World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
CAPÍTULO V - Homens de fé e homens de força

Urbana e Champaign, Região metropolitana de Chicago, campus da Universidade de Ilinois, dias atuais, aproximadamente 21:00.

Shun não conseguia tirar os olhos do corpo de seu Mestre, ao mesmo tempo em que sua mente não se desligava da última imagem do corpo de Ikki. Por sorte obteve a palavra de Aioria que cuidaria para que Ikki acordasse e se recuperasse dos muitos ferimentos sofridos na luta estúpida que ele e Shaka haviam travado.

Mal havia acabado de chegar em Chicago e isso tinha acontecido. Desse jeito preferiria voltar pra Seatle junto com seus amigos. Era fato que a idéia de passarem uma temporada em Chicago fora sua, inteiramente sua. Simplesmente não poderia chegar e dizer que havia mudado de idéia, eram um grupo, uma coterie  e tinham concordado que, naquele momento, o melhor pra eles era “dar um tempo” longe de Seatle. As coisas andam meio complicadas por lá e antes que uma guerra sem sentido entre Camarilla e Sabbat começasse a matar inocentes, decidiram partir para Chicago.

Sair de Seatle correndo do Sabbat não fora sua escolha, e não era por isso que ele concordou em deixar a cidade, ele sabia que a hora estava chegando. Hyoga não tinha medo do Sabbat. Se eles eram guerreiros sanguinários e inumanos, ele poderia dar uma lição de crueldade e eficiência em combate para a seita rival da Camarilla. Hyoga não havia deixado Shun sozinho em nenhum momento desde que chegaram à cidade. Mais do que nunca, sabia que precisava proteger Shun, algo grande estava para acontecer.

Algo que nem Mu ou Shaka sabiam ao certo dizer, contudo Shun seria o epicentro das atenções, das aflições. O fardo do seu amigo era o mais pesado de todos, e a ele, Hyoga, cabia cuidar e ajudá-lo a dar os passos finais rumo àquela parte escura que seu Clã via na teia Malkaviana, mas que não conseguia decifrar ou se aproximar.

Hyoga não sabia dizer ao certo como funcionava a teia, mas de alguma forma todos os Malkavianos se comunicavam através dela, enviando fragmentos de pensamentos, sensações, impressões. Sabiam de tudo e de nada ao mesmo tempo, e de certa forma apesar de cada um ter uma interpretação diferente da teia quanto mais velho fosse o Malkaviano, maior a chance de compreender as mensagens dentro do pensamento coletivo do clã e predizer o futuro, o passado e o presente. Por sua percepção aguçada e visionária do mundo, eles eram os “Loucos” da Família Vampírica.

Mensagens que foram enviadas há mais de dois mil anos para a Teia eram interpretadas no presente, mensagens de um futuro não muito distante tentavam mostrar no presente como evitar a catástrofe que se aproximava dos vampiros. Não importava seu credo, sua fé ou sua posição, a Gehenna se aproximava e atingiria a todos, fossem esses desligados de qualquer seita ou pertencentes ao sanguinário Sabbat ou à poderosa Camarilla. O fim da espécie aconteceria, ou pior... O fim dos tempos, o fim de toda a vida na terra.

O tempo realmente era indiferente, por isso, até mesmo os mais velhos não sabiam dizer exatamente quando as coisas iriam acontecer, mas como elas iriam. Shun estava recebendo visões terríveis da teia e era mais um motivo para o grupo ir a Chicago. Somente Mú ou Shaka poderiam interpretar as visões, tudo indicava que ele se aproximava cada vez mais da região negra da Teia Malkaviana e aquelas terríveis visões o fizeram suar sangue por sete noites consecutivas, quase o colocando em torpor.

Hyoga pensou que Shun iria morrer, por isso, declarou-se ao amigo, pensando que ele estava inconsciente. Sabia que as pessoas o temiam, até mesmo Shun o considerava um pedaço de gelo ambulante e seu passado... O condenava.

Viveu praticamente toda a adolescência em um manicômio. Perdera totalmente o controle de si após a morte de sua mãe, aos dez anos. Quando criança, Hyoga viu o navio de sua mãe afundar nos mares da Sibéria diante de seus olhos, preferiu morrer com ela a viver sozinho. Mas seu destino não permitiu.

Desde então, alucinações de que sua mãe encontra-se dentro do navio afundado, com seu corpo preservado pelo frio extremo das águas do Mar do Norte começaram a fazer parte de seu dia a dia. E depois começaram a se tornarem mais reais e finalmente começou a ouvir vozes em sua cabeça.

