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Motel na auto-estrada, Chicago. Kannon chutou a porta do quarto barato carregando Gabrielle nos braços. Nem se deu ao trabalho de ligar a luz, seus poderes lhe permitiam se mover muito bem no escuro. Colocou-a cuidadosamente sobre a cama e tratou de ajeitar a fratura exposta da perna esquerda da Ventrue desacordada. Por um lado era bom ela estar desacordada, afinal de contas a dor deveria ter chego a níveis insuportáveis, levando-a ao estado de torpor. Precisava dar de sua própria vitae para ela, e precisava fazê-lo rápido se não sucumbiria. Nervoso, ergueu a cabeça de Gabrielle e abriu sua boca, ele tremia, estava realmente preocupado. A "vida" dela dependia daquele gesto e ele tinha plena consciência disso. – Juro que se ela não morrer eu vou ser diferente. Diabos! Por que estou pensando isso? – Com a fina adaga, que retirara dos restos do vestido dela, rasgou sua própria mão, fechou-a para que o sangue fluísse e gotas de seu sangue começaram a cair na boca da vampira. Kannon fez mais força e um fino filete de sangue desceu. Ele contava os segundos e rezava para um Deus que nem era mais cultuado, mas como bom grego nunca tinha esquecido. Kannon sentiu um leve tremor no corpo de Gabrielle. Finalmente! Estava dando certo! Rezou com uma fé que ele julgava ter perdido, deveria oferecer algo ao seu Deus pela vida dela, não? Sim, ele iria se redimir. Não seria mais egoísta. Deixaria seu irmão viver em paz. Daria um jeito de viver sua própria vida e nesta vida que imaginava para si, incluiu Gabrielle em seus planos. Afinal de contas, tudo isso era culpa dela! Ele estaria feliz em sua vida fútil se ela não tivesse aparecido em Chicago, não é verdade? Mas não era realmente uma vida fútil? Era sim. E ela lhe mostrara isso de uma forma e com sentimentos que ele ainda não havia entendido e sequer julgava possuir. Ele encostou a cabeça de Gabrielle no travesseiro. Tão logo executou esse gesto, percebeu que ela abrira levemente os olhos. Em breve sua consciência voltaria, esperava ansioso por esse retorno. Os ferimentos mais leves começaram a se fechar. Seu sangue finalmente surtira efeito na cura daquelas marcas e hematomas causados pela explosão. E a julgar pela potência de seu sangue... Somente a fratura na perna demoraria algumas noites para ser regenerado, mas ela conseguiria andar, o ideal seria permanecer em repouso, mas ele achava realmente difícil convencê-la a ficar imóvel. Entretanto, era inevitável que ela ficasse vulnerável devido à concentração que a cura sobrenatural exigiria. Kannon não pensava em deixá-la até que estivesse completamente restabelecida. – Droga. Ela é noiva de Kamus. Assim que ele souber o que aconteceu... – As coisas não seriam como ele pensava. – A não ser que eu... Bom, eu posso mentir e dizer que estamos no meio do território Sabbat. De fato, estamos em território Sabbat. Um gemido. E ela movimentou a cabeça. Kannon afastou a mão cortada, concentrou-se e facilmente fechou o ferimento que abrira propositalmente. Ligou um encardido abajur. Ela estava com os olhos abertos, mas parecia não entender nada do que estava acontecendo. Esse tipo de confusão era relativamente normal, dado a extensão dos danos que sofrera. - Fomos atacados pelo Sabbat. Você se feriu muito, entrou em torpor. Acordei-a com minha vitae. – Ela tentou falar, mas as palavras não lhe vinham. Fechou os olhos tentando entender as palavras daquele belo homem que ela achava já conhecer de algum lugar. O que ele falara mesmo? Sim, um ataque de um tal de Sabbat. Viu o homem se levantar e rasgar uma toalha, entrou num banheiro e um barulho de água corrente se fez ouvir. Lugar estranho. Seu corpo parecia ter sido atravessado por mil agulhas. Mas, ao mesmo tempo em que sentia dor, a vitae quente dava-lhe conforto. Ele se aproximou dela com um pedaço de toalha molhada e começou a limpar seu rosto. - Não se mexa, sei que é vaidosa e não gostaria de ser vista assim. Mas