World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
CAPÍTULO III - Movidos pelo desafio

Chicago, dias atuais, Clube Masquerade, aproximadamente uma da manhã.

- A área Vip está em ordem, não? – Perguntou Verônica a uma garçonete descalça que usava um micro vestido de couro e uma mordaça.

Ela se limitou a concordar com um gesto de cabeça. – Você, Suzan e Paul servirão ao Príncipe e ao Senescal essa noite, agora saia daqui. – Disse com impaciência enquanto voltava-se a estudar os monitores de segurança sem deixar de afagar a ponta de seu querido chicote.

Como não queria encrenca com os Brujah, resolvera não abrir o Porão naquela noite. Pelo contrário, Verônica gostava muito da companhia dos Brujah tanto quanto gostava da companhia dos Ventrue ou Malkavianos. E todos, por mais diferentes que fossem adoravam Verônica e a pérola da Camarilla de Chicago: o Clube Masquerade, um reduto para diversão, política e prazeres vampíricos freqüentado por praticamente todos os vampiros de Chicago.

Quer saber o que está acontecendo? - Vá ao Masquerade. Precisa encontrar alguma coisa ou alguém? - Procure no Masquerade. Quer aparecer? - O Masquerade é o lugar certo. Precisa de sangue pra se alimentar? - Fale com Verônica. Era o que as harpias diziam e os vampiros concordavam com elas.

Excêntrico em seu público, excêntrico em suas formas. O clube era, arquitetonicamente uma mistura do clássico e do que existia de mais moderno em arquitetura. Quando a cidade fora praticamente destruída num grande incêndio em 1871 arquitetos e engenheiros de renome reconstruíram a cidade e deram vida a um estilo próprio, o estilo de Chicago. E o Masquerade era uma verdadeira jóia arquitetônica de cinco andares (e subterrâneos) a representar majestosamente a cidade global governada por Saga.

O clube se dividia basicamente em três partes principais: o Porão, a Elite e a Pista de Dança. Havia também uma extensa área subterrânea de acesso muito restrito onde estavam o Museu Particular de Verônica e a Salas de Prazeres, também chamadas de Dungeons.

O Porão era o território preferido dos Brujah, Gangrel e vampiros mais interessados em sons pesados, e às vezes uma ou outra pancadaria, e shows de bandas alternativas. Situado nos fundos do clube tem uma entrada própria e até mesmo uma administração a parte e no momento Verônica estava quebrando a cabeça para encontrar alguém capaz de apartar as brigas que sempre aconteciam no lugar. O Porão tem dois andares, o primeiro fica ao nível do solo e serve de pista e o segundo é carinhosamente apelidado de “Fosso” que fica em nível subterrâneo. Um mezanino no primeiro andar permite que as pessoas vejam quem está no Fosso que abriga o palco e a principal pista de dança, ou melhor, “bate cabeça”, por que para ficar ali... Tem que ter coragem.

Existe acesso do Porão para outros setores do Masquerade que são, obviamente, altamente vigiados por seguranças bastante conhecidos por sua “eficiência”. Se houver a quebra das regras do Clube, os segurança de Verônica (ou a própria) fazem questão de dar uma lição no engraçadinho e colocá-lo pra correr do clube para nunca mais voltar.

A entrada principal do Masquerade dá acesso a Elite, apelido que recebeu devido ao tipo de pessoas que freqüentam o lugar. Essa área do clube é composta por dois espaços relativamente parecidos e interligados.

O ambiente principal tem várias mesas que comportam aproximadamente cinco pessoas, um imenso bar (considerado um dos melhores de Chicago) e um palco. E claro, as cabines. Usadas exclusivamente por vampiros que desejam privacidade ao tratar de seus negócios ou se alimentar do delicioso vitae (sangue). Os shows na Elite são geralmente acústicos ou releituras de clássicos modernos de jazz, blues e soul music.

O segundo ambiente é praticamente idêntico ao primeiro, com exceção, da presença do palco e pode ser fechado para comportar festas privadas, e que é muito usado pelo clã Toreador e suas inesquecíveis festas.

O que realmente chama a atenção na Elite é a exótica decoração, uma demonstração clara do gosto pessoal de sua proprietária: o predomínio do vermelho e preto, esculturas bizarras e pinturas surreais se mesclam com a presença de correntes no teto e seis gaiolas suspensas onde homens e mulheres de corpos esculturais usando trajes mínimos dançam sensualmente ou protagonizam cenas BDSM para deleite de seus freqüentadores. Ser diferente é estar na moda e em Chicago não havia nenhuma casa noturna tão exótica como o Masquerade.