Ele tentava ignorá-las, mas eram reais, tão reais quanto ele mesmo. Tecnicamente suas emoções eram irregulares ou pouco apropriadas, e foram seguidas de um paulatino isolamento social, perda de amigos, poucas relações com as pessoas a sua volta e mudança de caráter, passando de sociável a anti-social e terminando em depressão. Mas seu quadro clínico evoluiu de tal forma que apesar de tecnicamente ser esquizofrênico, seu caso era um desafio para a ciência médica.

Hyoga passou a ser tratado como um objeto de estudos de médicos psiquiatras. Devido à raridade de sua “doença mental” foi praticamente “vendido” para um instituto psiquiátrico especializado nos Estados Unidos. Foram cinco anos de martírio, sendo estudado como se fosse uma cobaia humana, e de fato era o modo como o tratavam.

Até que... As vozes se calaram e “milagrosamente” estava curado, os médicos já haviam colhido material suficiente e não havia necessidade de continuarem mantendo-o em um instituto de pesquisas tão caro e avançado. Aos quinze anos teve alta e passou a viver em um orfanato na América.

Quando ele por apenas uma vez, deixou de tomar um dos vários comprimidos que mantinham as vozes longe... Perdeu o controle, e obedeceu as vozes. Em assim matou outro órfão que era seu melhor amigo, Isaac, e um assistente social que o tratava como filho (mas no fundo era um pedófilo). Resultado: nova temporada em manicômio...

Passados mais quatro anos, recebeu alta e passou a viver em sociedade, dessa vez adotado por um casal de “amorosos” assistentes sociais. Vivia muito bem com seus pais adotivos, quando um dia, esqueceu de tomar apenas um dos remédios e... As vozes mandaram que ele matasse seu pai adotivo, e ele matou.

Dessa vez foi trancafiado numa prisão para criminosos mentais, e passou a aguardar o dia em que seria executado, recebera a pena capital: morte com injeção letal. Hyoga sabia que tudo o que fizera tinha um motivo, um motivo que somente ele conseguia compreender. Era uma pessoa de bom coração, humano ao extremo, mas as vozes... Elas exigiram aquelas mortes.

Segundo as vozes, as pessoas que ele matou, seriam responsáveis pela morte de milhares de seres humanos, e ele ao tirar suas vidas, evitara que esses milhares de pessoas morressem. Sacrificar um, para que milhares vivessem. Apenas por isso ele havia criado coragem para matar, mas as pessoas... Não acreditavam nele. Como provar um futuro que ele havia evitado que ocorresse?

Mas alguém, alguém acreditou nele. E assim ele “morreu” para os humanos e nasceu entre os vampiros ao ser abraçado e transformado em um Malkaviano. Aquela pessoa que o transformara e o abandonara a própria sorte, sabia que Hyoga dizia uma verdade, e essa verdade era parte de um espelho. Espelho na qual, cada um enxergava as verdades que desejava ver. Verdades incompreendidas, mas ainda assim, verdades. Ninguém é mais lúcido do que o homem louco, pois a verdade é a voz que os homens não querem ouvir, e a ele coube o cruel destino de conhecer a verdade, fragmentada em diversas faces.

Mu conseguiu localizar o recém abraçado Malkaviano nos arredores de New Orleans e se responsabilizou por sua educação básica. Foi da boca de Mu que ele finalmente ouviu aquilo que sentia em seu coração: iluminados são aqueles que ouvem o sussurro do coração e sentem a verdade sob a máscara da hipocrisia humana. E ele tinha esse dom.

Como poucos Malkavianos, ele conseguia enxergar a verdade, e como tal, à medida que convivia com seus iguais, era considerado um dos mais loucos, dementes e perigosos do clã. Poucos tinham coragem de chegar perto dele e desse modo, Hyoga se sentia sozinho, e por se sentir sozinho, alimentava a distância que o separava dos demais. Passou a vagar sozinho pelos Estados Unidos até se fixar em Seatle. A única exceção a essa regra fora Shun.

Quando Shun chegou a Seatle, não teve medo da fama de Hyoga. Não deu atenção ao que ouvira outros falarem dele, ateve-se a essência bondosa daquele rapaz loiro com intensos olhos azuis, se aproximou e deu a Hyoga finalmente uma vida.