pode ficar despreocupada não vou contar a ninguém. – Ele sorriu. Quem era aquele homem? Mas antes de se perguntar quem era ele, se deu conta de que não sabia quem era ela. Qual era o seu próprio nome mesmo? Forçou a memória. Ah, sim. Ela se chamava Gabrielle Matarazzo. Era filha de um Conde. Mas o Conde havia morrido há muito tempo. Uma onda de tristeza a percorreu ao se lembrar do velório do pai. Ela realmente o amava, por que ele havia morrido mesmo? Um frio percorreu sua espinha. Kannon notou que ela tremia. - Você está sentindo muita dor, não? Vou preparar um banho pra você se sentir melhor, tudo bem? – Ele se afastou novamente. O Conde morrera de desgosto por tê-la entregue a um vampiro para ser abraçada. Ele havia prometido sua filha mais amada ao vampiro em troca de prosperidade e fortuna para sua família. Mas quando chegara o momento de cumprir o trato ele não suportara a dor e morrera. Gabrielle crescera sabendo que um dia alguém viria buscá-la, pensava se tratar de um casamento. Afinal de contas, em sua época todas as mulheres queriam mesmo era um bom casamento. Mas ele não viera durante o dia. Viera durante a noite e não fora nem um pouco gentil. A levara para sua mansão e a violentara sem dó nem piedade por várias e várias noites. Ela se lembrava de ficar acorrentada numa masmorra sem nenhum tipo de luz, chorara tanto que depois das primeiras noites não tinha mais lágrimas para verter. Um grande vazio veio a sua mente e finalmente se lembrou de como se tornara uma vampira. Fora jogada no centro de uma arena. Vários homens encapuzados se aproximaram dizendo coisas que ela não compreendia e portavam adagas afiadas. Eles começaram a esfaqueá-la. Ela gritava por socorro, mas em vão. Estranho, mas a dor que sentira naquela noite era quase a mesma que sentia agora. Só não era igual por que se sentia segura na presença daquele homem tão bonito. Outro vazio e mais uma lembrança. Sentia um medo descomunal daquele homem que a tornara uma vampira. O medo a obrigava a agradá-lo e satisfazer todos os seus caprichos. E ele era muito caprichoso, cruel, um verdadeiro sádico. Fazia tudo o que ele desejava sem questionar. Apenas uma vez ousou questionar e apanhara tanto, mas tanto, que encontrou no silêncio seu maior companheiro. Por anos a fio, suas únicas palavras pronunciadas foram "sim senhor". O vampiro que a abraçara era um Ventrue, mas um bruxo. Estudava todo tipo de magia, inclusive as proibidas. Ela sempre observava o que ele fazia em silencio absoluto e vez ou outra servia como ajudante na execução de terríveis rituais. Prestava atenção a todos os detalhes e quando ele a deixava sozinha, tentava executar os mesmos feitiços. Noites que se transformaram em semanas, meses e anos. Muitos anos se passaram e ela aprendeu. Uma noite sentiu-se forte e o enfrentou. Outro vazio ocupou sua mente. Agora sim, as memórias eram claras. Acordara mais de quarenta anos depois daquilo, ou melhor, fora acordada e levada para a casa de um outro Ventrue. Na época seu senhor era o único vampiro que ela conhecia. Disseram a ela que julgavam que aquela linhagem estivesse desaparecida. Ela não ousou perguntar de seu senhor. Não tinha coragem. Só de pensar nele sentia um medo incontrolável. Foi então que ela tomou a maior decisão de sua vida: nunca mais, nunca mais ninguém diria a ela o que fazer, ou o que deveria ser. E ela nunca seria um monstro como seu senhor, nunca! Começou sua nova vida, do nada. Queria esquecer tudo o que havia vivido ao lado daquele monstro. Ninguém mais a controlaria, e sim ela que ditaria o destino das pessoas. Usou e abusou de sua beleza para crescer e firmar uma posição de respeito, tornara-se senhora de sua própria existência. Conquistou posições que a colocaram em um lugar privilegiado entre os neófitos Ventrue. Depois de viver tantos anos na escuridão, ela sentia que realmente era capaz de enfrentar qualquer problema e resolvê-lo. Nem os mais velhos vampiros a assustavam, afinal de contas, ninguém