“O Rei Cresius I foi o precursor dos estados nacionais na Península de Yuracan, criador de uma estrutura de governo que foi a grande responsável pelo sucesso do futuro império, uma estrutura que não só garantia os recursos necessários à manutenção das máquinas administrativa e de guerra, mas que igualmente permitia aos vários povos conquistados manterem sua identidade cultural. Cresius I foi um grande racionalista, tanto militar quanto político, porém alguns dos documentos preservados na Biblioteca Republicana de Temi nos dão ciência de que ele também possuía um lado supersticioso.”
(extraído da tese de doutorado de Ann Christian)

Renascer num Campo de Flores Amarelas
by Ban Kimba

Na periferia da cidade de Temi, um homem acorda com seu próprio grito, ele se levanta nu, abre a janela, e olha espantado para os prédios e casas que sempre estiveram lá. O relógio digital marcava 05:39. Sua esposa também se levanta e o abraça.

- Um pesadelo?

- Sim, sonhei que eu era um soldado, enviado para matar uma bruxa...

-o-

- Uma bruxa, meu senhor?

- Sim, uma bruxa, Mestre Tércio!

Tércio era um dos grandes mestres espadachins da Confraria de Bellum, um veterano em combates. O cavaleiro havia sido convocado para uma audiência privada com o velho Rei Cresius, que parecia preocupado demais com um assunto tão insignificante.

- Meu rei, se é apenas uma bruxa, por que não mandar um grupo da guarda palaciana?

- Já se encontrou com alguma bruxa? Uma bruxa de verdade? – havia um sorriso nos velhos lábios do rei, um sorriso condescendente e perigoso. 

- Já me deparei com leitoras da sorte, sacerdotisas e trupes de mágicos, mas nunca encontrei uma bruxa de verdade, majestade.

- Pois eu já, foi nesta mesma sala, antes de você ter nascido... - e o velho soberano se perdeu em suas memórias.

-o-

O Rei Cresius estava enfurecido, seu reinado mal havia começado e já o faziam esperar. Os funcionários do cerimonial precisariam de uma lição de etiqueta palaciana, e pobre do primeiro infeliz que adentrasse a sala de audiências privadas.

Contudo, para a surpresa do jovem de cabelos loiros e olhos azuis claros, quem atravessou as grossas portas não foi o arauto, que deveria anunciar a chegada do representante dos mercadores de Cittige, mas uma jovem alta de cabelos negros. 

- Olá Cresius, muito pesada a coroa? – brincou a jovem de olhos castanhos dourados.

Foi a gota d’água. O rei se ergueu do trono e sacou sua espada.

- Como ousas mulher? Aparecer diante de seu soberano sem se anunciar.

- Cresius, seu pai nunca falou de mim? – perguntou a chocada jovem de olhos claros como prata. – Sou eu, sua irmã desaparecida!

A espada escorregou das mãos do rei caindo com estrondo no chão de mármore. Seus olhos se arregalaram, sua boca muda abria e fechava, como um peixe fora d’água.

- Brincadeirinha... – ela riu jovialmente. – O nome Anita te lembra alguma coisa?

Cresius voltou a sentar, lentamente, os punhos fechados, os nós dos dedos brancos. Só não torcia aquele pescoço com as próprias mãos porque ele se lembrava daquele nome, lembrava-se do pai dizendo: “Quando Anita vier, seja esperto, e aceite o acordo”. A mulher que estava a sua frente não se parecia com a descrição feita pelo antigo soberano, que também havia lhe avisado: “Não importa qual a aparência que ela tiver quando se encontrarem, você a reconhecerá pelos olhos”.

- A bruxa...

- Não exatamente, mas se isso facilitar a negociação... – a jovem deu de ombros e continuou séria, os olhos negros como a noite. – Cresius, Rei de Temi, vim aqui para renovar o pacto firmado com seu pai, com seu avô e todos os soberanos niranos anteriores...