Uma vida que ele nuca tivera. Agora ele tinha vontade de se misturar as outras pessoas, por que aquele calor humano fazia Shun feliz, e se ele estivesse feliz, Hyoga também estaria feliz. O pequeno Shun era realmente uma benção dentro do Clã Malkaviano e ninguém lhe era mais fiel do que Hyoga, Shun carregava a marca da lua, o símbolo da Gehenna e era secretamente reverenciado pelos Malkavianos.

Shun fez Hyoga descobrir coisas sobre si mesmo que nem ele imaginava. Ele se superou e derrotou seu próprio medo para alcançar propósitos nunca antes imaginados. Transformou sua própria angústia em um poder para manipular as massas. Um espírito ardente escondido atrás do gelo eterno dos seus olhos azuis se mostrou e num impulso (Malkavianos não fazem nada por acaso) tornou-se vocalista de uma banda em plena ebulição musical que Seatle vivia nos anos 90.

Foram verdadeiros anos dourados para Hyoga e sua banda, mas como todos os integrantes eram vampiros, precisaram tomar muito cuidado para não aparecerem muito na mídia. Mesmo assim, fizeram sucesso e saíram fazendo turnês pelo país. E de certo modo, através das músicas que compunha e cantava ele transmitia a mensagem de que a Gehenna estava próxima, era um meio de se comunicar com os Malkavianos que não tinham o mesmo domínio da Teia que os mais velhos ou mais iluminados tinham.

Não apenas Malkavianos foram atingidos pelas canções apocalípticas do Rage, rapidamente outros clãs considerados “marginais” aderiram à causa pregada no inconsciente vampírico e cada um a seu modo interpretava aquelas canções um tanto quanto... diferentes. O certo é que muita coisa mudou rapidamente nos Estados Unidos. Os movimentos rebeldes em Los Angeles se intensificavam e o Sabbat se fortalecia, os únicos que pareciam não estar nem aí para nada eram os Anciões da Camarilla. Gehenna? Absurdo. Isso era uma lenda, história pra assustar crianças.

Como Mu havia visto na Teia, Shun ao ajudar Hyoga despertara o Avatar de uma Nova Era. A preparação para o fim dos tempos começou e aqueles jovens Malkavianos através da música transmitiam essa mensagem. Logo, membros de outros clãs e até mortais se juntaram ao secto da banda e apesar do Rage nunca ter sido, e provavelmente nunca seria uma banda grande, a sua dedicação e paixão eram indiscutíveis.

No momento o que atormentava o coração de Hyoga era o fato de Shun ter ignorado completamente a declaração de seus sentimentos. Ele sabia que Shun tinha ouvido, mas fizera de conta que não havia ouvido nada. E pela primeira vez em anos, o perturbado russo se sentia tomado pela tristeza tão sua companheira antes da entrada de Shun em sua vida.

Era realmente difícil saber o que Shun pensava. Apesar de sua latente bondade e de se preocupar com todos a sua volta, Hyoga queria ser especial para o amigo, queria bem mais do que amizade, mas pelo jeito não seria tão fácil assim, o silêncio de Shun era insuportável. E ele não conseguia entender o porquê daquilo.

Mu finalmente entrou na câmara onde Shun e Hyoga guardavam o corpo do velho ancião Malkaviano. Alguns milhares de anos e sabedoria estavam dormindo naquele ambiente, contrastando com o sangue jovem, mas nem por isso fraco, daqueles dois rapazes. Mu sentia pena deles, seus destinos eram cruéis... Mas havia tramas dentro de tramas que poderiam evitar o pior, mas nem por isso deixaria de ser cruel.

- Shun, Hyoga... Vocês estão prontos para me ajudar a acordar Shaka? – Perguntou dobrando os punhos da camisa.

- Sim, senhor! – Respondeu Shun sem tirar os olhos do corpo de seu Mestre.

- Estou sim, Mu... – Respondeu Hyoga, distraidamente.

- Volta pra terra, Hyoga! Assim você não me ajuda, atrapalha. Se ele acordar em frenesi por falta de sangue, pode matar nós três aqui! – Mu estava exagerando, mas era um fato que somente os três não conseguiriam segurar o ancestral Malkaviano, alguém certamente morreria até ele ser contido.

- Num exagera, Mu! – Hyoga respondeu mal humorado. – Vamos logo, tenho mais o que fazer do que ficar de babá de ancião.

