World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
CAPÍTULO VI - O Filósofo, o Príncipe e a Mistress

Chicago, Biblioteca Central, hora indeterminada.

Aioros estava impecavelmente trajando um costume Giorgio Armani cinza, sua camisa branca não tinha colarinho, era vulgarmente chamada de “gola de padre”. Mas naquele grego tal veste inspirava tudo, menos santidade. Seus leves movimentos deixavam marcado no ar o aroma de um perfume indecifravelmente másculo.

Sem dúvida, uma visão belíssima, se não fosse seu semblante carregado, sua expressão preocupada ao fim da conversa que travara com os três Nosferatu que se encontravam sentados a sua frente: Shion, Dhoko e Shura.

Ele levou a mão junto a leve armação de metal de seus óculos, num gesto que os Nosferatu sabiam significar que o Brujah estava realmente preocupado. Sim, ele era míope. Seu abraço não fora capaz de curar aquele problema de visão.

- Saga e Kannon já sabem disso? – Ele perguntou, olhando para o chão, tentando organizar os pensamentos.

- Ainda não. Queríamos confirmar contigo, se as movimentações no território anarquista eram verdadeiras. Nossa fonte é confiável, mas só falaríamos com eles depois de ouvir de sua boca o que está acontecendo. – Falou o mais sábio e reservado dos Nosferatu, Dhoko.

- Sim, é tudo verdadeiro. Só não imaginei que a situação fosse tão séria.

- Creio que seja a hora de conversarmos com o Príncipe. – Disse Shion, o Nosferatu mais ao canto.

- Vão primeiro, eu irei daqui a pouco. Consigam salvo conduto para que eu saia da biblioteca. – Falou pensativo o líder dos anarquistas.

- Você terá. – Finalizou o primogênito Shura que a exemplo dos dois que o acompanhavam cobriram-se com seus capuzes negros, cruzando os braços na altura do peito e desaparecendo na escuridão.

Aioros estava realmente transtornado. O problema era grave. Mas poderia ser resolvido, se houvesse uma trégua entre a Camarilla e os Anarquistas. Mas sua preocupação não era nada diante do certo reencontro com aquela mulher: Verônica.

Aioros e Saga nunca se entenderam. Sempre estiveram em lados opostos desde que eram neófitos. O mais engraçado é que seus irmãos mais novos haviam tomado as dores de ambos e entraram com tudo na briga dos dois. Enquanto Aioros e Aioria eram atenienses e filósofos, Saga e Kannon eram espartanos e guerreiros. Não havia como se entenderem. Poucas vezes deixaram suas diferenças de lado, a primeira vez foi diante das sucessivas invasões Persas, embora cada cidade grega fosse autônoma, a egrégora grega prevalecia: falavam o mesmo idioma, tinham a mesma cultura. Consideravam-se gregos e mantinham laços com suas cidades de origem: Atenas e Esparta.

Os persas invadiram por duas vezes o território grego, de forma devastadora. Em 490 a.C. o temível Dário I lançou uma força invasora, mas o exército ateniense comandado pelos Brujah rechaçou o ataque, na Batalha de Maratona, jovens na época, Aioros e Aioria quase morreram.

A segunda guerra greco-pérsica, conduzida por Xerxes, filho e sucessor de Dario I, teve início com a expedição punitiva realizada dez anos depois, quando os persas derrotaram os gregos no desfiladeiro das Termópilas e incendiaram a Acrópole. Essa batalha entrou na história da humanidade, mas o que os livros não registraram foi a presença dos irmãos Ventrue: Saga e Kannon que estavam entre os trezentos soldados da guarda de elite do Rei Leônidas. Juntos, eles quase barraram o gigantesco exercito persa.

Enquanto isso, Aioros junto com Temístocles, comandante da frota naval ateniense, destruiu com as trirremes gregas a frota persa, em Salamina. Sem o apoio naval, o exército persa foi finalmente dizimado na Batalha de Platéias, em 479 a.C., por uma confederação de cidades gregas: era a primeira vez que as cidades gregas se reuniam.