Os garçons e garçonetes usam minúsculas roupas de couro e coleiras, às vezes amordaçados ou usando algemas nas mãos e pés. Os seguranças usaram roupas de couro escuro que deixam a mostra (para intimidar) suas armas e outros artefatos curiosos que certamente servem para torturar engraçadinhos que quebrem as regras do clube.

Finalmente o mais eclético ambiente do clube: a Pista de Dança. Geralmente o ponto intermediário entre a Elite e o Porão. Aqui, os mortais predominam e um DJ localizado numa torre entre o primeiro e segundo andar manda ver em techno e musica industrial, indo de Sister of Mercy e Depeche Mode até Ministry, tudo depende da programação da noite, que nunca deixa a desejar.

No terceiro andar, dono de uma vista tridimensional, fica a sala VIP, usada por pouquíssimos membros. Do lado esquerdo vê-se a Elite, ao centro a Pista de Dança e a direita um pequeno pedaço do Porão. Também nesse andar encontram-se escritório de Verônica e a Sala de Segurança.

Os quarto e quinto andares são de acesso restrito a praticamente qualquer pessoa. Lá ficam os aposentos de Verônica e a Sala de Observação, onde Verônica monitora praticamente tudo o que acontece no clube através de pequenas câmeras de segurança. Verônica viu através do monitor que Saga e Kannon estavam entrando no clube.

Certificou-se mais uma vez que os submissos estavam prontos para servi-los e checou sua imagem no espelho. Se os vampiros geralmente são pálidos, sua pele era ainda mais e com o agravante de ser sensível a qualquer luz (mesmo artificial) que fosse um pouco mais intensa. E essa “doença” aliada a sua predileção por roupas de couro ou longos vestidos de seda escuros mostravam a beleza irreal daquela vampira de cabelos negros e olhos castanhos geralmente escondidos por óculos escuros, tamanha era a sensibilidade de suas pupilas diante de luz.

Ela entrou no elevador e desceu até a sala vip onde os gêmeos acabavam de entrar, sendo seguidos pelos submissos que ela designara para atendê-los. Saga e Kannon sentiram o familiar cheio de Verônica e se viram para encará-la.

Naquela noite em especial havia se produzido, pois sabia que Saga e Kannon iriam ao Masquerade e certamente não estariam de bom humor. Usava uma blusa de couro com corte chinês fechada até o pescoço, sem mangas. No pescoço carregava as chaves das algemas de seus submissos e da sua Dungeon particular. Usava uma leve saia rodada em seda vermelha e nos pés uma bota de vinil que ia um pouco acima do joelho e com um desproporcional e elegante salto agulha. Presa na lateral de sua blusa estava seu chicote preferido. Os cabelos negros estavam levemente desalinhados em um coque preso com uma espátula de marfim.

Quase boquiabertos, os dois encararam Verônica. Ela realmente sabia agradá-los.

- Dizer que você está bonita é redundante, querida. – Falou Kannon, quase a devorando com os olhos. Verônica deu alguns passos o encarou e deu aquele sorriso que era capaz de derreter seu coração.

Ela aproximou os lábios do rosto dele e o beijou demoradamente na face. – Vindo de você é mais que um elogio, Kannon. – Sussurrou com seu leve sotaque espanhol. – Incrível como, passados tantos anos, ela ainda tinha aquele encantador sotaque! – Pensou Kannon.

Saga estava de pé, olhando Kannon e Verônica tão perigosamente próximos que, se fosse vivo, teria respirado fundo para conter a excitação de ver seu gêmeo junto daquela beldade em forma de mulher. Era uma cena surreal, belíssima.

E foi ainda mais surreal quando ela, felinamente caminhou na direção dele tirando o chicote da cintura e acariciando a ponta daquela peça. Uma série de pensamentos eróticos tomou conta de sua mente. Verônica era realmente única, especial e ele a amava.

Ela se aproximou dele, o perfume intenso fazia seu sangue se acelerar nas veias. Ela colocou seus lábios gelados em seu rosto e sussurrou alguma coisa em seu ouvido, mas ele só conseguia pensar no que poderia fazer com aquele corpo esguio e pálido. Saga, a abraçou e encostou os lábios em seus cabelos. – Verônica, pare com isso ou eu não me responsabilizo por meus atos. – Sorriu finalmente, afastando-a de si.