Mu se limitou a mostrar uma expressão de desaprovação diante das palavras de Hyoga, pelo visto o clima entre ele e Shun não estava do jeito que o loiro queria que estivesse. Só um idiota não era capaz de perceber o quanto o loiro amava o Predestinado, e óbvio, que os Malkavianos eram tudo menos idiota. Ele só não entendia por que Shun não correspondia aos sentimentos do rapaz, às vezes até ele tinha dificuldades de ler os sentimentos de Shun, o fato do rapaz estar tão próximo da região proibida da Teia Malkaviana tornava-o praticamente indecifrável.

Mu jogou uma pesada corrente para Hyoga. Ela parecia pesada e realmente o era, mas para eles... Era como se fosse um pedaço de fio dental, de tão leve e frágil. – Vamos passar essa corrente ao redor do corpo de Shaka, vai nos dar alguns segundos para alimentá-lo e esperar que ele volte ao normal. – Começaram a dar voltas com a grossa corrente ao redor do corpo inerte. – Shun, você preparou a vitae? – Perguntou Mu se distrair do que estava fazendo.

- Preparei sim, Mu. – E tratou de tirar de sua mochila um jarro lacrado. – Hyoga vai remover a estaca, eu seguro Shaka e você despeja isso na boca dele, bem rápido, ok? Vamos ter apenas três segundos, na melhor das hipóteses. – Shun concordou com a cabeça. – Pronto. – Finalizou Mu, ao meu sinal, tire a estaca, Hyoga! Um, dois, três, vai!

Hyoga arrancou a estaca de uma vez. E tudo aconteceu rápido demais. Mu sentiu o corpo de Shaka estremecer. Ele abriu os olhos, tomado ainda pela Besta e encarou Shun que tratou de enfiar goela a baixo o sangue que acalmaria o ancião, ao menos era o que eles esperavam. Shaka se contorceu ante o gesto de Shun que sem pestanejar permaneceu firme em sua tarefa. Mu usava toda a sua força física para segurar o ancião, mas ele, conseguiu arrebentar as correntes e arremessou Mu contra a parede.

Hyoga já se preparava para estacá-lo novamente, quando Shaka pegou com uma das mãos o jarro das mãos de Shun e com a outra o jogou contra Hyoga, fazendo ambos caírem no chão. Shaka ao terminar de beber o conteúdo do jarro soltou um urro que fez os três tremerem.

Lentamente viram os ferimentos no corpo dilacerado de Shaka se fecharem. Onde os ferimentos foram mais profundos viram os ossos serem cobertos por músculos que foram cobertos por uma pele branca como papel. O tom e a postura bestial do Malkaviano foram dando lugar a uma postura altiva e tranqüila. Apesar do susto, tinham conseguido trazer Shaka de volta. Ele olhou ao seu redor e viu a expressão de alerta dos três.

- Só posso pedir perdão a vocês pelo dano que causei. – Falou fazendo menção de ajudar Shun a se levantar. No entanto, o Malkaviano não aceitou sua ajuda, apoiou-se em Hyoga e se levantou com o rosto fechado, uma cena rara, diga-se de passagem.

- Pra que tudo isso, Mestre? – Não se afastou de Hyoga. – Você e meu irmão quase se mataram ontem! Por quê? Por causa do orgulho de vocês? Se disserem que foi por minha causa... Não vou acreditar, já disse que odeio brigas!

- A única coisa que teu irmão entende é a linguagem do ódio e da intolerância. Não lutei com ele por prazer e sim por que me desafiou. Ele nunca vai aceitar seu abraço, Shun. Talvez agora ele pare com essas provocações bobas e aceite que você é meu filho, sangue do meu sangue e não apenas irmão mortal dele. Ciúmes? Isso faz sentido para você?

- Quantas dezenas de vezes já discutimos sobre as reações de Ikki por aqui? – Falou Mu, que se levantara e olhava agora para Shaka. – Shaka, você poderia ter causado uma catástrofe ontem! Onde já se viu? Seguiu o Ikki em frenesi! Só não foi pior por que Aioria percebeu alguns segundos antes de acontecer o pior.

- Não me venha com sermões, Mu! Nem você, Shun. E não me olhe assim, Hyoga. Eu tenho meu orgulho e não posso deixá-lo de lado diante de uma provocação coma a de Ikki. Já são vários anos ouvindo esse Brujah reclamando pelos cantos sobre o abraço de Shun que foi feito dentro de todas as leis da Camarilla! – E ele saiu do ambiente deixando os três Malkavianos a se olharem, chocados com a ausência da costumeira serenidade do mais antigo entre eles.

