World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
Capítulo XVI – Jogos terminam, jogos começam.

Aioria poderia dizer que aquele comportamento de Saga era absolutamente anormal; conseguira permissão para ver o irmão sem nenhuma, absolutamente nenhuma discussão com o Príncipe. No horário marcado compareceu ao local onde os seguranças de Saga o esperavam, entrou no carro e teve seus olhos vendados, essa fora a condição para que Aioria fosse levado ao local onde Aioros permanecia cativo. Claro que Aioria não reclamou.

O carro se movimentava pelas ruas de Chicago em alta velocidade, privado de sua visão Aioria se concentrou nos odores dos locais por onde passavam, claro que os seguranças deram algumas voltas em círculos pela cidade para desorientá-lo a respeito do local exato onde Saga mantinha seu irmão. Aioria poderia dizer que estavam próximos a uma das margens do lago Michigan, devido ao sutil cheio de água, imperceptível para um mortal, mas não para um vampiro com os sentidos tão apurados quanto os dele.

O carro parou e o ruído de um imenso portão de ferro sendo aberto foi ouvido, prosseguiram. Pouco depois o ruído de um portão automático de garagem. O carro parou e novamente o ruído do portão automático se fechando.

Um segurança tirou a venda do Brujah pedindo que o acompanhasse. As últimas noites foram de pura agonia e sofrimento para Aioria que o seguiu de modo impaciente, faltava tão pouco para rever o irmão.

Seguiram por um longo corredor até um elevador, uma senha foi digitada por um dos seguranças, entraram. Não havia nenhuma indicação de quantos andares desceram, mas a julgar pela velocidade do elevador, Aioria fez um rápido calculo mental, tinham descido ao menos o equivalente a um prédio de quatro andares. Saga era realmente louco: aquilo era uma fortaleza. Quatro andares debaixo da terra?

A porta se abriu, mais um longo corredor, desta vez completamente asséptico e bem iluminado. Pararam diante de um painel, alguns números foram digitados e uma gigantesca porta de metal maciço se abriu ao fundo.

- Aioros! – Agora que encontrara o irmão se dera conta de que o julgamento estava mais próximo a cada noite, céus, ele não iria agüentar, seus nervos estavam em frangalhos, sua paciência ultrapassara a linha do aceitável.

- Olá irmão, Saga me avisou que viria ver-me esta noite. – Estava claro a expressão de cansaço e preocupação de seu irmão mais jovem, nem parecia o sempre altivo e orgulhoso Aioria.

- Saga servindo de moleque de recados? – Não conteve a surpresa. Aioros não aparentava nenhum temor em sua face, pelo contrário estava mais sereno do que nunca, era como se nada, absolutamente nada estivesse acontecendo e em poucas noites ele morreria, definitivamente não parecia um homem prestes a morrer! Como ele conseguia aparentar indiferença frente à morte? Como?

- Não exatamente, Aioria. – sorriu ante a surpresa do irmão, como esperava: o irmão não estava conseguindo lidar com a situação.

- Irmão... Por que não fugiu antes de ser colocado nesta fortaleza? Por que não fugiu depois de abraçar Marin? Por quê? Parece que ignora o que vai acontecer! – Explodiu, aquela situação estava acabando com seus nervos! Nem Ikki, nem Milo estavam suportando mais seu mal humor.

- Aioria, meu irmão... Existem coisas a meu respeito que você ignora, é contra sua crença, sabe que eu consegui encontrar minha paz interior, irmão. Desde quando sou homem de fugir de minhas responsabilidades? Cometi um crime e sabe tão bem quanto eu que a Tradição da Progênie é muito, muito mais antiga que a Camarilla, sua seita, que tipo de homem eu seria se negasse a quebra de uma Tradição? Querendo ou não, Saga é o Senhor deste Domínio e a Lei deve ser honrada. Posso não concordar com o sistema da Camarilla, mas pelo menos posso dar a Saga o crédito de ser justo, embora tanto ele quanto você se mantenham nesta instituição que considero falida.

- Contra minhas crenças? Aioros, se você começar com aquelas histórias de Golconda de novo... Não, eu não acredito nessas coisas que você estudou por tanto tempo, não acredito mesmo, irmão! Não é hora de ser correto, Aioros. É a sua vida que está em jogo, não entende isso?

- Os Ventrue me deram a opção de fugir daqui, mas não o farei, Aioria. Não quero ter meu nome e minha honra manchados, não quero ser visto como um traidor. Já vivi demais, considero que é a hora de partir, não há mais nada que eu possa aprender, não há mais nada a ensinar, já cumpri meu papel neste mundo, irmão.

- Honra? Por Atena, Aioros! Até mesmo os Ventrue reconhecem que você está cometendo uma loucura! – Aioria não conseguiu se conter, sentiu lágrimas de sangue em seus olhos. - Pare com isso e fuja, deixei Chicago, eu lhe imploro irmão!

- Aioria... Não torne as coisas mais difíceis... – Aioros sabia que aquela conversa seria pesada e necessária. – Sempre respeitei suas decisões, sempre o apoiei em tudo, tudo. Por favor... Compreenda. A morte é parte da vida, como vampiro já burlei a ordem natural das coisas por mais de dois mil e quinhentos anos. Tempo mais do que suficiente para que eu aprendesse a me livrar dessa maldição! Não agüento mais, não agüento! Não quero continuar a existir em um corpo morto, quero libertar minha alma, irmão.

- Nada do que eu diga o fará mudar de idéia? Espere... Verônica. Sim. Só ela pode fazer você desistir dessa loucura! – Falou com esperança nos olhos.

- Nem por ela eu desistiria de fazer essa passagem, Aioria. A propósito, a chave do cofre com aqueles livros que você não deve se aproximar está com Verônica, ela entregará a Mú e os Malkavianos se encarregarão de guardar todo aquele mal que lá se encontra... E... Por favor... Não a culpe pelo atentado a Marin...