Em 477 a.C. Atenas firmara com as cidades jônicas uma aliança, a Liga de Delos, para protegê-las dos persas. No início, as cidades que faziam parte da liga mantiveram sua autonomia, mas Atenas desde o primeiro momento assumiu a direção militar e a administração dos recursos que os aliados haviam depositado no templo de Apolo, em Delos. Isso realmente não foi uma boa idéia. Enquanto Atenas vivia seu auge nas mãos de Brujah mais velhos que Aioros e seu irmão, começava a degeneração do mundo grego.

Ao afastar-se o perigo persa, a hegemonia ateniense começou a ser discutida por algumas cidades, como Naxos e Tasos, que tentaram sem êxito abandonar a liga; pelas cidades independentes, como Corinto, que se sentiam ameaçadas; e pelas que faziam parte da Liga do Peloponeso, à frente das quais estava Esparta.

Não, os Ventrue que comandavam Esparta não iriam tolerar receber ordens de Atenas. Depois da batalha em Termópilas, os dois irmãos Saga e Kannon finalmente receberam o direito de participar do conselho de Esparta e eram os mais árduos defensores de um ataque a Atenas. Logo conseguiram angariar seguidores poderosos que assumiram a causa. O clima estava cada vez mais tenso nas terras gregas.

Os choques entre Atenas e outras cidades se tornaram cada vez mais freqüentes, os Brujah estavam cada vez mais ousados, embora Aioros não concordasse com os rumos políticos que Atenas estava seguindo, não tinha outra escolha a não ser defender sua cidade natal, se entrassem em combate.

A intervenção ateniense no conflito entre Corinto e Corcira provocou, a pedido de Corinto, a reunião da Liga do Peloponeso, cujos membros decidiram declarar guerra a Atenas. Os Brujah atenienses nada fizeram para evitá-la, confiantes nas vultosas reservas de ouro, suficientes para financiar um longo conflito, e na frota de navios, imensamente superior à dos peloponesos. Aioros era uma voz praticamente solitária nos debates realizados na Ágora ateniense, a maioria do clã desejava a guerra e ela aconteceu.

Sim, os Brujah atenienses tinham dinheiro e navios potentes. Mas o exército espartano era mais numeroso e estavam melhores preparados que os atenienses. Nunca, em toda a história da humanidade um exército tão bem preparado e tão sedento de vitória lutou. Os Ventrue realmente acreditavam em seu poder de fogo, mesmo que diante de Atenas eles fossem apenas homens e mulheres que lutavam pela vitória. Desde que nasciam eram treinados para lutar, morrer por Esparta. Começou assim uma guerra que se prolongaria por quase trinta anos, com resultados desfavoráveis para ambos os lados. O fim de uma era estava se aproximando: o fim da Grécia e a mudança radical de dois clãs, Ventrue e Brujah que se tornariam inimigos mortais.

Frente aos ideais atenienses de liberdade e democracia, a cidade de Esparta representou, na Grécia, os valores da austeridade, do espírito cívico e militar, da igualdade social e da submissão total do indivíduo ao estado. Essa era a essência do Clã Ventrue e ela se estenderia pelo Império Romano onde eles definitivamente acabariam com os Brujah. E mais uma vez, os quatro se enfrentariam em lados opostos: Saga e Kannon defendendo Roma; Aioros e Aioria defendendo Cartago, uma tentativa de recriar Atenas na costa da África, onde hoje é a Tunísia.

Mas foi durante a Idade Média que o clima realmente fechou entre Saga e Aioros. Até então suas disputas eram ideológicas. Defendiam seus clãs, e silenciosamente respeitavam a força um do outro.

Estavam em meio ao caos levantado pela Inquisição: uma reação da humanidade ao abuso de criaturas sobrenaturais como eles. Vampiros estavam sendo caçados e mortos a torto e a direito. Foi então que uma reunião foi convocada entre os mais influentes de cada clã. A Família Vampírica se reuniu e sete das treze famílias deram origem ao que seria a Camarilla. Duas famílias se uniram: Lasombra e Tzimisce e formaram o Sabbat rivalizando com a Camarilla. Outras famílias como os Assamitas, Ravnos e Giovanni permaneceram neutras.

