World of Darkness by Nuriko Riki Alexiel
CAPÍTULO II – Em algum lugar do passado

Chicago, dias atuais – aproximadamente meia-noite e meia.

Os Ventrue se retiraram por uma saída diferente da que foi usada pelos demais. Saga se virou para Kamus.

- Tem algum compromisso inadiável essa noite, Kamus?

- Não, Saga. Quer discutir algo?

- Não exatamente. Gostaria de te pedir para ficar de olho em Aioria. Sei que você é mais diplomático que eu e se dá melhor com ele, lutaram na Revolução Francesa e também na Russa, não foi?

- Sim, nós lutamos. Não será nenhum sacrifício fazer o que pede.

- Pode começar pela Rave dos Brujah?

- Sim, estou mesmo precisando praticar um pouco de defesa pessoal. – Sorriu. Um sorriso educado, gélido, sem emoção alguma. Definitivamente sua especialidade.

- Obrigado, Kamus. Sabia que poderia contar com você. – Virou-se para encarar o irmão. - Kannon, tem o endereço da festinha dos Brujah?

- Claro, Saga. – Virou-se para Kamus. – Tome, Kamus. Tenha cuidado, existem Brujah de outras cidades nessa reunião deles e, bem, você sabe, eles adorariam pegar um Ventrue...

- Não se preocupe, Kannon. – Pegou o papel. – Eu me garanto. – Virou-se e entrou no elevador, sem esboçar nenhuma emoção.

Saga riu. – Kannon, você teve coragem de falar uma coisa dessas pro Kamus? Esqueceu que ele é um caçador de Garous?

- Cuidado nunca é demais, meu irmão. Vai que o velho caçador se torna presa? – Ambos olharam o elegante Ventrue entrar no elevador. – Não entendi por que você o mandou ir até lá, temos nosso informante entre os Brujah.

- Eu sei disso, mas o Kamus... não sabe. E também é uma forma de testar a lealdade dele, irmãozinho.

Alguns minutos depois...

Kamus entrou em sua limusine estacionada no subsolo, deu o endereço para seu motorista e mergulhou em seus pensamentos. Os olhos daquele Toreador trouxeram lembranças de uma vida que um dia ele tivera.

- Danielle... – Sussurrou, cerrando os olhos e uma furtiva lágrima de sangue rolou por sua alva face.

-o-

Ducado de Strasbourg, Reino Franco, 732 D.C. – 04 horas da madrugada.

Mal o galo cantara e o Duque do próspero feudo de Strasbourg já se encontrava acordado. Beijou levemente a face de sua amada esposa e se levantou.

Embora tivesse seu próprio quarto preferia dormir com a esposa sempre que podia. Sentia sua consciência pesada por estar sempre viajando aos cantos mais distantes de suas terras e principalmente, participando de infindáveis batalhas em nome de seu Suserano.

O Reino Franco estava sendo tomado pelos mouros e novamente Kamus fora convocado para batalhar. Tão mergulhado em seus pensamentos ele estava que não notou a aproximação de Danielle que o abraçava por trás.

- Kamus... – Ela sussurrou, apertando-o contra si.

- Não queria te acordar, Danielle...

- Pensou que iria partir sem se despedir de mim, meu marido?

- Nunca, meu amor! – Ele se virou e tocou seus longos cabelos claros como o trigo. Encarou-a admirando seus intensos olhos azuis. – Ahhh Daniele, não me olhe assim... – E beijou-a com intensa paixão e pela segunda vez naquela noite fizeram amor.

Duas horas depois...

Kamus dormira novamente. Sentiu beijos em seu rosto a acordá-lo. – Vamos, querido, você precisa assistir a missa antes de partir... Amor... Estou grávida...

Ele abriu os olhos de uma vez. Ouvira direito?

– Grávida? – Repetiu incrédulo. – Você está grávida, meu amor? – Sentou-se na cama abraçando-a com força.

Danielle sorriu. – Sim, meu amor! Há dois meses minhas regras não vêem!