- Então ela já sabia que você tinha decidido morrer? – Aioria não escondia sua tristeza, sua decepção. – Como não culpá-la? Sabe que o Sabbat colocou a cabeça dela a prêmio e Marin... Era ghoul dela, como não suspeitei disso? Conseguiu o emprego no Masquerade muito fácil!

- Não estou morrendo, Aioria. Estou libertando minha alma, é diferente. Sim, assim como você, Verônica tentou me dissuadir, mas ao contrário de você, Verônica acredita que eu consegui atingir a paz que só a Golconda pode dar a um de nós. Aioria, Marin nunca foi ghoul de Verônica, ela mentiu a meu pedido, entende? Era a única forma possível de mantê-la “viva” após o abraço.

- Hã? – Aioria balançou a cabeça sem entender. – Como assim? Se não foi o Sabbat que atacou...

- Atacaram-na para te atingir, Aioria. Não tive como investigar na hora, ou eu a abraçava ou ela morria. Não houve tempo. Aqueles meninos que estavam com ela... Estavam tão desesperados que nem pensaram em ir atrás dos atiradores, ainda são jovens, mas vejo que serão de grande valor no futuro. Como o local foi limpo sem ser investigado, não temos provas para descobrir quem fez isso. Você tem muitos inimigos, irmão. Pense.

- Céus... Como sou idiota! Desde que a conheci na have do nosso clã não me preocupei em esconder o quanto ela... Mexeu comigo! Ganhei muitos inimigos quando fui Archon, admito. Mas quem fez isso é alguém próximo, alguém que viu meu interesse por Marin desde a have. Não, ele não faria isso. – Aioria negou com a cabeça.

- Máscara da Morte? – Aioros falou.

- Sim, somente ele seria louco o suficiente em Chicago para me peitar.

- Não temos como provar, Aioria.

- Não estou preocupado com provas. Terei uma longa conversa com ele. – Aioria estalou os dedos.

- Não cometa nenhuma loucura, irmão.

- Não cometerei. – A voz de Aioria soou dura. – Uma hora ele vai cometer um deslize e nesta hora o pegarei.

-o-

Chicago, Clube Masquerade.

Marin acordou em um ambiente completamente estranho: um quarto luxuoso e escuro, fracamente iluminado por velas. Não sabia dizer como, mas sentia que era noite. Seu corpo ainda doía, não soube disser quanto tempo se passou até ouvir um leve farfalhar de seda e o barulho de saltos altos virem em sua direção: Verônica.

- Pensei que dormiria para sempre, Cinderela. Três dias e três noites dormindo?

- O que estou fazendo aqui? Aliás, onde estou?

- Muita calma nessa hora, garota. Uma pergunta de cada vez: está em uma área privada do Masquerade e serei sua tutora já que agora você é uma vampira, goste ou não.

- Droga. Não acredito que isso aconteceu comigo! – Deu um soco na cama, sem noção de sua nova força, a quebrou. Olhou assustada para suas mãos.

- Você tem muito o que aprender, Marin. Principalmente a controlar seus novos poderes, mas antes você precisa ter idéia da gravidade da situação em que está metida.

- Como assim?

- Bem, por onde começar? Alguém tentou te matar e certamente você estaria a sete palmos debaixo da terra se não fosse pelo abraço de Aioros, acontece que, ao te abraçar ele quebrou digamos algumas Leis e tanto ele quanto você deveriam encontrar a morte final, mas para que você tivesse chance de sobrevivência... Ele me pediu que alegasse que você era uma de minhas ghouls para que eu reclamasse meu “direito de posse” sobre você, entende?

- Hã? Não estou entendendo nada, Verônica. Juro que preferiria ter morrido a me tornar uma bebedora de sangue como vocês.

- Sei que não é nada agradável se transformar no que somos, não conte para ninguém, mas entendo como se sente. Eu não tive escolha quando fui abraçada. – E contou a Marin um pouco de sua história: como ela odiava seu senhor, depois entrou nos detalhes referentes ao plano feito por Aioros para mantê-la viva, explicou-lhe em detalhes como era importante que ela representasse no julgamento ter sido ghoul de Verônica e por aí foram seguindo até serem interrompidas por um servo de Verônica dizendo que Aioria estava prestes a se descontrolar na Elite se Verônica não descesse para falar com ele.

Marin sentiu um arrepio ao pensar no Brujah, a Lasombra sorriu. Aioros estava certo: a mortal amava Aioria e ainda não se dera conta disso e claro que ele a amava estava nos olhos dele. Mas para que o plano desse certo, os dois teriam que colaborar.

- Leve Aioria pra sala vip, já irei falar com ele. Arrume-se Marin, tenho certeza de que ele deseja vê-la e você está horrível.

- Estou? – Olhou para si, realmente estava horrível: ainda usava as roupas da noite em que fora abraçada.

- Não vai querer que Aioria a veja assim, não é?

- Não quero vê-lo. – Respondeu firmemente.

- Querendo ou não, não tem muita opção Marin. Tenho certeza de que ele veio aqui para ter certeza de que não estou te prendendo em uma de minhas masmorras. – E saiu, dando uma ordem para que a preparassem decentemente pra ver Aioria.

Na sala vip, Aioria a esperava. Impaciente, para variar e claramente abatido, Verônica se apiedou dele, mas como era de se esperar não demonstrou.

- Veio para ter certeza de que não estou chicoteando minha propriedade? – Falou acidamente.

- Sem encenação, Verônica. Acabei de ver Aioros, ele me contou tudo.

- Ahhhhh... então veio me agradecer?

- Odeio admitir isso, mas vim pra te agradecer. Obrigado. Pronto, está feliz agora?

- Mas é claro. Fiz apenas por que teu irmão me pediu.

- Tem mais uma coisa, Verônica...

Ela olhou muito interessada para o Brujah. – O quê?

- Saga e Kannon vão facilitar a fuga de Aioros, convença-o a fugir.

- Eles pretendem fazer isso? – Ela estava ainda mais interessada. A atitude dos gêmeos a surpreendera.

