| "Claro seu idiota."
Era a voz de meu avô? Claro a batida na cabeça, eu devia estar delirando ainda... "Perdeu seu foco de novo!" a voz dentro de minha cabeça gritou "O que você pensa que esta aprendendo, seu imbecil ?" "Estou aprendendo a lutar e estou aprendendo rápido" ouvi minha própria voz infantil responder. "Afinal, até derrotei você não é, seu velho ?" Vovô ficou quieto, mas seus olhos faiscavam. Entredentes, falou: "Sussumo, você não entende nada mesmo, não é? Um guerreiro não pode apenas contar com a força, pois forte também é um elefante. E eles estão sendo extintos, não? Você não pode usar apenas suas armas, o seu corpo. Se não usar a cabeça, se não tem um objetivo, você é destruído." "Que objetivo?" eu gritei com minha voz no sonho "As coisas aconteceram muito rápido e eu não tive tempo... Nem sei porque tive de vir pra China eu..." "Calado!" gritou o velho. "Moleque estúpido... Você teve varias pistas em casa. Um moleque curioso daria um jeito de descobrir. Lembre-se do que viu e ouviu e descubra o motivo de estar aqui!" Acordei mais amargo do que antes. Mas mesmo assim, agora tinha um objetivo, nem que fosse provar para aquela alucinação que ele estava enganado. Sim estava escuro. Mas a escuridão caminhava com a humanidade desde o principio dos tempos. Se não podia ver onde estava, podia "enxergar" o que tinha comigo. Minha bolsa de ervas ainda estava ali escondida na barra da calça, e tomei uma pitada de uma delas para amenizar minha cabeça latejante. Muito bem, podia pensar agora. Certo foi Shukumaru quem fez aquilo, e fazia sentido. Afinal ele podia ter descoberto sobre mim e minhas técnicas quando no internato. Meu orgulho me deixou descuidado e ele aprendeu técnicas secretas de minha família, já imaginando que poderia usar contra mim nessa reunião. Vou ter que consertar isso depois... Esta reunião. Minha mãe já havia chorado em outras ocasiões. Um pouco antes de começar a treinar sério com vovô, antes de meus cinco anos. Quais as palavras? 'Ele é tão jovem, não vai aguentar' <Ele é um Omote, e ninguém nessa família falhou antes. Você casou comigo sabendo disso, esposa.> "Iluminação?" murmurei descobrindo o motivo de minha vinda. Num dos inúmeros textos que meu avô tinha na biblioteca secreta falava sobre uma lenda antiga, onde os jovens das antigas famílias guerreiras tinham de provar perfeita harmonia corpo/mente/espirito, para então alcançar a mais almejada dadiva: proteger com o próprio corpo a essência da Criação. Budha foi um dos que conseguiu tal feito, e tão iluminado era que conseguiu passar para vários a sabedoria que tinha enquanto cumpria com sua missão. Sendo um príncipe, ele também tinha conhecimentos da guerra, mas optou pela sabedoria e nunca mais tomou uma espada, pois não mais dela precisava. Pensei na época ser um conto incrível, uma fabula, ainda mais se falava do lendário Budha, mas mais maduro percebia que nada que o velho deixava naquela biblioteca era inútil. Quando levava novelas e documentários de época para casa, alguns ele aceitava, enquanto outros ele jogava ao fogo dizendo "Um idiota que escreve besteiras para ganhar dinheiro. Não encha sua cabeça com informação inútil." Bem. Agora tinha de sair dali, afinal limpar o nome da família, acabar com a víbora do Shukumaru, e ainda conseguir vencer esta competição era muito trabalho. Se estava preso tinha de ter uma saída. Tateei o chão: lajotas de pedra. Estava numa masmorra. Arranquei o vidro do relógio e li com os dedos as horas. Ainda bem que diferente dos outros jovens eu jamais gostei dos digitais. Duas horas da tarde. Silenciosamente me levante e andei estudando os limites de minha prisão. Chegando na porta, estudei sua superfície, até encontrar algo que me pareceu ser a fechadura. A luz não entrava pelas suas frestas, ou pelo próprio buraco da fechadura. Não havia sentinela portanto, mas não valia a pena alerta-los se estivessem próximos. Na dobra da calça eu sempre escondia um pedaço de arame para destrancar as fechaduras do colégio e da faculdade. Com ele e com as lições do velho larápio, eu consegui destrancar com facilidade aquela fechadura. Não devia ser assim tão fácil... Escutou com cuidado os arredores. O vento vinha da esquerda. Tomou a direita. No final do corredor, percebeu que tinha chegado numa escada descendente. Mais escuridão me esperava? Talvez para o outro lado... De repente, senti uma baforada e me desviei por um triz de um golpe fatal, e contra-atacando senti um pescoço macio e felpudo se partir. Um cachorro? Por isso não havia sentinelas.
Deixaram uma matilha de cães ou lobos, não saberia dizer
, que rosnavam ameaçadoramente, seus olhos brilhando na escuridão.
Como não sai arrebentando portas, eles demoraram um pouco mais para
me perceber... mas e agora ?
by Kiki-chan
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