- Isso é maravilhoso! Como somos abençoados! Obrigado, meu Deus, obrigado! Já contou a nossas crianças?

- Não, querido! Queria te dar a notícia antes de falar com Isaac, Jacó e Éster... – Danielle fitava-o com amor e admiração.

- Então o que estamos esperando, querida? Vamos falar com as crianças, já está quase na hora de tomarmos café, não é mesmo? Vou me vestir, logo depois da missa partirei. – Olhou para o chão, tentando fazer com que aquele momento fosse rotineiro.

O semblante de alegria de sua esposa se fora, por alguns segundos, ante o pensamento de que mais uma vez ele iria lutar. Mas ela manteve sua postura altiva e seu espírito alegre. E Kamus pode jurar que aquele era o sorriso mais belo que Danielle lhe dera em toda sua vida. Com dificuldade deixou-a, seguindo para seu próprio quarto.

Seus passos ecoaram pelos longos corredores de pedra. Finalmente adentrava seu quarto. Sua armadura estava impecavelmente lustrada, pronta para ser usada em mais uma batalha. Era como se em nenhum momento o metal tivesse sido respingado pelo sangue inimigo. Não conseguia desviar os olhos daquela peça que o consagra Duque de Strasbourg.

Dois pajens o ajudaram a se preparar para a missa. Vestira sua melhor roupa e tão logo terminasse de pedir as bênçãos de Deus seguiria para Poitiers na região centro-oeste do Reino seguido por seus soldados.

Um barulho ensurdecedor de crianças correndo e gritando invadiu o quarto do Duque de Strasbourg. – Papai! Pa-pai! Paaaapaaaaiiiii! Repetiam enquanto se jogavam em cima do Duque que diante de tanta alegria, abriu um largo sorriso abraçando seus três amados filhos.

Uma mulher gorda e de feições rígidas interrompeu aquele momento inaceitável pela etiqueta da educação de um verdadeiro lorde... Ou dama. – Majestade! Perdão! Vamos, crianças saiam! – Gritou a desesperada ama. As crianças olharam-lhe com expressões de tristeza tão grande que ele não resistiu.

- Deixe-os comigo, Senhora Clain. – Podem se retirar, ordenou para a ama e os pajens que se encontravam em seu quarto.

- Meus filhos... Sabem o quanto os amo. – Novamente os abraçou.

Isaac, o mais velho já iria completar 10 anos e era uma versão miniatura do pai. Jacó tinha 8 anos e Éster, sua querida princesinha, apenas 5 anos. Eram muito parecidos com a mãe tanto fisicamente quanto nos modos, e ele os adorava. Ah, sim, morreria sem pensar duas vezes por eles.

Pegou Éster no colo e viu sua esposa amada entrar no quarto, já preparada para ir à missa. Danielle estava linda em um vestido azul que intensificava a beleza dos seus olhos, intensos, altivos, perturbadores.

- Conte a novidade a eles, querido...

- Meus filhos, gostaria de dizer que em breve vocês terão companhia, está para chegar um pequeno cavaleiro - e olhou para os dois meninos a sua frente. - Ou será que teremos outra princesinha linda? – Beijou a face de Éster.

As crianças foram à loucura. Kamus e Danielle se abraçaram enquanto os pequenos faziam uma algazarra infernal. Sua única resposta era sorrir e agradecer a Deus por lhes dar um lar, uma família tão abençoada.

- Papai, por favor, não vá! – Falou Éster trazendo-os de volta a realidade.

- Larga de ser boba, Éster! Papai tem que lutar pra num deixar os mouros chegarem aqui! – Falou Isaac enquanto Jacó concordava e fazia caretas para assustar a irmã.

- Eu sonhei que o papai num deve ir. – Falou já com o rosto banhado em lágrimas.

- Minha princesa, não se preocupe, o papai jura que vai voltar. – Apertou suas mãozinhas gorduchas. – Te dou minha palavra, Éster. Eu os amo e voltarei. Isaac e Jacó cuidaram de você e mamãe enquanto eu estiver fora, não é mesmo? – Olhou, transmitindo confiança aos filhos que em uníssono responderam “sim”.