Aioros, embora desconfiado, saiu em defesa do ideal da Camarilla. Seu trabalho era angariar aliados e divulgar a existência da Camarilla. E em Portugal conheceu Verônica, foi amor à primeira vista. Durante as noites que passou em Lisboa não fez outra coisa a não ser ficar junto dela. Marcaram de se encontrar em Madri, onde ela o ajudaria a tentar convencer outros Lasombra a entrarem para a Camarilla. Ela não apareceu ao encontro. Um mês, dois meses, três meses se passaram e ela não apareceu.

Ele estava preocupado. A situação era muito tensa, teve medo de que ela tivesse sido pega pela Inquisição ou até mesmo morta por seu próprio clã por ajudá-lo. Foi então que tomou coragem para procurar outros Lasombra, estava definitivamente arriscando sua vida, já que os Lasombra haviam se unido aos Tzimisce e formado o Sabbat.

Saga e Kannon foram escalados pela recém formada Camarilla para procurar Aioros. Definitivamente haviam dado uma trégua em sua disputa. No momento era mais importante unirem suas forças, caso contrário todos morreriam. Em Lisboa encontraram Verônica e Saga caiu de amores pela misteriosa mulher de cabelos negros.

Kannon não sabia dizer se sentia ciúme por estar também apaixonado pela mulher ou se aquele sentimento o dominava diante do interesse do irmão pela beldade espanhola. De qualquer maneira era algo realmente diferente. Ela deu-lhes a pista de Aioros, e lá foram os dois para Madri atrás do Brujah.

Tiveram dificuldades em localizar Aioros, por necessitarem se esconder dos Lasombra a todo custo. Aioros era um Brujah, não representava nenhum risco aos Lasombra. Mas os dois eram Ventrue, arqui-rivais daquele clã. Realmente era uma situação irônica: os Ventrue atrás de um Brujah para salva-lo e ainda mais... Salva-lo dos Lasombra!

Encontraram novamente Verônica. E parecia que ela não queria ser encontrada pelos dois. Sem muito esforço descobriram que ela tinha armado para matá-los, entregando-os aos Lasombra, clã que ela pertencia. Felizmente foram encontrados por Aioros que os livrou da cilada armada por Verônica.

Ele não sabia se ficava triste ou feliz ao revê-la. Mas de qualquer forma, ela não demonstrou interesse por ele. Estava entretida com os gêmeos. Durante a viagem que os quatro fizeram juntos rumo a Londres, Verônica, Kannon e Saga não paravam de discutir e se provocar. Os três literalmente tinham o rei na barriga.

Obviamente os três homens estavam interessados nela, mas na época, Aioros não percebeu, mas ela aceitou ficar com ele para provocar ciúmes nos gêmeos. O que importava para ele naquele momento era que, estava feliz. Feliz como nunca estivera desde que fora abraçado. Saga e Kannon fecharam a cara o resto da viagem, e quando chegaram em Londres, Saga estourou e desafiou Aioros para um duelo.

Duelaram. Um confronto tremendo que terminou com os dois extremamente machucados, tanto seus corpos, quanto corações. Desesperada, Verônica ao invés de cuidar de Aioros correu para o corpo de Saga, cuidando de suas feridas. Foi então que o Brujah percebeu que ele não representava nada para ela e se retirou de Londres, sumindo por um bom tempo. Não deu noticias nem ao seu irmão de onde estava.

Ele passou a evitar Saga e Verônica embora soubesse que oficialmente não estavam juntos e dificilmente ficariam, já que Saga era Ventrue e Verônica era Lasombra. Ele sabia que os Ventrue não se misturavam com outros clãs, muito menos com Lasombra ou Brujah.

O que ele não entedia era onde Kannon se encaixava na história toda já que era notório, ao menos para ele, que Verônica gostava de Saga e vice-versa. Talvez o Kannon fosse apaixonado pelo próprio irmão, sabe-se lá o que se passava na cabeça daqueles três! Será que Saga não percebia isso?

Tantos pensamentos em sua mente... Em tão pouco tempo... Não percebeu quando Aioria entrou na sala carregando corpo de Ikki e acompanhado por aquele simpático Toreador. Os dois não se separavam mais e Aioros ficava feliz com isso, o Toreador era muito inteligente, só precisava ser lapidado, e ele pelo visto estava dando uma grande ajuda ao Aioria na Universidade. Sorriu para os dois.