Shaka precisava de mais sangue. Antes que sua besta tomasse conta de seu corpo novamente. Se continuasse a discutir com Mu e Shun, certamente acabaria bebendo o sangue de seu próprio sangue. Com as vestes ainda em frangalhos, ele caminhava na penumbra do campus da Universidade.

Esperava que algum estudante descuidado cruzasse seu caminho, precisa, urgentemente de sangue, de vida. Sentia que estava cada vez mais difícil controlar sua Besta interior, a idade estava realmente começando a incomodá-lo. Tinha medo de que em breve o sangue humano não o satisfizesse e precisasse matar vampiros para beber seu sangue. E esse era seu maior temor, sua tentação. Já não sabia mais o que fazer para afastar aqueles pensamentos pecaminosos de sua mente!

Finalmente! Alguém vinha caminhando apressado no caminho pouco iluminado que levava a um dos bolsões de estacionamento da Universidade. Como um predador, ele observou os movimentos de sua presa. Estranhamente o mortal começou a caminhar mais rápido, quase correndo, parecia sentir seu fim iminente. Shaka observava tomado do estranho prazer da caçada, caçar para beber o delicioso sangue que corria nas veias daquele humano. Ele sentia o cheiro do medo tomar conta de sua vítima, podia ouvir o coração acelerado, o sangue pulsando nas veias. Aquilo era definitivamente o paraíso para aquele predador sobrenatural. Foi então que deu o bote, certeiro.

Agarrou sua presa, e com seus poderes mentais fez o homem não gritar. Cravou, sem dó, sem piedade, sem remorso algum suas longas e afiadas presas na jugular daquele humano. Finalmente aquela sensação indescritível causada pelo sangue fresco circulando em seu corpo, tomou-o por inteiro, acalmando seus instintos. E agora ele estava com o corpo inerte, morto daquele estudante e precisava livrar-se dele.

Mu e Shun estavam certos. Ele havia sido imprudente ao aceitar o desafio de Ikki, e isso só o deixou mais próximo da Besta, precisava dedicar-se agora a um profundo período de meditação para recuperar-se daquele baque. Matar um humano enquanto se alimentava estava se tornando cada vez mais freqüente, mas... Sentir prazer em fazer isso... Era a primeira vez. Sentia que aquela sensação poderia viciá-lo... E aí sim, tudo estaria perdido.

Aqueles dois Malkavianos eram seu elo de ligação com o mundo. Se dependesse dele, já teria se tornado cinzas, ou pior, cedido às tentações dentro do jogo de poder dos vampiros mais antigos. Ele poderia com seus poderes mentais subjugar qualquer vampiro em Chicago, tomar o controle da cidade e fazer o que desejasse. Mas, não. Não era isso que ele queria. Seu papel na Gehenna era outro. Era lutar contra seus iguais e impedir o fim de sua raça. Porém estava cada vez mais difícil. Mu e Shun mantinham-no ligado em sua missão maior, mas atualmente, o peso da idade estava se tornando um fardo muito pesado...

-o-

Chicago, Clube Masquerade, 22:30. 

- Como estou? – Perguntou Marin ao jovem de cabelos castanhos que a acompanhava.

- Está linda, Marin. Relaxa que o emprego será seu! – Respondeu Seiya, ajeitado o cabelo amassado pelo capacete que acabara de tirar. – Shiryu, você não concorda comigo?

- Ahhh eu concordo e tenho certeza de que o Aioria também concordou ontem à noite e concordaria se a visse agora, Marin! – E o outro Brujah colocou lenha na fogueira.

Seiya riu. – Marin, você enfeitiçou nosso ancião! Acha que isso é coisa que qualquer uma faz?

- Absurdo! Ele só queria beber meu sangue! Seu bando de vampiros safados! – Ela riu, lembrando-se da noite anterior. – Eu tenho certeza de que já estudei alguma escultura desse homem em algum livro sobre a Grécia clássica. – Brincou, ao lembrar-se que ele se dizia grego, apesar de não ter sotaque algum.

Marin era filha de imigrantes japoneses. Morava no bairro oriental, numa das partes mais barra pesada de Los Angeles, cresceu cercada de violência. E para sobreviver aprendeu a se defender. E não é exagero dizer que ela sabia se defender, e bem. Treinou artes marciais desde criança junto a seus cinco irmãos.

