World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
CAPÍTULO VI - Conveniências sociais

Chicago, Cobertura do Edifício Louis Joillet, hora indeterminada.

Kamus estava há horas exposto ao vento cortante. O outono havia coberto Chicago há mais de um mês e ele agradecia pela temperatura baixa. Do topo de sua cobertura triplex no bairro mais nobre da cidade, ele se perdia em pensamentos.

Tentava de todas as formas encontrar um modo de recuperar sua dignidade. E a conclusão a que chegava... Não era nada animadora. Ele teria que executar um plano que não dependia inteiramente de sua vontade, pois envolveria uma terceira pessoa, mas convencer essa pessoa a ajudá-lo não seria difícil e se fosse... Ele estaria preparado. Apelaria para a força.

Agora... O Toreador era o real problema. Sim, um grande problema. Problema por despertar sentimentos que dormiam em seu corpo há séculos. Sentimentos, não apenas emoções. Sentimentos! Ele realmente estava velho. Deixou-se levar por um truque tão barato e vil! Truque que fora capaz de tocar as suas mais preciosas lembranças. Lembranças de Danielle.

O vento intenso no topo do prédio não o incomodava. Ante a lembrança de Danielle, sentiu os olhos marejarem... Uma lágrima de sangue correu pelo seu rosto... Chorar depois de morto era tão difícil... Tão dolorido...

Como um cadáver ambulante, ele não possuía mais lágrimas, assim como qualquer outro de sua espécie: eram privados desse alívio. O que saia de seus olhos era sangue, a mais pura e dolorida vitae carmim. A dor ao verter sangue pelos canais lacrimais era apenas uma expressão mínima da verdadeira dor que tomava conta de sua alma atormentada. Sentia-se confuso graças ao beijo do Toreador.

Aquele Toreador não deveria ter brincado com seus sentimentos. Eles estavam tão bem guardados em seu coração... Mas o Toreador encontrara sua fraqueza e usou-a contra ele. Os outros Ventrue deveriam estar irados e tinham bons motivos para isso. Kamus corria o risco de perder a invejada posição que possuía por ter aceitado aquele beijo, na frente de todo o clã Brujah, o que era ainda pior!

Sacou o celular e confirmou as suspeitas: cinco ligações não atendidas, todas de Kannon. Certamente o Príncipe Saga estava furioso e ordenou a seu irmão que o encontrasse. Mas naquele momento ele não queria ver ou falar com ninguém.

Pela lógica dos mais velhos de seu clã, sabia o que teria que ser feito: o Toreador deveria desaparecer. E isso deveria ser feito em sigilo absoluto, sem despertar suspeitas. Não poderia ser agora, obviamente por que Milo possuiria o respeito dos Brujah e para piorar a situação seria exaltado pelas Harpias da Camarilla, sem contar que... Ele era um Toreador, clã que rivalizava em influência com os Ventrue. Teria que suportar talvez por meses ou anos a fio aquele sorriso e principalmente o motivo do seu tormento: aquele olhar. Ante esse pensamento, sentiu sua tristeza se transformar em ódio. Cerrou os dentes e o amaldiçoou silenciosamente. Milo acabava de ganhar um inimigo, e Kamus não teria piedade em destruí-lo lentamente e fazê-lo desaparecer da face da terra.

Era a hora de tomar uma atitude. Cruzou os jardins castigados pelo frio, entrou na área coberta mirando seu reflexo na água da piscina. Rapidamente desceu uma escada de mármore em caracol, dois andares abaixo entrou em sua biblioteca, um misto de clássico com modernidade.

Em uma das paredes era possível visualizar oito TVs de plasma onde notícias em vários idiomas eram ditas e gráficos com as cotações das principais bolsas de valores do mundo desfilavam nas telas.

O ruído incomodaria a qualquer ser humano, mas Kamus não era humano. Seus dons sobrenaturais e sua inteligência inumana permitiam que ele distinguisse cada som de cada aparelho ligado e trabalhasse em seu laptop ao mesmo tempo.

Apertou um botão. Logo em seguida um rapaz alto e de cabelos negros impecavelmente cortados entrou na biblioteca. O som do ambiente o atingiu em cheio, Kamus logo baixou o volume das televisões, para algo praticamente inaudível para um humano, mas que ele conseguia ouvir bem e conversar com o jovem ao qual ditou uma ordem. Seco. Objetivo. Direto. Era seu estilo, seu jeito.