poderia ser pior do que seu senhor. Ela era a Condessa e com orgulho carregava o sobrenome de sua família mortal, os Matarazzo. Finalmente conseguiu se lembrar quem era aquele homem tão bonito que saíra do banheiro: era Kannon, o seneschal de Chicago. As memórias recentes finalmente voltavam. A explosão da limusine a teria matado se ele não estivesse lá. Ela fez uma careta. Segundo as Tradições da Camarilla, ela devia um favor de vida a Kannon. E teria que pagar ou viver sob essa dívida até que ele a considerasse paga. Ela realmente estava enrascada. Bom, desde que chegara a Chicago só se metera em problemas e esse definitivamente era um dos grandes, sem dúvida o maior de todos que poderia arrumar dentro da Camarilla. Como harpia que era, sabia que absolutamente tudo o que construíra poderia ruir, se ela não pagasse aquele favor. E agora ele estava sorrindo pra ela, certamente de sua desgraça. Como ela queria odiá-lo! Kannon observou Gabrielle fazer uma careta. Não resistiu e sorriu. Mesmo ensangüentada e maltrapilha, ela ainda mantinha a pose teimosa. – Lamento por nossas acomodações, mas seu banho está pronto, Condessa. – Ele fez um gesto indicando-lhe o banheiro. – Não espere muito da banheira, mas creio que servira para dar-lhe algum conforto. – Falou em tom de brincadeira como se fosse um servo. Havia senso de humor por baixo daquele cínico? Certamente Kannon se mostrava tão bem humorado em saber que um favor de vida era algo que ela realmente não lhe negaria. Ela tentou pronunciar alguma coisa, mas estava fraca demais e as palavras não saíram. - Como não consegue andar, posso carregá-la até lá, minha doce criança. – Kannon se aproximou e a pegou, ela queria resistir, mas tinha pouca força. – Não se preocupe, não vou atacar uma dama indefesa, Condessa. – Ele falou em tom sério. – Cansada ela se largou nos braços dele. Era realmente bom estar ali. Ficou surpresa com seu pensamento. – Não, eu realmente não sinto nada por ele, apenas gratidão e também... Estou cansada... Ele é detestável... Kannon sentiu que a Condessa finalmente relaxara em seus braços. Ah, como queria que ela ficasse ali! Aquela mulher tão forte se entregando daquele jeito dera-lhe um aperto no peito, e, se vivo fosse, teria sentido um friozinho no estomago. Ele realmente não tinha como negar, estava realmente se apaixonando por ela, melhor dizendo, estava reconhecendo que aquela neófita que o desafiara desde o primeiro olhar estava mexendo com ele. Apaixonado? Não, ele não! Qualquer um no mundo, menos Kannon, admitiria ter sido tocado por aquilo que ele tanto desprezava e considerava como uma fraqueza! Mas se era realmente uma fraqueza, por que ele se sentira tão forte e impelido a protegê-la? Tudo muito novo e definitivamente diferente para o velho Ventrue. Pena que o trajeto até a banheira era muito curto. Delicadamente a colocou em uma cadeira puída. Foi neste momento que tudo realmente parou: seus olhares se encontraram. Estudaram-se, procurando ver a alma que existia por trás daquelas íris, ela encarando os olhos azuis dele e ele por sua vez vendo-se refletido nos olhos verdes dela. Mas como seres orgulhosos que eram logo voltaram ao seu "normal" e disfarçaram (muito mal, diga-se de passagem) o quanto aqueles breves segundos os haviam tocado. – Precisa de ajuda para se despir, Condessa? – Kannon falou quebrando o momento. Sentiu que se tivesse encarado aquele olhar mais um pouco, iria mandar Kamus para o inferno e seqüestrá-la. Sem contar que aquela sensação "esquisita" (leia-se amor, mas Kannon não admitiria que se usasse essa expressão) parecia mais forte agora. Gabrielle fez um gesto negativo com a cabeça. O que diabos estava acontecendo? Por que ela se sentira afogando naqueles profundos olhos azuis? Era uma sensação muito boa, mas... Não podia esquecer que ele era Kannon. O irmão do Príncipe. O Seneschal. Um safado conquistador de primeira linha. Certamente era mais uma técnica que ele estava usando e essa ela