A mudança no rumo da conversa ajudou a acalmar o furioso soberano. Acordos, contratos, tratados; esses eram assuntos ao qual estava acostumado desde criança. Um dom natural, refinado pela necessidade de sobrevivência.

- E quais são os termos do pacto?

- São simples; sua senhoria desconsiderara minha existência, e eu não influenciarei no destino de Yuracan.

- E se eu recusar? – ele era um negociador duro, porém ela era mais.

- Você tem três opções... Olhe nos meus olhos!

E neles Cresius se viu refletido; num fundo negro, sentado em seu trono com coroa e cetro; num fundo prateado, caminhando num belo jardim vestindo roupas simples; num fundo dourado, montado a cavalo e brandindo a espada.

- Qual a sua escolha Cresius? – chamas dançavam em olhos cor de mel.

Ele não conseguia responder, seu peito se movia com dificuldade, gotas de suor brotaram em sua testa. “Que foi isso? Ilusão? O futuro? O que significavam? Que monstro é esse que cheira a lírios do campo?”

- O acordo... eu aceito... 

- Viu? Não foi tão difícil – o rosto e a voz da jovem retornaram ao tom jovial da sua chegada. – Nunca entendo o porquê de tanta hesitação, vocês reis sempre escolhem o poder... Adeus...

Ela já estava a meio caminho da porta quando parou, voltou-se, e fez um largo gesto com o braço que foi acompanhado pelo rangido de aço cortando pedra.

- Já estava quase me esquecendo, é uma velha tradição...

-o-

O velho Rei Cresius contemplava os três cortes diagonais que feriam a grossa coluna de granito polido, quando criança sempre se perguntara quem as fizeram as duas primeiras, hoje ele era a única pessoa viva que conhecia sua origem e significado.

- Mestre Tércio. Enfrentar essa criatura é inútil, ou na pior das hipóteses um suicídio – o rei falava como um professor explicando algo básico para um aluno teimoso - Você deve se aproximar dela e matá-la, sem aviso, sem hesitação. Um único e definitivo golpe.

- Mas alteza, isso seria... assassinato...

- Não, meu jovem, isso é política de estado – e lá estava novamente o sorriso, bradando a quem fosse suficientemente esperto para ouvir: “É matar ou morrer”. 

- Meus espiões a localizaram em Celdet, – continuou Cresius – ela está retornando à cidade de Temi com a Grande Caravana do Outono. Eles a descreveram como uma velha de cinqüenta anos, alta e de cabelo negros e brancos. O nome da bruxa é Anita. Agora vá!

-o-

A caravana havia descido as encostas da Cordilheira de Oszitti, seguido pela Grande Planície, que cortava a Península de Yuracan de ponta a ponta, e chegara ao Porto de Tazeno ao sul, aonde os mercadores aproveitaram para vender suas mercadorias e descansar antes de enfrentar a trilha até Kalgor, a cidade entre o pântano e o deserto.

Apesar da viagem ter sido tranqüila havia algo de errado, nos últimos dias Anita vinha se sentindo cansada, seus ossos doíam à noite e seus reflexos estavam mais lentos. "Estaria doente, ou seria a velhice? Nunca se sentira assim, e isso a deixava preocupada, como poderia se defender e a sua jovem companheira?" 

- Está se sentindo melhor? – Raquel, a jovem ittaciana estava preocupada, sua nova amiga parecia muito mais velha, mais cansada, mais distante. Tão diferente da mulher alegre e confiante dos primeiros dias da viagem.

- Estou bem melhor – ela estava descansando na carroça após a caminhada da manhã, quando ambas estiveram colhendo amoras silvestres. Anita admirou a jovem de pele escura, olhos e cabelos castanhos escuros, havia tanta vida naquele corpo saudável que ela sentia um pouco de ciúmes e culpa.

- Podemos ficar na cidade, eu trouxe algumas jóias que posso vender... – o comentário soou como um pedido.