Sem questionar, o jovem fez uma reverência e saiu. Apenas ouvindo atrás de si:

- Se necessário, use a força, mas seja discreto. – Kamus completou recebendo um aceno silencioso com a cabeça.

-o-

Chicago, Biblioteca Central. Aproximadamente vinte e três horas.

Aioria havia vencido o sono durante o dia. Apesar de sua idade avançada, não dormiu. Não conseguia tirar aquela japonesa de cabelos vermelhos da cabeça. Não se lembrava de ter se sentido assim em toda sua longa existência. Sua cabeça trabalhava a todo vapor, rememorando fatos de sua existência nesse mundo, tinha certeza: tudo aquilo era novo para ele.

Aioros havia sido abraçado primeiro. O irmão era um brilhante filósofo em Atenas e chamara atenção da mulher que o transformou em um imortal. Ele escondeu isso de sua família o máximo que pode, mas apesar de garoto, Aioria percebia que o irmão estava diferente, muito diferente, diga-se de passagem.

Foi então que... O mais velho decidiu abandonar Atenas. Mas ainda garoto, Aioria o seguiu. Aioros ficou possesso da vida quando se deu conta de estava sendo seguido por aquela criança. Aioria chorou quando ele mandou que retornasse a Atenas, e se manteve firme apesar da raiva e ameaças do irmão.

Continuou seguindo-o mesmo que o outro não quisesse sua companhia. Aioria cresceu enquanto que para Aioros parecia que nenhum dia tinha se passado. O mais velho estava atormentado por sua condição e num acesso de fome, quase matou o próprio irmão. Desesperado... Transformou Aioria num vampiro, igual a ele. Aioros nunca se recuperou desse choque. Amaldiçoar o próprio irmão fora demais para ele.

No começo Aioria achava divertido usar seus poderes sobrenaturais, tudo era novidade. Somente depois de passado algum tempo é que ele se tocou de que havia se tornado um monstro. Não era mais humano, era uma sombra amaldiçoada que espreitava pela noite a procura de sangue humano. Nem ele, nem Aioros aceitavam sua condição.

O tempo passou... Viram que não havia como mudar sua situação. Resolveram ser úteis a humanidade, voltaram para Atenas. Silenciosamente trabalhavam pelo bem da cidade. Havia outros Brujah bem mais velhos tomando conta de Atenas, e eles, na época dois neófitos, ajudavam no que era possível. Foi então que teve seus pensamentos brutalmente interrompidos.

- Aioria? – Nenhuma resposta. – A-i-o-ri-a!

- Hummm? – Olhou na direção de Milo que o chamava. – O que você quer? – Falou sem nenhum entusiasmo.

- Não vamos acordar o Ikki? Seu irmão está esperando...

- Vamos... Claro... – Ele se levantou e seguiu o Toreador pelas escadarias da gigantesca biblioteca.

-o-

Chicago, Clube Masquerade, meia noite e meia.

A Condessa sentia o olhar frio dos dois seguranças que a escoltavam até a sala Vip do Clube Masquerade. Certamente não era algum assunto banal que fizera com que o Príncipe da cidade a “convidasse” a comparecer em uma audiência.

O “convite” chegou algum tempo depois que ela retornara ao hotel. Sentiu que estava sendo seguida, mas não sabia por quem, nem por quê. Felizmente encontrou o Porão fechado, o que não denunciaria sua intenção de se encontrar com Milo.

Dois homens se identificaram na recepção do hotel em nome do Príncipe. E ela permitiu que subissem até seu quarto. Eles pediram “delicadamente” que ela os acompanhasse até o lugar onde o Príncipe estava. Por um acaso ela tinha opção? Não! Era acompanhar ou ser estacada por não cumprir uma Tradição. Pensou em usar seus dons sobrenaturais naqueles dois mortais, mas isso só iria despertar a ira de Saga, era uma indelicadeza dominar servos de outro Ventrue.

