O Poder, A Guerra e A Paz
-o-
Diz a lenda que na península de Yuracan vivem três deuses, o deus Poder, a deusa Guerra e a deusa Paz.
Poder é representado por um homem alto e fascinante, cuja figura atrai tanto homens quantos mulheres. Sempre vestido com uma túnica branca e manto vermelho, segurando um cetro de ouro e em sua cabeça uma coroa, símbolos de seu “status” e divindade. Poder é considerado um deus volúvel, sempre flertando e seduzindo os seres humanos, e aqueles que conseguem chegar muito perto acabam perdendo suas almas no fundo dos seus olhos negros.
Guerra é representada por uma mulher alta, forte, de pele morena curtida ao sol de inúmeras batalhas. Insensível, sua única benção é uma morte honrada, apesar disso possui muitos seguidores entre os jovens, atraídos por sua beleza até chegarem próximos o bastante para verem as chamas dançando em seus olhos dourados. Geralmente representada apenas vestindo um tapa-sexo e um peitoral que lhe cobre apenas o seio direito (que segundo os mais românticos serviria para proteger o seu coração) além de suas armas, escudo e lança no braço esquerdo, espada curta na mão direita e alforge com arco e flechas às costas.
Paz é representada por uma jovem virgem, vestindo uma túnica translúcida que apenas deixava antever suas formas perfeitas. Tímida por natureza, possui pouquíssimos seguidores, apenas crianças, mães recentes e velhos soldados que ousaram olhar nos olhos da Guerra. Os poucos que a encontraram costumam dizer que a felicidade mora em seus olhos prateados.
-o-
Os dados históricos mais antigos datam do século V. Com a ascensão do Rei Cresius I ao trono de Temi, ele mandou queimar todos os registros anteriores apos proferir a frase “A Historia começa comigo”. O reinado de Cresius I foi marcado  por uma grande expansão territorial possibilitada pelos tratados Temi-Oszitti e Temi-Cittige. O objetivo de Cresius I era a unificação de todos os reinos e povos da península.
O Tratado Temi-Cittige de cooperação entre o Reino de Temi e o Porto-Estado de Cittige, assinado durante o cerco ao Porto-Estado entre o Rei Cresius I e a junta de notáveis (ricos comerciantes) que governavam Cittige, garantia a independência e o livre comércio do porto em troca de apoio marítimo (vários navios mercantes foram convertidos para batalhas) e abastecimento das tropas por mar. Apesar de Cittige nunca ter participado diretamente da guerra, foi amplamente beneficiada comercialmente por ser um porto seguro. 
O Tratado Temi-Oszitti permitiu que os exércitos mercenários da cordilheira ao norte da península, Cordilheira Oszitti, invadissem outros estados em nome do Reino de Temi em troca do butim (ouro, jóias e crianças para serem treinadas como soldado). Oszitti é composta por cinco grandes fortalezas independentes construídas em platôs na Cordilheira de Oszitti, quando necessário os comandantes das fortalezas escolhem uma única pessoa para negociar em nome das cinco fortalezas, a essa pessoa é conferida o titulo de Senhor da Guerra. 
Cresius II, sobrinho de Cresius I, completou o processo de unificação da península.
-o-
Um dia, Poder vê Paz se banhando num remanso do rio sagrado Mithos, extasiado por tamanha beleza ele raciocina “Tal beleza deve ser minha” e usando seu manto como uma rede ele a captura e a leva para seu castelo.
-o-
Com a consolidação do território conquistado e o fortalecimento do exercito, Primus I assume o titulo de Imperador de Temi, rompe os tratados com Cittige e Oszitti .
Cittige é invadida e a junta que governava o porto-estado dissolvida. Os exércitos de Oszitti  são expulsos de volta à cordilheira. 
Inicia-se o período conhecido como “Paz de Temi”, marcado por um estado policial, centralizado e absolutista.
-o-
Poder manteve Paz aprisionada por um longo tempo, considerando-a como seu mais precioso troféu. Até que um dia, Poder decide aumentar seu controle sobre Paz e torna-la sua esposa. Confiante, ele convida a Guerra para testemunhar sua conquista.
Guerra ficou curiosa e foi conhecer a tal deusa Paz que seria tão bela.
A primeira impressão de Guerra não foi nem um pouco lisonjeira, Paz estava usando um vestido de prata e diamantes, pulseiras e correntes douradas a mantinham sentada num trono de marfim. Não era possível ver seu rosto com nitidez pois uma pesada coroa de ouro impedia que ela erguesse a cabeça. 
“Humfff!!! Então essa coisa frágil é a Paz!” – bufou Guerra.
Com passos decididos, Guerra atravessou o salão do castelo de Poder, com sua mão musculosa segurou o fino queixo de Paz e ergueu seu rosto.
Ninguém sabe o que cada uma viu no fundo dos olhos da outra, elas nunca disseram ou alguém teve coragem de perguntar. Só sabemos que quando seus olhares se encontraram, o Sol parou assustado em seu curso pelo céu, a terra tremeu como se percorrida por um calafrio, e o vento soprou como um suspiro apaixonado.
Com suas próprias mãos, Guerra lançou a coroa longe, rompeu as correntes, rasgou a roupa de Paz e a carregou consigo para seu reino. Enquanto Poder assistia a tudo impotente, pois não havia nada neste universo capaz de controlar Guerra.
Diz a lenda que Guerra e Paz se amaram em uma noite sem fim.
-o-
A “Paz de Temi” durou 200 anos, mas no final deste periodo, tanto o governo central quanto o exercito se enfraqueceram permitindo a eclosão de diversas revoltas populares nos antigos reinos conquistados e excursões de pilhagem realizadas pelos exércitos mercenários de Oszitti. Ao final deste período conturbado, o Império de Temi se encontrava muito enfraquecido sendo que algumas regiões mais remotas se mantinham autônomas do governo imperial.
-o-
Antes que a noite termina-se nos domínios de Guerra, Paz se ergueu do leito e retornou ao seu reino as margens do Rio Mithos. E a vida continuou ...
Poder percebeu que existiam coisas alem do seu controle e por isso se isolou em seu castelo com seus preciosos brinquedos.
Guerra manteve sua rotina de treinos e lutas, mas agora seus períodos de descanso eram mais longos e alguns de seus servos podiam jurar ouvir suspiros.
Paz retornou aos seus dias calmos, mas a timidez em seu olhar havia sumido, em seu lugar havia força e determinação.
-o-
Com o apoio dos exércitos mercenários de Oszitti, o Porto-Estado de Cittige consegue sua independência, essa crise marca de forma categórica o esfacelamento do poder imperial.
No porto de Cittige, o Imperador Timius é forçado pelos governadores de província a assinar a Carta de Yuracan que limita o poder do imperador e cria o Senado de Temi.
E a vida continua....
VOLTAR
Toda forma de poder 
é uma forma de morrer por nada 
toda forma de conduta 
se transforma numa luta armada 
a história se repete 
mas a força deixa a estória mal contada 
(Toda Forma de Poder, Engenheiros do Hawaii)