- Sim, eu vou sair, Aioria. – Falou ante a expressão do irmão ao vê-lo vestido daquele jeito. Aioros sempre andava bem vestido, mesmo que nunca saísse da biblioteca. Recebia visitas praticamente todas as noites e fazia questão de conservar sua imagem. Pelo jeito o irmão iria ao Masquerade: Verônica.

- Conseguiu um salvo conduto? Sua cabeça está a prêmio. Saga colocou humanos pra te vigiar e dar qualquer sinal caso você pense em sair desse lugar.

- Os Nosferatu vão conseguir o salvo conduto para mim, afinal de contas vou me encontrar com Saga no Masquerade.

- O QUÊ? – Aioria berrou largando o corpo de Ikki no chão e erguendo os braços. – Quer morrer, é isso?

Aioros riu. O irmão realmente havia aderido à causa da Camarilla. – Você sabe melhor do que ninguém que Saga não pode me ferir, a não ser que ele queira perder a posição que ocupa e imagino que considere bastante confortável ser venerado e adorado dentro da sua “Camarilla”.

- Aioria, você fez a estaca entrar ainda mais no coração do Ikki. – Falou Milo analisando o corpo ferido do rapaz desacordado. Os dois se voltaram para Milo. Aioros pegou a jarra com sua própria vitae que havia preparado para dar ao Ikki, ele levantaria rápido devido a potencia de seu sangue.

- Segura ele, Aioria. – Falou, enquanto tirava o blazer. – Segura mesmo, por que eu não quero aparecer todo amassado no Masquerade. - E ele preparou o liquido vermelho para colocar nos lábios do desacordado. Milo se afastou, não iria se arriscar a tomar porrada se aqueles dois não segurassem o Ikki.

Aioria deu uma risada longa. – Tudo isso por causa da Verônica? Até passou perfume! – Aioros olhou com uma expressão de advertência. Tirou a estaca de Ikki e já enfiava goela a baixo o sangue para acalmar o Brujah.

- Você quer é tomar um tapa na orelha, cabeçudo? – Falou Aioros. Enquanto isso Ikki com os olhos tomados pela Besta se abriam, seus ferimentos se fechavam em uma velocidade estonteante. Ele tentou se soltar, mas Aioria o segurava firme.

- Você ainda gosta daquela mulher! Ela num presta! – Aioria falou enquanto segurava Ikki, aparentemente sem dificuldade. Ikki começou a dar alguns trancos para se soltar. Mas ele continuava segurando o rapaz que lentamente voltava à normalidade.

- Porra Aioria, me solta! – Falou Ikki se chacoalhando ao sentir os braços do outro ao seu redor.

- Quer sair daqui, queridão? – Ele ironizou. Milo e Aioros começaram a rir. – Vou te dar uma lição pra nunca mais brigar com o Shaka, seu teimoso do inferno. – Ele continuava a prender Ikki com os braços e esse tentava se soltar.

- Nem vem, Aioria! Solte-me que eu tenho alergia a homem! Tá mudando pro outro time é? Vai defender o Shaka? – Falou ironicamente. Ele inclinou o corpo para frente tentando arremessar Aioria, conseguiu, mas o outro vampiro caiu de pé já pronto para socá-lo.

- Ah seu linguarudo! Vou cortar sua língua e num vou deixar você regenerar tão cedo! Vou arrancar seus olhos! – E Aioria deu um soco de esquerda. Ikki desviou.

- Na minha biblioteca não! Nada de briga, vão pra rua, seus desordeiros! – Falou Aioros sabendo que era inútil impedir os dois de brigarem ali.

- Tá lento, Aioria! – E ele deu uma rasteira em Aioria que caiu com tudo no chão. Achou estranho. Ele num deixava se derrubar tão fácil. Tinha algo errado. – Que tá acontecendo, homem? – Perguntou Ikki dando a mão para ajudá-lo a se levantar.

- Nada não. Só não estou conseguindo me concentrar. – Disse, passando o braço pelas costas de Ikki. – Rapaz, você perdeu a luta do século! – Ele ia começar a contar sobre a luta de Milo e Kamus, mas Milo que não queria mais confete interrompeu:

- Esquenta não, Ikki. Ele tá assim por causa da Marin, aquela japonesa gostosa amiga do teu irmão.