Kannon sentiu uma pontada de ciúme diante da cena, não sabia dizer exatamente se era por que Saga a abraçara ou por que ela lhe dera mais atenção. – Verônica, eu senti sua falta. – Falou Kannon, tentando quebrar o clima do ambiente.

Eles se sentaram nos confortáveis sofás vermelhos da sala vip. Verônica ao centro dos gêmeos. Foram servidos pelos submissos e ela finalmente respondeu. – Você é sempre tão ocupado, Kannon... Sabe que estou aqui todas as noites, esperando por você e... Você. – Falou para Saga que quase se engasgou com o vinho.

Ah, sim, ela amava aqueles gêmeos. Eles eram iguais fisicamente, mas... Tão diferentes intimamente. E aquele jogo de sedução que viviam já durava tantos anos, era tão excitante, tão dolorido, mas não conseguiam parar, era um vício. Um vício que os três tinham em comum, quem cederia primeiro? Esse era o jogo, e nenhum dos três, orgulhosos e dominadores como eram, estavam dispostos a dar o braço a torcer. E isso tornava as coisas ainda mais intensas, divertidas, eróticas.

Um erotismo que dificilmente deixaria suas mentes e se transformaria em uma realidade. E sabendo disso, Verônica se dedicava a alimentar aquela tensão simplesmente deliciosa que existia entre eles. – Tenho uma pequena surpresa para vocês, meus amores. – Ela falou após dar uma ordem a um dos submissos.

- Estão preparados?

Os dois sorriram ao mesmo tempo, concordando. Ah, aquele sincronismo era indescritivelmente excitante. Ambos já estavam mais relaxados nos sofás, o que dava a Verônica a vontade de arrancar-lhes as roupas e testar os limites daqueles dois Ventrue tão divinamente deliciosos. – Fica calma, Verônica, esse jogo você não vai perder! – Pensou, se torturando.

Duas figuras mascaradas, vestindo um longo manto preto entraram na sala vip ao mesmo tempo em que uma forte música começou a tocar. Os movimentos daquelas figuras eram perfeitamente sincronizados com a envolvente música que gradualmente adquirira um tom sensual. As capas, antes fechadas, foram arremessadas ao chão, revelando corpos divinamente esculpidos de um homem e uma mulher que ao ritmo da música começaram a se tocar e se excitar na frente dos três.

Saga e Kannon estavam tendo seus limites testados. Usando seus dons sobrenaturais iniciaram uma conversa telepática.

- Saga, agora a Verônica ultrapassou os limites, não estou me agüentando mais!

- Nem eu! Céus, o que é que ele ta... Nossa. Precisamos dar um jeito nessa mulher!

- Mas se fizermos com ela... Nós perdemos, Saga! Vamos... Pegar os mortais, quem você quer?

- Eu quero a mulher, preciso ver melhor aqueles piercings que ela tem nos seios...

Verônica olhou divertida com o canto dos olhos a expressão de cada um dos gêmeos. Notou o quanto eles estavam se segurando para não perder o controle e olhavam hipnotizados para o ato sexual protagonizado como um balé pelo casal mascarado a sua frente.

Tão logo a “dança” terminou, o casal ajoelhara no chão, os dois ao mesmo tempo se levantaram e cada um se colocou na frente de um dos dançarinos.

- Levantem-se. – Falaram ao mesmo tempo. E eles se levantaram. Seus corpos suados, seu sangue acelerado fizeram com que seus caninos crescessem prontos para beber o sangue daqueles mortais que se entregavam inteiros aos vampiros.

E os dois não perderam tempo. Cravaram suas presas brilhantes no pescoço do casal. E aquela incomensurável sensação de vida percorrendo seus corpos os invadiu. Era como se... Naqueles breves segundos de êxtase seus corações voltassem a bater e eles fossem tão mortais quanto seu alimento.

Ao mesmo tempo tiraram as presas dos pescoços de suas vítimas, e gemeram, declarando o prazer que aquele sangue quente, carregado de hormônios potencializados pelo sexo feito pouco antes lhes dava.

Seus olhos estavam sobrenaturalmente assustadores, tamanho o desejo que continham, era como se a razão os tivesse abandonado e nada mais houvesse no mundo a não ser... Prazer. Olharam para Verônica que extasiada assistira a cena. Eles eram realmente encantadores.