- Não gosto desta cidade, ela fica muito próxima de Ganbtirit.

- É por causa da lenda do demônio? Mas isso é estória para crianças.

- Sempre existe um pouco de verdade por trás das lendas – sorriu a velha senhora.

- Que seja – a jovem suspirou. - Vou pedir para a cozinheira preparar uma sopa para nós, volto depois.

Raquel saiu da carroça e caminhou pelo acampamento da caravana, conversando com os mercadores e viajantes, era uma tarde luminosa de outono. Encontrou a cozinheira do acampamento e lhe deu uma moeda de cobre pela sopa que seria servida à noite, conversaram sobre o tempo, a viagem e sobre a saúde de sua companheira, e a mulher, que recendia a gordura e ervas, recomendou que fosse buscar um médico na cidade.

O Porto de Tazeno era muito antigo, uma das primeiras cidades erguidas pelos litdicos que chegaram fugidos da guerra no continente sul. Era um porto importante que crescera de forma desordenada, enquanto os abastados comerciantes construíam seus palacetes na margem leste do rio, a ralé erguia suas casas em qualquer espaço disponível a oeste do porto, formando um labirinto de ruelas e becos sem saída. E foi nesse amalgama de casas e comércios, uns apoiados noutros, que Raquel se perdeu.

Ela caminhava por uma rua de terra batida, casebres de madeira de ambos os lados, tentando se guiar pela luz do sol que já se aproximava do ocaso, procurado se dirigir para o sul e encontrar a Praça do Mercado. Porém tudo que a jovem conseguiu foi chegar a um pequeno largo formado pelo encontro de cinco diferentes ruas, no centro um pilar de pedra para se amarrar animais aonde dois homens aguardavam.

Raquel se dirigiu para a rua que acreditava ser o sul, e após alguns passos descobriu não possuir saída, deu meia volta e se deparou com os dois homens, que lhe barravam a passagem.

- A jovem está perdida? Ou está procurando diversão? – os homens sorriram de forma maliciosa, seus grandes brincos presos à orelha esquerda os identificava como marinheiros.

Os ittacianos se orgulham de sua coragem, e Raquel era ittaciana até a medula dos ossos, apesar das batidas descompassadas de seu coração, o timbre de sua voz não a traiu, saiu forte e calma, enquanto a mão direita buscava o cabo da adaga escondida na manga esquerda.

- Procuro um médico.

- Que coincidência, conhecemos um médico que mora no fim deste beco – um dos homens apontou, mas ela não se voltou para olhar.

- Não, obrigada. Apenas me indiquem o caminho até a Praça dos Mercadores.

O marinheiro apontou novamente para o mesmo ponto, riu e avançou contra a jovem, que deu um passo para trás e o golpeou.

- Puta desgraçada! – o agressor segurava a mão ferida – Quando terminarmos com você nem os cães irão lhe querer.

O segundo marinheiro a atacou, ela tentou golpeá-lo, porém marinheiros estão acostumados a lutas com facas, ele esquivou, segurou lhe o pulso e o torceu até que ela largou o punhal. Com os braços presos às costas, ainda tentou chutar o outro sem sucesso, que se aproximou e a socou pouco abaixo das costelas. O golpe a deixou sem fôlego e sem forças, se não estivesse sendo segura, teria desabado no chão.

O homem com a mão ferida, pegou o punhal caído, ergueu o rosto da jovem e encostou a arma em sua face.

- Agora nós iremos até o final desse beco, vamos nos divertir, e você vai ficar quietinha.

Os três se dirigiram para o fundo da ruela, quando uma porta se abriu. O marinheiro ferido estava tão tenso que atacou sem pensar, apenas para receber a ponta de uma espada no peito. Ao ver o companheiro cair morto, o outro sacou de sua faca.

- Fica quieto ou eu mato a garota!