- Pretendem, mas Aioros não quer fugir! Só você pode convencê-lo a fazer isso! Por favor, Verônica... Não quero que meu irmão morra! – Falou em um tom de súplica, angustiado.

- Aioria, você sabe que seu irmão...

- Não! Não venha você também me falar desse absurdo de Golconda, isso não existe!

- Existe, Aioria. E teu irmão é a prova viva disso. Você acha que me sinto como? Feliz? Teu irmão tomou uma decisão e acredito que nada do que eu diga irá fazê-lo mudar de idéia! – Explodiu jogando-se no sofá em frente ao Brujah. – Não há nada que eu possa fazer, por que se pudesse, eu o faria. Faria por ele, sem dúvida que o faria!

- Tente, por favor... Ao menos uma última vez, eu... Te peço. Tente, por favor.

- Onde ele está? – Sussurrou erguendo uma sobrancelha.

- Pergunte a Saga, peça para vê-lo. Saga não te nega nada.

- Tudo bem, ele virá mais tarde ao Masquerade. Falarei com ele.

- E Marin? Como ela está? Já acordou? – Falou com evidente emoção na voz.

- Acordou, depois de três dias e noites dormindo! Pensei que tivesse vindo aqui para vê-la.

- Posso? – Falou em tom ansioso.

- Bom, poder, você pode, mas... Ela não quer te ver.

- Não quer? Por quê? – Uma notória expressão de confusão dominou seu rosto.

- Porque no fundo ela te culpa pelo que aconteceu a ela, Aioria.

- E a culpa realmente é minha... – Baixou a cabeça, mal conseguindo pronunciar tais palavras.

- Ninguém tem culpa em amar. – Estava com pena de Aioria, ele estava completamente perdido e desorientado. – Vamos fale qualquer coisa, fale para Marin que você é o Primogênito dela e bla bla bla, você sabe como justificar que está aqui para vê-la “oficialmente”. – Chamou um servo e ordenou que buscasse Marin, ele voltou pouco tempo depois dizendo que ela não queria descer. Aioria estava quase abrindo um buraco no chão de tanto andar em círculos. – Se ela não vem você vai até ela, siga meu serviçal, Aioria.

Sem pestanejar Aioria seguiu o rapaz.

- Senhor, ela está naquele quarto. – Apontou. Aioria simulou uma respiração. Nervoso e ansioso, Aioria não parava de passar as mãos nos cabelos. Sua vida virara de cabeça para baixo em tão pouco tempo. Bateu na porta levemente.

- Entre. – A voz de Marin soou firme. Ele sentiu aquele familiar formigamento no corpo diante do efeito que a voz dela causava em si.

Abriu a porta e parou embasbacado com a beleza de Marin: se mortal ela era linda, após o abraço ficara realmente indescritível, a maldição acentuara sua beleza a níveis sobrenaturais alarmantes. Sua pele estava completamente pálida, tão branca quanto o mármore, seus olhos castanhos intensamente brilhantes, os cabelos vermelhos como fogo pareciam vivos, tamanho seu brilho, sua intensidade.

Céus! Se Deus existisse em algum lugar, sem dúvida, Marin era um anjo. Um anjo que agora fora amaldiçoado. Ele não conseguia falar diante de toda aquela... Mudança ocorrida na aparência de Marin e pelo visto ela usava um dos modelitos a la Verônica, absurdamente sexy. Não que ele reparasse em Verônica, mas é que, em Marin aquele vestido de seda púrpura tão curto e desnudo era... A maior tentação que ele já vira em sua existência.

Marin não escondeu sua surpresa ao vê-lo, parado, olhando-a de cima a baixo, sem esconder a admiração, o desejo que sentia.

- Eu disse que não queria vê-lo. – Falou enquanto escovava os cabelos ainda molhados pelo banho recente. – Vá embora!

- Só queria... Saber como você está. – Sussurrou.

- Estou muito bem como pode ver. Agora pode ir embora. – Falar aquilo doía, era totalmente contrário ao que ela queria. Como não conseguia controlar o que sentia, como? Ah sim, isso era uma característica recém adquirida, uma característica Brujah.

- Marin, eu... – Escolheu as palavras com cuidado. – Lamento muito pelo que aconteceu.

- Lamenta? Lamenta mesmo? – Ela levantou o tom de voz. – Quem me garante que não foi você que armou tudo isso, hein? A culpa é toda sua, Aioria! Você é igual a todos os de sua raça! E ainda pior do que a maioria dos vampiros que conheci, porque nem consegue ser dissimulado ao ponto de esconder quando deseja alguma coisa.

- É isso que você pensa de mim? – Falou com mágoa nos olhos, sentindo seu coração se despedaçar.

- É! Você deveria se envergonhar pelo que fez a mim e ao seu irmão. Não apareça mais na minha frente, Aioria! Eu te odeio, entendeu? – Marin sentiu seus olhos lacrimejarem, um choro incontrolável a tomou.

Ao contrário do que ela esperava, ele não foi embora. Marin não sabia se estava chorando por que sentia ódio de sua nova condição ou por que via a mágoa que causara nos olhos do vampiro a sua frente. Aioria se aproximou e a abraçou, contra a vontade dela que resistia ao contato, mas ele insistiu e a envolveu nos braços, como se estivesse a protegê-la de seus temores.

- Não faça isso comigo, Marin. Você é tudo que eu tenho agora! – Falou suavemente afagando o cabelo dela. Como ele adorava aquele cabelo ruivo!

- Por quê? Por que fizeram isso comigo? – Ela chorava compulsivamente nos braços de Aioria.

- Eu vou descobrir quem fez isso, prometo. Quem fez isso irá pagar caro por te fazer sofrer. – Sua voz era decidida, mas carinhosa. – Eu te amo, Marin.

Diante das últimas palavras de Aioria, Marin parou de chorar pensando não ter ouvido direito o que ele falara. – O que você disse?