Olhou-se no espelho, estava bem apresentável. Seu vestido Prada azul claro caia-lhe perfeitamente, realçando sua beleza inumana. Vestiu seu sobretudo carmim para proteger-se do frio daquela cidade. Finalmente pegou sua bolsa e esboçando um sorriso, acompanhou os seguranças. Pelo menos era uma boa atriz. Qualquer um que desejasse sobreviver entre os vampiros precisava ter em si um talento para lidar com a hipocrisia que reinava entre os mortos vivos.

Chegaram à entrada da sala Vip, onde dois brutamontes estavam de guarda e ante sua presença tiraram seu casaco e a revistaram, sem serem muito delicados. Tiraram sua pistola da bolsa e a estaca que sempre carregava consigo, afinal de contas... Nunca se sabe até que ponto seus inimigos poderiam ir.

Ela se esforçava para não demonstrar a irritação que sentia, mas sabia que eram protocolos necessários diante de uma audiência com um Príncipe, ainda mais de uma cidade tão importante como Chicago. Os outros dois seguranças que a guiaram até ali ficaram do lado de fora junto com os brutamontes, e finalmente permitiram sua entrada no recinto com um gesto.

Uma sala muito bem decorada, espaçosa e pouco iluminada. – Não se intimide, Gabrielle. – Pensou consigo enquanto remexia suas chaves envoltas em um leve cordão de cânhamo. Tentava fazer com que o gesto parecesse natural.

Quando seus olhos se acostumaram com a penumbra, pensou estar louca, viu dois homens iguais. Um sentado em um sofá e o outro olhava distraidamente pela vidraça que dava uma visão privilegiada para o nível inferior do clube. Não conseguiu esconder a confusão. Qual dos dois era o Príncipe? Então as histórias de que o Príncipe tinha um gêmeo era verdadeira? Até então ela só ouvira boatos a respeito dos dois.

Kannon sentado no sofá se divertiu ao ver a confusão estampada na face da neófita. Os mais jovens sempre se impressionavam com a semelhança física dele e Saga, afinal de contas eram idênticos. Como nem todos os vampiros tinham acesso aos dois juntos, surgiam as mais diversas histórias a respeito deles, e claro, como bons Ventrue que eram, faziam questão de alimentar sua fama e se manterem distantes da plebe vampírica. Eram temidos e respeitados, praticamente uma lenda entre os vampiros mais jovens.

Fixou o olhar nas chaves que a neófita carregava e conteve um olhar admirado: sem dúvida pertencia ao Key Club, ele reconheceria aquele cordão de cânhamo em qualquer lugar! Até onde ele se lembrava apenas homens faziam parte dessa sociedade secreta dos Ventrue. A menina deveria ser “boa” para ser aceita nessa sociedade.

Nem Saga tinha conhecimento desse grupo tão secreto de Ventrue. Somente Kannon fora convidado a fazer parte desse grupo seleto de entediados vampiros de sangue azul. Existiam dentro de seu clã as mais diversas sociedades para todos os gostos, e claro, extremamente elitistas dentro de um clã de elites. Kannon e Saga participavam de vários grupos, juntos e alguns em separado. Ventrue e suas complicadas sociedades, regras, títulos, condecorações... Mas era o único modo de vida que os três ali conheciam.

Saga não olhou na direção da neófita quando ela entrou no ambiente. Estava realmente transtornado naquela noite, o problema de Kamus era grave e traria conseqüências desastrosas para os Ventrue... Depois de alguns minutos de silêncio constrangedor, ele finalmente voltou-se para ela. E gostou do que viu: a jovem vampira era um exemplo perfeito de uma Lady pertencente ao Clã dos Reis, silenciosamente pensou em Verônica... Se ela fosse Ventrue... Tudo seria tão mais fácil...

Voltou a analisar a jovem a sua frente. Tinha o porte altivo como se fosse mais velha do que de fato era, e a expressão de orgulho que carregava no rosto não era muito diferente da sua ou de seu irmão. Seus olhos eram de um verde desafiador, irritantemente Ventrue. Isso era bom, ele estava cansado de receber jovens Ventrue sem personalidade. Mas por que, diabos ela freqüentava arenas Brujah?

- Boa noite, Condessa. – Saga falou apontando um lugar para que ela se sentasse. E ela seguiu sua indicação. Sentando-se com delicadeza no local indicado, guardou suas chaves na bolsa e sorriu educadamente ao Príncipe.

