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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 57 – Flashback

           Ao lado de um imenso cruzador de areia, a noite escura era iluminada em tons avermelhados pela fogueira que o grupo rebelde acendera. Estavam todos reunidos em pequenos grupos espalhados ao redor do fogo, mas dois homens sentados mais próximos não participavam de qualquer conversa, parecendo perdidos em pensamentos até que um terceiro homem aproximou-se.
         _ Vamos, pessoal, comam! Não se encontra esse tipo de comida por aqui ultimamente, não?
         Roni Fatima era loiro, alto e de olhos azuis, muito parecido em feições com seus descendentes futuros, Sigurd e Bartholomew. Ao reunir-se aos companheiros ao redor da fogueira, ele deu de ombros e piscou.
         _ Bom, isso também é devido ao meu negócio, savvy.
         _ ... O que foi, Lacan? – perguntou o jovem Rene, reparando no silencioso rapaz de cabelos presos num rabo de cavalo – Está meio deprimido. O que está te incomodando? Está preocupado com alguma coisa?
         _ Não é nada... – Lacan murmurou sem erguer os olhos e sem dar atenção a Roni, que se aproximava do fogo – Estou apenas pensando na pintura de Sophia. Não sei por que eu concordei em fazer o retrato dela...
         _ Sophia. – Rene lembrou-se – Está falando da sua amiga de infância que agora é a Madre Sagrada de Nisan?
         _ Ela não é bem uma amiga de infância – Lacan explicou nervosamente, sempre de olhos baixos – Eu apenas vim a conhecê-la no monastério perto da minha casa quando eu era criança. Ela ia para a clínica de lá para convalescença. Ela era frágil.
         _ Então, – Rene perguntou, enquanto Roni olhava de um para o outro em silêncio e Lacan continuava parecendo preocupado – pelo que está preocupado quanto a pintá-la?
         _ Ela não deseja ser, ela própria, um símbolo da sua seita – Lacan explicou, remexendo inquieto na areia do solo – Na verdade... parece que ela não estava interessada em ter o retrato pintado no início. Mas, quando ela ouviu que eu seria o pintor, ela mudou de idéia e concordou. É isso o que eu não entendo...
         _ Sei – Roni murmurou, dando de ombros – Então, ela deve gostar de você.
         _ Do que está falando? – Lacan voltou-se desconfiado para o outro. Apesar dos modos elegantes e da natural liderança, Roni tinha um senso de humor estranho. Por vezes era difícil entender se ele estava brincando ou não. E Roni tornou a dar de ombros.
         _ É assim que são as mulheres. Certo Krelian...?
         O homem silencioso de cabelos azuis, do outro lado da fogueira, não pareceu ouvir a princípio, o olhar voltado para o deserto e com ar distante, o que fez Roni insistir.
         _ Ei Krel!
         _ Hã?
         _ O que é que há? – perguntou Rene, mastigando – Não tá comendo nada? Está pronto pra comer.
         _ Ah, claro...
         _ A Madre Sagrada de Nisan, hein? – Roni murmurou, parecendo pensativo – O que, está disposto a ofender a providência divina ou coisa parecida, Lacan?
         _ Pára com isso...! – Lacan tornou a baixar os olhos, tremendamente embaraçado – N-não é nada disso...
         Sorrindo, Roni foi até onde Lacan estava, sentando-se do seu lado e deixando o outro ainda mais desconfiado.
         _ O q-quê?
         Roni meramente deu um tapinha no ombro do amigo a princípio. Lacan era uma ótima pessoa, mas um pouco depressivo demais. Erguendo os olhos e contemplando a noite estrelada em silêncio por um instante, Roni por fim comentou:
         _ Você tem que pegar mais leve...

