World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
CAPÍTULO IX - Aquilo que você esconde

Chicago, em alguma rua do centro da cidade, 22:45

Enquanto a limusine se dirigia rumo a Mansão Oresund, ela tirava suas vestes impróprias para a ocasião: calça e um top mínimo, ambos de couro envelhecido pelo uso. Seu corpo alvo recebeu então um longo vestido de gala negro como seus cabelos. Era trabalhado nos mínimos detalhes, o vestido revestido por pedrarias formavam desenhos geométricos brilhantes e hipnóticos.

Não, definitivamente ela não precisava de maquiagem. Sua determinação e força eram tão grandes quanto sua beleza inumana. E ela tinha um objetivo a cumprir em Chicago, e o faria, com a competência que lhe era peculiar.

A sua frente uma aparentemente entediada e belíssima loira, observava-a, divertindo-se com a informalidade da recém chegada Toreador. Ela não se cansava de estudar a perfeição daquela alma incontrolável à sua frente. Enquanto sorvia um gole de vinho, dedicou-se a ajeitar o seu longo vestido vermelho, depois o colar de diamantes que adornava seu pescoço.

Estavam chegando a seu destino e ansiavam por diversão. Diversão que somente as reuniões da Guilda Toreador eram capazes de proporcionar.

- Estamos chegando, querida Pandora. – Falou a loira com sua voz encantadora, magnética. Nenhum humano resistiria a sua voz, e até mesmo os vampiros paravam tudo o que estavam fazendo quando ela simplesmente falava, sem nenhum compromisso, apenas mostrar a divindade de suas cordas vocais: uma sereia. Bela e Mortal. Tétis. A mortal Archon do Justiçar Toreador. Dito e feito, a bela mulher de cabelos pretos dirigiu-lhe um olhar indecifrável e sorriu levemente.

- Já estou pronta, Tétis. – E ela abriu os braços num gesto como se perguntasse: "como estou"?

- Belíssima como sempre, querida. Afrodite ficará surpreso com sua elegância. Creio que ele não espera que você seja tão... Pandora. – Ela terminou sem saber como expressar o magnetismo de sua companheira.

-o-

Chicago, em alguma rua próxima da Universidade de Chicago, 22: 45

Dois homens de porte elegante e altivo dividiam um conversível em alta velocidade. O frio não os incomodava, afinal de contas, estavam mortos. Ninguém, absolutamente ninguém diria isso a respeito das beldades bem vestidas que ouviam uma das árias da ópera Der Ring des Nibelungen do compositor alemão Wilhelm Richard Wagner. Ouviam-na em um volume ensurdecedor.

O ruivo, amante da velocidade, dirigia usando sua destreza sobrenatural enquanto o outro se preocupava mais em prestar atenção aos ricos detalhes daquela obra prima da música clássica.

- Corre Mime! Vamos chegar atrasados e você sabe o quanto Afrodite odeia atrasos!

- Não precisa falar duas vezes, Sorento! – E ele pisou fundo no acelerador e cantou os pneus do carro enquanto ultrapassava mais um sinal vermelho. – Eu sei que você quer mesmo é ver Tétis! – Provocou.

- Ridículo! Eu não quero nada com ela, apenas nossos corpos se entendem muito bem, meu caro. Experimente, você vai gostar. – Riu sarcasticamente.

- Hummm... A proposta é interessante, mas você sabe... Eu prefiro alguém com mais conteúdo. – Provocou para ver a reação do companheiro de clã.

Sorento limitou-se a fuzilá-lo com seu olhar. Aumentou o volume do som para encerrar a conversa. Mais um sinal vermelho ultrapassado. Estavam a quase 200 km por hora em pleno centro de Chicago.

Mais do que nunca, precisavam agradar ao primogênito. Corriam boatos de que Afrodite procurava um sucessor na hierarquia do clã, já que... Segundo os boatos... Queria voltar pra a Suécia. E naquela noite... Ele nomearia seu Whip, seu braço direito.