Assistiram a missa em silêncio, os minutos voaram. E finalmente chegara a hora de partir. Kamus vestiu sua armadura e subiu em seu potente cavalo de batalha. Os soltados do Ducado estavam colocados atrás de seu comandante, apenas a aguardar suas ordens.

Kamus, tentando conter a dor em seu coração tocou na mão de sua esposa e dos filhos. Beijou novamente a face da filha e partiu rumo a Poitiers.

Quase duas semanas depois...

Próximo ao rio Owar, os dois grandes exércitos, de duas línguas e de dois credos, estavam em ordem, um frente ao outro.

Os corações de Abderrahman, de seus capitães e de seus homens estavam cheios de ira e orgulho, e eles foram os que primeiro começaram a lutar. Do lado cristão os homens rezavam pedindo a Deus forças para lutar e o prêmio de retornarem vivos á suas famílias.

Os cavaleiros muçulmanos dirigiram-se com ferocidade contra os batalhões dos francos, que resistiram virilmente tendo o Duque de Strasbourg em uma das frentes. Muitos caíram mortos de ambos os lados, até o pôr do sol do primeiro dia de batalha. Um por do sol amarelado que tocava a grama que um dia fora verde azulada e agora era tingida do mais profundo e intenso vermelho: sangue.

A noite separou os dois exércitos: mas ao amanhecer os muçulmanos voltaram com força à batalha. Os cavaleiros logo chegaram, sem muito esforço, no centro do batalhão cristão. Em poucas horas seriam derrotados, precisavam de um milagre para vender.

O Duque de Strasbourg com sua longa experiência em batalhas notara a desordem das tropas muçulmanas, que estavam pesadas devido aos espólios de guerra; seus comandantes não se aventuraram em desagradar os soldados ordenando que eles abandonassem tudo, com exceção de suas armas e cavalos de guerra. Foi então que num ato de iluminação e desespero que ele ordenara a um de seus soldados que se infiltrasse no exército inimigo e um grupo de quatro se aproximasse do acampamento principal.

Seis horas depois...

O que hoje é conhecido como um falso grito surgiu nas fileiras muçulmanas, alertando que alguns dos inimigos estavam saqueando o acampamento; o que levou vários esquadrões da cavalaria muçulmana a voltarem atrás para proteger suas barracas carregadas de espólios valiosos.

Porém, pareceu que eles estavam fugindo dos cristãos e todo o exército muçulmano ficou preocupado. E enquanto Abderrahman se esforçava para controlar o tumulto e conduzir os seus homens novamente para a luta, os já preparados guerreiros francos liderados pelo Duque de Strasbourg o cercaram e atacaram. Abderrahman foi perfurado por muitas lanças, morrendo em combate. Então todo o exército muçulmano evadiu-se ante o inimigo e muitos morreram na fuga. E assim Poitiers entraria para a história do ocidente. Não, nenhum dos homens que sobreviveram carnificina imaginara a importância do momento que protagonizaram.

Três semanas depois...

Satisfeito com o resultado, Kamus e o que sobrara de seu batalhão rumaram felizes para o Ducado de Strasbourg.

Ao entrarem em seu território, à medida que se aproximavam do castelo, perceberam uma calmaria estranha, geralmente os campos estavam abarrotados de gente, pois a época de colheita se aproximava. Cruzaram com as primeiras casas queimadas. Preocupados, intensificaram o ritmo da viagem e em dois dias chegaram ao castelo, semidestruído.

Não há palavras que possam ser usadas para descrever o desespero de Kamus ao avistar as sobras de seu castelo. Ele saltou do cavalo já empunhando a espada enquanto gritava com toda a força de seus pulmões o nome de sua esposa e filhos. Foi seguido por seus soldados igualmente chocados que buscavam também suas esposas e filhos.