não conhecia, tanto que... Sentiu-se balançar por ele. Ainda não conseguia falar, mas seus pensamentos estavam a mil por hora. Viu Kannon fechar a porta e deixá-la sozinha naquele minúsculo banheiro. Definitivamente a banheira não poderia ser lá grandes coisas, mas naquele momento... Era tudo o que ela precisava. Do outro lado da porta, Kannon contava mentalmente até mil, em grego, óbvio. Talvez devesse fazê-lo em latim e hebraico. Ou ainda francês. - Não. Francês, não! Droga. Kamus. – Ele não podia esquecer do mundo lá fora? Não, infelizmente não. Logo Kamus daria por falta de Gabrielle. Sem contar que Kannon precisava dar aquela informação estratégica do ataque Sabbat ao Saga, afinal de contas, o inimigo chegara à cidade e eles nem se deram conta. Era preciso decretar quarentena naquele pedaço do território. E se isso fosse feito... Kannon sorriu. Ele e Gabrielle realmente não poderiam sair de lá tão cedo. Pegou o telefone fixo e discou a cobrar para o celular de Saga. -o- Trigésimo Oitavo andar, prédio comercial no Centro de Chicago. A reunião avançara noite adentro. Parecia que finalmente os Primogênitos davam o braço a torcer diante da estratégia apresentada por Saga, afinal de contas, sua experiência em combates era algo notório. Até mesmo Aioria concordara na maioria dos pontos, só questionava mesmo para ter o prazer de irritar Saga. E isso não passava desapercebido pelos demais que em outras circunstâncias estariam se divertido com as pequenas alfinetadas que o Brujah e o Ventrue se davam. Na sala ao lado, Saga ouvira seu telefone celular tocar. Algum servo atendera e desligara. Podia ser Kannon. Mentalmente Saga ordenou ao servo mais próximo que trouxesse seu celular. O rapaz saiu discretamente da sala e trouxe o aparelho. Enquanto falava algo para os primogênitos, verificou de onde vinha a ligação. Um telefone fixo. Pelo prefixo era de uma cidade continua a Chicago. Sim, sua memória era boa o suficiente para saber de detalhes tão ínfimos, mas nada que fosse referente ao seu Domínio, à sua cidade, era ínfimo. Discou o número e prontamente foi atendido. Reconheceu a voz do irmão e apenas ouviu o que Kannon tinha a dizer. Tinha muitas coisas em mente, mas a medida que Kannon falava usando o idioma grego arcaico, ele acabou por deixar de lado qualquer pensamento secundário. Sua feição se fechou e com ódio socou a mesa sob os olhares espantados dos Primogênitos. Sem dizer uma palavra ao irmão desligou o aparelho. - Pois bem, senhores. Não temos tempo a perder. O Sabbat já entrou em nosso território. Kannon acaba de me reportar isso. – Os demais que obviamente prestaram muita atenção ao Príncipe e não entenderam patavina do que fora dito pela voz de Kannon, com exceção de Aioria, não contiveram um leve burburinho. - Kamus, poderia ligar para a Condessa? – Saga completou não escondendo a ansiedade em seus olhos. Kamus apenas ergueu uma sobrancelha, surpreso diante da atitude atípica de Saga. Ele sacou o celular e ligou. Caixa postal. Tentou novamente. Caixa postal de novo. Ele não estava gostando daquilo. – Ela não atende. – Respondeu não tão desprovido de emoção. - Alguém sabia do seu compromisso na área oriental na periferia esta noite? – Saga perguntou com cautela. - Apenas meu secretário, que é de absoluta confiança. E óbvio, os investidores chineses. – Ele respondeu apreensivo. - Já temos um ponto de partida para atacar o Sabbat, senhores. Kamus, não sei se chamaria isso de sorte, mas... – Saga escolheu as palavras. – Foi armada uma emboscada para você, por sorte Kannon estava seguindo uma pista que recebeu sobre um bando Sabbat e, bem, conseguiu salvar sua noiva da morte certa. Kamus gelou. – Como assim, emboscada? Para ele? E Gabrielle? – Se levantou procurando não demonstrar suas reais preocupações. - Idiota! Em meio a um ataque iminente eu a mandei a um jantar de negócios numa área que não era conhecida por sua segurança. Devia ter previsto isso! Pensou – E Gabrielle? – Finalmente conseguira