- Apreciaram seu jantar, meus amores? – Perguntou, tentando fazê-los voltar a si.

- Verônica, você é realmente má. Faz tempo que não tenho um jantar tão... Delicioso! – Disse Saga encarando-a ainda com resquícios de desejo nos olhos.

- Tenho que concordar com Saga. Você está tornando nosso jogo cada noite mais perigoso! – Sorriu enquanto se aproximava dela pela frente.

Altiva, ela encarou Kannon e sorriu felinamente. – Mas Kannon, não é o perigo que nos aproxima? – Concentrada, não percebeu a aproximação de Saga, por trás. Céus! Eles estavam cercando-a.

- Somos movidos pelo desafio, querida Verônica. – Sussurrou Saga em seu ouvido.

- E você, sem dúvida, é o maior desafio que já encontramos. – Falou Kannon aproximando os lábios dos dela. Verônica sentiu o hálito fresco de vitae nos lábios de Kannon e precisou gastar muito de seu autocontrole para não se jogar e explorar aquela boca.

- Meus queridos, sabem o quanto os amo, não? – Ela disse quase em um gemido. – Mas... Desculpem-me... Essa noite não cederei aos encantos de vocês.

- Como não cedeu nos últimos quinhentos anos... – Sorriu Kannon. – Já ouvi isso tantas vezes... – Falou sem esconder a decepção.

- Você não acha que está na hora de se entregar, Verônica? – Murmurou Saga, encostando seu corpo ao dela.

- Saga, você tem modos muito interessantes de argumentar. – Falou enquanto dava um passo para desvencilhar dos gêmeos. Em seus olhos castanhos era possível ver o quanto aquele contato com os dois a abalava.

- Até quando, Verônica? – Sussurrou Saga ajeitando os cabelos. – Sabe que a amo, por que não se entrega?

- Eu também te amo, Verônica... Por que você é que não desiste?

- Eu não sei se continuaríamos a nos amar, se eu desistisse ou se um de vocês desistisse. – Olhou para os dois. – Se nosso jogo acabasse. Eu não sei o que aconteceria... - Falou com sinceridade. – Somos almas solitárias, torturadas e idealizamos um amor, é platônico! É ideal, perfeito por que sempre vivemos assim a provocar os limites uns dos outros. Se acordarmos juntos um dia, quem garante que essa magia sobreviverá?

- Eu sei o que sinto por você, Verônica. E tenho certeza de que estou falando pelo Kannon também. – Encarou o irmão que concordou com a cabeça. – Acreditamos que nosso sentimento por você é muito maior do que essa parte de nossas personalidades que nos impele a dominar e competir. Está acima de nosso clã ou de seu clã...

- Isso é um tempero que mostra que fomos... - Apontou para si e para Saga.

- Feitos para você. – completou Saga devorando-a com os olhos.

- Vamos acabar com isso, entregue-se, sua espanhola teimosa! – Kannon falou aumentando o tom de voz.

- Não, meus amores. Prefiro não arriscar para não perder nenhum dos dois. – E ela pegou o chicote e estalou-o. – Qual dos dois vai se entregar? Ou os dois vão? – Falou com os olhos brilhando.

- Não, nunca! – Responderam ao mesmo tempo.

- Muito bem, era isso que eu esperava ouvir de vocês. – Beijou novamente cada um em sua face e antes de sair do ambiente, colocou a perna sobre o sofá para arrumar a bota. Os dois não conseguiam tirar os olhos da perna dela.

Sem pressa, Verônica executou aquela arrumação como se fosse a coisa mais banal do mundo, mas no fundo querendo realmente provocá-los. – Espero que se divirtam essa noite, Príncipe Saga e Seneschal Kannon.

Fez uma mesura em sinal de respeito a posição deles e saiu, deixando os dois irmãos a olhar um para o outro com caras de bobos.

- Essa Lasombra ainda me paga! – Falou Kannon.

- Eu vou pega-la, vou sim, eu juro! – Falou Saga coçando a cabeça.

- Lembro-me como se fosse hoje quando nós a conhecemos em Lisboa. – Disse Kannon se sentando.

- Eu podia jurar que ela era Toreador. Mas aí nós a reencontramos em Madri e... Foi tão divertido.

- Não pensei que ela fosse tão teimosa!