- Majestade, é um prazer estar em sua presença. – No fundo ela queria esganar aquele velho Ventrue. Ela pensou que o Príncipe fosse o outro que estava sentado e sorrindo cinicamente para ela. Sem tirar os olhos de seu cordão de cânhamo. Será que ele pertencia ao Club?

Saga se sentou ao lado de Kannon. – Fico feliz que tenha atendido a essa convocação de emergência, senhorita.

- O prazer é meu em servi-lo, senhor. – Falou tentando não demonstrar o quanto ficara chateada em ser escoltada até o local. – Pensei que o Diretório tivesse comunicado vossa senhoria de que eu permaneceria em Chicago no máximo dois meses... – Ela falou referindo-se a organização interna do Clã, responsável por sua entrada segura em Chicago.

- Não há nada errado com sua entrada em Chicago, Condessa. – Kannon falou enquanto rodopiava no dedo um molho de chaves com um cordão de cânhamo idêntico ao dela. – Sou Kannon, o Seneschal. Nosso Príncipe não se apega a tais formalidades cuidando apenas dos assuntos vitais e realmente importantes do Principado. – Ele falava com completo desdém.

Gabrielle teve que gastar muita força de vontade para não se levantar e socar aquele metido a besta. Sem dúvida ele pertencia ao Key Club. Céus, que homem insuportável! O Príncipe era mais educado, aparentemente menos arrogante, mas era bom não se iludir. Anciões eram imprevisíveis.

- Condessa, eu acredito que sua estadia em Chicago será prolongada. Tenho uma proposta de negócios irrecusável e de vital importância para o clã, necessito de sua cooperação. – Saga parou reparando na expressão de surpresa da jovem.

- Estou aqui para ouvi-lo, senhor. – Gabrielle falou com medo do que estava por vir.

- Queremos divulgar ao público uma tradição antiga de nosso clã. A união entre iguais de nosso sangue que segue os princípios da realeza medieval européia.

- E o senhor quer que eu ajude a divulgar essa união estável junto às harpias que estão sob meu controle, senhor? – Se ela acreditasse em Deus teria feito uma promessa naquele momento. Não, não poderia ser o que ela estava pensando...

- Creio que a senhorita não entendeu. Você será parte integrante dessa união a ser completada com o Primogênito, o Duque de Strasbourg. – Saga falou olhando impiedosamente para a neófita que arregalava imensamente os olhos verdes. – Droga, era isso que ela estava pensando.

- Desculpe-me senhor. Creio que eu não tenha ouvido direito... – Ela falou tentando esconder o pânico que sentia.

- É exatamente isso que você ouviu, Condessa. – Reiterou Kannon, se divertindo com a confusão da neófita. Estava realmente se divertindo com a força que ela fazia para não mandá-lo pro inferno desde que entrara na sala. Notou que ela olhou na direção de Saga, querendo ter certeza do que ouviu.

- Senhorita, depois da derrota humilhante de Kamus na arena Brujah, já começaram os boatos a respeito da integridade de todos no clã Ventrue. A forma como isso aconteceu... É imperdoável, e para amenizar o efeito, e a senhorita pode confirmar junto às harpias, espalhamos que você veio para Chicago para se unir secretamente a Kamus. – Fez uma pausa. – Para todos os efeitos aquele Toreador a “ofendeu”. Tocado pela afronta a sua futura consorte Kamus aceitou lutar contra ele na arena dos Brujah. Isso amenizará o impacto do Primogênito dos Ventrue ter sido derrotado por um BEIJO! – Saga foi enfático, se alterando.

Ela se encolheu diante da expressão de ódio nos olhos do Príncipe... Estaria perdida se ele descobrisse que ela... Tivera a idéia de fazer aquilo!

- Não posso aceitar, senhor. Tenho negócios no Brasil, uma posição de respeito em meu país que exige minha atenção... – Ela sabia que não adiantava argumentar... Mas tinha que tentar.