Atônitos, eles perceberam que havia ocorrido uma verdadeira carnificina. Os corpos das mulheres e crianças que trabalharam no castelo estavam literalmente abertos, como se tivessem sido arrebatados por feras. Alguns corpos estavam em pior estado, com as cabeças degoladas. Pelo estado dos cadáveres aquilo havia ocorrido dois dias antes, exatamente quando entraram no território do Ducado de Strasbourg.

Kamus não parara de rezar nenhum segundo, implorando a Deus que nenhum mal tivesse acontecido a sua família. Já era cruel demais ver o sofrimento de seus soldados e pensar no quanto aquelas mulheres e crianças haviam sofrido antes de morrer...

Ele se ajoelhou no chão e rezou com toda sua força, toda fé que possuía. – Eu sou um soldado, senhor, sei me defender, mas eles... Eles não... – Levantou-se e após alguns metros tropeçou numa cabeça próxima à escada que levava ao andar seguinte.

Não. Não era possível!

- DANIELLEEEEEE! – Gritou com todas as forças, dono de uma dor capaz de tocar os céus.

- Por que, Deus! Por quê? Sempre fui justo com meus servos, segui seus mandamentos, eduquei meus filhos dentro de suas leis... Lutei contra os inimigos da Santa Igreja... E o senhor... Não protegeu aquilo que eu tinha de mais precioso! Por que, Senhor? Por quê? O que eu fiz de errado? – Ele não conseguia soltar a cabeça degolada de sua esposa, os soldados tiveram muito trabalho para tirar seu Duque daquele estado catatônico.

Com passos pesados ele caminhou pelo corredor que levava aos quartos das crianças. Encontrou o corpo de seus amados filhos, Isaac e Jacó completamente abertos, dilacerados com as vísceras no chão. Nas mãos dos dois pequenos meninos bem firmes estavam suas espadas de treinamento, nem ao morrerem largaram suas armas. Não tiveram chance contra o que enfrentaram, mas... Morreram tentando proteger a mãe, a irmã, o castelo. – Meus filhos... Como eu os amo... Sussurrava enquanto socava a parede de pedra a sua frente, suas mãos por mais que doessem não representavam absolutamente nada perto da dor que sentia em seu coração.

Lágrimas? Não, ele não mais as possuía. Seu desespero chegou ao ponto de esvaziar sua alma, ele não sentia mais nada, apenas o vazio, o sofrimento do limbo que engolia a pessoa que um dia ele fora. Ele não se importaria de ser torturado por mil anos, desde que sua família tivesse sido excluída de tal martírio.

Finalmente encontrou o corpo de Danielle, mas... Preferiria não tê-lo visto, não daquele jeito. Ela estava jogada no chão com a barriga aberta.

Kamus vomitou.

Ele já vira muito sangue e corpos em batalha, mas não um corpo tão dilacerado como o de Danielle. Parecia que ela tinha sido vitima de torturas cuja crueldade transcendia a capacidade humana em se rastejar e se igualar aos vermes.

– Danielle... Eu te amo tanto... Quem fez isso com você, meu amor? – Falava com o corpo da esposa diante de seus soldados tão incrédulos quanto ele.

- Senhor... É melhor o senhor vir aqui... – Chamou um soldado sem conseguir encará-lo... Kamus demorou a entender o que o soldado lhe disse. Levantou-se e cambaleando entrou no quarto de vestir das crianças.

– Não! Deus! Por favor... Não! – Deixou-se cair no chão. Deus só poderia estar brincando com ele.

– Filha... Fala com o papai... Me perdoa! Éster, agora eu entendi porque você não queria que o papai viajasse... – O corpinho de Éster estava completamente nu e apresentava marcas claras de que havia sido violado ao ponto de ter sua região pubiana completamente dilacerada. – Aquilo foi a gota de água para que Kamus deixasse de ser... Kamus e assumisse uma máscara de ódio e vingança.

A noite começara a cair a pouco e a escuridão tomava conta do castelo.

