A Saga de Sussumo - Capítulo 02 - Parte 09
 
     Mesmo com a quebrada de gelo de Fuujin, todos ainda tinham reservas para revelarem seus segredos. Apesar de sabermos que confiança era indispensável, todos continuavam calados.

     Aí quem perdeu a paciência fui eu. Resolvi também abrir o jogo e ver no que dava. "E terminando o treinamento, minha família me mandou pra cá, mas infelizmente até hoje nunca tinha me encontrado com Nanako."

     A ultima frase surtiu um efeito estranho em todos. "Como assim, Sussumo, seu idiota!", gritou Shukumaru, "Desde o colégio você e Nanako são inseparáveis. Como ousa dizer que não a conhece, seu imprestável ?!?". O tom de voz dele estava claramente perturbado. Não sabia dizer qual o problema, mas o fato é que eu também estava nervoso, e Shukumaru não devia me provocar depois desse tempo todo de tensão. "Você só sabe me insultar sem motivos, Shukumaru!", respondi com voz acida, "Até agora, todos agem como se conhecessem bem a situação e só vi que sabem tanto quanto eu. Me desculpe, Nanako. Eu tenho a impressão de já a conhecer de algum lugar, mas fiquei surpreso quando todos aqui pensam que nos conhecemos há muito tempo."

     "Hahahahaha...". Era Natsuki quem gargalhava. Depois que tivemos a visão real do que ela e Shongo planejavam, eles eram as pessoas em que menos confiávamos. Mas mesmo assim ela conseguia manter a sua aura de mistério.

     "Por que esta rindo, cara dama?" perguntou Chin Tsu Kun "Será que tem a chave para este pequeno mistério?". Todos fitavam-na na expectativa. Ela jogou o cabelo para o lado e sorriu: "Porque pergunta, meu caro? Sabe tão bem quanto eu que qualquer coisa que eu diga será desconsiderado. E por que me interessaria contar o motivo da minha alegria?"

    "Talvez para compartilhar conosco a piada ?", retrucou o senhor chinês sorrindo. Por um momento, Natsuki pareceu se alterar. Mas logo em seguida ela voltou a sua maneira jovial. "Uma piada? Talvez... Pois bem, lá vai."

     "Um homem tem a plena convicção de que é único no mundo. Apesar de ir trabalhar, estudar e morar numa casa como todos os outros homens, tem essa convicção absurda. Um dia, ele volta pra casa como sempre e de repente a chave da casa não abre a porta. Estranhando isso, ele dá a volta na casa e tenta abrir a janela de sua sala do jeito especial que só ele sabe. Há barulho na casa, e ele pensa que podem ser ladroes. Quando ele finalmente abre a janela, dá de cara com o próprio rosto." Todos ficam em silencio por momentos que me pareceram infinitos. Eu já ouvira varias vezes essa fabula contada de formas diferentes a cada versão, mas não entendia o motivo de Natsuki narra-la para nos.

     "A cara de vocês esta impagável!", ria ela. "Talvez minha jovem, se contar sua historia, possamos apreciar melhor a anedota..." sugeriu novamente o chinês.

     "Eu não preciso contar minha historia a ninguém.", ela respondeu secamente. "Tudo que precisam saber de mim, é que podem contar comigo pra sairmos desta arapuca, mais nada".

     Shongo parecia um pouco transtornado com a companheira. "Natsuki, não precisa falar dessa forma...". "Cale-se!", gritou ela, "Você tampouco sabe coisa alguma sobre mim, apenas o que eu quis que soubesse. Vocês podem ler minhas ações, mas não vou entregar de mão beijada meu coração e minha mente. Façam o que quiserem, mas me avisem quando decidirem sair daqui."

     Shongo suspirou e voltou-se para nos: "Bem, acho que vocês não vão acreditar em mim, mas mesmo assim vou falar.". "Não posso dizer que fui um aluno exemplar. Meu treinamento sempre ficava em segundo lugar, o que me interessava sempre eram obras de arte. Quando conheci Natsuki na aula de história da arte, ficamos sabendo da existência desse livro antigo e queríamos muito poder vê-lo."

     Shukumaru se enfureceu: "Vocês queriam rouba-lo por ser de ouro!"

     Quão não foi nossa surpresa com a calma de Shongo ao responder: "Esta claro que mesmo em ouro, não poderíamos derreter e vender o metal. O que teríamos no máximo? Dois quilos? Francamente poderíamos conseguir muito mais num assalto em qualquer mansão de Beverly Hills. Vende-lo para o mercado negro de artes? Claaaroooo, e provavelmente ser passado pra trás como os iniciantes que seriamos... Natsuki e eu queríamos o livro, sim, mas para nós, com todos os seus segredos. Para não termos de ficar as escuras num torneio que nem sabemos o motivo."

     Com o canto dos olhos observei Natsuki. Ela parecia indiferente ao companheiro, quase como se ignorasse suas opiniões. Ou seja, os objetivos dela eram diferentes dos dele, mas não conseguia sonda-los. O que Shongo dizia fazia sentido, claro, mas aquela mulher já me metera em encrencas e ficaria de olho nela.

     "Tudo que sabíamos é que o livro estava muito bem guardado, não apenas por ser uma relíquia, mas por ser um objeto de poder incalculável. Mas mesmo esse poder era apenas o começo, mas nos escritos que tivemos acesso não sabíamos do que se tratava."

     "Então", concluiu o coreano Kim, "vocês almejavam esse poder ?"

     "Eu almejava o livro em si.", respondeu seco Shongo. "Sei das minhas limitações, e o livro já representaria uma vitória, algo que poderia me orgulhar, apesar de ser um discípulo medíocre. Algo que poderia mostrar ao meu mestre."

     "Que ridículo", murmurou Natsuko, sendo ouvida apenas por mim e Nanako. "Um mundo qua ... "
Ela percebeu e desviou o olhar para as paredes da sala. Nanako não parecia muito interessada nos devaneios dela, e logo puxou meu braço para mais perto do grupo.

by Kiki-chan