Ele não podia ir embora. Hitomi não havia tido coragem ainda para se declarar a Amano, o senpai que tanto amava. Quando ele corria, Hitomi não conseguia enxergar mais nada: Os cabelos loiros que balançavam contra o vento, a rapidez que conseguia alcançar, o suor que respingava do rosto.
       Porém agora tudo estava perdido. Hitomi soube que ele mudaria de estado, o futuro de Amano estava em jogo, e Hitomi não tinha o direito de atrapalhar. Nas cartas de tarô já previa mudanças, mas uma carta ainda a deixava intrigada.
       E o que faria? Simplesmente deixaria seu amado ir, sem nada fazer... sem nada falar?
       Em meio as lágrimas resolveu fazer algo tão ousado que nunca havia cogitado fazer. Apertando seu pingente contra o peito, Hitomi correu em direção a escola.
       Já era noite quando Hitomi encontrou Amano-senpai em meios as raias que já o tinham dado tantas vitórias. Agora não era momento para corridas, mas sim para despedidas.
       - Hitomi!
       - Amano-Senpai, se... se... se eu conseguir quebrar a barreira dos 11 segundos na corrida de 100 metros você... você... VOCÊ ME DÁ MEU PRIMEIRO BEIJO!

Capítulo IV - Deuses [ as ]

       Kaori não sabia o que fazer. O que era aquilo? Os cabelos pretos contornavam o rosto angelical da garota que acabava de emergir das águas.
       - Ahhhhhhh!!! Bug! Bug! Bug! - PAFF! - O taco que a garota carregava conseguiu fazer mais estrago que a marreta de Kaori contra Ryo.
       - Está louca, garota? E o que você está fazendo na minha banheira e cadê meu porquinho e..
       - Belldandy... Onde você está??? - A garota saltou da banheira e começou a correr feito louca por todo o apartamento. - Bell-sama, eu estou aqui...
       Kaori não conseguia entender aquela cena... inusitada. Uma garota com roupas estranhas, um tacape muito duro e chamando por uma tal de Belldandy:
       - Ei menina... Pode parar! Quem é que você está procurando?
       Sem achar a irmã que viajou tanto para ver, Skuld vê de uma janela toda Tóquio reluzindo. Ali não era uma casa, mas sim um prédio. Com certeza ela não estava no lugar certo.
       - Espera um pouquinho... Essa não é a casa da minha maninha e eu tenho certeza que fiz as contas certinhas para chegar até lá. Algo muito estranho está acontecendo. Será que força máxima está com problemas por causa da falta da Urd?
 ...

       A lua era confidente do rubor que saltava do rosto de Hitomi; De rosto cabisbaixo, sem coragem de levantar um milímetro sequer os olhos. Aqueles segundos, milésimos de segundos... que eternidade parecia a espera.
       Uma leve brisa veio afagar o rosto da garota que de braços estendidos oferecia o pingente que contaria os derradeiros segundos.
       A mão aveludada de Amano foi ao encontro do pingente.
       - Sim.
       Hitomi estava atônita, ele aceitara sua proposta. Tirou o agasalho e ficou a postos na raia que decidiria seus desejos contidos.
       - Hitomi...
       - Hai!
       - Ganbare, e pise na frente!
       Agora Hitomi estava pronta. O que ambos não haviam percebido era que algo de estranho estava acontecendo: Próximo as grades que circundavam o ginásio alguns carros negros se aproximavam mansamente, com o mínimo de ruídos possíveis.
       Policiais com óculos especiais de visão noturna já cercavam toda a extensão do colégio e do complexo de atletismo.
       - Ichi... ni... san... Hajime!
       O pingente balançou uma vez.
       As pernas de Hitomi tomavam vida própria: Não sentia cansaço, não pensava em nada mais, nem mesmo em Amano.
       O pingente balançou pela segunda vez.
       Sentia a pista em seu sangue, a sede da vitória, a garra de quem não admite derrotas ou desilusões.
       O pingente balançou pela terceira vez.
       As nuvens acinzentadas confabulavam contra Hitomi, e escureceram a lua que dantes era o luzeiro de Hitomi.
       O pingente balançou pela quarta vez.
       Coriscos luminosos trovoaram todos os céus, fazendo com que os olhos de Amano se voltassem para a lua enegrecida.
       O pingente balançou pela quinta vez.
       Os policiais começaram a invadir a quadra, e de prontidão, tinham todas suas armas apontadas para Amano.
       O pingente balançou pela sexta vez.
       Mais um raio sucedeu nos céus e rasgou os ares, correndo em direção de Amano.
       O pingente balançou pela sétima vez.
       Os olhos de Hitomi não enxergavam nada além de um ponto longínquo, negro onde formas rebuscadas perdiam-se no infinito.
       O pingente balançou pela oitava vez.
       Um pequeno objeto esférico caía pouca a frente de Hitomi, tirando sua atenção.
       O pingente balançou pela nona vez.
       Ao bater contra o chão, raios luminosos inundaram as linhas da pista e a própria Hitomi.
       O pingente balançou pela décima vez.
       O trovão encontrou seu destino, ouviram-se tiros e todas as luzes se apagaram.

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