Ele arrancou a cruz que carregava no peito, cuspiu nela e arremessou contra a parede. – Não sirvo mais a um Deus que permite a morte de inocentes de forma tão cruel! Deus! Onde está que não me responde? Por que tirou minha família de modo tão cruel? O que eu fiz para merecer isso, diga-me Deus! Por que me pune assim? – Não havia mais lágrimas em seus olhos para banhar os corpos de sua família.

- Deus não existe. O que existe somos nós. – Um homem vestindo uma armadura dos países do Norte entrou no quarto. Os soldados fizeram menção de atacá-lo.

- Saiam. – Ordenou o homem. E todos saíram, sem ao menos discutir ou olhar para o Duque.

Kamus já estava com a espada em riste. – Como ousa entrar em meu castelo, estrangeiro?

- Eu estava no encalço das criaturas que fizeram isso a seu feudo. Mas como só posso viajar à noite, consegui chegar aqui somente hoje, lamento pela sua perda, Duque Strasbourg. – O homem parecia estar dizendo a verdade.

- O que você sabe sobre essas criaturas que atacaram minha família?

- Sei que humanos como você não tem chance nenhuma contra elas.

- Por acaso você é um demônio?

- Quase isso. Posso te dar o poder para caçar essas criaturas e juntos nós poderíamos acabar com elas, o que acha?

- Se você não é um demônio, o que é então?

- Sou um vampiro, Duque Strasbourg.

- Absurdo! Vampiros não existem.

- Ao contrário de Deus, nós existimos. Ou você costuma duvidar do que vê bem à sua frente? – E ele mostrou seus caninos afiados para Kamus.

- Criatura, qual o seu nome afinal?

- As pessoas me chamam de... Siegfried.

- Muito bem, Siegfried, você sai por aí oferecendo a qualquer um a chance de virar um vampiro?

- Não, de forma alguma. Somente aos mais fortes e que não acreditam em Deus como você.

- Muito bem... Se isso me dará poder para me vingar das criaturas que mataram minha família e desgraçaram meu feudo... – Olhou fundo nos olhos daquele estranho homem. - Eu aceito sua oferta, Siegfried. Deixe-me enterrar minha família antes.

- De acordo, Duque Strasbourg. Dê adeus a sua família e a sua vida, voltarei a revê-lo em três noites. – E o homem saiu do quarto deixando Kamus a remoer sua dor.

Kamus descobriria anos mais tarde que Siegfried resolvera abraçá-lo por sua fama de guerreiro e estrategista e não pelos motivos sentimentais que o envolviam. Mal havia terminado a batalha em Poitiers e sua fama se alastrara por todo o Reino Franco. Nada mais natural que o Duque Strasbourg fosse levado ao seio do clã Ventrue e Siegfried o apresentaria a esse mundo.

Durante anos ele e Siegfried vagaram pelo norte da Europa caçando as criaturas conhecidas como Garous. Kamus tornara-se um aprendiz valioso e em pouco tempo apesar de sua juventude já começara a colecionar as peles dos lupinos que abatia. Foi então que Kamus decidiu se fixar no território gelado da Sibéria e lá permaneceu por séculos até criar coragem de retornar ao Reino Franco, que, nesta altura já se chamava França.

Sua fama de caçador de Garous se alastrou entre os vampiros mais jovens e ocasionalmente um ou outro vampiro pedia-lhe auxílio. Kamus caçava-os e os matava com muito, muito prazer. Sua existência era movida pela vingança, o único sentimento a acompanhá-lo, por que os outros... Ele abandonara.

Os séculos passaram e os tempos começaram a se modernizar. Caçar como antes já não era possível e Kamus passou a guerrear com os Garous em outro campo: dessa vez nas bolsas de valores. Aquelas criaturas manipulavam grupos, corporações inteiras, e Kamus as desafiava, comprava-as, fechava-as, sabotava seus negócios, enfim, sua existência passou então a girar em torno de disputas empresariais com os lupinos.

