Capítulo I - O Herói do Dia
Yui
esperava o que o sinal abrisse para que pudessem atravessar a rua.
Como um sinal demora quando se tem tanta coisa pra fazer - pensava Yui,
mirando profundamente o pequeno luzeiro vermelho.
Miaka
estava quase desmaiando, sua cabeça latejava como se houvesse 100
britadeiras em ação sobre seu pequenino cérebro.
Seus olhos já estavam embaçados e seu corpo contorcendo-se
para cair ao chão - Mas que garoto burro! - disse Miaka, enquanto
via um pequeno menino de uns seis anos de idade brincando com uma bola
na calçada e esta rolou para o meio da rua. O garoto sem olhar,
correu em direção à ela.
Antes
de desfalecer, Miaka conseguiu ver um carro que se aproximava em alta velocidade
e com certeza atingiria em cheio o pequeno. Mesmo sem forças,
e ainda tonta, ela precisava correr... Não podia gritar, não
havia ninguém por perto do menino, mas correu. Será
que chegaria a tempo? Conseguiria vencer o tempo, a velocidade e
a exaustão?
Sentia-se
rápida... Fachos de luz a envolviam e o espaço escureceu-se.
Não via mais Yui, nem rua ou pessoas, só o carro e o garoto.
E então pulou...
Como
em camêra lenta, ela agora também via um jovem pular para
também salvar o garoto... Agora precisava salvar os dois:
Um menino, e um jovem de camisa verde tentando ser herói, como ela
também tentava ser. Fechou os olhos, e naquele momento nada
mais importava: Ela conseguira empurrar o menino e o jovem para fora da
área de impacto do carro, mas não salvara a ela mesma.
...
Como
um dragão enfurecido, o carro atingiu em cheio a pequena que rolou
rua a frente, toda manchada do sangue que saía de seus cortes.
O carro ainda derrapava, e novamente atingiu a pequena arremessando-a contra
um muro que limitava a calçada e um terreno baldio. Estava
lá, um corpo inerte lavado do sangue puro de uma garota que só
sonhava com seu príncipe e comida, e neste momento fez-se o silêncio...
Logo
atrás, o pequeno menino chorava com um pequeno corte no braço,
enquanto o jovem de camisa verde corria de encontro àquela que o
salvara... Miaka era bonita, e o jovem também havia percebido.
De joelhos, tomou Miaka nos braços, e com ternura paternal cerrou
as pálpebras ainda abertas da pequena, não queria ver mais
aquele olhar de dor e súplica. Não havia mais nada
a fazer, ela havia morrido. Ele, com os olhos vermelhos e quase cedendo
ao choro, aproximou-se do ouvido de Miaka e sussurrou:
-
Ei mocinha, te devo minha vida... Nunca te vi, e nem mesmo percebi a hora
em que você pulou para me salvar. Não sou de ficar filosofando,
sou muito mal nisso, mas só queria que soubesse que sua vida com
certeza valia mais que a minha. Sou só um maloqueiro qualquer,
sem razão de ser. Mas ao menos quando estiver chegando no
céu, lembre-se do meu nome: Me chamo Yusuke. Não sei mais
o que dizer... mas valeu.