         Krelian e Lacan estavam em Nisan, conversando numa manhã de sol. Mesmo o apático Lacan não tinha como não notar o quanto aquilo era curioso. Krelian tinha uma reputação feroz entre seus inimigos e inspirava algum temor mesmo entre aliados que não o conheciam tão bem por ser um guerreiro poderoso, invencível no campo de batalha. E ali estava ele, começando a falar como um autêntico intelectual.
         _ Sophia começou me mostrando que os livros são a melhor maneira de acalmar o coração... e agora estou viciado em leitura. Não é que queira me gabar... mas aprendi uma porção de coisas que nunca soube antes. Ultimamente, estive lendo isso.
         _ O que é? – Lacan perguntou, sem entender os caracteres antigos na capa.
         _ Uma coisa que peguei emprestado de Melchior. É sobre uma forma de engenharia molecular... nanotecnologia. Acredito que seja um livro descoberto nas antigas ruínas da Civilização Zeboim. É uma cópia do relatório da pesquisa de alguém, mas está incompleto.
         E Krelian mostrou a Lacan parte do conteúdo do livro. Ele não entendia muito os números e palavras escritas ali, mas os trechos onde as anotações estavam interrompidas eram óbvios demais.
         _ Acho que havia ainda mais coisas maravilhosas escritas nele, mas agora nunca saberemos.

         Outro dia, outro ponto de Nisan. Lacan estava numa sala reservada da catedral de Nisan, pintando um grande retrato. Ou era o que pareceria se alguém entrasse naquele momento na sala.
         _ O que houve? Você não parece muito bem.
         Ele acenou que não com a cabeça, mas a verdade era que estava retocando aquele mesmo trecho do quadro pela quarta vez, e sabia que não estava bom; teria que retocar novamente. Sentada em sua cadeira, Sophia o olhava com preocupação e isso só o fazia sentir-se pior.
         _ Ultimamente, você tem parecido melancólico quase todos os dias. Aconteceu alguma coisa?
         _ Eu não sei – Lacan murmurou, acenando outra vez. Sequer tinha energia para negar – Eu simplesmente não consigo pintar agora. Desculpe, mas você se importa de pararmos por aqui, por hoje...?
         _ Entendo – ela concordou com um aceno de cabeça – Não adianta forçar-se demais. Por que não descansa por algum tempo? Vou pedir que Krelian leve você...

         Outra noite ao redor da fogueira e, diferente do outro dia, Krelian estava falando. Ele não olhava para qualquer dos companheiros, os olhos sempre voltados para o deserto infinito diante de si, mas era tão curioso vê-lo disposto a falar que ninguém o interrompia.
         _ Mesmo assim, houve um tempo em que eu fiz algumas coisas realmente horríveis. Eu atacava indiscriminadamente... Todos á minha volta me temiam... Até meus amigos. Eu vivia minha vida cercado por pessoas que olhavam para mim com temor em seus olhos.
         Ele acenou com a cabeça, o semblante duro repentinamente suavizando-se e a sombra de um sorriso surgindo em seu rosto.
         _ Mas ela foi a única que não teve medo de mim. Ela apenas sorria. Paz de espírito... Foi ela quem me ensinou o que isso era e como eu poderia consegui-la... Ela me ensinou a viver como um ser humano.

