão em estilo inglês, no alto de uma colina e rodeado por um pequeno bosque. Um lugar muito bonito e adequado ao seu propósito, pois ficava parcialmente isolado das praias, permitindo assim seu fácil acesso sem o comprometimento com o barulho e agitação dos hotéis, restaurantes e casas de veraneio que ficavam embaixo, a beira-mar. Sorento estacionou e Julian o seguiu pelos degraus que levavam à entrada. Quando entrou no prédio, o mercador logo pode perceber que alguém estava cantando no andar superior. Julian então acompanhou o amigo através da escola. O flautista cumprimentou brevemente alguns conhecidos que circulavam pelo térreo e depois foi andando na direção da música. Conforme ela ia ficando mais forte, mais Julian se sentia envolvido por aquele som, como se a canção tentasse trazer a tona algo há muito tempo adormecido dentro dele. Subiram as escadas e chegaram a uma grande sala no segundo andar, onde o jovem milionário enfim viu quem cantava. Era uma mulher, parada ao lado de um reluzente piano de cauda. Ela estava treinando sozinha, de costas para a porta, por isso tudo que Julian pode ver a princípio foram seus longos cabelos loiros. Tinha uma belíssima voz e estava tão concentrada na canção que não percebeu a chegada deles. Sorento fez sinal para ele, pedindo silêncio, o que foi totalmente desnecessário. Julian já estava de olhos fechados, completamente absorto na canção que embalava confortavelmente sua alma. Queria descobrir o que aquela música e aquela voz lhe lembravam, mas não conseguia. Só voltou a si quando a canção terminou, pois sem a música a sua volta, o jovem milionário se sentiu inesperadamente como uma criança sozinha e desamparada. Estava confuso. _ Lamento interromper seu ensaio, minha cara... falou o flautista. _ Sorento! Há quanto tempo?! exclamou a cantora, virando-se sorridente na direção dos visitantes - Não o vejo há dias! _ Perdoe a minha ausência. respondeu ele, segurando-lhe as mãos de maneira amistosa - Os preparativos da viagem estão me tomando bastante tempo. A garota apenas sorriu, compreensiva, mas depois olhou intrigada para a pessoa parada atrás deles, o que foi imediatamente notado por Sorento. _ Que falta de modos a minha, ainda não os apresentei! Sr. Julian, me permita que eu lhe apresente a dona da voz mais encantadora que já conheci.... Srta. Thetis Christen Dalgaard! (2) Ela veio da Dinamarca e, assim como eu, é uma estudante de intercâmbio. Julian andou até a moça, tomou-lhe uma das mãos e a beijou, cumprimentando-a. _ Encantado em conhecê-la, senhorita! _ Igualmente. sorriu ela. Uma vez que foram devidamente apresentados, Sorento voltou-se para a amiga. _ Thetis... ele chamou Já que está aqui, será que poderia me fazer um favor? _ Claro, Sorento! O que quiser! _ Como o Sr. Julian é uma pessoa muito ocupada, você poderia levá-lo para conhecer a escola, enquanto vou até a secretaria para trancar minha matrícula? Eu me encontro com vocês depois, nos jardins. _ Sem problemas! Isso é, se o Sr. Julian não se importar, é claro! _ De maneira alguma. Será um prazer. O rapaz austríaco agradeceu e seguiu pelas escadas, andar abaixo, rumo à secretaria do colégio. Thetis, então, pode se voltar para o visitante. Então o senhor é o famoso Julian Solo? O milionário que vai roubar o meu amigo e o melhor flautista desta escola! respondeu Thetis, fingindo-se ligeiramente zangada. _ Roubar não é bem a palavra. rebateu o jovem mercador, bem-humorado - Eu diria que tomarei o talento dele emprestado por uns tempos, para que possa alegrar algumas pessoas além dos limites da Grécia. _ Entendo... murmurou a garota - Sorento me contou que foi ele quem se ofereceu para acompanhá-lo nesta viagem, mas o senhor não sabe a repercussão que isso causou aqui. Os alunos ficaram todos orgulhosos quando souberam que ele iria de fato, mas os professores temem que ele não volte mais, especialmente a Sra. Claydermann, a professora de flauta transversal. Sorento tem um talento excepcional para este instrumento, e a esperança dela é que ele a substituísse quando se aposentasse. Julian a olhou, intrigado. _ Mas não há porque se preocuparem
com isso. Não ficaremos andando pelo mundo eternamente. Tenho os
negócios de minha família aqui na Grécia, teria que
voltar para cá mesmo contra minha vontade.