- Disse que te amo, Marin. – Falou encarando aqueles olhos castanhos que o enfeitiçavam. Sem pestanejar, ele aproximou sua boca da dela, beijando-a com toda a intensidade e fibras de seu corpo, como se sua vida dependesse daquele contato. Marin não resistiu, era humanamente impossível resistir a Aioria, ele mexia com toda sua libido e tudo parecia absurdamente mais intenso depois que fora abraçada, ela precisava ter aquele homem, urgentemente!

Aioria a colocou contra a parede, iniciando uma série de carícias intensas no corpo de Marin, queria explorar cada milímetro daquela pele agora fria, mas ainda sim, macia como pêssego. Ela por sua vez não se fez tímida e retribuía na mesma intensidade, arranhando-lhe o corpo, sem cerimônia alguma, ficou claro a ele que Marin não tinha noção da força que agora possuía, rasgando-lhe a jaqueta de couro e a camiseta que ele usava cravando-lhe profundamente as unhas em sua carne. Assustado, ele forçou um sorriso diante da expressão de espanto dela.

- Desculpe... Eu... Não queria te machucar. – Ela falou, sem graça, se afastando dele. Aquilo estava virando uma tortura para ambos. – Por favor, vá embora... Preciso de tempo para me acostumar a essa... – olhou assustada para suas mãos ensangüentadas – Força.

O que ele poderia dizer? Que o sangue que corria em suas veias era de uma geração extremamente baixa capaz de lhe dar poderes vistos em poucos vampiros? Ou que entendia como ela se sentia por que ele também passara por aquilo? Ou ainda que aquele vestido de seda púrpura ficava muito bem nela? Aioria conseguia pensar em várias coisas ao mesmo tempo, mas não conseguia falar nada. – Eu vou, se é isso que você quer... Eu vou, com licença. – Virou-se. – Mas quando você quiser, eu volto. – Deixou-a mais uma vez, sozinha.

Aioria sabia exatamente onde deveria ir: Máscara da Morte.

-o-

Chicago, Cobertura do Edifício Louis Joillet

Milo estava, mais uma vez, mal humorado. Aquelas noites treinando com armas de fogo ao lado do Ventrue não estavam lhe fazendo bem. Kamus era o ser mais irritante que ele conhecera na face da terra. Como alguém conseguia conviver com aquele cara? Ao final daquelas três noites o que ele mais queria era apontar a arma pra cara do Ventrue e atirar bem no meio dos olhos.

Felizmente aquele seu “surto”, aquela perda de memória não o tomou. Ele tinha verdadeiro pavor daquilo. Definitivamente não era ele. Não era! Mas o que era aquilo? Desde que chegara a Chicago aquilo acontecera duas vezes. Duas vezes! Quando estava na Grécia, isso não acontecia em intervalos de tempo tão curtos...

A muito custo, conseguira convencer Kamus a deixá-lo ver Gabrielle, o cara parecia se sentir o dono da Condessa, aliás ele parecia se sentir dono de tudo e todos. Agora ele seguia Kamus pela escada daquela gigantesca cobertura rumo ao quarto dela. Kamus parou diante de uma porta e Milo o encarou com hostilidade. – Você já ouviu falar de privacidade? Não me diga que vai ficar plantado aqui enquanto converso com Gabrielle?

- Certamente que não ficarei, creia-me, tenho assuntos realmente importantes para tratar em meu escritório. – E saiu dando-lhe as costas sem maior cerimônia.

Se Milo tivesse uma arma teria atirado no Ventrue, pelas costas. Armou-se do seu melhor sorriso e bateu na porta, era educado fazer isso, não podia se esquecer. Abriu a porta encontrando a Condessa ao centro de uma cama com um laptop no colo. Ao vê-lo ela mostrou-se surpresa.

- Posso entrar? – Perguntou, sabendo ser uma pergunta inútil porque já tinha entrado no quarto. Droga. Etiqueta. Ele tinha que ter esperado ela dizer que podia entrar para entrar e não entrar antes de perguntar. Tinha que se lembrar disso no futuro. Etiqueta era fundamental para um Toreador, ainda mais na sua nova condição de braço direito do primogênito de seu clã.

- Não acredito em meus olhos! O que faz aqui, Milo?

- Uma longa história, Gabrielle. Bem, vou resumir: diante de um ataque próximo do Sabbat estamos treinando para combatê-lo.

- Treinando? Não me diga que... Kamus... Ele está treinando você? – Agora ela realmente estava com os olhos arregalados.

- Pois é. Não sei de onde ele tirou essa idéia estapafúrdia. Mas Afrodite me obrigou a aceitar, aliás, não me deram escolha.

- Preciso dizer que você deve ter cuidado com Kamus? – Ela falou fechando o laptop.

Ele sorriu. – Não precisa, mas confesso que existem horas que eu... Tenho vontade de acabar com a raça dele. Como você agüenta conviver com esse homem?

- Simples, eu também sou Ventrue. E ele não é uma pessoa ruim.

- Mas você não é fria como ele.

- Sou sim, olhe bem para mim. – Ela sorriu.

- Não, definitivamente você não é como ele, Gabrielle. – Milo começou a imitá-lo e os dois caíram numa gargalhada sem fim.

- Existem coisas sobre Kamus que poucos sabem, Milo. Acredite, ele tem motivos para ser “assim” tão distante.

- Não acredito!

- Milo... Quando nós fizemos aquele plano, aquele da arena... Bem... Tocamos numa coisa muito preciosa do Duque. Como posso dizer... Bem, ele perdeu sua família de uma maneira... Muito dolorosa... E foi nisso que você o atingiu...

- Quer dizer que existe ainda um ser humano debaixo daquele iceberg? – Arregalou os olhos, tentando acreditar no que ouvia.

- Existe sim, e só não fui embora dessa cidade por que vi que ainda existe alguma chance de recuperar essa pessoa.

- A boa samaritana?

- Não, definitivamente não sou, mas digamos que estou seguindo meus instintos para fazer a coisa certa.