Como se não fosse o suficiente, ele criou uma sociedade de caça a lupinos, chamada Sociedade da Lua Crescente, onde para ser admitido o Ventrue precisava apresentar uma pele de lupino. Eventualmente, em tempos modernos, ele abatia um Garou ou outro, mas nada se comparava com sua caçada desenfreada no passado.

Pelo seu passado de caçador, Kamus era respeitado, não apenas entre os Ventrue, mas por todos os clãs conhecidos. Por isso, ninguém melhor do que ele para entrar em uma arena Brujah, qualquer desafio era pequeno perto do que aquele homem já vivera.

-o-

Chicago, zona industrial próxima às margens do Lago Michigan, dias atuais - aproximadamente uma da madrugada.

- Chegamos, senhor.

Kamus teve seus pensamentos interrompidos pelas palavras do motorista. Limitou-se a dispensá-lo e seguiu a pé rumo ao galpão onde ocorreria a have dos Brujah. Mal caminhara trinta metros e já conseguia ouvir a movimentação no local, a noite iria ferver. E ele sem dúvida roubaria as atenções nas festividades Brujah.

Um grupo de motoqueiros encarou aquele homem que destoava completamente daquele ambiente sujo, decadente. Kamus os ignorou completamente. E assim seguiu, abrindo caminho por entre grupos de humanos que sem dúvida ignoravam completamente o que aconteceria naquele local, naquela noite.

Finalmente chegara a entrada do galpão que abrigaria a arena Brujah, do lado de fora a concentração de jovens com cervejas nas mãos era impressionante. Uma cena típica de uma balada onde um chama o outro e outro e outro, nenhuma organização, mas muita diversão. Jovens dançavam enquanto outros estavam mais preocupados em trocar carícias ousadas encostados nos banheiros químicos ou nas paredes pichadas dos galpões.

Quatro homens enormes pararam na frente de Kamus, que, apesar de alto, precisou olhar para cima. – Vim participar da Arena, Aldebaran. – Falou sem mostrar nenhuma intimidação, dirigindo-se ao mais alto e forte dos quatro homens.

- Os Ventrue estão invadindo nossas festas! Entra aí, Kamus. Se esbarrar numa loira bem bonita de cabelos curtos pode ficar sabendo que ela é Ventrue que nem você.

- Obrigado pela dica. – E se perguntou que diabos uma Ventrue e ainda mulher estaria fazendo numa rave Brujah. – Certamente o mesmo que eu? – Pensou, intrigado. Não... Damas Ventrue não lutam em arenas Brujah.

Entrou, e como era de se esperar, ouviu piadinhas cretinas a respeito de seu impecável terno. Até onde ele sabia alguns Brujah mais velhos se vestiam tão bem quanto ele, mas isso não poderia ser considerada uma regra geral, como tudo relacionado aos Brujah.

Conseguiu localizar Aioria cercado por um grupo de pessoas que certamente ouviam mais uma de suas histórias e riam, riam muito. Na arena, alguns vampiros se aqueciam, certamente se preparando para as lutas. Ficou surpreso ao avistar Mú e Shaka um pouco mais ao fundo conversando com um grupo de motoqueiros. Impressionante. Mas só parecia existir motoqueiros naquele lugar!

- Aioria? – Falou Kamus, erguendo o tom da voz o suficiente para ser ouvido. Todos olharam na direção da voz que interrompera a história que o ancião Brujah contava.

- Kamus! – Falou, sem acreditar. – Que diabos você quer aqui?

- Participar da arena.

- Qualquer um pode lutar, então se alguém o desafiar, lute oras!

- Posso desafiar quem eu quiser também, correto?

- Sim, por quê?

- Não, nada! Só pra ter certeza. Quem é aquela?

Aioria olhou na direção da arena. – Uma japonesa com cabelos vermelhos vestindo um jeans de cós muito baixo, botas de bico fino cromado e uma camiseta regata branca deixavam a vista uma série de tatuagens. Ela acabara de subir na arena junto a um homem que até onde Aioria se lembrava ser um neófito Brujah, e pelo visto eles iam lutar.