O vão da porta era apenas um retângulo negro, a única coisa visível eram sombras e a lamina brilhante da espada que se ergueu até apontar diretamente para o rosto do marinheiro.

- E depois? – perguntou das sombras uma voz firme e fria como o aço da espada.

O marinheiro olhou para a ponta da espada manchada com sangue, para seu amigo morto, e deu um passo para o lado. A espada o seguiu. Ele então empurrou a jovem contra a espada e fugiu sozinho.

Raquel cambaleou em direção à espada que se afastou, e antes que caísse sobre o morto, alguém saiu do casebre e a amparou.

- Você está bem? Não está ferida? – ele perguntava preocupado por causa do vestido manchado de sangue.

Ela se segurou no peito da camisa e olhou para o rosto dele, quadrado, barba clara e aparada, olhos azuis escuros, cabelos loiros amarelados, o porte de um guerreiro, um nirano. Ela enfiou o rosto no peito largo, começou a chorar e pensou: “que o orgulho ittaciano fosse para o inferno”.

...

A noite desceu sobre a Península de Yuracan, e a Grande Caravana se agitava com o retorno dos mercadores e suas estórias do dia, com os preparativos para a noite e com a fila que aumentava na cozinha comunitária. 

No meio desse burburinho, uma preocupada Anita procurava sua jovem companheira, até que a encontrou conversando com um homem alto, que pela aparência só poderia ser um soldado de Temi. Ela se aproximou sorrateiramente o máximo que pode.

- Anita! – gritou Raquel. – Deixe-me apresentar meu amigo.

Tércio se virou para olhar para a mulher que chegará, quase tão alta quanto ele e de cabelos brancos. O reconhecimento foi mutuo. A mão do cavaleiro se dirigiu para o punho da espada.

“Ela sabe!”, foi o que ele pensou ao ver-se refletido nos olhos claros da mulher. Contudo para seu espanto, a mulher se aproximou com um sorriso e o abraçou.

- Jovem Tércio, há quantos anos? E o Mestre Graco?

A surpresa foi tanta que ele respondeu sem pensar.

- Ele morreu há três anos na Batalha de Mekan...

- Não sabia... – havia uma profunda tristeza naqueles olhos claros. – E o belo Adriano?

O nome fez ele se lembrar de uma época distante, quando ele era apenas o escudeiro de Mestre Graco, foi numa noite fria de inverno, havia bebido salsaparrilha pela primeira vez e se sentia meio tonto, quanto Adriano entrou na taverna acompanhada de uma mulher alta, de cabelos negros como a noite e um riso cristalino como água. Ele ficara fascinado por aquela mulher que conversava alegremente com seu mestre, e que, em algum ponto da noite, dançou sobre as mesas.

- Ele está em Bellum... e você... é a dançarina?

Aquilo pegou Anita de surpresa e a deixou ruborizada.

- Pelos Deuses! Após tanto tempo ainda ser lembrada por aquele momento de fraqueza, devo ter bebido vinho demais naquela noite...

- Vocês já se conheciam? – perguntou incrédula a jovem. A mulher então sussurrou ao ouvido dela.

- Fui amante do professor dele – a jovem riu baixinho, encabulada.

Ele olhou para as duas mulheres, e se perguntou como ela poderia ser o temível monstro de Cresius, e em como o destino era estranho ao juntar num mesmo drama, personagens tão diferentes.

- Tércio, por que não está de uniforme?

- Eu?... Estou de licença...

- Tazeno é um estranho lugar para se descansar...

Tércio não respondeu, nem Anita insistiu, ela pegou os mais jovens pelo braço e os levou até a cozinha do acampamento, onde os três jantaram, após o soldado pagar uma moeda de bronze. O trio ficou conversando, contando velhas estórias, até a fogueira se tornar cinzas, então o cavaleiro acompanhou as mulheres até a carroça e se despediu com um floreio.

Ele então atravessou a cerca que separava o campo da cidade, andou por suas ruas escuras se guiando apenas pelas sombras criadas pela lua em quarto minguante. Um vulto se juntou a ele.