- Mas você não tem medo dele? Eu sinto um arrepio só de pensar em conviver com esse cara.

- Às vezes sinto medo, mas logo em seguida ele faz um gesto ou pronuncia uma palavra para derrubar esse medo. Não sei como, mas acho que você também poderia ajudá-lo...

- Ajudar? Como ajudar uma pessoa que literalmente coloca uma barreira entre ela e o mundo inteiro? E por que eu faria isso? O cara deixa claro a todo momento que está doido para ver a minha cabeça fora do corpo.

- Tradições Ventrue, são as nossas tradições que o movem para esse fim, mas nada acontecerá a você, fique tranqüilo.

- Não sei, Gabrielle, tudo isso é muito grande para mim. Minha vida literalmente mudou de cabeça para baixo desde aquela noite na arena. Digamos que conseguir o tal do poder na tal da política da Camarilla foi fácil demais.

- Sim, foi fácil, e a parte difícil vem agora: manter esse poder. Nada acontece por acaso na Camarilla. Temos a ilusão de possuir algum poder, Milo. É pouco, mas serve para planos que não compreendemos, mas fazemos parte, é tudo como um jogo de xadrez, possuímos nosso papel em um tabuleiro, mas quem nos manipula?

- Sua fala está um tanto quanto... Familiar e... Anarquista?

- Anarquista? Eu? Nunca! Mais fácil um Ventrue morrer do que se tornar anarquista. Falo isso, porque nada acontece na Camarilla sem o consentimento dos anciões. Então para eles é melhor nos dar alguma coisa do que nos ver lutando contra eles, entende? O poder é viciante, Milo. Já sentiu o gosto dele, não?

- Meu clã me aceitou, mas até do que isso e confesso a você que... Sinto que estou me encontrando.

- Viu? Se você pensar um passo a frente, não vai tomar uma rasteira. O difícil é conseguir essa proeza.

-o-

Ikki poderia dizer que estava no sétimo céu. Pandora era sem dúvida a mulher mais incrível que ele conhecera na vida. Mais até do que Esmeralda. Desde que a conhecera aquela era a primeira vez que ele se lembrava de Esmeralda, naquele momento a ex-namorada era apenas uma boa lembrança de um passado muito, muito distante.

Ele estava definitivamente bem humorado e feliz. Claro que isso não passou desapercebido pelos Brujah. Ikki nem se importava com as piadinhas feitas sobre sua melhora repentina de humor e ele não fazia questão de esconder que estava ótimo, graças a Pandora.

Naquela noite ele a levaria para conhecer a Biblioteca Central, Pandora adorava livros, céus, mas que mulher culta, inteligente! Ikki podia conversar com ela sobre todos os assuntos de seu interesse. E depois daquelas longas conversas... Mas que fogo tinha aquela mulher, era perfeita em todos os sentidos a todo o momento, a toda hora.

Estacionou a moto em frente ao luxuoso hotel onde ela se hospedara. Como ela podia conviver tão bem com o luxo e a graxa de uma oficina? Mas ela era capaz dessa proeza. Não demorou muito e ela apareceu, linda para variar. Lançou-lhe um olhar capaz de despi-lo e piscou um dos olhos, ao se aproximar beijou-o intensamente antes de colocar o capacete e subir na garupa da moto, abraçou-o com força, Ikki colocou o capacete, ligou a moto e saiu em disparada desrespeitando todos os limites de velocidade e prudência possíveis. Em poucos minutos estavam em frente ao prédio da biblioteca.

Deixaram a moto no estacionamento, subindo as escadas e conversando animadamente. Pandora se encantou com a arquitetura do lugar e mais ainda pela quantidade de livros dispostos no interior da biblioteca, animado, Ikki dizia que aquilo não era nada diante do que a esperava no andar inferior, desceram as escadaria e com orgulho Ikki lhe mostrava as raridades colecionadas por Aioros. Começaram a se atracar entre as estantes e só pararam depois de uma intensa e deliciosa troca de vitae. Deitada ao lado dele no chão, Pandora notou um cofre mais ao fundo.

- Existem livros naquele cofre também? – Ela perguntou em meio à empolgação que ambos partilhavam.

- Sim, mas são livros perigosos. Bem... Nem eu tenho acesso a eles.

- Então são... Infernalistas?

- Diz Aioros que são. Só ele tem acesso ao conteúdo do cofre e a julgar que Aioros nunca negou nenhum conhecimento a ninguém, imagino que são realmente perigosos.

- Então que eles permaneçam lá. – Ela finalizou dando-lhe mais um longo e demorado beijo.

-o-

- Máscara da Morte. Me diga onde ele está! – Perguntou ameaçadoramente ao homem que erguia pelo colarinho.

- No píer. Ele... Está lá. – Sussurrou com dificuldade. Aioria o soltou caminhando em direção ao píer. Encontrou Máscara da Morte fumando um cigarro sentado no píer.

- Aioria... A que devo essa visita surpresa? – Só faltava essa, Aioria suspeitar de algo. Mas ele não tinha nenhuma prova, Máscara da Morte fora muito cuidadoso, inclusive matando os atiradores depois que realizaram o serviço que ele assistiu de camarote.

- Máscara da Morte. – Falou fechando as mãos com força.

- Alguma coisa deu errado para você estar tão mal-humorado? – Por dentro Máscara da Morte estava se segurando para não gargalhar na cara do outro Brujah.

- Não me diga que não está sabendo! – Aioria falou entre os dentes, se controlando para não voar no outro e quebrar seu pescoço.

- Sabendo o quê? – Fez-se de total desentendido. Como era bom ver Aioria sofrer!

- Mas que tipo de bandido subversivo você é? Um chefão do crime que não sabe de nada? – Aioria sabia que iria perder a paciência.

- O que eu deveria saber, Aioria? – Apagou o cigarro com a sola do sapato.

- Que meu irmão abraçou uma pessoa sem o conhecimento do Saga. – Aioria esforçou-se para dizer.