Como seus pais eram bastante ausentes andava junto com os irmãos e suas gangues. Aprendeu a usar armas e vivia de pequenos furtos realizados nos bairros mais ricos da cidade, por ser mulher, ninguém nunca havia desconfiado que ela uma ladra de mão cheia. Sua ficha na polícia era limpa, complemente limpa.

Mas ela queria mais do que viver de pequenos assaltos. Junto com os irmãos investiu o dinheiro dos roubos numa casa noturna alternativa para as novas bandas da cidade. E o negócio deu certo. Começaram a trazer bandas de outras regiões do país para tocar lá e fizeram fama no mundo undergroud de Los Angeles. Foi então que o Rage chegou para tocar lá e desde então ela não se separou daqueles garotos, que na verdade, não tinham nada de garotos.

Marin era apenas uma mortal ao contrário de seus amigos Seiya e Shiryu que eram Brujah e os Malkavianos Hyoga e Shun. A afinidade que ela tivera com os quatro músicos fora tão grande que resolveu acompanhá-los como “empresária” agendando seus shows durante o dia, enquanto passavam o dia dormindo tamanho o cansaço de noites em claro nos shows.

Não demorou muito tempo para que ela se tocasse que eles não eram normais. Não bebiam, não fumavam, não usavam drogas. Meio anormal no meio em que viviam, mas aceitável. Mas ela nunca os via de dia, nem comendo. O primeiro a notar que ela estava desconfiada foi Shun, sempre Shun. Era incrível como aquele rapazinho era sensível. Mas quem abriu o jogo com ela foi Seiya. E logo depois vieram os outros, até que aquela situação começou a parecer a coisa mais natural do mundo, para eles e para ela.

Não costumavam andar muito entre os vampiros da Camarilla, como neófitos eram desprezados. E quando o faziam, eles não a levavam, era perigoso. A única exceção aberta eram as haves dos Brujah, onde ela não corria o risco de ser destruída, pois estava sob a proteção deles.

Isso... Até chamar a atenção daquele ancião Brujah, Aioria. No começo ela sentiu medo quando ele se aproximou, mas esse medo se mesclou ao fascínio diante daquela figura tão máscula que a atraiu como se fosse um imã. Ela sabia que os vampiros possuíam poderes sobrenaturais, mas até onde conversou com Seiya e Shiryu, o ancião não usara absolutamente nada para encantá-la. Era algo diferente.

Ela não gostava de vampiros. Gostava de seus amigos, gostava do Rage. Achava os vampiros arrogantes, maus, sujos, bem diferentes dos seus quatro amigos. Mas... Aquele vampiro... Realmente havia mexido com ela. O engraçado era que ao contrário do que faziam, os “meninos” haviam incentivado o vampiro a se aproximar dela, geralmente eles a tiravam de perto de qualquer outro vampiro na hora, isso havia acontecido em pelo menos quatro cidades. E ela não estava entendendo nada.

Agora precisava se concentrar. Tinha uma entrevista com Verônica, a dona do Masquerade. Colocara sua melhor calça jeans, bota, top e jaqueta. Verônica estava atrás de alguém para administrar o Porão. Marin havia previamente se candidatado a vaga, aproveitando que seus amigos haviam decidido dar um tempo longe de Seatle.

- Meu cabelo tá bom mesmo? – Perguntou pela enésima vez para os dois japoneses que a acompanhavam.

Eles riram. Era engraçado ver Marin nervosa. – Está ótimo, japa girl. Vai logo, se não a perua vai te dispensar por chegar atrasada. – E Marin correu pra dentro do Masquerade.

Dois seguranças a revistaram e a acompanharam até o escritório de Verônica. Ela ficou impressionada com o tamanho do Clube Masquerade, e isso por que só tinha visto um pedaço do lugar. Estava tentando se concentrar na entrevista com dona do lugar, mas a lembrança daquele vampiro charmoso não saia da sua cabeça.

Finalmente pararam diante de uma enorme porta, um dos seguranças fez um gesto pedindo que ela entrasse. E ela entrou. O ambiente estava semi-iluminado, para dizer a verdade havia apenas uma única luz e ela não era suficiente para iluminar todo o lugar. Ela demorou alguns segundos para se acostumar com a pouca iluminação.

- Pode se sentar. – Ouviu uma firme voz feminina que parecia vir do fundo da sala.

Marin caminhou com passos firmes até uma poltrona em frente a uma enorme mesa de vidro. Atrás dela estava uma mulher belíssima de cabelos negros com a pele mais branca que ela já vira em sua vida.

