A Saga de Sussumo - Capítulo 03 - Parte 01

 
     "Pelos deuses, agora o que vocês pretendem fazer com esses brinquedos ?"

     Para variar era Natsuki com seu habitual temperamento irônico. Isso conseguia estragar toda sua beleza, ainda mais que eu sentia no fundo que ela estava certa:
     "Bem, eu não pretendo ficar aqui o resto de meus dias. Se tem alguma idéia melhor por que não ajuda ?"

     Ela me olhou surpresa por um instante. De repente, ela parecia ser mesmo uma mulher, sem aquele comportamento ácido e autoritário. Eu, heim  ? Até agora eu estava de braços dados com a Nanako e de novo sou atraído por essa mulher ?

     "Já estudaram a porta que estão tentando derrubar com esses palitos ?" - perguntou ela.

     "Como assim?", retrucou Shukumaru. "Ela deve ter no máximo um palmo de espessura"

     "Claro", respondeu a moça calmamente. "Mas com 12 guerreiros de força inigualável, uma porta assim seria facilmente derrubada, não? Estamos lidando com forças maiores que as forças humanas normais: eu não tinha entendido direito a natureza do teste no começo, mas agora esta claro que força física não vai nos libertar."

     "Não estou entendendo nada", retrucou Shougo aproximando-se. Natsuki não se deu ao trabalho de responder ao antigo companheiro. Me deu pena de Shougo, pois me pareceu que ele gostava muito de Natsuki... Se bem que ele tinha um ar meio abobalhado, apesar de ser um guerreiro. Ela simplesmente se aproximou da porta e falou para mim:
     "ELE parece confiar muito em sua força Sussumo. Olhe e tente fazer igual depois."

     Aproximou suas mãos da porta, e logo uma aura branca e tênue a envolveu. Branca? Não, parecia ser de cor pérola, uma tonalidade calma e suave, algo que jamais tinha visto. Ela estava em concentração profunda, mas mesmo assim continuou a falar, numa voz suave e muito baixa, como se quisesse que apenas eu escutasse:
     "Se não usamos força física, o que sobra? Magia. Uma porta que não abre como as outras... Ela é fina, mas espessa... com picaretas ou bombas nunca vamos sair. Mas usar nossa magia em uma porta assim..."

     De repente, a aura que irradiava de Natsuki se apagou. Mais ainda, parecia que fora envolvida por trevas, mais negras que as das sombras da masmorra, e caia como uma marionete que perdera os fios que a sustentavam.

     Se não estivéssemos bem ao lado dela ela teria caído mesmo.

     "Natsuki!" - gritou Shougo.

     Shukumaru logo a amparou, mas Natsuki continuava a falar para mim:
     "Mesmo sabendo magia... quem é fraco apenas perece. Apenas..."

     "Ela desmaiou", avisou Shukumaru, "Mas do jeito que está se não sairmos logo daqui, ela vai acabar morrendo."

     "O que ela fez?" - perguntei confuso.

     Pela primeira vez vi Shougo se alterar: 
     "Você é burro? Não prestou atenção no que ela disse ?". Logo no entanto voltava a ficar calmo. "Ela me contou uma vez sobre suas habilidades", explicou ele, "Disse que tudo que existe no mundo possui uma essência e podemos entrar em contato com tudo se abrirmos nossas próprias almas. Foi o que fez agora." 

     "Mas essa porta também tem consciência", completou Kim. "Por isso Natsuki ficou nesse estado: a porta deve ter reagido a sondagem dela." 

     Dirigi-me para a nossa saída e toquei a porta igual a Natsuki. Não estava nada claro para mim, e nem sabia se eu era a pessoa certa para abri-la, mas ela confiava muito em mim, não custava nada tentar.

     Um mundo novo se abriu, mesmo sem ter me concentrado muito. Sabia que não eram palavras, mas podia entender, sentir o mundo através daquela porta mágica.

     "Sussumo... este é o primeiro teste... " - dizia uma voz suave.

     "Mas que teste ?" - perguntei eu sem palavras.

     "Por que esta aqui ?" - perguntou a voz.

     "Sei lá! Por que é uma tradição de família ? Por que eu quero provar que sou digno ?"

     "Isso esta prendendo sua alma, essa não é sua vontade verdadeira. Ouça-me: no passado fui uma árvore, fui um rio, fui um cervo, fui um inseto, fui um homem, fui uma rocha. Sou a matéria do mundo, aquilo que dá forma as essências que chamam de almas. Também tenho uma essência, e esta aprende com cada um dos hospedes que tomam emprestada meu corpo. Estou aqui para existir, não para fazer. Aprender, mas só ensinar quando perguntado. Qual a sua pergunta ?"

     Fiquei em silencio por uns instantes. Mas algo queimava minha alma: "Por que um torneio onde todos não são o que penso ser ?"