- Olha como você fala da Marin, seu Toreadorzinho de meia pataca! – Aioria falou possesso da vida.

- Viu? Eu não disse? Ele tá bobão desde a hora que viu a moça lutando na arena. Ficou ainda mais bobão quando passou a noite conversando com a moça.

Ikki e Aioros começaram a rir em alto e bom som. Foi quando Aioros acabou com a brincadeira.

- Que clã ela é? Malkaviana por acaso? Se é amiga de Shun... Pode ser Brujah também, não? Tem dois Brujah no Rage, não tem?

Aioria fechou o rosto, triste. – Não, ela é... – hesitou – ...humana.

- COMO? – Aioros não conteve a surpresa. Isso era realmente grave. Humanos eram humanos, vampiros eram vampiros. Não podiam se misturar. Não havia como se misturarem. Humanos morriam, vampiros não. Já conseguia antever o sofrimento do irmão.

- É... Ela é humana. Veio com o Rage de Seatle. Ia tentar uma entrevista no Masquerade para gerenciar o Porão... É uma humana de fibra, sabe? Derrubou um Brujah na arena e nenhum dos amigos dela a transformou em ghoul, em respeito.

- Aioria... Aioria... Toma cuidado, evita essa mulher então. Só falta você se apaixonar por ela. Sabe que é um relacionamento impossível. Ela vai morrer um dia e você não tem permissão para abraçá-la... E duvido que Saga permita que você a abrace! – Aioros foi enfático.

- Desculpe, irmão. Mas eu já estou apaixonado por ela... – Falou cabisbaixo.

- Num fica assim, Aioria... – Falou Milo se comovendo em ver aquele Brujah durão todo amuado por causa da japonesa.

- A Marin é legal, mas num gosta muito de vampiros, cara. Ela só anda com o Rage por que considera eles como irmãos, principalmente o Seiya. – Falou Ikki que tinha mais contato com ela por causa de Shun. – Assim, tipo, conselho de amigo: melhor esquecer agora antes que esse negócio vá pra frente, num quero ver você com cara de bundão, tá ligado?

- Poxa Ikki, se eu fosse depender dos seus conselhos tava ferrado. Nem sei por que te escolhi como meu Whip.

- Essa conversa num vai levar a lugar nenhum. – Falou Milo. – Deixa a água rolar, pelo menos o Aioria pode tentar ficar com ela enquanto ela for jovem. Duvido que ele vai querer algo com ela quando ela estiver com setenta anos e for uma verdadeira uva passa! – E ele riu.

Aioria olhou para Milo, fulminando-o com o olhar. – Mas tu é mala mesmo, hein? Não entendeu ainda? Se ela me quiser eu fico com ela sim, mesmo que ela seja uma uva passa daqui a cinqüenta anos! Poxa, EU AMO ELA!

- Mas você nem a conhece! – Falou Aioros. Aquilo foi a gota da água para o mais novo. Quem era Aioros para falar de amor?

- Você ama a Verônica e eu não falo nada do seu pseudo-relacionamento com ela. Você se joga aos pés daquela mulher, faz todos os caprichos dela. Aceita que ela te use para fazer ciúmes ao Saga e eu não falo nada. Ela fica lá com aqueles dois filhos da puta e eu não fico jogando isso na sua cara! Quando ela te chama você vai como um cachorrinho e eu não falo nada! – Aioria explodiu. Aquilo estava entalado na sua garganta há muito tempo.

- Você não é uma boa pessoa para me aconselhar, não em assuntos do coração! - Foi interrompido pelo barulho de celular de Aioros tocando. Milo e Ikki se entreolharam, chocados. O que tinha acontecido com o Aioria? Ele estava falando sério em relação a Marin? Pra tratar o tão querido e idolatrado irmão daquele jeito o negócio era sério mesmo.

Aioros atendeu ao celular que tocava insistentemente. Era Shura. Não falou nada além de um “OK, estou indo”. Desligou o aparelho ainda atordoado com as palavras do irmão. Então era isso que Aioria pensava dele? Realmente... Quando o assunto era Verônica ele não tinha chão. Fazia tudo o que ela queria, tudo mesmo. Mas dentro de si sentia-se feliz em poder servi-la, não se importava por ela não amá-lo, ele a amava pelos dois! Sem conseguir encarar Aioria ele saiu da sala.