O clã estava elétrico com isso. Um dos dois daquele carro deveria suceder Afrodite. Um deles. Estavam em Chicago a tempo suficiente para isso.

Finalmente chegaram a seu destino, a festa iria começar.

-o-

Chicago, Mansão Oresund, 23:00

O táxi deixou Milo bem em frente à homérica mansão de Afrodite. Pela primeira vez em muito tempo ele não se sentia intimidado em comparecer a uma reunião de seu clã. Quase foi atropelado por um conversível em alta velocidade ao percorrer o caminho entre o portão de entrada e a mansão.

Quanto mais se aproximava, mais ele percebia o quanto o primogênito era rico. Detalhes. Muitos detalhes no caminho fizeram de um percurso de alguns minutos se tornarem uma hora. Ele nem percebeu a quantidade de limusines e carros de luxo que o ultrapassaram. Milo apenas caminhava como se nada mais existisse.

Estava realmente encantado com os detalhes. Essa era a fraqueza de seu clã. Não resistir a beleza, a riqueza dos detalhes que foram um conjunto harmonioso, único. Era algo simplesmente incontrolável. Mergulhar nas sensações que as curvas esculpidas no piso em contraste com as folhagens que resistiam bravamente ao orvalho frio do outono fizeram-no navegar por lugares que sua consciência jamais sonharia estar, mas... Ele não havia saído do lugar.

Quando seu transe acabou, mirou o relógio de pulso. Estava atrasado. Por sua mente desfilaram quase uma centena de palavrões em grego e inglês. Mas nem por isso perdeu a calma. Algo havia acontecido naquela hora que mais lhe pareceu dez segundos.

Sentia uma confiança inabalável, nenhum medo. Nenhum receio. Era como se a Matriarca e fundadora de seu clã tivesse o acompanhado em seu transe, e de sua fraqueza e receio fizera nascer à força e a segurança.

Milo. Décadas de existência. Uma existência vazia, dedicada à rebeldia, a lutar por sua Pátria, mas sem resultados que valessem suas feridas, suas lágrimas.

- Lembre-se de seu nome: Kavafis, Kavafis – Repetiu baixo em grego. – Você é um poeta, mostre isso. Não esconda mais seus versos. Não recebeu apreço dos letrados atenienses em sua vida... Precisei morrer... E minha inspiração se foi... Sinto que ela torna a meu corpo, sinto-a!

Parou. Tentou respirar, mas lembrou-se: estava morto. Uma onda de adrenalina percorreu seu corpo. Não estava sozinho. Nunca esteve, era como se... Seu corpo e mente tivessem sido fragmentados.

- Somos todos gregos. – Sussurrou e finalmente chegara à entrada principal da grande mansão. Não, não recordaria seu passado. Não a parte triste, apenas sentira renascer sua alma de poeta, boêmio, ébrio.

-o-

Urbana e Champaign, Região metropolitana de Chicago, campus da Universidade de Ilinois, 23:00

Shaka estava banhado em suor. Mas para um vampiro, suar, significa transpirar sangue por todos os poros de seu corpo. Estava cansado.

A projeção astral aliada ao esforço que fizera para despertar o verdadeiro Kavafis, Milo Kavafis fora extenuante até mesmo para ele, um ancião tão velho, tão antigo quanto o tempo.

Provavelmente Kavafis o odiaria pela eternidade. Mas certos sacrifícios eram necessários para que um bem maior acontecesse. E mais uma vez ele seria incompreendido, já havia se habituado a isso.

-o-

Chicago, Cobertura do Edifício Louis Joillet, 00:30

Mal o elevador havia parado na cobertura, e o mordomo já a esperava com a porta aberta. Ela o cumprimentou com um gesto de cabeça.

- Condessa, o Duque Strasbourg a aguarda no escritório. – Falou em sua voz profissional, mas ela pode detectar que havia algo errado, pois o servo estava apreensivo.