- Então o Mestre Espadachim já conhecia a bruxa.

- Será que ela é realmente uma bruxa?

- Quem somos nós para discordar do rei. Devia ter aproveitado a chance.

- Amanhã...

...

- Esse Adriano, ele também é um nirano? – as duas amigas já estavam deitadas na carroça, mas Raquel não parecia estar disposta a dormir, ainda excitada pelos acontecimentos do dia.

- Não, ele é mestiço, a mãe era nirana, o pai ittaciano – respondeu sonolenta.

- Você o chamou de ‘belo’...

- Belo como um deus de ébano, um verdadeiro cavalheiro, tão cavalheiro que às vezes eu tinha que pular em cima dele – a mulher mais velha riu baixinho. – Você está interessada no nirano?

- Não! Claro que não... é apenas... ele salvou minha vida hoje...

- Lembre-se menina, você é uma filha do Clã do Lobo e ele é um cavaleiro de Bellum.

- Foi ele quem matou meu irmão? – a jovem se ergueu, procurando os olhos brilhantes de sua companheira, a voz cheia de desespero, esperando uma negativa, mesmo que falsa. 

- Não, ele não participou da Batalha em Wirotnee. Mas ele já matou muitos guerreiros ittacianos, e com certeza matará outros...

- Se foi em combate... Isso só prova que ele é um grande guerreiro.

- Vocês ittacianos; vivendo pela guerra, morrendo na guerra...

Raquel voltou a deitar, os pensamentos dando voltas.

- Será que ele gosta de mim? – não houve resposta. - Anita? Está acordada? ... Anita!

A jovem se ergueu assustada, e à luz daquela clara noite de outono, ela viu a amiga, dobrada, abraçando o próprio ventre, os lábios congelados num ricto de dor. As duas ficaram abraçadas por um longo tempo, até a dor ceder. Pouco antes da velha mulher escorregar para a inconsciência do sono, ela sussurrou:

- Raquel, me perdoe...

...

O dia nasceu límpido como cristal, o céu azul com poucas nuvens, a grama molhada do orvalho da noite, os pássaros cantavam, e os mercadores se preparavam para o último dia de comércio antes do reinício da jornada. Raquel acordou disposta a levar a amiga a um médico ou curandeiro, mas ela já havia saído.

- Vamos Raquel, acorde! Ou vai ficar dormindo o dia inteiro? – Anita estava do lado de fora da carroça, vestida e com uma cesta pendurada no braço.

- Você está indo ao médico? – a jovem colocou a cabeça através da cortinas que fechavam a carroça.

- Não tenho tempo para esses charlatães. Se não se apressar, vou deixá-la para trás.

Raquel apenas teve tempo de se enfiar dentro de um vestido, calçar as sandálias e saltar da carroça, a amiga já ia a alguma distância, obrigando-a a correr enquanto ajustava o vestido e o cabelo.

- Pra que tanta pressa? Aonde vamos?

- A um lugar sossegado, longe de olhos curiosos.

As mulheres deixaram o acampamento, entraram numa trilha que cruzava o bosque de carvalhos e sobreiros, e chegaram a uma clareira coberta com dentes-de-leão, formando um tapete de folhas verdes e flores amarelas. Elas caminharam pelo campo até um manacá de copa arredondada, salpicada com flores azuis-violeta e brancas. Anita se sentou na grama alta e puxou a amiga.

- Ouça com atenção e não esqueça. Quando chegar em Temi procure a Hospedaria dos Deuses Loucos, apesar do nome e do dono, é um dos meus lugares favoritos na capital. Diga meu nome e ele lhe conseguirá um quarto e lhe entregará um pequeno cofre.

A mulher retirou do pescoço um cordão no qual uma chave de cobre estava presa, ela então passou o cordão pela cabeça da jovem que estava com os olhos marejados.