- Aioria, você pegou pesado com ele. – Disse Ikki.

- Ele precisava ouvir isso. Essa baixaria com a Verônica tem que acabar. Não agüento mais ver um cara como meu irmão lambendo o chão que aquela vadia pisa.

- E a Marin? O que você vai fazer com ela? – Perguntou Milo.

- Eu realmente não sei... Só queria estar com ela, se ela quisesse ficar comigo. Não quis isso ontem, mas... Vou começar a ir no Porão, tomara que ela consiga o emprego! Assim eu posso ter desculpas para ir lá, nem que seja só para olhá-la.

O celular de Milo tocou. – Droga! – Olhou no visor: era seu primogênito. – Alô? Sim, senhor. Estarei lá amanhã à noite. Não, não vou chegar atrasado. Sim, eu uso roupa adequada. Tá... Tá... Obrigada, e boa noite!

- O que o Afrodite queria? – Perguntou Ikki.

- Reunião de Guilda. E eu estou intimado a comparecer. – Falou irritado. - Odeio reuniões de Guilda. Odeio aquele monte de Toreador metidos.

- Relaxa Milo. Depois do que você fez com o Kamus... Teu clã vai beijar seus pés. Sua vida não será mais a mesma pode ter certeza... E falando nisso... Se eu conheço bem o Kamus... Melhor você ficar com os dois olhos abertos, por que ele não vai deixar essa situação barata.

- Do que você está falando? O que o Milo fez com o almofada gelada dos Ventrue? – Perguntou Ikki, muito interessado. E Aioria contou em detalhes enquanto Ikki rolava no chão de rir. Milo ouvia calado, se limitando a sorrir nas partes que Aioria exagerava.

- Milo! Milo! Quem diria, hein? Agora eu realmente vou te respeitar. Num me olha assim que eu num sou o Kamus!

- Ah Ikki, só um beijinho vai! – Ele zoou com o Brujah enquanto fazia biquinho. – Se liga, meu! Acha que eu vou sair por aí catando qualquer porcaria que nem você, seu mala!

- Você num me parece muito feliz em ter derrubado o Ventruzão, Milo. – Aioria observou.

- Acho que vou pedir desculpa para ele. Ele é metido, mas eu senti que ele aceitou o beijo com sinceridade... Mas era um combate, né? – Disse desanimado, lembrou-se da Condessa. Precisava falar com ela, afinal de contas ela havia levado o Kamus desacordado embora.

- Papo de bicha, Milo! Tá doido, é? Ventrue num aceita desculpa, e o Aioria tá certo. Melhor você tomar cuidado que o Kamus vai vir pra cima de você com tudo. – Falou Ikki.

- Oh Ikki! Dá uma maneirada aí. Num tá vendo que o Milo tá se abrindo? Esse beijo é problema pro Kamus, por que o clã dele é super conservador, agora pros Toreador... Num tem nada a ver. Desculpa Milo, mas teu clã é pervertido demais pro meu gosto.

- Sem problemas, Aioria. Nós sabemos nos divertir e vocês não! – Ele falou recuperando a pose. Não deveria ter falado aquilo pros dois.

- De uma coisa você pode ter certeza, Milo: mexeu em alguma coisa que o Kamus guarda. Ele poderia ter te dobrado no meio, vencendo sua Presença sobrenatural. Mas não o fez. E acho que por esse motivo é que ele não vai te perdoar nunca. Se eu conheço bem os Ventrue, ele já tem uma carta na manga para usar.

- Aioria, quero falar com o Aldebaram. Tem o celular dele aí? – Iria pedir o número da Ventrue. Precisava falar com ela.

-o-

Chicago, Clube Masquerade, 01:30 da madugada.

Meia hora depois, Aioros entrava no Clube Masquerade. Aquele lugar era a cara de Verônica, e ele quase nunca pisava por lá. Sabia que o Príncipe o esperava na sala vip, mas não se importava com isso, não naquele momento. Precisava ver Verônica antes, ao menos vê-la.