- Isso é grave, Aioria! Não me diga que você veio aqui me pedir armas para matar o Saga? – Agora ele quase não escondia sua felicidade.

- Não, não é o Saga que eu vou matar, é você, Máscara da Morte! – Aioria correu pra cima do outro usando sua velocidade sobrenatural, agarrou-o pelo pescoço, pegando-o de surpresa. - Não tenho como provar, Máscara da Morte. Não tenho como provar que você armou para cima de mim e acabou atingindo as duas pessoas que eu mais amo neste mundo. Mas fique esperto que uma hora dessas você vai cometer um erro, e quando cometer eu estarei a sua espera, vou te mandar pro inferno, mas antes vou fazer você sofrer como nunca imaginou ser possível, entendeu?

- Me ameaçando, Aioria? Posso exigir uma punição a você por entrar no meu território, me agredir e acusar sem prova alguma!

- Faça isso e assine seu atestado de óbito! Você é o tipo de cara que ninguém, absolutamente ninguém vai sentir falta!

Aioria o soltou, deixando Máscara da Morte atordoado no chão. Essa foi por muito, muito pouco. Intimamente riu da desgraça do outro. Enquanto Aioria se afastava visivelmente irritado, ele sorria, olhou no relógio, tinha um encontro com Pandora.

-o-

- Boas notícias, meu senhor.

- Fale logo.

- Os livros que o senhor procura estão na Biblioteca dos Brujah. Aioros o guardião, será condenado à morte pela Camarilla nas próximas noites, sem ele no caminho, tudo será bem mais fácil. Estudei a segurança do local, podemos entrar com facilidade no subsolo. Ninguém espera por esse ataque, senhor.

- Excelente. Aguarde instruções para a execução do furto.

- Sim, meu senhor.

Pandora desligou o celular, feliz da vida. Finalmente! Conseguira encontrar o local e para sua sorte, sem Aioros no caminho seria muito fácil roubar os livros dos Brujah. Mal acreditou quando viu a aura negra ao redor do cofre. Perfeito!

Uma batida na porta. Droga, por que ele nunca era anunciado na recepção? Abriu a porta com descaso.

- Você de novo?

- Sentiu minha falta?

- Nem um pouco.

- Ótimo, por que também não senti falta de você, apenas do seu corpo. – E ele a agarrou com força pela cintura. – Encontrou-se com meu filho de novo? – Falou cheirando o pescoço dela. – Estou vendo que gosta da minha família.

- Isso não é da sua conta, Máscara da Morte.

-o-

Saga repassava pela milésima vez o plano de defesa da cidade. As informações que Kannon lhe passara sobre a área que o Sabbat estava demarcando mostrara uma pequena falha na área de influência da Camarilla. Repassou mentalmente tudo o que era relacionado àquela região de seu domínio. Havia chance de recuperação, tentaria a todo custo evitar um confronto armado, mas seria praticamente impossível isso não acontecer.

Droga! Precisava ir até o Masquerade, mostrar aos seus súditos que tudo estava sobre controle. Ligou para o irmão pedindo que o encontrasse no Masquerade: aparências. Sempre aparências.

Kannon por sua vez estava entretido com seus próprios negócios. Desde a noite do atentado ele só tinha olhos para o seu trabalho, procurava ocupar sua mente ao máximo para não cair no erro de pensar em Gabrielle. Por outro lado sabia que Saga se virava muito bem sozinho no controle da cidade, e ele jurara deixá-lo em paz, bem, tudo parecia correr bem neste sentido. Agora era a hora de entregar as cartas para Verônica, Saga que se entendesse com ela.

Kannon chegou primeiro ao Masquerade, dando uma longa volta pela Elite e cumprimentando vários vampiros que intensamente comentavam a crise que a cidade vivia. Não, eles não podiam mudar sua rotina por causa do iminente ataque. Claro que a notícia referente ao julgamento de Aioros também fora altamente comentada, todos davam o apoio e demonstravam admiração pela ação tomada por seu irmão. Saga podia ser um Príncipe distante, mas era altamente admirado.

Depois de fazer sua ação social da noite, Kannon finalmente conseguiu “respirar” na área vip. Mal havia se sentado, sentiu o familiar perfume de Verônica no ambiente, mas pela primeira vez em séculos, não surtiu o efeito inebriante das outras centenas de vezes que o sentira. Abriu um grande sorriso para a Lasombra, sim, ela era muito bonita e atraente. Mas naquele momento para ele, ela realmente era apenas uma mulher bonita.

- Você está diferente, Kannon. – Ela sussurrou, enquanto abria uma garrafa de vinho. Kannon sempre a olhava como se fosse devorá-la a qualquer segundo, mas naquela noite, ele estava apático em relação a seu charme?

- Certamente, minha querida. Os problemas são grandes. – Caramba, Verônica era realmente muito observadora.

- Você não está “diferente” por causa dos problemas. Já passamos por coisas piores e você sempre me olhou como um pedaço de carne pronto a ser devorado. Aconteceu algo que eu deva saber? – Serviu-lhe uma taça de vinho e sentou-se a sua frente, cruzando as pernas, sem pressa, e ele nem ao menos deu aquele sorriso safado que sempre vinha a seus lábios quando ela executava esse movimento que ele tanto apreciava. Havia sim, algo muito errado com ele.

- Eu desisti de você. É isso que aconteceu. – Melhor falar logo de uma vez, antes que sentisse vontade de voltar atrás em suas resoluções.

- Como assim? – Ela ia perder um dos gêmeos? E se Saga desistisse dela também? Ah, ela não suportaria isso.

- Desisti, Verônica. – Pronunciou com alívio, lembrando-se de uma jovem loira de cabelos curtos.

- Mas... Por quê? Que tipo de brincadeira é essa, Kannon? – Falou com ar preocupado.

- Por quê? Você realmente precisa de um porquê? Fique tranqüila, só estou facilitando as coisas para você e meu irmão. – E querendo fazer algo por mim, também. Pensou ao lembrar-se com carinho da irritação que provocava em Gabrielle e como era lindo o jeito com a qual ela demonstrava não gostar das provocações dele.