- E não vá começar a chorar! No cofre deve haver dinheiro suficiente para seis meses. Você também vai precisar de um emprego, procure Madame Lívia na Taverna do Velho Rei, diga que é minha amiga. Aqui está a bolsa com o dinheiro que ainda nos resta, use com moderação.

- Eu não quero essas coisas, elas são suas. Você não vai morrer, eu não vou deixar!

- Viver ou morrer, nem os deuses conhecem o futuro. Mas uma coisa é certa, esse corpo já gastou todo seu tempo neste mundo e precisa ser substituído. Se tudo der certo, você pode me devolver a chave e a bolsa, senão elas são suas para usar da forma que quiser. Agora se acalme e me ouça...

E Anita contou sua estória, de como um dia acordara no corpo de uma jovem, com a mente vazia, sem lembranças ou experiências, somente a capacidade de sentir as necessidades básicas daquele corpo estranho. A estória continuou por um longo tempo, até a dor retornar, súbita e excruciante, e tão rápida quanto veio, ela se foi.

...

Enquanto isso, Tércio chegava ao acampamento, trajando seu uniforme da Confraria de Bellum, ostentando o brasão da espada e do tridente em campo encarnado, pois não havia mais a necessidade de se esconder. Como não encontrou as mulheres, decidiu aguardar o retorno delas e começou a ponderar: "Qual seria a melhor forma de enfrentar a situação? Como provar que aquela velha era a bruxa?" De uma coisa tinha certeza, ele não era um assassino, e não importava qual a opinião do espião ou do próprio do rei. Após muito meditar ele chegou a um plano, ou a idéia de um plano; enfrentaria a bruxa, a acusaria e atacaria, se ela fosse real ele provavelmente seria fulminado com um raio ou coisa parecida, senão desviaria o golpe no último instante e pediria desculpas. O único problema seria a jovem, ela provavelmente tentaria intervir de forma precipitada, o que seria um perigo para todos.

Os pensamentos do cavaleiro mudaram para a ittaciana, seus grandes olhos castanhos, seu nariz arrebitado, seus lábios carnudos, seu corpo pequeno que prometia... Lembrou-se da conversa que tiveram após resgatá-la, sobre a saúde da amiga. "Bruxas ficam doentes? Envelheciam?" Cresius havia lhe dito algo sobre ela ter visitado os reis anteriores, sempre a mesma mulher, mas em corpos diferentes. "Como ela fazia isso? Seria algum tipo de possessão? De quem seria o próximo corpo?" Um pensamente terrível percorreu sua espinha como uma descarga elétrica, imediatamente pôs-se a interrogar as pessoas próximas à carroça, até encontrar uma velha, que a muito contragosto indicou o bosque. 

Tércio atravessou o bosque como um possesso, sem se preocupar com galhos ou trilha. Quando despontou no campo florido, viu apenas a jovem ittaciana carregando a grande cesta com as duas mãos. Ele se aproximou, a mão firme no punho da espada: "Seria tarde demais?" A jovem estivera chorando, as lágrimas ainda molhavam seu belo rosto, o soldado olhou para os olhos dela e afrouxou o punho que segurava a espada, aqueles eram os mesmos olhos castanhos do dia anterior. "Mas onde estaria a outra mulher? Teria morrido? Por isso as lágrimas?"

Foi então que ele notou a criança no cesto, gorducha e pele negra, os olhos estavam abertos e eram negros... Não, eram cinza, castanho-claros, negros novamente... A cor da íris mudava aleatoriamente em rápida sucessão. Ele deu um passo para trás, horrorizado.

- É ela, não é? A bruxa?

A jovem se encolheu, sem negar ou anuir. O soldado sacou sua espada, o aço raspando em couro. Atemorizada, Raquel se ajoelhou cobrindo a cesta com seu corpo.