         Outro dia. A sala do retrato. Lacan estava sozinho, tentando sem sucesso livrar-se do desconforto. Não queria voltar àquela sala nunca mais, e mesmo assim, quando dera por si ali estava novamente. Não queria mais...
         _ O que está fazendo, Lacan?
         Ele voltou-se, ficando de pé. Roni e Krelian estavam à porta e ele suspirou de alívio.
         _ Ah, é você, Krelian... Eu estava pensando... em parar de pintar o retrato...
         _ Por que parar agora...?
         Mais de noventa por cento da pintura estava pronta àquela altura, restando apenas um espaço inacabado no canto inferior direito da moldura para finalizar. E Lacan baixou os olhos.
         _ São as circunstâncias. Eu não a deveria estar pintando numa hora como essa – e encarou os dois, esperando convencer – Eventualmente, ela também precisa apresentar-se nas linhas de frente. Então...
         _ É esse mesmo o problema?
         Lacan não suportou o olhar de Krelian, astuto demais para aceitar uma desculpa tão fraca. Ele não queria dizer, mas não conseguia pensar em nada mais. Voltou as costas para os dois e baixou a cabeça, hesitando por um momento.
         _ Lacan...?
         _ O sorriso dela... está me matando – Lacan murmurou, levantando a cabeça e olhando para o teto.
         _ Quanto mais ela sorri pra mim, mais eu... eu sinto o meu próprio ser se tornar insignificante. Dentro do meu coração existe essa existência vazia. A não ser pela pintura, eu não tenho qualquer valor. Mesmo assim, ela continua a aceitar a minha presença. Sinto como se estivesse ficando menor e menor.
         Ele voltou-se para o retrato. Lá estava o semblante sereno de Sophia, como ele a havia retratado, para os olhos dos leigos. Mas a pintura agora transmitia muito mais para ele.
         _ Eu não tinha esse sentimento no início. Eu só queria pintá-la por mais um minuto... Mais um segundo que fosse. Eu queria continuar pintando para sempre. Mas, de repente, eu não conseguia. À medida que a pintura se aproximava do término, a parte vazia de mim começou a se manifestar nas minhas pinceladas. Eu a deveria estar pintando como ela é realmente... mas... esse retrato é... o meu próprio eu. Meu ‘eu’ vazio começou a surgir aí dentro. É por isso que... eu tenho que parar agora.
         _ Seu próprio eu...? – Krelian aproximou-se, e havia uma impaciência muito incomum em seu rosto – Está apenas fugindo! Não consegue suportar quando ela sorri para você! Ao pintar o retrato dela, você percebeu o espaço entre seu próprio vazio interior e a abundância interior dela. E você não conseguiu preencher esse vazio... É por isso que está abandonando sua pintura.
         Lacan baixou os olhos, e Krelian aproximou-se mais um passo, fazendo o outro voltar-se para ele.
         _ Você a está recusando! E mesmo assim, não consegue se forçar a abandoná-la, consegue?
         Diante do silêncio de Lacan, Krelian fez que não com a cabeça, parecendo irritado com a atitude do outro.
         _ E mesmo com tudo isso... por que é que ela continua a sorrir pra você? Você, que não consegue aceitar os sentimentos dela... Você, que não quer aceitar os sentimentos dela...! Me diga por que?!
         Lacan não tinha nada a dizer, e manteve os olhos baixos. E Krelian afastou-se dele, dando-lhe as costas e também baixando os olhos enquanto murmurava:
         _ Se fosse eu... Recebendo tais sentimentos...

         Krelian lembrou-se da batalha mais recente na qual tomara parte, quando Sophia deixara seu Omnigear, Regrs. A saúde dela era frágil e parecia desgastar-se ainda mais sempre que pilotava. Era teimosa demais para permitir que seus companheiros lutassem sozinhos, mas naquele dia ela mal conseguia respirar ao descer da cabine. Ele, naturalmente, permanecera ao lado dela durante toda a batalha, protegendo com cada fibra de força que ele e seu próprio Omnigear podiam dispor, e embora isso fosse poder e habilidade que muitos outros apenas sonhavam ter, ele lamentava que fosse tão pouco o que podia fazer. Com todo o seu esforço, não era capaz de protegê-la. Mais do que depressa ele saltara de sua cabine e fora até ela, amparando-a.
         _ Está se negligenciando demais! Por que não é mais gentil para consigo mesma, Senhora?