- Entendi, Kannon. Esse é um novo estratagema seu para que eu ceda aos seus encantos. Você quase me enganou, sabia? – Ela sussurrou, pensando se tratar de um novo ardil, chegaram a um ponto que não havia mais o que inventar, o jogo entre ela e os gêmeos alcançara níveis épicos de tensão após as últimas cartadas de Verônica.

- Não é uma brincadeira, minha doce Verônica. Vamos ser honestos um com o outro ao menos uma vez: você ama meu irmão, meu irmão te ama, eu amo meu irmão, mas não te amo. Te desejo, ou melhor, desejava, bem talvez ainda deseje, admito. Por amar meu irmão, eu fiquei no meio de campo, impedindo vocês de ficarem juntos, mas essa brincadeira perdeu a graça. Por isso, seja feliz com meu irmão.

- Kannon... O que deu em você? Mudou assim... Da água para o vinho? – Verônica mal podia acreditar no que estava ouvindo. Foram séculos e séculos naquele jogo de sedução e dominação e agora Kannon simplesmente estava jogando-a nos braços de Saga?

- Quando você passou o dia na biblioteca com Aioros, Saga quase morreu, ficou alguns minutos exposto a luz do sol, Verônica. Foi por muito pouco que não perdi meu irmão. Ele nunca tinha feito uma loucura dessas.

- Eu não queria... – Aquela descoberta foi como um tapa no rosto de Verônica. Esperava causar ciúmes em Saga, contudo em hipótese alguma pensou que ele poderia se machucar ou, ainda pior, dar um fim à própria existência por causa dela.

- Bem, você não queria, mas Saga quase se matou depois que você ficou com Aioros na frente de todo mundo na Elite. Saga é forte, mas não é de ferro, ele está em vias de ter um colapso nervoso por sua causa. Então se formos analisar friamente a situação, você venceu o jogo. Parabéns. Ah sim, ele não vai admitir isso, por isso fique com ele. Deixe-o ter a ilusão de que ganhou a disputa, no final vocês dois serão vencedores, afinal de contas, eu deixei o jogo. Foi muito bom enquanto durou, mas não quero que meu irmão tente se matar de novo, por sua causa.

Desconfiada, ela estudava a aura de Kannon, sim, estava diferente. Ele não estava mentindo, nem aumentando nada, nem brincando como normalmente fazia, porém ainda assim, estava omitindo alguma coisa. – Existe alguma coisa que você ainda não me falou Kannon...

- Bem, digamos que eu tenho uma pessoa em vista. E agora entendo o sofrimento do meu irmão por sua causa.

Verônica colocou as mãos no rosto escondendo as lágrimas que teimavam em cair: com a saída de Kannon do jogo, ela não teria mais nada entre ela e Saga, tudo parecia conspirar para que os dois ficassem juntos, depois de tantos séculos. “Você tem tudo o que quer menos o Saga, ao menos por enquanto.” As palavras de Aioros ecoavam em sua mente. E agora Kannon simplesmente desistia de se colocar entre ela e Saga? Sim, ela deveria ter previsto isso, só quando Kannon aprendesse a amar alguém além do próprio irmão compreenderia que o amor é uma escolha que não se faz, se vive, se sente. Kannon sentiu um nó na garganta, sim, ele estava fazendo a coisa certa e estava se sentindo estranhamente bem.

- Obrigada... Kannon. Nunca imaginei que essa noite pudesse chegar.

- Agora tudo depende de você e dele, Verônica. Meu irmão chega daqui a pouco, vou me retirar para que vocês possam conversar a vontade. – Ele se ajoelhou à frente dela. – Você sabe que meu irmão nunca poderá assumir publicamente um relacionamento contigo, mas acredito que isso não será um problema para vocês, não é mesmo? Não aceite que Saga queria cometer um suicídio político, Verônica. Sabemos muito bem que meu irmão ama o poder tanto quanto te ama.

- Eu sei, Kannon. Ficarei sempre nas sombras que é o meu lugar. Agora preciso saber quem é essa pessoa que finalmente colocou algum juízo em sua cabeça, ou melhor... Amor em seu coração.

- Estava demorando para me perguntar isso, hein? – Ele não escondeu o brilho nos olhos. – Ela é incrível. Muito jovem, quase humana e Ventrue.

- Não acredito! – Verônica arregalou os olhos. – A Condessa?

- Ela mesma. – Falou em tom apaixonado. – Saga está chegando. – Falou assim que avistou o irmão entrar na área da Elite. - Vou sair pelos fundos, boa sorte, Verônica.

Saga entrara na movimentada Elite, cumprimentando com a cabeça os vampiros que lá estavam. Sua presença não passava despercebida, seu passo firme era seguido por olhares curiosos tanto de vampiros quanto de mortais que se encontravam na área mais rica e exclusiva do Clube Masquerade.

Era desse tipo de segurança que seus súditos precisavam e ele lhes dava, do alto de sua imponência e elegância felina, arriscou até mesmo um ou outro sorriso a alguns membros de maior status no ambiente, mas não parou para falar com nenhum deles como era seu costume. Saga fazia questão de manter distância e alimentar a mística imagem do Príncipe inatingível, inalcançável. Talvez devesse realizar um discurso, mas não naquela hora, no julgamento de Aioros seria imprescindível falar para a plebe.

Finalmente alcançara a área vip. Verônica estava sentada em um dos sofás, o coração de Saga se apertou ao vê-la. Desnecessário dizer o quanto ela estava linda, porém era impressão dele ou ao contrário do que esperava, ela estava... Radiante?

- Boa noite, Verônica, está muito elegante com esse vestido. Kannon não apareceu?

- Acabou de sair daqui. – Respondeu, encarando-o.

- Mas eu combinei de encontrá-lo aqui. – Saga sentou-se ao lado dela.