     A figura de Natsuki surgiu no meio de uma névoa como a aura que havia invocado "Porque você esta preso. A porta é uma prisão, mas você também esta preso de outras formas. Esta porta esta testando se consegue livrar-se dessas correntes. Expliquei tudo até aqui, mas agora minhasforças não podem mais servir de interprete desse teste. Seja forte, Sussumo."

     Com essas palavras, o mundo calmo e relaxante se esvaiu. No seu lugar, surgiu um cenário muito estranho: arvores retorcidas, ao lado de estatuas de ouro reluzentes. Um rio de águas fétidas tornava-se repentinamente num rio límpido, e logo em seguida tomava uma cor rubra. Pássaros cantavam enquanto morcegos voavam rasante ao gramado cinzento. Ou seria um tapete cor de rosa?

     Logo surgiram figuras humanas. Humanas não seria bem o termo: uns eram como zumbis, e outros tinham corpo de centauro, menininhas de desenho animado, Mickey Mouse..."Por que estou aqui ?", perguntei a mim mesmo assombrado.Um cachorro sarnento aproximou-se de mim. Repugnado dei dois passos para trás esbarrando um senhor simpático de barbas brancas. Simpático uma ova: sorrindo ele deixa cair sua bigorna em meu pé. 

     "Mundo simpático, não acha?". Era o cachorro que falava: "Ei não me olhe assim, pode ser que você fique pior que eu!"

     "Como eu saio daqui ?".Mas ai, alguém me pegou por trás. Droga, não tinha ninguém atrás de mim até agora! "Acabou de chegar, querido"

     "Nanako ?", engasguei surpreso. "Você também esta fazendo o teste ?"

     "Ei! Ei!", reclamou o porco assado. "Que educação é essa? Estávamos conversando, que negocio é esse de boca com boca ?". Vixe, não tinha percebido que estava beijando a Nanako! Assustado mais com o comportamento estranho dela e tentando entender o que se passava, me voltei para o prato do dia: "Até agora você era um cachorro, agora virou porco?"

     "Pois é, as coisas aqui mudam pra caramba.", respondeu ele agora tomando a forma de uma pedra. "Se não tomar cuidado você pode acabar como ele aí".Nanako não estava mais grudada em mim. Quem estava grudado em mim era um projeto de Clodovil, e fiquei mais desesperado ainda."Liga não logo muda de forma de novo" - retrucou a pedra.

     "O que esta fazendo com minha esposa ?", reclamou um bruta homenzarrão de 3 metros de altura."Eu não fiz nada", tentei explicar para ele. Mas o cara logo pegou meu braço e deu um soco fenomenal no projeto de Clodovil: "Isso é para aprender a não mexer nas coisas dos outros!"

     Era demais. Se deixasse as coisas como estavam, provavelmente morreria naquele mundo biruta e nunca sairia da prisão se voltasse para a realidade. "Quem manda aqui ?", voltei-me para o meu "marido".

     "Chuchuzinho, ninguém manda aqui", mas ai já tinha a forma de uma girafa nanica."Como é ?", retruquei socando a girafa para longe.

     "Eita, como estamos violentos", comentou o cachorro-que-foi-porco-que... e que agora tinha a forma de um rapaz jovial. "Bem se é assim, vamos ver se aguenta todo mundo contra você." Bem, de briga eu já entendia. "Venham então!"

     "Ei, primeiro você!", retrucou o cara. Foi quando percebi que meu corpo não obedecia. Era ridículo, mas de repente, eu estava dando socos em mim mesmo, enquanto apanhava de todos os outros seres, com o rapaz só olhando.

     "Matéria?", pensei lembrando do que Natsuki tinha me dito... "Por isso ela ficou naquele estado. Todo aquele povo eram as formas que a porta tivera em outras eras. Nanako também ? E por que meu próprio corpo rebelava-se contra mim ?"

     "Não é isso. A porta representa a matéria. Isso inclui Nanako e eu. Mas agora, eu não estava em meu corpo."

     "Mas seu corpo astral só tem forma aqui porque nos deixamos" - retrucou o rapaz. "Então é melhor que eu não tenha forma aqui!" - retruquei furioso.De repente eu não tinha mais pontos de referência em mim mesmo. Mas eu já os tivera em minha vida ? Não era hora de estabelece-los ?

     Quando acordei, estávamos todos do lado de fora do templo. Natsuki ainda estava desacordada, e com essa minha nova visão, entendia o porquê.

     Olhei para Nanako num misto de carinho e vergonha, mas também num olhar mais crítico entendia porque Natsuki não se dava com Nanako. Os outros também não eram tão ameaçadores como no começo. Eles podiam ter seus segredos, mas eu agora conseguia ir um pouco mais que ver a superfície.
Era por isso que Natsuki agia daquela forma.

     "Ainda tem outros testes a passar, Sussumo". Era a voz de Natsuki, fraca em meus pensamentos. Mas agora sentia que tinha certo controle da minha vida. Desta vez, eu estabeleci meus objetivos e não me desviaria deles até que minha vida terminasse, mesmo sem contar com esse torneio.
 

by Kiki-chan