         Sem dizer palavra, enquanto os dois amigos estavam de costas um para o outro, Roni caminhou até o quadro de Sophia e admirou a obra por um momento, voltando-se depois para Lacan.
         _ ... Essa é mesmo a verdadeira expressão dela?
         _ É – Lacan deu de ombros, abatido – Para pessoas que não a conhecem assim tão bem... eu acho...
         _ O sorriso dela... Não sei – Roni murmurou, avaliando a pintura com olhar crítico – O sorriso neste retrato é, de certa forma, diferente daquele que ela geralmente nos mostra. Eu percebo que os sentimentos de Lacan estão aí, mas...
         E ele acenou que não com a cabeça, sorrindo serenamente.
         _ ... eu não acho que ela jamais tenha se aberto aos outros e exposto seu verdadeiro ‘eu’ desta maneira a ninguém.
         Lacan e Krelian voltaram-se, mas Roni continuava admirando a pintura.
         _ Você esteve pintando uma expressão tão bonita de Sophia... Eu simplesmente não consigo entender por que quer parar agora.
         _ Bonita...? – Lacan meneou a cabeça, sempre de olhos baixos – Essa pintura...? Ela é qualquer coisa, menos bonita...
         _ Você diz que é vazio, Lacan – Roni interrompeu, agora sério – Então, por que é que continua com a gente? O que temos feito até aqui não são apenas atos de misericórdia. É uma luta pela liberdade. Vez após vez você passou por situações onde sua vida esteve em risco, juntamente com todos nós... Um homem que não tem nada em seu coração não poderia fazer esse tipo de coisa... Certo?
         _ Roni, está me dando crédito demais – Lacan tornou a menear a cabeça, sempre de olhos baixos – Enquanto se faz alguma coisa que o mantenha ocupado... pode-se ignorar o vazio por dentro. Desde o início, minha própria existência foi um vazio. Não importaria se eu tivesse que morrer neste exato momento... Você vive, você morre... É só isso.
         _ Pessimista como sempre, Lacan – retrucou Roni – E agora você está mentindo.
         Lacan olhou para Roni, mas o sorriso compreensivo do amigo não deixava espaço para argumentos, e ele apenas tornou a baixar os olhos, permitindo que Roni prosseguisse.
         _ Só o que acontece é que você não é bom para expressar seus próprios sentimentos. Você não é vazio. É por isso que ela só mostra seu verdadeiro sorriso a você.
         _ Eu não mereço ver o verdadeiro sorriso dela – Lacan tornou a sacudir a cabeça – Ela é a esperança das pessoas. O apoio delas. Há tanto mais que ela deve fazer...! Por que ela abriria seu coração a um mero artista como eu...?
         _ Mano...!
         A discussão foi interrompida e os três se voltaram para a porta, por onde Rene e Zephyr entraram um instante depois. Notando de repente que interrompera alguma coisa, Rene olhou ao redor em dúvida.
         _ Ei mano... O que vocês estão fazendo aqui?
         _ O que aconteceu? – perguntou Roni.
         _ O Conselho dos Anciões de Shevat chegou a uma decisão – disse Zephyr – Amanhã, nós partiremos para Soylent.
         _ Soylent? – Roni franziu o cenho – Isso é em Solaris...
         _ É – Rene pareceu hesitar – E... Sophia vai conosco.
         _ Isso é ridículo! – explodiu Krelian – Os refugiados ainda estão chegando! Não podemos permitir que Sophia deixe Nisan! E ir para Soylent!! Pura tolice! O que os Anciões estão pensando?
         _ Não – Zephyr acenou com a cabeça – Não foi o desejo do Conselho. Foi a vontade de Sophia. Parece que ela, em pessoa, expressou esse desejo.
         _ Não pode ser... – murmurou Krelian – O que ela está pensando?
         _ Originalmente, falamos em irmos apenas nós – Rene comentou.
         _ Apenas nós?
         Krelian voltou-se, e ele e Lacan olharam um para o outro em silêncio. A partir dali, algo mudara para sempre entre os dois.

         Horas mais tarde, dera-se a batalha em Soylent. Miraculosamente eles conseguiram escapar, mas não ilesos. Após um pouso de emergência, Lacan apressadamente abrira a cabine de Regrs para encontrar sua piloto desmaiada, e ele próprio não parecia saber o que fazer, tão perdido e penalizado que sequer tentara retirá-la do Gear, meramente abraçado a ela e de olhos fechados, sem dizer palavra.
         _ Sophia!
         Krelian também viera até ela, preocupado e temendo pelo pior, e com brusquidão ele afastou Lacan do caminho, retirando Sophia de seu Gear e depositando-a gentilmente no chão. Ela estava inconsciente.
         _ Sophia... Lacan! O que está fazendo?
         Voltou-se e esmurrou o outro e Lacan ficou parado, sem olhar para Krelian ou dizer coisa alguma. Frustrado e irritado, Krelian rosnou:
         _ Eu sabia que não podíamos deixar Sophia aos seus cuidados! Eu vou protegê-la... mesmo que me custe a vida!