- Não é um convite. Nem um pedido, Condessa. É uma ordem de seu ancião. Pouco antes de sua chegada a esse encontro falei com seus superiores no Brasil. Eles concordaram com sua transferência temporária para Chicago. Sabe tão bem quanto eu que pode controlar seus negócios usando recursos do Diretório. Quanto a sua posição, sabe que essa união aumentará seu prestígio dentro do Clã de modo que não conseguiria atingir sozinha nem em duzentos anos de trabalho árduo.

Saga estudava a neófita que estava prestes a entrar em pânico, chegou a sentir uma ponta de piedade, mas logo a empatia que sentiu pela jovem foi arquivada em algum canto escuro de seu cérebro. – Dentro da Camarilla também será recompensada e reconhecida por ser íntima de Kamus. Algum problema?

- Não. Problema nenhum, senhor. É que, eu não esperava que esse fosse o único modo de limpar a imagem do Duque de Strasbourg.

- Não, não é o único modo. É uma solução temporária. Kamus sabe que terá que matar o Toreador. Mas isso não deve ser feito enquanto o Toreadorzinho for notícia. Não podemos impedir as harpias de falarem a respeito e enquanto isso, até que o Toreador morra, você se unirá a Kamus. Depois disso, se achar que é uma vantagem política para você se separe dele, podendo ir embora quando quiser.

- Mas... Majestade... Matar o Toreador vai contra as Tradições da Camarilla! – Ela falou assustada. Não imaginava que o seu clã fosse fazer um escândalo daqueles. Mandara Milo pra morte! Precisava dar um jeito de consertar a situação.

- Nós somos a Camarilla. – Kannon estufou o peito, orgulhoso. – É muito jovem para compreender as tradições dos mais antigos de nosso sangue, Condessa. Creio que aprenderá muito conosco. – falou com muito sarcasmo. – Nenhum nobre Ventrue é humilhado, sem direito de retaliação, nem que seja à surdina. Creio que seja desnecessário dizer que tal assunto é sigiloso.

Ela encarou o Seneschal com ódio mortal nos olhos. Era a primeira vez que ela demonstrava alguma emoção abertamente naquela sala. Kannon se sentiu excitado em irritar aquela beldade loira, começava a entender por que ela fora selecionada para o Club. Seria uma excelente adversária.

- Eu fico, senhor. – Olhou para Saga. – Mas tenho uma condição que desejo que seja colocada em contrato. O Duque de Strasbourg não deve tocar em um fio de cabelo de Milo. Não pretendo abrir mão dessa união, portanto não faz sentido que uma tradição tão obscura que só os mais velhos Ventrue conhecem seja levada a cabo em pleno século vinte e um. Em breve as harpias esquecerão e terão outros assuntos para tratar, eu lhes garanto. – Não era ela uma das harpias mais influentes da América do Sul?

Saga olhou para a neófita admirando sua coragem em impor uma clausula ao contrato de união. – Muito bem, enquanto você estiver unida ao Duque de Strasbourg... Trate de fazer as harpias se concentrarem em sua união com Kamus e deixar esse neófito de lado. Nada dessas modernidades de perdoar e etc. E, por favor, evite as Arenas Brujah!

- Desculpe, senhor. Mas estar com os Brujah é uma estratégia que adotei para conquistar o respeito e alianças entre nossos inimigos ancestrais. Não posso deixar de me relacionar com eles. – Ela não poderia dar bandeira. Era sua válvula de escape, seu clã era tão frio, tão superficial, tão ligado em aparências... Tudo era competição entre os Ventrue, tudo!

- Sua estratégia é desprezível. – Kannon falou com uma expressão visível de asco.

- Embora o senhor teça comentários tão indelicados, tenho certeza de que manipulo melhor este clã do que o senhor. Mantenha seus amigos próximos, e seus inimigos mais próximos ainda! Não é isso que diz um sábio ditado popular? – Ela sorriu, demonstrando a ele que aquele comentário era completamente supérfluo. – Essa é a ruína de muitos anciões de nosso clã: desprezar o inimigo. – Agora ela fora longe demais.

Kannon ironicamente bateu palmas. – Bravo! Vai ensinar-me a fazer política, Condessa?

- Seneschal Kannon, não distorça minhas palavras. Mas se quiser posso lhe ensinar mais do que isso. – Ela se levantou e olhou para Saga, ele ria do dialogo estabelecido entre ela e Kannon. – Creio que minha presença não se faz mais necessária... Correto, Majestade?