Não demorou muito para que ele a encontrasse na Elite, junto ao bar. E ela continuava tão linda quanto ele se lembrava. Os cabelos pretos, lisos desciam até a cintura e ela usava um vestido em látex preto ressaltando a perfeição de seu corpo. Seu chicote estava preso ao vestido, ela realmente não se separava dele. Ele sorriu. Fora um presente que dera a ela. Ele pousou os olhos em suas magníficas pernas: ela usava uma sandália de salto amarrada até quase o joelho. Admirar Verônica o fazia sorrir sinceramente, levemente nervoso ele ajeitava seus óculos.

Ela notou o belo homem parado a sua frente, tocando os óculos. Reconheceria seu submisso preferido em qualquer lugar. Fazia tempo que Aioros não a visitava, e ele estava simplesmente divino. Ela não via a hora de poder chicoteá-lo até que aquelas costas largas e musculosas sangrassem.

Sorriu para ele, feliz em vê-lo. Era realmente uma surpresa agradável. Iria se divertir com ele em sua Dungeon particular, mas antes... Iria se vingar de Saga por tê-la irritado tanto naquela noite. Felizmente Kannon não estava lá para armar um escândalo, ele havia saído há pouco com a neófita Ventrue que iria se casar com Kamus.

Ela venceu a pequena distância entre eles. Tinha certeza de que Saga estava observando através da vidraça da sala vip. Abriu os braços para Aioros que sem pensar duas vezes, a envolveu em um caloroso abraço que foi mais do que retribuído. Seus corpos estavam colados, e ela se deliciava com o perfume dele afundando seu rosto no pescoço dele... Cheiroso... Começou a beijar o pescoço dele, lentamente. Sentiu que ele estremecia com o contato. Finalmente sussurrou em seu ouvido. - É tão bom te ver por aqui... A que devo a honra de sua visita?

- Verônica... Estava com tanta saudade de você! – Ele a abraçou ainda mais. – Queria ter vindo aqui para usarmos a Dungeon, mas... Vim a negócios, vou falar com Saga.

Ela o afastou, mas ele não a soltou. Continuou a abraçá-la. – Como assim, falar com o Saga? – Ela o olhava com ar incrédulo. – Pensei que tinha vindo por minha causa... – Ela murmurou arrancando dele um sorriso encantador.

- Problemas minha querida... Problemas sérios. Tudo indica que seus parentes vão atacar Chicago em breve.

Ela sentiu o chão fugir aos seus pés. Teria caído se ele não estivesse a envolve-la com os braços. – Não... Não pode ser... Eles não ousariam fazer isso! – A segurança da Mistress foi por água abaixo ao ouvir aquilo. Era apenas uma mulher com medo nos braços daquele homem.

- Fique calma, querida. Eu vou proteger você, por isso estou aqui. Podemos impedi-los de entrar na cidade se o Saga aceitar uma trégua entre os meus “anarquistas” e a sua Camarilla.

Ela havia achado estranho que os Nosferatu Shion e Dohko tivessem passado juntos no Masquerade com o primogênito Shura. Não era normal ver os três juntos. Deveria ter desconfiado... Olhou para Aioros, ele falava realmente sério e... Para encontrar Saga não se tratava de nenhuma brincadeira.

Ela sentiu que Saga estava fulminando os dois com os olhos. Mesmo que a vidraça não deixasse que ele fosse visto, ela sentia. Deixou a insegurança de lado e voltou a tomar conta da situação. Cruzou as mãos na nuca de Aioros, aproximando seu rosto do dele que fechava os olhos para beijá-la.

Ela sentiu aquela língua quente e macia invadindo a sua. Retribuiu na mesma intensidade, não se importante que os dois estavam sendo o centro das atenções ao lado do bar. Ela imaginava que aquela boca pertencia a Saga e por isso beijava com mais e mais paixão.

Aioros ficou surpreso com a atitude de Verônica. Normalmente ela não aceitava trocar carícias em público e raramente o beijava. Exceto quanto estavam em longas sessões de tortura na Dungeon, onde ela fazia o que desejava com o corpo dele e ao final da noite sua recompensa era um delicioso beijo e às vezes, se ela estivesse de muito bom humor, algo a mais. E aquilo o fazia o homem mais feliz do mundo!