- Ele foi embora. – Ela sorriu, estudando aquele rosto tão querido, tão desejado. Mesmo que Saga e Kannon fossem fisicamente iguais, existiam sutis diferenças entre os dois, principalmente o olhar. Enquanto Kannon possuía um olhar intensamente desconcertante, o olhar de Saga era altivo, mas sereno, inspirava confiança e justiça. E quando a olhava, quando estavam sozinhos, era amoroso e dirigido a ela como uma súplica silenciosa por retribuição. E naqueles momentos ela retribuía, amando-o com seus olhos.

- O que aconteceu aqui? – Ele perguntou desconfiado.

Nenhuma resposta, Verônica apenas retribuía seu olhar com intensidade, levantou-se, de costas para ele observou o movimento na pista de dança logo abaixo. – Sabe o quanto te amo, não sabe, Saga?

Ele se levantou, preocupado. Verônica não era dada a declarações de amor. – Verônica, perguntei se aconteceu alguma coisa aqui. – Será que... Não, impossível.

- Estamos esperando esse ataque de Hades há muito tempo, não é mesmo?

- Não se preocupe com isso, tenho tudo sob controle. – Ele se aproximou tocando o ombro dela com carinho.

- Não é com isso que estou preocupada, Saga. É conosco que estou preocupada. Kannon me disse que você quase se matou, por minha causa. Se algo tivesse te acontecido eu nunca me perdoaria, nunca!

- Kannon e sua língua comprida. – Murmurou com leve tom de rancor. – Você sabe que Kannon costuma exagerar nas coisas...

- Dessa vez ele não estava mentindo. O conheço tão bem quanto você conhece. Alguma coisa mudou em Kannon e você sabe disso. Preciso falar mais alguma coisa, Saga? – Ela se virou para ele, próximos, perigosamente próximos.

- Verônica... Não... Kannon, ele...

- Sim, Saga. Kannon finalmente saiu do nosso caminho. – Ela abriu os braços num gesto desesperado. – Podemos parar com essa brincadeira agora? – Ela o abraçou fortemente, surpreso com o gesto inesperado de Verônica, retribuiu o abraço, ainda sem acreditar que tudo aquilo era real, seu corpo tremia. Surpreso com Kannon, com Verônica e com sua própria reação.

- Não existe nada que eu deseje mais neste mundo do que você, Verônica. – Sussurrou segurando o rosto dela com carinho, como controlar aquela surpresa? Seus rostos iniciaram uma lenta aproximação até pararem suas bocas milímetros uma da outra. Confusos, permaneceram naquela posição por algum tempo, uma distância mínima a ser vencida, nunca ultrapassaram esse ponto em séculos vivendo um intenso jogo de dominação e sedução.

- Sem jogos, apenas nós dois. – Ela sussurrou.

- Nunca passamos desse ponto. – Saga murmurou, sentindo o hálito doce dela tocando-o, sabia o que deveria fazer, mas não sabia como fazer. Saga reuniu coragem para vencer a distância mínima entre suas bocas, por quanto tempo ele esperou por aquilo? Desde Lisboa, há mais de quinhentos anos? Quantas coisas viveram desde então? Como podiam viver tão próximos um do outro, mas tão distantes?

Uma série de perguntas ecoava em sua mente, enquanto Verônica tomava a iniciativa de acabar com aquele tormento, o beijo que se seguiu foi intenso e doce. Forte e gentil ao mesmo tempo, um paradoxo que espalhou calor por todo o corpo deles, fazendo-os se sentirem como dois mortais, dois seres vivos. Corpos mortos aquecidos pela intensidade de um sentimento conhecido por poucos: o verdadeiro amor. Amor capaz de transpor a barreira que os separavam, um amor que lutou para se manter entre eles durante cinco séculos, sem nunca perder a força.

Dois vampiros extremamente dominadores, apaixonados pelo poder, mas que se amavam acima de todas as diferenças. Não havia palavras para descrever a realização de ambos, deviam admitir que escolheram o caminho mais longo e difícil, mas agora, finalmente estavam realizados. Ao término do beijo, Saga limitou-se a abraçá-la, não contendo sua felicidade, não conseguia falar, aliás, naquele momento qualquer palavra era desnecessária.

Em seus mais de dois mil e quinhentos anos de vida, sempre vivera para proteger a humanidade, lutara em guerras ao redor do mundo, sempre buscando o objetivo maior de sua senhora, uma Ventrue cujo poder se igualava aos antediluvianos. Mas ela pereceu em combate, no entanto, sua alma poderosa fora capaz até mesmo de controlar o corpo da Brujah conhecida como Atena que tentara eliminá-la ao realizar uma diablerie.

Saga tinha que admitir, seu fardo era realmente pesado, mas nunca retrocedeu por mais dor que sua missão de governar e dirigir tanto vampiros quanto humanos exigisse que ele sacrificasse todo e qualquer desejo pessoal, desde que Atena dormira há mais de setecentos anos, acordando apenas uma vez neste período, ele se permitiu sentir algo humano: amor. E sentiria, quase dois séculos depois.

Paralelo a isso, nutria aquele imenso sentimento de culpa por seu irmão ter se tornando sua sombra, vivendo sempre às escondidas, dado que gêmeos não eram vistos com bons olhos pelos deuses gregos, principalmente em Esparta, sua cidade natal, berço dos cavaleiros Ventrue. Saga fora escolhido por Lady Kido para ter uma vida, enquanto Kannon viveu sempre nas sombras, sempre se escondendo e precisando se virar como podia para se manter vivo.

Somente na idade Média isso começou a mudar: gêmeos já não era alguma coisa “tão” maligna, Atena estava em sono profundo e Saga cuidava dela para que não precisasse acordar tão cedo. Para dizer a verdade, ele esperava que ela não acordasse nunca, caso contrário, ela o condenaria por ter abraçado seu gêmeo e Kannon novamente precisaria se tornar uma sombra, assim como o fizera por séculos. E agora Kannon tinha finalmente uma vida própria e Saga também.

VOLTAR