- Obrigado por vir Condessa. Pode se retirar. Começaremos a cuidar dos papéis da união. Seja bem vinda ao Diretório de Chicago, estou vendo que você e Kannon vão tornar nossas cansativas noites de negócios em algo bem mais animado.

Ela percebeu um tom mais leve, menos formal na última frase do Príncipe. Fez uma mesura cumprimentando-o e em seguida se dirigiu a Kannon que se levantara.

- Eu a acompanho até o hotel, Condessa. Quero ter a certeza de que irá diretamente para cama, já que é uma mulher comprometida com nosso já não tão honrado Primogênito.

Ela sorriu e aceitou o braço que ele lhe dava. Ouvir aquilo já era demais! Ele estava brincando com ela, só poderia ser! Sua colocação no Key Club poderia ir para o buraco por causa dessa união. Ela sempre fora discreta em suas conquistas para o Club.

O Key Club era uma das mais privadas sociedades do Clã. Composta quase exclusivamente por Membros do sexo masculino, possuía poucos integrantes, mas todos unidos em um propósito comum. Kannon e ela se reconheceram por manterem quase imperceptível, um cordão de cânhamo amarrado aos seus chaveiros com certo número de nós em seu comprimento, aquilo os identificava.

Os nós eram adicionados por sedução e conquista. Nosferatu não contavam no placar do Club, bem como a copula compelida por força ou dominação, entretanto, Toreador contavam em dobro no marcador, já que eram amplamente conhecidos por serem difíceis de seduzir. Normalmente eram os Toreador que seduziam suas vítimas.

O Key Club era uma invenção moderna que coincidia com a queda do cavalheirismo no século vinte. O nome derivava da breve onda de “festas da chave” nos anos 70, quando nas festas, casais colocavam suas chaves em um recipiente e selecionavam parceiros aleatórios os quais os acompanhariam até suas casas no final da noite.

Para os membros do Key Club, sexo era apenas uma outra forma de dominação e conquista; uma diversão para manter os séculos à distância, um modo de se sentirem humanos. Nenhum membro de fora do clube sabe sobre sua existência. O risco de descoberta e escândalo é parte do charme dos membros do Key Club.

-o-

Chicago, limusine em movimento pela cidade, uma e meia da madrugada.

Caminharam em silêncio pelo Masquerade. Ao entrarem na limusine, Gabrielle olhou raivosamente para Kannon. – O fato de estar unida ao Duque não me colocará em posição inferior a você no marcador, e ela mostrou seu cordão preso no chaveiro para ele.

Ele sorriu da infantilidade dela. E estendeu seu chaveiro para ela. – Pode me chamar de Kannon, Condessa. Será um prazer ter uma rival a minha altura na cidade. Estou vendo que gosta de Toreador, não? – Disse ele observando os nós referente a conquista de membros Toreador... Hummm... Brujah? Que mal gosto!

- Você também não está mal... Estou vendo aqui uma Malkaviana, uma Ventrue, espera... Você se concentra no clã para conquistar?

- Não gosto de me misturar muito com a plebe, prefiro as conquistas mais difíceis. Estou a muitos anos tentando conquistar uma Lasombra. Mas ela é dura na queda. Quer entrar no páreo? Antes que pergunte, não, meu irmão não sabe de nada. Pensa que eu sou apaixonado pela mesma mulher que ele... Tão ingênuo.

- Seu irmão me pareceu tudo, menos ingênuo... – Ela sorriu.

- Para assuntos do coração Saga é um homem das antigas. Ele realmente ama a Verônica. Não entende que para ela seduzi-lo é uma questão de honra. Assim como é para mim... Ou para você.

- Opa! Opa! Não ponha palavras na minha boca, Kannon! Eu só acho que existem maneiras mais agradáveis de fazer política... Tanto que todas as minhas conquistas morreriam por mim, deixo bem claro que nosso envolvimento é meramente casual, ainda existem Ventrue com honra dentro do Club, ouviu?

- Ah e você quer que eu acredite que você é honesta com todas as suas conquistas?

- Sou sim! E por ser honesta, não faço inimigos que pensam que os uso e sim amigos! Tudo bem... São amizades “coloridas” afinal de contas... Queremos sentir que ainda existe algo de humano em nós!