- Eu acho que estávamos mais interessados em conseguir aliados pra Camarilla do que em questionar o fato dela ser filha de Monçada.

- Mais foi por nossa causa que ela renegou o seu clã e o Sabbat.

- Fomos vitoriosos nisso e nada do que Verônica faça vai mudar isso.

- Nunca um Ventrue irá se dobrar a um Lasombra, nunca!

Sorriram, um para o outro e dedicaram-se a estudar o ambiente da Elite. Reconheceram vários membros da Camarilla de Chicago e trocaram impressões a respeito deles.

Verônica era o grande amor de suas vidas, mas tão impossível quanto misturar água e óleo. Ninguém, absolutamente ninguém, tinha conhecimento dessa relação que os dois mais poderosos Ventrue de Chicago mantinham com a Lasombra proprietária do Masquerade.

Seus clãs eram arquiinimigos, até mais do que os Brujah que eles consideravam, hoje em dia, uma ralé. Mas que no passado... Foram capazes de quase exterminar o clã Ventrue, quase.

Os Lasombra eram como os Ventrue, poderosos, nobres, e lideravam o Sabbat nos últimos quinhentos anos. Diferenças ideológicas? Muito mais do que isso. Enquanto o símbolo dos Ventrue era a coroa, o dos Lasombra era o cetro. Sua disputa de poder era milenar, Roma que o diga...

Os Ventrue haviam conseguido destruir os Brujah na Grécia e Cartago, literalmente acabaram com os filósofos. Até a queda de Cartago que selou a supremacia dos Ventrue, os Brujah eram os mais sábios pensadores a guiar a humanidade. Atenas e toda a filosofia que moldou o ocidente fora uma obra dos Brujah, seu legado para a humanidade.

Aioros e Aioria eram os únicos que havia sobrevivido há esses tempos e procuravam preservar o legado do Clã do Conhecimento que hoje não era mais do que um mero agrupamento de homens e mulheres revoltados com o “sistema”. Mas no fundo de cada Brujah sempre existiria aquela chama invisível que leva o homem a buscar o conhecimento, a se dedicar ao aprimoramento e tornar o mundo um lugar melhor, os velhos Brujah lutaram por isso e para isso.

Dessa maneira controlavam o sistema educacional de Chicago e nutriam um especial carinho pela Biblioteca Central de Chicago, uma das maiores da América com a bagatela de seis milhões de livros. Aiolos não saia de lá há anos, Kannon e Saga tinham certeza, pois se encarregaram em manter uma forte vigia nos arredores.

Aioria por sua vez mantinha um grande controle sobre a Universidade de Chicago, com cerca de vinte e cinco mil alunos. Ele adorava se misturar aos estudantes e fazia longos discursos políticos incitando-os a terem consciência de seu papel na sociedade. E claro que isso não era nem um pouco apreciado pelos Ventrue. Estudantes e manifestações definitivamente não faziam bem aos negócios.

Com os Lasombra era diferente. A luta era mais complexa. Não se tratavam de opostos, mas iguais. Enquanto os Ventrue comandaram o Império Romano em seu auge, sistematicamente os Lasombra deram-lhe uma bela rasteira fazendo com que seu Império caísse e dominando por mais de dez séculos praticamente todo o ocidente.

Os Lasombra buscaram a força na fé e nela mostraram como era fácil controlar a humanidade. Ninguém, absolutamente ninguém era capaz de lidar com os Lasombra no auge da Idade Média. E Verônica era uma Lasombra. Filha de um dos mais temidos e influentes Lasombra do mundo, o Arcebispo de Madri, Ambrosio Luiz Monçada.

Em 1190, Verônica chegou a seu monastério de Monçada. Filha do Rei e herdeira do trono. Seu pai, o rei Afonso mandou-a ao monastério de Monçada para que ela se tornasse uma freira, haja visto que ela não aceitou o casamento arranjado e era dada a combates, coisa que não caia bem a uma mulher, principalmente uma princesa.

Se considerarmos a época em que Verônica viveu como mortal é muito fácil perceber que desde cedo ela não era uma nobre comum, aliás, nada comum. A pequena princesa era geniosa e de temperamento forte, e sua beleza perturbava os padres do monastério. Mas o arcebispo tinha outros planos para a princesa espanhola, ele iria abraçá-la para que pudesse tornar-se mais um peão em seu imenso xadrez de almas. Monçada abraçou Verônica, mas não imaginou que ela pudesse tornar-se sua pior inimiga.