Ele apertou o corpo dela contra o seu, arrancando um gemido da mulher. Foi então que Aioros sentiu alguém batendo levemente em seu ombro, chamando-o. A custa de muito autocontrole, ele diminuiu a intensidade do beijo trocado com Verônica. A mão ainda tocava em seu ombro, chamando-o. Ele sentia que ela não queria que ele parasse de beijá-la e relutava em atender aquela pessoa que o estava tirando de seu raro momento de glória. Foi então que ele terminou o beijo e ouviu Verônica sussurrar em seu ouvido: - Saga...

Ele achava que não tinha entendido direito. Mas ela estava chamando-o de Saga? De novo? Às vezes aquilo acontecia entre eles, mas ele fazia de conta que não ouvia, não queria estragar os poucos momentos em que ela o aceitava. A mão ainda tocava seu ombro, chamando-o. Finalmente se virou: era o próprio Saga que estava a chamá-lo.

Não conseguindo suportar a cena que se desenrolava junto ao bar, Saga resolvera descer para chamar Aioros. Aquilo era realmente arriscado e denunciaria que ele tinha algo com a Lasombra, ou pelo menos que queria ter, mas ela não queria nada com ele! Ódio! Era tudo o que sentia, mas não poderia deixa se levar por essa emoção.

Não, não. Faria as pessoas pensarem que ele estava indo atrás de Aioros, afinal de contas ele era um anarquista! E Saga era o Príncipe. Deveria tirar satisfações com o anarquista que circulava livremente pelo Masquerade, praticamente um Elysium. Ele pensou rápido e agiu rápido, não poderia suportar ver Verônica com ele!

Sabia que existia algum afair entre a Lasombra e o Brujah, mas nunca havia visto os dois juntos. Aquilo era demais para ele. Estava realmente gastando todo o seu controle para não sair socando Aioros bem ali! Existiam vários vampiros no ambiente olhando-os. Qualquer deslize denunciaria seus sentimentos. Não, ele não poderia ceder! Era um Ventrue! E ele não era qualquer Ventrue, ele era o Príncipe de Chicago e um dos mais respeitados vampiros da América do Norte!

- Siga-me. – Limitou-se a dizer para Aioros. E para Verônica. – Desculpe interrompe-la. Tenho negócios a tratar com esse pseudo-anarquista. – E enfatizou a palavra anarquista com desprezo. Fazendo-se ouvir pelos vampiros mais próximos.

Aioros antes de segui-lo deu um selinho em Verônica. – Não me demoro, prometo. – Mas ela já assumira a sua típica postura de Mistress. – Não tenha pressa.

No salão, todos os vampiros olhavam admirados para a cena. Haviam prendido o fôlego, imaginando o porquê do Príncipe ter se abalado até lá. A fama de anarquista de Aioros o antecedia. Não haveria outro motivo, era óbvio para eles. Tolos. Era exatamente o que o audaz Ventrue queria que eles pensassem.

Verônica intimamente estava radiante! Nunca tinha visto Saga tão próximo de perder o controle. Ela precisou apelar para tirar o Ventrue do controle, ele certamente estava próximo de ceder, e ela seria vencedora! Mas... O que aconteceria depois? E Kannon?

Ela sabia que o gêmeo era extremamente possessivo em relação a Saga. Não em relação a ela, mas ao irmão mais velho. Saga pensava que tudo aquilo era por causa dela, mas na verdade, todo aquele jogo era por causa de Kannon.

Por mais prazeroso e desafiador que fosse o “jogo” era Saga que ela amava. Mas havia Kannon e, ele não a deixaria ficar com Saga tão facilmente. Ou era os dois, ou nenhum deles. E sinceramente, ela não queria nada, absolutamente nada com o gêmeo, apenas com Saga. Nunca se dobraria aos dois Ventrue! Ela que deveria conquistá-los e não o contrário. Apesar de tudo, não conseguia odiar Kannon. Mas não conseguia amá-lo tanto quanto amava Saga.

Aioros seguia Saga de perto e cumprimentava alguns conhecidos com acenos de cabeça. Saga sem dúvida estava possesso da vida e iria dificultar as negociações.

Saga caminhou completamente senhor de si pela Elite. Embora intimamente abalado, não deixara transparecer nenhum sentimento. Sentia orgulho de si, mas ao mesmo tempo sentia a dor de ser perfeito. Um perfeito Ventrue.

VOLTAR