- Quem é sua atual conquista? Por acaso é esse duplo nó aqui? – Disse apontando para um grosso nó que representava a maior conquista que um membro do Club poderia conseguir: um ancião Toreador.

- Bem... É... O Afrodite... – Ela falou hesitante.

- AFRODITE? – Ele não conteve o espanto.

- Ele é maravilhoso. Foram noites inesquecíveis! – Ela sorriu maliciosamente. – Eu recomendo, mas ele é difícil... Melhor tomar cuidado para não cair no charme dele! Dúvida? Peça as provas ao Club. Mandei todas para lá.

Kannon estava impressionado. A neófita era uma caixa de surpresas, além de ser muito bonita. Uma adversária a sua altura, finalmente! Não agüentava mais o tédio de fazer tudo o que queria na hora em que bem desejasse! Era divertido provocar Verônica, mas tinha medo de magoar o irmão... Era obcecado pela Lasombra, precisava dar um jeito de ficar com ela, mas a mulher era uma mula, de tão teimosa.

Finalmente chegaram ao Hotel. Ele a ajudou a descer da limusine e se despediu dela com um largo sorriso de satisfação. Finalmente as coisas estavam mudando em Chicago! Ficou feliz com a burrada de Kamus, graças a ele, teria uma boa companhia para passar o tempo.

Gabrielle estava realmente confusa. Era muita informação em tão pouco tempo, muitos acontecimentos em tão pouco tempo... Milo, Milo, Milo! Não conseguia parar de pensar nele. Pensou em ligar novamente para Afrodite... Mas seria uma demonstração de que as coisas estavam fugindo ao seu controle, e isso ela não admitiria.

Metera-se na maior enrascada por aceitar o pedido de Afrodite em transformar Milo em seu sucessor. Mas em sã consciência quem seria capaz de recusar alguma coisa aquela beldade? Afrodite era simplesmente o homem mais lindo que ela vira em sua vida. Para piorar sua situação ela realmente tinha se apegado a Milo, além de belo, era honesto e muito humano, coisa rara entre os vampiros.

O telefone tocou. Era a recepção. Mais uma vez arregalou os olhos. Mandou subir o rapaz que viera em nome do Duque de Strasbourg. Será que não poderia ter uma noite tranqüila?

Um bem apessoado servo do Duque de Strasbourg entrou em sua suíte. Ela ficou pasma ao ouvir o que ele lhe dizia: O Duque a convidava a se hospedar em sua residência. Mas eles eram rápidos, hein? Mal havia chego da conversa com o Príncipe e seu futuro consorte já mandava buscá-la? Esses anciões... Pensavam mesmo que ela era um objeto! Bem, não havia muito que fazer. Pegou apenas o necessário para passar o dia na residência do Duque e deixaria sua criada cuidar de suas coisas.

Sem demonstrar sua surpresa, acompanhou o servo rumo à residência de Kamus.

-o-

Chicago, Cobertura do Edifício Louis Joillet, quase três horas da madrugada.

Kamus estava começando a se irritar com a demora de seu servo e da Condessa. Havia sido informado que ela não estava em sua suíte, mandou seu servo esperá-la e trazê-la nem que fosse pelos cabelos quando retornasse ao hotel.

Finalmente chegaram. Kamus aguardava impaciente em sua biblioteca. Espantou os visíveis sinais de impaciência de seu rosto, assumindo sua costumeira expressão gelada, tipicamente Ventrue. Era realmente ótimo nisso.

A Condessa entrou em seu escritório, e ao contrário do que ele esperava, ela estava inabalável. Não demonstrava sinais de irritação por ter sido “convidada” a vir até sua residência. Cumprimentou-a educadamente convidando-a a se sentar.

- Fico feliz que tenha aceitado meu convite, Condessa. Pedi que viesse ainda essa noite para tratarmos de negócios. – Ele reparou que ela fazia uma espécie de expressão de interrogação.

- Não tinha como recusar seu convite, senhor. Ainda mais depois da intimação que recebi de nosso Príncipe.

- Condessa, por favor, pode chamar-me de Kamus. – Ele olhou-a sem entender. – Intimação? Príncipe? Do que está falando, senhorita?