Verônica queria liberdade e finalmente fugiu, depois de lutar com os lacaios de Monçada que tentaram impedi-la. Quando Monçada foi avisado que sua filha favorita tinha fugido, ele entrou em uma cólera sanguinária e pela primeira vez sucumbiu ao frenesi matando seis padres de uma só vez. A partir daquele dia ele odiaria Verônica como odiava aos Ventrue que tanto atrapalhavam seus planos. E Verônica por séculos viajara pela Europa, finalmente aproveitando sua liberdade, como seu clã era indiscutivelmente odiado e poderoso ela se apresentava como uma Toreador.

Mas não conseguiu enganar os gêmeos quando se encontraram em Portugal pouco antes da fundação da Camarilla. E então eles se reencontraram no coração do poder Lasombra e a máscara de Verônica foi ao chão e em Madri, eles começaram o jogo que daria sentido a suas pós-vidas.

Os três eram orgulhosos demais, mas se amavam verdadeiramente. Sempre indo ao socorro uns dos outros quando necessário. Kannon e Saga ajudaram Verônica a matar Monçada e ela lhes ajudou muitas vezes entregando lideres Lasombra do Sabbat e assim eles aumentaram sua fama dentro da Camarilla.

Eles a ajudaram a esconder por vários séculos seu clã verdadeiro e finalmente no final do século vinte ela passou a integrar oficialmente a Camarilla como uma Lasombra antitribu. Um seleto grupo de Lasombra que renegava seus companheiros dentro do Sabbat e era completamente leal à Camarilla, seita criada pelos Ventrue. Obviamente esse avanço não significou que Lasombra antitribu e Ventrue finalmente deram as mãos. Pelo contrário. Os Ventrue os desprezavam e não confiavam em hipótese alguma naquelas figuras que controlavam as sombras do Abismo. Para todos os efeitos, eles ainda eram inimigos, inimigos de morte. Mas... Quem disse que o amor pensa nessas disputas? Kannon, Saga e Verônica eram a prova viva disso.

-o-

Chicago, zona industrial próxima as margens do Lago Michigan, dias atuais, aproximadamente uma e quinze da madrugada.

Ikki e Shaka subiram na arena. Pareciam ignorar que houvesse uma imensa platéia a cercá-los e a realizar apostas, muitas apostas.

Definitivamente seria um combate quente. O Brujah odiava Shaka do fundo do coração por ter transformado seu irmão mortal em um Malkaviano e dessa vez aproveitara a presença do Malkaviano na Have para desafiá-lo.

Shaka por sua vez já esperava que aquele Brujah individualista e mal humorado cedo ou tarde o desafiasse e definitivamente estava disposto a enfrentá-lo para resolver de uma vez aquela situação que já vinha se arrastando há muito tempo.

Odiava ver seu pupilo triste e o fato de que seu mestre e irmão de sangue não se entendiam realmente o entristecia. Shaka o abraçara após um momento de iluminação, Shun teria um papel definitivo na Gehenna que se aproximava e precisava ser preparado para evitar uma catástrofe épica que acabaria com todos os vampiros.

Por mais que Shaka tivesse explicado a Ikki o papel de Shun no futuro de todos os vampiros, Ikki, um homem de pouca fé, não aceitara. Mas felizmente parecia que Shun ao ter o sangue Malkaviano nas veias entendia sua missão e dedicava-se com todas as forças a se preparar mentalmente para o que estava por vir, mas nada, absolutamente nada que ele falasse ao teimoso irmão o convenceria do contrário. Se Ikki pudesse, teria mandando Shaka pro Abismo.

- Vamos, Shaka, pode me atacar! – Falou empertigado o Brujah interrompendo os pensamentos do Malkaviano.

- Atire a primeira pedra, Fênix! – Gritou o profeta Malkaviano.

Fênix correu, usando sua velocidade sobrenatural, para cima do Malkaviano. Shaka não teve tempo de se defender, não esperava o ataque tão direto dos punhos de Ikki que o acertaram em cheio no rosto arremessando-o contra uma pilastra. Shaka se levantou, sem nenhum arranhão e Ikki arregalou os olhos.

- Está feliz agora, Ikki? Vamos, pode bater mais que eu to deixando! – Falou tirando o pó do concreto da roupa.

