Já era hora da saída da escola.  Depois de duas aulas de história seguidas, Miaka não queria nem saber mais de colégio, cadernos, equações e dinastias; A única coisa que realmente precisava e queria era comer... Como sempre seus faniquitos de fome tinham de ser resolvidos o mais rápido possível.
       De mochila nas costas, despediu-se das amigas e tomou o rumo de casa, seu lugar preferido depois da lanchonete do colégio.  Yui a acompanhava, era sua melhor amiga e já tinham passado muitas coisas juntas, cada uma conhecia muito bem a outra, suas qualidades e principalmente seus defeitos.  E como os opostos se atraem, ambas rogavam a regra, totalmente desiguais.
       Miaka sonhava com um príncipe encantado, e a sua volta muita comida, e assim poderia ser descrita: "Aquela que espera seu príncipe encantado ( Desde que com ele venha muita comida)".  Já Yui era realmente muito responsável;  fria talvez, mas preocupada com seus estudos e principalmente com a entrada na escola secundária ( O maior pesadelo de Miaka... ).  Tanto estava que antes de ir pra casa precisava entregar alguns livros na Biblioteca Nacional, e mesmo morrendo de fome e preguiça, Miaka como boa amiga deveria acompanhá-la, e assim o fez.
       Alguns minutos depois, do outro lado da rua já era possível ver a imensa biblioteca, que se erguia num estilo antigo e realmente muito bonito.  E como foram poucas as vezes que Miaka foi a uma biblioteca ( Ela preferia mangás, fazer o que... ), ela ainda se maravilhava com aquela fachada...
       Mas algo a mais parecia haver naquele dia, Miaka não sabia, uma aura diferente, um enevoado de pensamentos que a fazia sentir até dor de cabeça, estranha.
       E aqui, nossa jornada realmente têm início...
 


Capítulo I - O Herói do Dia




       Yui esperava o que o sinal abrisse para que pudessem atravessar a rua.  Como um sinal demora quando se tem tanta coisa pra fazer - pensava Yui, mirando profundamente o pequeno luzeiro vermelho.
       Miaka estava quase desmaiando, sua cabeça latejava como se houvesse 100 britadeiras em ação sobre seu pequenino cérebro.  Seus olhos já estavam embaçados e seu corpo contorcendo-se para cair ao chão - Mas que garoto burro! - disse Miaka, enquanto via um pequeno menino de uns seis anos de idade brincando com uma bola na calçada e esta rolou para o meio da rua.  O garoto sem olhar, correu em direção à ela.
       Antes de desfalecer, Miaka conseguiu ver um carro que se aproximava em alta velocidade e com certeza atingiria em cheio o pequeno.  Mesmo sem forças, e ainda tonta, ela precisava correr...  Não podia gritar, não havia ninguém por perto do menino, mas correu.  Será que chegaria a tempo?  Conseguiria vencer o tempo, a velocidade e a exaustão?
       Sentia-se rápida... Fachos de luz a envolviam e o espaço escureceu-se.  Não via mais Yui, nem rua ou pessoas, só o carro e o garoto.  E então pulou...
       Como em camêra lenta, ela agora também via um jovem pular para também salvar o garoto...  Agora precisava salvar os dois:  Um menino, e um jovem de camisa verde tentando ser herói, como ela também tentava ser.  Fechou os olhos, e naquele momento nada mais importava: Ela conseguira empurrar o menino e o jovem para fora da área de impacto do carro, mas não salvara a ela mesma.
       ...
       Como um dragão enfurecido, o carro atingiu em cheio a pequena que rolou rua a frente, toda manchada do sangue que saía de seus cortes.  O carro ainda derrapava, e novamente atingiu a pequena arremessando-a contra um muro que limitava a calçada e um terreno baldio.  Estava lá, um corpo inerte lavado do sangue puro de uma garota que só sonhava com seu príncipe e comida, e neste momento fez-se o silêncio...
       Logo atrás, o pequeno menino chorava com um pequeno corte no braço, enquanto o jovem de camisa verde corria de encontro àquela que o salvara...  Miaka era bonita, e o jovem também havia percebido.  De joelhos, tomou Miaka nos braços, e com ternura paternal cerrou as pálpebras ainda abertas da pequena, não queria ver mais aquele olhar de dor e súplica.  Não havia mais nada a fazer, ela havia morrido.  Ele, com os olhos vermelhos e quase cedendo ao choro, aproximou-se do ouvido de Miaka e sussurrou:
       - Ei mocinha, te devo minha vida... Nunca te vi, e nem mesmo percebi a hora em que você pulou para me salvar. Não sou de ficar filosofando, sou muito mal nisso, mas só queria que soubesse que sua vida com certeza valia mais que a minha.  Sou só um maloqueiro qualquer, sem razão de ser.  Mas ao menos quando estiver chegando no céu, lembre-se do meu nome: Me chamo Yusuke. Não sei mais o que dizer... mas valeu.

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