- Desculpe-me senhor, mas fico ofendida por demonstrar que esqueceu do compromisso que o Príncipe intermediou entre nós.

- Senhorita, não sei do que está falando... – Kamus estava começando a entender, mas não pensava que Saga pudesse tê-lo desrespeitado a esse ponto.

Ela contou a Kamus, em detalhes a conversa que tivera com Saga. Ele ouvia aquilo boquiaberto. Saga invadira sua privacidade, mas ao mesmo tempo o ajudara. Como anciões sabiam que aquilo era o certo a fazer, e pelo visto a Condessa estava de acordo com o que deveria ser feito para manter as aparências.

- Condessa, tudo o que Saga fez foi sem meu conhecimento. Já era minha intenção tratar com a senhorita a respeito de nossa união. Por isso, como não temos nenhum compromisso firmado, está livre para partir se desejar. Não desejo que se sinta obrigada a ficar em Chicago.

- Mas e o Príncipe? – Ela indagou, sem acreditar no que ouvira.

- Eu me resolvo com ele, senhorita. Se concordasse em ficar, ficaria eternamente grato a sua pessoa e obviamente a compensaria por ajudar a carregar o meu fardo. – A voz dele era sincera, era realmente um pedido.

- O Príncipe me disse que o senhor tem que matar o Toreador... Isso é realmente necessário?

- É, senhorita. – Ele foi seco em sua resposta. – É a minha honra que está em jogo. Dificilmente serei aceito na Gerousia de nosso clã enquanto esse Toreador estiver vivo.

- Duque... Quero dizer... Kamus... O Milo é um membro que tem qualidades raras entre os de nosso sangue, não merece morrer... Não pelas suas mãos.

- Ele tem que morrer pelas minhas mãos. Isso não é algo passível de discussão. – Ela sentiu medo ao encará-lo, ele realmente falava sério.

O desespero começou a tomar conta de Gabrielle. E agora, o que iria fazer? – Senhor... Quero dizer... Kamus, eu poderia ao menos lhe pedir que honrasse o que pedi ao Príncipe? Enquanto eu estiver em Chicago, não destruía o Milo, por favor!

- Será honrado, senhorita. Não tenho pressa em executá-lo. Farei com que ele sofra e implore por sua morte. Somente então o matarei. – Seus olhos brilhavam de ódio.

- Obrigada, Kamus. Sei que é difícil para você, mas encontraremos uma solução no futuro. – Ela se levantou. – Onde é meu quarto?

- Por aqui, senhorita. Vou acompanhá-la. É o mínimo que posso fazer por colaborar comigo. – Caminharam pelo gigantesco apartamento e ele lhe indicou uma porta. – É aqui. Qualquer coisa, meus servos são seus servos a partir dessa noite.

Kamus a deixou, voltou para sua biblioteca. Teria uma séria conversa com Saga. Esses abusos precisavam parar. Por mais que ele fosse o mais velho de Chicago, Kamus também o era e poderia rivalizar com ele em poder. Embora estivesse em uma situação complicada, era maduro o suficiente para tomar suas próprias decisões. Que Saga manipulasse crianças! Não a ele.

Formar uma união com uma Ventrue era um evento raro dentro do Clã, mulheres eram escassas. Certamente o evento iria se sobrepor ao escândalo de sua derrota humilhante na Arena Brujah. Pelo visto a convivência com a Condessa seria tranqüila. Apesar de neófita, sua fama se justificava, era realmente um exemplo de nobreza feminina no clã.

Eram um clã basicamente formado por homens eram extremamente conservadores e machistas. Poucas eram as mulheres que se provavam dignas de serem abraçadas, e menos ainda eram as que se destacavam.

A competição entre os Ventrue era muito acirrada, e parecia que a mocinha em questão conseguira manter algum caráter dentro de um clã onde o menor deslize era severamente punido, na melhor das hipóteses. Sem se dar conta, sentiu seus pensamentos se voltarem para o Toreador, passou os dedos em seus lábios ante a prazerosa lembrança. Sentiu raiva de si por esse sinal de fraqueza, socou a mesa com vontade.

– Maldito seja você, Milo! Vai me pagar caro por isso! – E tentou se concentrar no trabalho.

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