- Você lutou na arena dos Brujah, não lutou? – Perguntou a mulher que a estudava com atenção.

- Sim, eu lutei e ganhei. Não levo desaforo para casa.

- O que você quer dizer com isso? Ele te provocou?

- Sim, foi muito grosso comigo, aí dei uma lição nele.

- E o Aioria?

- Como assim?

- Fiquei sabendo que depois que você saiu da arena ele só saiu do seu lado quase com o sol nascendo.

- Mais ou menos, já que eu estava com meus amigos do Rage. Creio que a senhora conhece. Nada mais natural do que eles que são Brujah se entenderem e como eu estava com eles... – Deu de ombros, tentando minimizar o efeito que a lembrança daquele vampiro lhe causava.

- Gostei de você. – Verônica falou depois de estudar as emoções que causara na mortal a sua frente. – É decidida, forte, e o melhor: humana. Pode lidar com os Brujah e o mortais encrenqueiros que freqüentam o Porão, acho que vai conseguir controlar as brigas que geralmente acontecem por lá.

Marin sorriu. – Tenho experiência em lidar com bêbados e encrenqueiros. Sejam vampiros ou humanos.

- Quando pode começar? – Perguntou objetivamente – Você fica com dez por cento do faturamento bruto do Porão. Só me presta contas mensalmente, tudo lá será sua responsabilidade. – Finalizou.

- Quando você precisa que eu comece? – Ela rebateu.

- Amanhã. Venha durante o dia para assinar seu contrato e resolver a burocracia com minha advogada. – Ela se levantou e estendeu uma mão para a japonesa que a cumprimentou.

- Também gostei de você, Verônica, bastante objetiva. Pensei que fosse uma perua que tinha um monte de regras banais.

- Já sei tudo o que preciso saber sobre você, só queria realmente vê-la pessoalmente. Cuide bem do Porão, gosto que o pessoal que freqüenta essa parte do clube seja bem tratado.

Marin deixou a sala, sorrindo. Fora mais fácil do que imaginara. Mas só de pensar que iria trabalhar para uma Lasombra... Sentia arrepios, mas não havia o que temer, desde que fizesse seu trabalho direito... Vampiros! Como eles eram complicados!

Tão logo Marin deixou a sala, Verônica foi se encontrar com Kannon e Saga na área Vip. Eles queriam saber quem era a mortal que Aioria havia ficado de olho, e ela mostrou-lhe quando Marin passava entre as mesas da Elite.

A noite anterior ainda não havia acabado e eles ficaram sabendo por seu informante na arena Brujah do combate da mortal com um Brujah. Logo em seguida da luta da Ventrue contra um Ancillae Brujah, depois as duas bombas da noite: Shaka e Ikki em frenesi e Kamus perdendo a luta para um neófito Toreador de maneira humilhantes.

Verônica, Kannon e Saga deram mais atenção ao que havia acontecido com Kamus, dado que, politicamente aquilo causara uma reviravolta em Chicago. Kamus estava incomunicável, mas segundo as fontes de Saga passara o dia junto com a Ventrue brasileira.

Menos mal e eles precisavam que as pessoas ficassem sabendo disso. Só que... Mu até agora... Não havia aparecido no Masquerade, Verônica iria adiantar parte do serviço de Mu e espalhar isso para os vampiros que aparecessem no Clube. E óbvio, que para Mu isso teria que parecer uma verdade e não uma mentira bem contada, por isso até agradeciam ao fato dele não ter chego ao clube.

– Soltemos então o boato de que Kamus brigou com o Toreador por que ofendeu sua futura noiva. Vamos dizer o motivo secreto de sua vinda a Chicago era para ficar noiva de Kamus seguindo uma Tradição. Atribuímos a vitória do Toreador aos poderes de sua presença sobrenatural. Isso ameniza o aspecto social da humilhação de Kamus. Mas o Toreador... Vai ficar em alta um bom tempo pelo visto... – Falou Kannon.

- Kamus pode não gostar. – Verônica falou.

- Ele não tem que gostar ou desgostar. – Kannon completou. – Eu avisei ao Saga que não era uma boa idéia mandar Kamus vigiar Aioria. – E olhou desafiadoramente pro irmão.

- Melhor você se conter, Kannon. Eu ainda sou o Príncipe por aqui. – Saga falou olhando com muita raiva para o irmão que se limitou a baixar os olhos. – Esse é o primeiro movimento, ainda temos muitos outros a fazer para não deixar que essa derrota ridícula de Kamus afetar a imagem dos Ventrue. Onde está a neófita? Quero falar com ela.