- Maldito! – Falou Ikki arremessando-se com fúria em cima do Malkaviano, dando-lhe uma seqüência de socos e chutes que Shaka habilmente defendeu.

Os presentes estavam indo ao delírio com a luta de um dos Brujah mais fortes de Chicago com o poderoso Primogênito Malkaviano, quem não estava gostando nenhum um pouco daquela luta era Shun que escondia o rosto no tórax de um companheiro de seu clã que ao vê-lo tão desesperado veio ao seu encontro abraçando-o.

Aioria observava já imaginando o final do combate. Alguém iria morrer naquela arena, ele só não sabia dizer quem. Ikki era seu braço direito dentro do clã Brujah e não era fraco, pelo contrário, ele mantinha a ordem entre os mais jovens e rebeldes, pois era notório que seu clã era conhecido por sua violência e frenesis destrutivos. Ikki era muito obstinado, e devotando-se à sua causa até se tornar cego a todas as outras nuanças da verdade e isso o levara a cometer aquele ato de insanidade ao enfrentar Shaka por causa do abraço de Shun.

E eles se socavam, se chutavam com vontade. E numa velocidade impressionante, difícil de acompanhar, estavam gastando muito sangue para usar seus dons sobrenaturais, em algum momento o sangue iria acabar e um dos dois iria entrar em frenesi. Aioria ficou branco. Era isso que Ikki queria, chegar ao frenesi para animalescamente atacar Shaka que estava tranqüilamente vencendo o combate.

- Máscara, Aldebaram! – Gritou Aioria. – Os dois olharam na direção do Brujah. – Fiquem a direita e a esquerda da arena que o Ikki vai entrar em frenesi e pode matar alguém! Vamos pegar ele quando for pra cima do Shaka!

Tarde demais. Ikki sucumbiu à Besta e Shaka não teve mais condições de se defender, tamanha era a violência que tomou conta do corpo de Ikki, a Besta assumiu o controle do corpo do Brujah e ele dilacerou o corpo do Malkaviano, ambos caíram no meio da multidão que tentava se safar da fúria do combate, em vão.

Shaka ao perceber que o Brujah sucumbira ao Frenesi, não pensou duas vezes. Iria até o fim agora. Concentrou-se e induziu sua mente a despertar a sua Besta interior. O que se viu a seguir foi uma cena medonha. O Malkaviano tomado por seu mostro interior, arremessou Ikki para longe e começou a atacar quem estivesse próximo. Ikki ao se levantar também atacava quem estivesse a sua frente. Os dois perderam o controle e precisavam ser contidos.

Máscara e Aldebaram pularam em cima de Ikki que os arremessou longe. Eles não demoraram muito e se atracaram novamente, dessa vez conseguindo conter os braços dele, enquanto um terceiro Brujah enfiava uma afiada estaca no coração dele, finalmente paralisando-o.

O que Aioria não contava era com o frenesi de Shaka. Um Malkaviano velho como Shaka em frenesi era de dar medo.

- Kamus, me ajude a parar o Shaka! – Gritou, jogando uma estaca pro Ventrue. – Milo sai daí! – Gritou para o Toreador que estava completamente perdido em meio à confusão que se instalara no galpão.

Milo jogou-se ao chão e puxou alguém que estava ao seu lado que seria atingido por Aioria. Caíram juntos e sentiram o vento de Aioria passar por cima deles e logo em seguida outro vento, o Ventrue a quem Aioria pedira ajuda.

Kamus estava com a estaca pronta para enfiar no peito de Shaka, mas Aioria estava tendo muitas dificuldades em segura-lo. Se Mú não chegasse para ajudar o Brujah, eles não conseguiriam parar o Malkaviano.

- Estão olhando o quê? – Gritou Aioria. - Vão lutar seu bando de desocupados! A noite acabou de começar, criançada! Foi empate, entenderam? E-M-P-A-T-E! – Pegou o que sobrara do corpo de Shaka para colocá-lo junto ao resto do corpo de Ikki, lado a lado em um canto do galpão, quando a noite terminasse, tentaria reanimar os dois, mas por enquanto ficariam de “castigo” por terem agido como dois insanos. – Mas o Shaka é insano mesmo! Ele é Malk! – resmungou enquanto voltava mais uma vez a atenção para a arena. Agora estavam todos animados e havia filas para as próximas lutas. – Se alguém mais entrar em frenesi, eu mato! – Gritou, tentando esconder o sorriso.

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