         Dois dias depois, Sophia repousava na enfermaria do cruzador de Roni, com Krelian aguardando fielmente ao lado dela, esperando que despertasse à sua cabeceira. Pouco mais afastado, também não tendo deixado o aposento durante a maior parte dos dias, Lacan permanecia de cabeça baixa e sem dizer palavra. O silêncio pesado que se estendera desde o campo de batalha foi interrompido apenas quando a porta deslizou para dar entrada a Roni.
         _ Por que não vai descansar um pouco, Krel...? Você não dorme desde antes de ontem, não é? Não devia fazer isso consigo mesmo!
         _ Eu estou bem – mas Krelian cambaleou, precisando de apoio e balançando a cabeça, como que para clarear os próprios pensamentos – Isso não é problema... 
         _ Olha, eu tomo conta dela, então vá dormir – Roni insistiu – O que vamos fazer se você também adoecer? Não esqueça que você é o líder das forças militares da seita.
         Krelian ergueu os olhos e encontrou Roni de pé ao seu lado. Encarando o amigo por um momento, ele concordou por fim com um aceno, pondo-se de pé e apoiando-se numa parede.
         _ Muito bem... Suponho que você tenha razão.
         Exausto, agarrando-se em busca de apoio para andar, Krelian saiu da enfermaria. E Roni, assim que teve certeza de que o outro se fora, também caminhou para a porta. Depois de olhar uma última vez na direção de Lacan e Sophia, ele também partiu.
         Assim que ficou sozinho, Lacan levantou-se e foi até a cabeceira do leito de Sophia, onde Krelian antes estivera, ajoelhando-se e murmurando:
         _ Elly... Eu sinto tanto. Eu... Foi o meu erro que fez isso a você. 
         Ela continuava adormecida. Ciente de que ela não podia ouvir, após hesitar por um instante, Lacan prosseguiu:
         _ Eu fiquei apavorado... Era como se você pudesse enxergar diretamente através de mim. Seus olhos... Aquele olhar... Era eu que estava sendo refletido nos seus olhos. Eu estava olhando para mim mesmo... e então, pintando a mim mesmo... Não pude suportar! Foi por isso que... Ah, Elly... – ele sacudiu a cabeça – O que, em nome dos céus, você descobriu dentro de mim?
         Quase sem notar o que estava fazendo, ele tomou a mão dela gentilmente antes de prosseguir:
         _ Quando você acordar, acho que vou te perguntar isso... Ou, pensando melhor, não... Não, não quero te sobrecarregar com os meus problemas. Além do mais, eu não seria capaz de te perguntar... Bastaria olhar nos seus olhos e eu não poderia dizer nada... Nem sequer conseguiria te dizer como me sinto...
         E a mão dela fechou-se, apertando a dele, enquanto seus olhos serenos se abriam e um sorriso despontou em seu rosto.
         _ Você é a pessoa mais doce do mundo...
         _ Elly...!
         Ela sentou-se no leito e ele sentou-se onde Krelian estivera, um muito próximo do outro agora enquanto ela dizia:
         _ Você é alguém que não pode suportar ver outras pessoas feridas pelos seus atos. Então, você guarda tudo e suporta o fardo sozinho. Se você se ferir no fim, acha que está tudo bem. E é isso... o que eu gosto em você.
         _ Pare! – ele soltou a mão dela, meneando a cabeça – Não diga isso. Se você se tornar apenas outro ser humano, todos vão...
         _ Os humanos... – ela murmurou, tomando a mão dele novamente e fazendo com que se calasse – não são assim tão frágeis, sabe. Eles não precisam de um símbolo que seja só aparência. Eu acredito que, se você tem luz em seu coração, pode superar qualquer dificuldade. O que estive fazendo é simplesmente mostrar às pessoas que tal luz existe nos corações de todos. Sou apenas uma mulher...
         Ela tocou no rosto dele, fazendo com que olhasse em seus olhos.
         _ E, para cumprir a minha condição de mulher, estou preparada para jogar fora qualquer coisa... até mesmo esta posição. Estou apenas fazendo o papel de Sophia. Mas eu ainda sou eu mesma. Não mudei em nada... uma bebê chorona, egoísta, medrosa... Ainda sou a mesma. Você conseguiria viver uma mentira como essa e ainda ser feliz...? Eu... não quero fazer isso.
         E Lacan enfim compreendeu. Ele sempre pudera ver, a Madre Sagrada que ele pintava estava lá, sobreposta à Elly que conhecia. Sempre. Mas a mesma Elly de sua infância continuava existindo, e ele era a única pessoa a quem ela sentia que poderia se mostrar. E era por isso que não conseguia se afastar, mesmo quando o quadro começara a causar-lhe repulsa. Não podia deixar Elly sozinha.
         _ Ah, Lacan... Eu quero viver mais honestamente comigo mesma. Ser capaz de dizer ao homem que eu amo que eu o amo. E eu não me importo se me ferir ou for rejeitada. Você só tem uma vida. Não quero olhar para trás um dia e me arrepender de não ter feito tais coisas...
         _ E-eu... Eu...
         Lacan não encontrava o que dizer, mas estava tudo bem. Naquele momento, os dois entendiam plenamente um ao outro, mesmo que para isso não tivessem palavras. Aquele momento era apenas deles... como mesmo Krelian, de pé do lado de fora da enfermaria, era forçado a admitir. E não havia espaço para mais ninguém.