Dirigiu-se então ao ambiente onde seu anfitrião a esperava. Enquanto caminhava podia ouvir o ruído de aparelhos eletrônicos diversos ligados, sem dúvida ele estava trabalhando. Pelo horário a bolsa de Tóquio estava no auge de sua operação e certamente Kamus acompanhava suas especulações financeiras.

Bateu levemente na porta e ouviu aquela voz impessoal:

- Entre, Condessa.

E ela entrou no ambiente recheado pelos ruídos das televisões de plasma que mostravam notícias ao redor do mundo e principalmente, finanças.

Kamus estava atrás da gigantesca mesa de trabalho, não mais concentrado, pressentira a aproximação da neófita. Abaixou o volume dos aparelhos, mesmo que não os incomodasse. Pelo visto queria ter uma conversa mais densa com a recém chegada e isso fez com que Gabrielle ficasse realmente apreensiva. Lançou um sorriso educado cumprimentado o homem impecavelmente vestido a sua frente:

- O que deseja comigo, Duque Strasbourg?

Ele se levantou e apontou um sofá em um dos cantos do escritório. Indicou-lhe um lugar. Sentaram-se, um na frente do outro. Sérios, tipicamente Ventrue.

- Gostaria de saber como foi sua noite, Condessa. – Falou educadamente e com uma ponta de interesse na voz.

Pega de surpresa, ela começou a dissertar com omissão de detalhes seu jantar de negócios.

Procurou se ater aos pormenores das transações financeiras de seus futuros investidores e caiu em números, detalhes de contratos, etc. Kamus ouvia com atenção e ela se preocupava com aquilo, pelo visto ele não estava sendo convencido. Era óbvio. Estava prestando muita atenção a detalhes pífios.

- Não esqueceu de me contar nada, Condessa? – Perguntou ao final da narrativa.

- Não esqueci de nada relevante, Duque Strasbourg. – Encenou convicção.

- Pois bem, Condessa. Considera irrelevante ter se encontrado com aquele Toreador? – Ela arregalou os olhos, Kannon teria contado a Kamus? – E a senhorita o presenteou, não se esqueça disso. – E ele finalmente esboçou um ar de vitória e reprovação. – Ah, e também jantou com Kannon. E pelo visto... Não esperava por ele.

- Bem, eu não julguei que tais pessoas devessem ser mencionadas, principalmente por que são periféricas. – Ela estava conseguindo piorar a situação.

- Considera periférico o fato de que minha futura consorte presenteia aquele que desgraçou minha honra, Condessa? Também é periférico o fato de que se encontrou com o Toreador bem no território de Kannon? Para sua sorte membros de outros clãs não tomaram conhecimento de sua insensatez! – Ele estava realmente irritado, até alterou sutilmente o tom de voz!

- Eu tomei todos os cuidados possíveis para que... Algo tão simples não tivesse o efeito que tem agora em sua pessoa, Duque Strasbourg.

- Seus cuidados foram insuficientes. – Ela sentiu medo dos olhos dele. – Como vê, sei de todos os seus passos e nem precisei me esforçar para mandar segui-la. Definitivamente não posso aceitar que a senhorita continue a se encontrar com aquele... Aquele insolente! – Ele estava ainda mais irritado e dessa vez seus olhos transbordavam raiva, ela queria que um buraco se abrisse no chão para desaparecer!

- Duque Strasbourg, eu é que deveria estar me alterando, pois vossa senhoria invadiu minha privacidade! Não esperava do senhor uma atitude tal vil. – Tentou contornar a situação...

- Quando a senhorita tiver minha idade, isto é, se sobreviver como sobrevivi, entenderá que a prudência é uma virtude. Agora, diga-me qual o conteúdo de sua conversa com o Toreador? – Ele se levantou sem tirar os olhos das orbes dela que tentavam se manter calmas, sentou-se muito próximo a ela e finalmente usou o SEU poder, a Dominação:

- Conte-me Condessa, conte-me tudo a respeito do Toreador. Comece com o momento em que se conheceram. – E ele pegou a mão esquerda dela, acariciando-a, mas sem, em momento algum desviar os olhos dos dela.