falar. – Ela está realmente bem? – Nesta altura da conversa ele já não estava tão preocupado em se mostrar apático. E óbvio que todos perceberam o quanto aquilo havia balançado o sempre frio Primogênito do Clã dos Reis. - Ela conseguiu sobreviver à explosão. Segundo Kannon, enquanto ela estava no jantar, foi implantada uma bomba na limusine. Houve uma explosão, e depois um ataque feito por oito vampiros do Sabbat. Houve combate e eles conseguiram fugir, mas devido aos feridos da Condessa não conseguiram deixar o território já demarcado pelo inimigo. – O tom de Saga era um tanto quanto sombrio. - Eu vou para lá, Saga. – Kamus falou já caminhando para a porta. - Kamus, você não dá mais um passo. – Falou Shaka. – Sabe que é suicídio enfrentar o inimigo desta maneira. Entendo sua preocupação, mas Kannon está com ela, nada mais pode acontecer e não vai acontecer, isso eu lhe garanto, pois vejo. Eles vão conseguir sair de lá, mas não esta noite. Kamus parou e olhou para Shaka, surpreso. Era raro o Malkaviano falar de suas visões. – Espero que não esteja se referindo as cinzas dos dois, Shaka. – Kamus falou em seu tradicional modo seco enquanto voltava para seu lugar. – De qualquer forma, precisamos tirar os dois de lá. – Falou demonstrando um leve tom de impaciência. - Vamos tirá-los de lá em segurança. – Foi a vez de Shura falar. – Minha família pode entrar despercebida no território, basta o Saga fornecer o número do telefone para identificarmos de onde a chamada foi realizada. Mas... Kannon não estava usando um carro, Saga? Eles podem ser descobertos pelo carro. - Kannon fez um mortal pegar o carro e dirigir pela auto-estrada na direção de Chicago. Em teoria o Sabbat sabe que eles estão fora do território. – Saga respondeu com certo alívio. - Por via das dúvidas temos que localizar o carro de Kannon e ter certeza de que não suspeitam que os dois ainda estejam lá. – Desta vez foi Afrodite que falou. Estava se segurando para não demonstrar a afeição que sentia por Gabrielle, querendo ou não, eles tiveram momentos muito agradáveis juntos, e ele quase se esquecera de seus planos, quase. - Podemos localizar o carro de Kannon, usando meus contatos na polícia. – Completou Shura. – Só preciso da cor, modelo e placa do carro e em alguns minutos saberemos o local e criaremos uma estratégia para resgatá-los com segurança. – Shura enfatizara a última palavra. Os Primogênitos se mostravam um tanto quanto impacientes e começaram a falar ao mesmo tempo sobre como deveria ser feito o resgate dos dois Ventrue. O celular de Saga tocou novamente. Olhou quem o chamava. Estranho. Não costumava receber chamadas do segurança que ficara encarregado de vigiar a Biblioteca Central. Já sabia que Verônica retornara ao Masquerade tão logo o sol se pôs. Nada mais lhe interessava ali, mesmo assim atendeu. Saga deixou-se cair sentado na cadeira mais próxima. Não, ele não podia acreditar no que estava ouvindo. Precisava tomar providências imediatas. E a primeira delas seria: estacar o irmão daquele que quebrou a Tradição da Máscara e da Progênie. Mas ele não podia estacar o irmão de Aioros. Ele tinha que estacar o próprio Aioros. Por que isso? Por que agora? Precisava pensar rápido. Agir rápido. Seu Principado estava vivendo um momento completamente atípico, mostrando-lhe que estava perdendo o controle de seu próprio território. Foi então que em meio a discussões inflamadas perceberam a expressão incrédula de Saga. Por mais difícil que fosse uma situação, ele nunca havia se mostrado perdido como estava naquele momento com o celular na mão. Ao se dar conta de que fora pego em um momento de fragilidade, ele se recompôs tão rapidamente que os presentes tiveram dúvidas sobre o que tinham visto, sua voz soou firme e potente, atingindo a todos com aquela espetacular aura de poder que ele carregava: - Houve um tiroteio na frente da Biblioteca Central. Uma mortal foi ferida e Aioros quebrou a Máscara e a Tradição da Progênie abraçando-a. – Ele