- Deixou o hotel logo depois de Kamus, veio até o Porão, mas como estava fechado, voltou ao Hotel. – Disse Kannon. – Obvio que eu coloquei alguém para vigiá-la!

- Mande buscá-la, imediatamente. – Saga falou com cara de poucos amigos. – Só essa que me faltava... Kamus é humilhado ao se deixar beijar e estacar por um neófito Toreador e uma neófita Ventrue que... Freqüenta festas de Brujah!

- Não exagere, Saga. Nós transcendemos o masculino e o feminino há muito tempo. – Falou Verônica, que não via nada demais no beijo que Milo dera em Kamus.

- O problema, minha adorada Verônica é que somos Ventrue e isso é inadmissível em público! Demonstrações de sentimentos. E tudo indica que Kamus deixou-se levar pela presença do Toreador e nós temos que mascarar isso de qualquer jeito! – Falou Saga, extremamente alterado.

- Você é Lasombra, não entende, não é? Ou faz de conta que não entende, Verônica? Kamus perdeu a luta, perdeu por que se deixou levar pelo beijo do Toreador, entende? Ele fraquejou como Ventrue! Por mim ele beija quem quiser, não me importa se é homem, mulher, ou uma vaca! Ele poderia ter usado seus dons de sangue para resistir! E agora nosso Clã será a piada de Chicago, mesmo que mandemos as harpias calarem a boca, ninguém segura os neófitos! – Kannon completou espumando de raiva.

- Seus escandalosos! Podem apostar que Kamus vai se voltar contra vocês por inventarem notícias. – Ela rebateu, olhando-os com censura.

- Acredite, é a única maneira que temos de amenizar o dano que esse Toreadorzinho grego maldito causou. – Saga finalizou tentando abraçar Verônica que se desvencilhou do contato.

- Ele vai receber status das harpias por sua ousadia, isso é uma certeza, e não podemos impedir. – Kannon falou e sorveu um gole do vinho em sua taça. – Tudo precisa de um motivo, e se eles querem uma história que seja como um folhetim, as massas adoram um folhetim, não soa bonito: Kamus lutou por amor, pela honra de sua noiva! Isso não fere sua masculinidade. As pessoas só se apegarão a derrota dele, menos humilhante, mas ainda assim, humilhante!

- Mas e a neófita? Vai concordar com isso? Sabemos que ela veio por causa das Harpias... Rapazes... Vocês estão mexendo com fogo... – Verônica finalizou levantando-se do sofá.

- Ela não tem que concordar ou discordar, minha querida. Ela simplesmente tem que seguir minhas ordens. – E Saga se levantou, tentando novamente abraçar Verônica, que mais uma vez se afastou do contato.

Kannon também se levantou e não perdeu tempo e segurou-a pelos braços. – Não fuja! – Ordenou.

- Kannon, esqueceu que não pode me dominar? – Ela riu. – Adoro quando você fica mal humorado e mandão.

- Você está brincando com fogo, Verônica, hoje eu estou sem paciência para jogos!

- Nem eu! – E ela usou sua força sobrenatural para jogá-lo sentado no sofá e logo em seguida sentou em seu colo, prendendo seus braços.

- Você pode ser extremamente resistente, mas eu sou mais forte do que você! Se quiser descontar suas frustrações em alguém não venha para cima de mim, se não eu te dobro em mil pedacinhos, entendeu? - E ela saiu de cima dele, deixando-o com cara de tacho.

Saga estava se divertindo com a cena. Adorava quando Kannon e Verônica começavam a se agredir fisicamente, seu lado sádico se divertia (e muito) quando os dois começavam a se atracar. Os Ventrue possuíam a resistência sobrenatural que tornava sua pele dura como o aço. Já os Lasombra possuíam a força capaz de atravessar o aço e isso tornava qualquer confronto, mesmo que amigável em algo bem doloroso. Mal percebeu que Verônica o encarava com os olhos faiscando, cheios de raiva.

- Não me olhe como se estivesse se divertindo com isso, Saga!

- Mas eu estou me divertindo. – Ele provocou ciente do perigo. Quanto mais perigoso, melhor.

- Vocês estão intratáveis hoje! – E ela deixou a sala vip, pisando pesado.

Os dois se olharam e começaram a rir.

- Adoro quando ela fica bravinha! – Saga falou sentando-se no sofá.

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