_ Nesse sentido, vocês têm razão. respondeu o rapaz, seguindo-a pelo prédio Desculpe-me pelo incômodo. _ Não é sua culpa, no fim. Foi a escolha dele. respondeu Thetis, com um sorriso triste Mas vamos mudar de assunto. Vou lhe mostrar a escola. Tenho certeza que irá gostar. A cantora o levou pelos cômodos da grande casa, mostrando as salas de aula bem equipadas, a extensa biblioteca e o palco espaçoso, enquanto contava a Julian que o conservatório de música fora fundado por um casal de ingleses que havia se mudado para aquela região da Grécia depois da Segunda Guerra, o que justificava sua arquitetura e o fato dos professores mais antigos serem quase todos da Grã-Bretanha. Chegaram por fim aos jardins, muito bonitos e bem cuidados. Apesar do verão, várias plantas ainda mantinham suas flores, e o fato de ter o bosque próximo e várias árvores entre os canteiros tornava o lugar extremamente agradável, quase um oásis perante o forte calor grego. Thetis e Julian sentaram-se em um dos bancos do jardim, esperando por Sorento. A esta altura o casal já conversava animadamente, especialmente sobre óperas e musicais, embora o milionário estivesse prestando mais atenção à garota de voz melodiosa do que ao que ela falava. Em uma breve pausa na conversa, Julian resolveu esclarecer uma dúvida que já estava atormentando-o. _ Srta. Thetis, não me leve a mal, por favor, mas... Por acaso nós já não nos conhecemos antes? A dinamarquesa se espantou com a pergunta, mas vendo a expressão sem-graça de Julian, não pode deixar de sorrir. Será que ele tem medo que eu considere isto como uma cantada? ela pensou, rindo internamente. _ Lamento, Sr. Julian, mas creio que não. Deve estar me confundindo com outra pessoa. Uma simples aluna de canto como eu não costuma freqüentar os mesmos lugares que uma pessoa tão importante como o senhor. A menos que seja um dos freqüentadores aqui do bairro, já que aos sábados à noite eu costumo cantar na praça napolitana. _ Aquela praça em estilo italiano, com calçadas largas, um chafariz no meio e cercada por diversos de restaurantes? _ Exatamente essa! Os restaurantes que têm música ao vivo me pagam para cantar lá de vez em quando. respondeu Thetis, com um grande sorriso. Mal disse isso, a garota viu alguém se aproximando deles. Era Sorento. _ Desculpe pela demora. Se quiser, já podemos voltar ao porto, Sr. Julian. _ Sim, precisamos ir. respondeu o mercador, levantando do banco antes de voltar-se em direção da garota. Foi um passeio muito agradável, Srta. Thetis! _ Fico feliz em saber disso, Sr. Julian! Quando a viagem acabar, pode voltar aqui sempre que quiser! Sorento despediu-se de Thetis, dizendo que ainda iria visitá-la antes de partir em viagem, enquanto Julian se despediu da mesma maneira cortês e educada com a qual a cumprimentou quando foram apresentados. Porém, antes que ele lhe virasse completamente as costas, a cantora o chamou de volta. _ Sr. Julian... _ Sim? _ Por favor, cuide bem do Sorento por nós! foi tudo o que ela pediu, com os olhos ligeiramente marejados de lágrimas. _ Farei o melhor possível! - respondeu o jovem grego com um sorriso, antes de partir com o flautista, que já o esperava no carro. Poucos dias depois deste encontro, durante a madrugada, Julian estava deitado em seu quarto olhando para o teto. Tinha acabado de acordar após ter o mesmo sonho pela terceira noite seguida. Desde que visitou o conservatório de música junto com Sorento, ele mal pegava no sono e aquela canção que ouvia quando estava no hospital lhe vinha à mente. Entretanto, ela não era mais uma simples lembrança perdida em sua memória, que o ajudava a dormir. Nos sonhos, a canção tomava a forma de uma garota de cabelos compridos, que Julian via ao longe em um grande terraço com vista para o mar. Quando o mercador conseguia se aproximar dela, a garota silenciava imediatamente antes de se virar para ele. E Julian via então o belo sorriso de Thetis. |
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| Notas da autora:
1- Kalíméra: em grego, significa bom dia. 2- Glyfada: é um bairro balneário que fica no litoral sul da cidade de Athenas. Faz parte do caminho que liga a capital grega até o extremo sul de Ática, onde fica o Cabo Sunion e as ruínas do Templo de Poseidon. 3- Comentário bobo, mas vou explicar, caso alguém estranhe... Não tenho a mínima noção de qual é a idade em que se tira carteira de motorista na Grécia, mas achei que seria muito chato se Julian e Sorento dependessem de um motorista para sair sempre que quisessem. Então na minha história os dois sabem dirigir (legalmente falando), apesar de terem apenas 16 anos. 4- Outro comentário bobo... Quando imaginei o conservatório de música, a casa que me veio a mente foi a casa do Eriol / Mago Clow, de Card Captor Sakura. Por isso ela é em estilo inglês. 5- Christen Dalgaard (1824-1907) foi um pintor dinamarquês. Quando imaginei a cena do Sorento (re)apresentando a Thetis ao Julian, achei que esta passagem ficaria melhor se a sereia tivesse nome e sobrenome. Então saí procurando por nomes dinamarqueses pela net, e esse foi o que eu mais gostei. |