Se o coração de Aioria ainda batesse, teria saído pela boca. Sentiu um arrepio na espinha e não conseguiu responder a pergunta de Kamus. Até onde se lembrava não havia sentido um calor tão intenso somente ao encarar uma mulher. Definitivamente aquela japonesa era não só bonita, mas muito especial.

Tanto o homem quanto a mulher se encaravam na arena. Ele correu na direção dela e acertou-lhe um soco no estômago. Ela caiu no chão gemendo de dor. Aioria sentiu vontade de socorrê-la, mas não podia fazê-lo, era contra as regras da arena. Pela primeira vez em séculos amaldiçoou a arena.

O neófito que a socara ria e muito da mulher caída no chão. Aproximou-se e levantou-a pelos cabelos. Ela muito esperta, acertou-lhe um cruzado de direita com um soco inglês bem no meio do nariz dele. Ele a soltou e levou as mãos rumo ao rosto. Ela caiu de pé e sem pensar duas vezes começou a socar o estômago do cara, finalmente acertando-o nas partes íntimas com um chute perfeito. O Neófito foi ao chão encolhendo-se de dor e o ancião que presidira o combate ergueu o braço da moça em sinal de que ela ganhara o combate.

Gritos, assobios tomaram conta do ambiente e começaram a gritar um nome: Marin. Sim, era esse o nome da moça que deixara seu adversário pensar que estava com a vantagem e assim descuidar-se. Ele baixou a guarda para que ela atacasse e, numa seqüência rápida e precisa de golpes conquistou a vitória.

Olhando mais atentamente Aioria ficou lívido. A aura daquela mulher era de uma mortal. Não de uma ghoul ou vampira, mas uma mortal.

- Por Cartago! – Falou. – Ikki, quem é essa Marin? – Perguntou ao mal encarado Brujah que se aproximava.

- Faz parte do grupo de motoqueiros que veio de Seatle. Estão ali conversando com os Malkavianos. Acho que eles querem passar um tempo na cidade, vão falar com você.

Kamus estava tão entretido se divertindo com a expressão abobalhada de Aioria que não percebeu a aproximação de Milo.

- Kamus? – Ouviu uma incrédula pergunta. Virou-se para seu interlocutor e sentiu um calafrio. Aqueles olhos. Olhos azuis o encaravam com surpresa.

- Por que a surpresa? – Perguntou sem alterar a voz. – Mas aqueles olhos eram tão bonitos, idênticos aos de Danielle! – Pensou.

- Nunca vi um Ventrue dar as caras em uma have Brujah, pelo menos em Atenas. – Deu de ombros tentando parecer natural.

- Milo, se você nunca viu um Ventrue numa have Brujah, já viu uma Ventrue lutar? – Perguntou Aioria, apontando para a arena. Milo e Kamus olharam, não acreditando no que viam. Uma loira de cabelos curtos que vestia um impecável e sexy vestido branco acabara de subir junto a um brutamonte que até onde sabiam era um ancillae da costa leste.

- Ele vai esmagá-la! – Falou Milo, impressionado. – Aioria, não deixa essa luta começar!

Kamus não conseguia acreditar no que estava vendo. – Quem é ela?

- É brasileira, amiga de Aldebaran. Serviram juntos numa coterie de guerra contra o Sabbat, ela é estrategista militar, eles a chamam de Condessa.

O combate começou e o homem correu para cima dela que o parou apenas com o olhar e sacou uma estaca presa a sua perna, arrancando gritos da platéia. Com maestria enfiou a pontiaguda estaca no peito do homem paralisado, bem no coração. E o combate acabou tão rápido quanto fora iniciado arrancando ainda mais assobios da platéia.

Mal a loira fatal havia descido da arena, Kamus reconheceu imediatamente a figura de Shaka, o inabalável primogênito Malkaviano entrar na arena acompanhado de Ikki que até então estivera ao lado deles.

- Essa noite promete... – Falou Kamus cruzando os braços.

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