- Ela não é uma bruxa! – disse entre soluços. – Ela me avisou, mas não quis acreditar. Ela disse que você veio para matá-la, eu não vou permitir! – A última frase saiu como um lamento, um gemido impotente diante de algo acima de suas forças.

Era inútil, ele era um mestre-espadachim, um dos melhores da Confraria de Bellum, a elite militar de Temi, já conquistara cidades e já matara dezenas em nome do rei, poderia facilmente cortar a jovem e o bebê ao meio com um único golpe, poderia... Abaixou a espada e a guardou. 

- Eu vim para matar uma bruxa, não um bebê. – Estava decidido, se Cresius quisesse sua cabeça, agora teria um motivo. 

Ele se abaixou e ajudou a jovem a se levantar. Caminharam juntos para a caravana.

- Qual o nome que você vai dar a ela?

- Um nome? – Raquel olhou para o bebê que dormia e balbuciava algo enquanto sonhava. – Será Anita! Ela já usa esse nome há tanto tempo...

-o-

Naquela noite o Rei Cresius teve um sonho estranho, ele caminhava pelos corredores escuros do castelo, vestindo um camisolão de lã grossa, os pés descalços. Sem percebem como, ele estava em sua sala de audiências particulares, em seu trono havia uma criança, uma garotinha ittaciana de cinco ou seis anos, que apontava para o pilar onde uma quarta marca havia aparecido. Quando a manhã chegou, ele sabia que Mestre Tércio falhara.

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Julio César não conseguiu voltar a dormir, não depois daquele estranho pesadelo, assistiu ao jornal matutino, preparou o café da manh㠖 torradas, queijo, café e leite – para ele e a esposa, tomou um banho e vestiu o uniforme branco com detalhes em negro da polícia metropolitana.

Estava sendo um dia normal, fazia a ronda com o colega Isaac na viatura, somente casos cotidianos - bêbados, furto de carro, brigas – um dia tão comum que o fez esquecer do sonho. Pararam num boteco para uma coxinha e um café, foi quando dois homens tentaram roubar o posto de gasolina da esquina, houve troca de tiros, e um dos assaltantes tentou fugir a pé, correndo pela rua deserta. Julio César deu um tiro para o alto e correu atrás.

E após virar uma esquina lá estava o criminoso, parado no meio da rua, bermuda e camiseta preta, um gorro lhe cobria os cabelos. Ele esperava de arma em punho. A bala explodiu no peito do policial, jogando-o para trás, no asfalto, entre flores amarelas. "Flores amarelas? Seria isso a morte? Por que flores amarelas? Por que o céu continuava o mesmo, com as mesmas nuvens cinzentas que prenunciavam chuva no fim da tarde?" O assaltante aproximou-se, um sorriso feio, a arma pronta para terminar o serviço. Alguém disse:

- Se não fizer algo, ele vai te matar.

Tudo aconteceu em câmera lenta, eles apontaram as armas, pétalas amarelas voaram próximas à orelha esquerda do policial, uma flor vermelha desabrochou no peito do bandido, que foi ao chão, revelando uma jovem pálida, longos cabelos negros e brilhantes, calça jeans e camiseta branca salpicada de sangue.

- Agora estamos quites, cavaleiro de Bellum – seus olhos brilhavam como o Sol.

E ela partiu, levando consigo as flores amarelas. Isaac chegou logo após, e levou o companheiro ferido ao hospital. 

Os médicos disseram que ele tivera muita sorte, apenas uma costela quebrada e fragmentos de metal e plástico no peito, a bala atingira a bateria do celular e depois uma costela, onde ficara presa.

... 

Naquela noite, ainda no hospital, Julio César teve outro sonho, ele sonhou com a velha capital de Temi com suas ruas de pedra, com uma grande festa, com a coroação de um novo rei. Ele caminhava com a multidão, ao lado de sua esposa, entre eles uma garotinha sorria, segurando as mãos de ambos.

- Vamos visitar o novo rei? – perguntou a menina, quase inocentemente.

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