O poder emanado por Kamus era assustadoramente encantador. Ela não conseguiria mentir, nem esconder uma vírgula que fosse da presença magnânima daquele ancião. E ela contou TUDO, em detalhes sobre incentivar Milo a beijar Kamus e estacá-lo, pois ele não esperava por aquilo.

E ele ouvia. Ouvia a voz praticamente em transe da neófita contando-lhe os detalhes de tudo. Não, ele não esperava por aquilo. Uma trama dentro de uma trama, e ele fora apenas um "objeto" para trabalhar a ascensão do Toreador.

Ele sabia que usar seus poderes de Dominação nela era errado e passível de punição por seu próprio clã. Mas apagaria a memória dela. Gabrielle não se lembraria de nada. O estranho era que não conseguia odiá-la e nem ao Toreador. Crianças.

Ela demonstrava arrependimento, mesmo em transe. Não fingira. Ele sabia disso, pois usava também seus dons de ler a verdade em sua alma. Parecia que ela se sentia aliviada em falar. Mas, não, não permitiria que ela se lembrasse de nada.

Sentiu a voz da Besta em seu interior. Precisava puni-la de alguma maneira. Era mais forte que sua vontade, não podia perder a concentração naquele momento, precisava mantê-la em transe e deixá-la falar.

Foi então que ele começou a reparar como a figura a sua frente era feminina, pequena e delicada. Seu cabelo era tão louro quando o de Danielle, embora a Condessa o usasse curto acima dos ombros. Ao lembrar-se dos cabelos de sua esposa, veio-lhe a mente os olhos do Toreador, ou melhor, os olhos de Danielle.

Esforçando-se para mantê-la sob seu controle mental e lutando contra a Besta que ameaçava tomar o controle de seu corpo lançando-o em frenesi, ele se viu segurando-a e ordenando que o beijasse. Em sua mente aquela mulher naquele momento era Danielle. E ele agiu como se ela fosse de fato, Danielle. E ela obedeceu a todos os seus comandos, todos.

Suas roupas foram lançadas ao chão e quase no momento de consumarem aquela falsa união no sofá da biblioteca ele finalmente percebeu as lágrimas de sangue que cobriam o rosto dela. Mesmo sob seu controle ela parecia estar consciente. Consciente de que o que faziam era falso, mentiroso. Kamus buscava nela a pessoa de Danielle. Por quê? Por que ele chegara a tal ponto?

Sentiu-se tocado por um sentimento humano que há muito não sentia: arrependimento. Tal sentimento desencadeou uma onda de sensações desagradáveis em seu corpo. A sua frente ela esperava sua próxima ordem. Kamus reuniu TODA a sua força para finalmente apagar a mente dela, voltando ao momento pouco antes do mordomo abrir a porta.

Ele se concentrou em criar falsas lembranças a partir do momento em que a porta fora aberta. A rotina típica de uma Ventrue... E finalmente uma dor de cabeça inexplicável finalizando com sono pesado.

Levou-a até seu quarto tendo o cuidado de "bagunçar" o quarto, despi-la de seus trajes formais, vestindo-lhe uma leve túnica de linho. Felizmente tivera o cuidado de vistoriar o quarto dela antes que os criados o arrumassem. Tentava reproduzir a "bagunça" que ela costumava fazer em seus aposentos. Finalmente sentiu-se apto a deixá-la completamente desacordada devido a lavagem cerebral que ele fizera.

Kamus mal podia acreditar no que acabara de fazer. Sempre fora honrado o suficiente para não perder o controle de uma situação, mas... Ele estava sendo tomado por emoções que sua razão não conseguia explicar. Em sua longa existência não se lembrara de agir impulsivamente a não ser ao combater... O seu ódio mortal: Lobisomens.

- Algo está errado comigo. O quê? O quê? – Se perguntava ao caminhar como um animal enjaulado ao redor da piscina.

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