olhou para Aioria. – É aquela mortal gerente do Porão que estava com os motoqueiros que vieram de Seatle. - Como? Não. Não pode ser verdade! – Aquilo era muito grave e Aioria se recusava a acreditar. - Saga, tem certeza disso? – Perguntou Afrodite com um ar preocupado. Como Aioros conseguira quebrar duas Tradições com apenas um gesto? Ele precisava se movimentar para abafar a quebra da Máscara. - Meu contato não arriscaria a vida para me falar lorotas, Afrodite. Ligue para os jornais e tente a todo o custo esconder esta notícia, faça o que for necessário, mas faça! – Ele falou alterando o tom de voz. - E o que nós faremos a respeito? – Perguntou Shaka que já sabia a resposta. - Faremos o que deve ser feito. Aioros deve ser julgado pela quebra das Tradições. – Falou Shura não escondendo o quanto aquilo o abalara. Querendo ou não, Aioros era alguém a quem ele admirava incondicionalmente. - Espero conseguir fazer isso, sem a intervenção de um Justicar na cidade! – Saga falou cruzando os braços, claramente nervoso. – Afrodite, você tem a Archon Tétis sob controle não tem? Afrodite limitou-se a concordar com um gesto de cabeça enquanto falava ao telefone. Estava pedindo um "favor" ao editor do jornal mais importante de Chicago. Tudo agora fazia sentido para Shaka. O heleno que morreria era Aioros. Observou Aioria. O Brujah parecia ainda em choque, mas em breve perderia o controle. Podia ver isso na tensão dos seus músculos. Todos ali sabiam aonde aquele julgamento mesmo sendo justo levaria Aioros e Marin: morte final. Mas a morte de Marin não fora vista por seu clã em nenhuma visão. Estariam os Malkavianos errados? De certa forma ela morrera, mas nascera novamente como uma vampira e seu destino... Era a morte por ter sido criada sem a permissão do Príncipe e ainda mais em um lugar público aquilo poderia ser visto por mortais! As Tradições eram soberanas e irrevogáveis, todos sabiam disso. Todos. Quebrar uma delas era o crime mais hediondo que um vampiro poderia cometer e isso realmente não podia ser ignorado, caso contrário seriam iguais aos seus inimigos, os membros do Sabbat. Intimamente Shaka se apiedou de Aioria. O destino estava sendo cruel com o ancião Brujah perder o irmão e a mortal por quem se apaixonara de uma só vez não era um destino agradável. Um milésimo de segundo antes de Aioria ser tomado pelo frenesi perdendo o controle de sua capacidade de raciocinar, Shaka se adiantou aplicando-lhe uma chave de braço, imobilizando-o. Quando os demais se deram conta do frenesi, Shaka já havia controlado a situação. Horrorizados, os Primogênitos e o Príncipe viam o estado em que Aioria se encontrava. Completamente tomado pela Besta, ele se debatia tentando se soltar da potente chave de braço que Shaka lhe aplicara. Era de se esperar que Aioria cedo ou tarde se soltaria, mas nenhum deles tinha disposição de enfrentar o leão enfurecido. Os segundo se arrastavam e Shaka parecia ter cada vez mais dificuldade em segurá-lo. – Façam alguma coisa! – Shaka gritou em meio aos urros ensandecidos de Aioria. Como se tivessem acordado, finalmente houve uma reação. Shura usando um dos poderes mais secretos dos Nosferatu começou a recitar alguma coisa. Ninguém ali estava entendendo nada do que ele dizia. O Nosferatu usava os poderes do Animalismo para acalmar a Besta de Aioria, poder esse que nenhum dos presentes possuía, era um dom raríssimo dominado pelos Nosferatu e a julgar pela eficiência Shura o possuía em níveis altíssimos. Gradativamente Aioria parou de se debater até que sua consciência retornou. Shaka o soltou e ele caiu de joelhos no chão, mudo ele encarava o chão tentando entender o que havia acontecido. Se fosse realmente aquilo, perderia seu irmão e a mulher que ele sabia, no fundo de seu coração, amar. - Vamos a Biblioteca. Temos que comprovar o que seu informante nos disse, Saga. – Sussurou Aioria com os olhos tomados por uma tristeza inominável. |
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