         Dias depois, estavam em batalha, e era uma situação da qual não parecia haver fuga. Solaris os cercara, a milícia de Nisan estava em desvantagem de quinze para um pelo menos, e sua rota de fuga fora cortada. O apoio de Shevat não aparecia e Krelian, liderando o que restara de seu esquadrão, parecera tomar para si a tarefa de reabrir a saída. O líder das forças militares atacava ferozmente, como se estivesse possuído, e seus comandados não conseguiam acompanhá-lo para lutar a seu lado. Seu Omnigear inspirava medo e mesmo os números superiores de seus inimigos pareciam hesitar diante dele.
         _ Acham que eu vou deixar que termine assim? Não somos propriedade deles!
         Fosse isso bravura ou fúria irracional, no entanto, apenas um Omnigear não bastaria para que escapassem daquela vez, e era apenas questão de tempo antes que os valentes rebeldes fossem subjugados diante das forças solarianas, cujos Gears automáticos continuavam a chegar em onda após onda, pouco importando quantos fossem derrotados.
         Então, todos no campo de batalha puderam ouvir o som de jatos sobre si, e explosões cadenciadas aumentando em freqüência. Voltando seus olhos para o alto, os guerreiros viram a nau capitania das forças rebeldes seguindo a plenos motores rumo ao vaso de guerra solariano. Os sons de explosões vinham dos canhões de Solaris, voltando-se e tentando impedir o avanço da nave, sem sucesso até então. Seus escudos estavam começando a ceder, no entanto, e alguém gritou de repente que era Sophia quem estava a bordo.
         _ Sophia!! – gritou Krelian pelo comunicador – O que está fazendo?!
         _ Estou pondo um fim nisso tudo – ela respondeu, sozinha na ponte de comando. Os painéis do computador gerador dos escudos começavam a faiscar e sua nave estremecia cada vez mais sob o peso da artilharia inimiga, mas ela seguiu adiante – Você não vai mais precisar lutar... Por isso, Krelian... por favor, abra seu punho... e com sua mão aberta, ampare gentilmente às pessoas que continuarão a viver.
         A nau capitania continuou em seu curso, e a arma principal do vaso de guerra de Solaris girou e travou seu alvo, cerrando fogo contra a proa. No interior da ponte de comando, vários painéis e computadores explodiram, focos de incêndio se formaram por toda a volta e Sophia ouviu a voz de Lacan:
         _ Não seja tola! Nós vamos ajudá-la a escapar! Pare, por favor...!
         _ Obrigada, Lacan... – ela estremeceu, enquanto mantinha o leme firme como podia – mas... sinto muito... Não há outra maneira...
         _ Elly!
         Cada canhão ainda funcionando a bordo do vaso de guerra solariano voltou-se para a nave inimiga que se aproximava. As asas e a fuselagem da belonave incendiaram-se mediante a artilharia, seus escudos começaram a ceder um após o outro, e ainda assim seu curso não se alterou. Uma das vigas de apoio do teto da cabine de comando cedeu e caiu próxima a Sophia e ela começou a tossir por causa da fumaça dos inúmeros focos de incêndio. Mas ela manteve o curso firme e continuou a falar:
         _ As pessoas apóiam umas às outras para viver... Isso é o que nos traz felicidade. Então, partilhe essa felicidade, por favor...
         A colisão era inevitável, e a nau capitania tornou-se numa flecha de fogo. Sentindo tudo à sua volta sacudir e aquecer-se, Sophia gritou:
         _ Lacan! Viva!
         A nave das forças rebeldes mergulhou na arma principal do vaso de guerra como uma flecha e ambas as belonaves desapareceram numa imensa bola de fogo luminosa, e a última coisa que se ouviu pelo comunicador da ponte de comando antes que também ele fosse destruído foi o grito de desespero de Lacan.
         _ Ell~~y!!
 

         Depois...

         Havia o quadro. Ainda havia o quadro. Ele precisava de acabamento. Era apenas o que restava dela. Era só o que ele podia fazer por ela. Tudo de que era capaz.
         Gostaria de continuar pintando... Por mais um minuto, um segundo a mais que fosse... Ela continuava ali. Ao menos naquela sala. Ela ainda estava ali...
 

         Tinham sobrevivido. Contra todas as probabilidades e expectativas, tinham sobrevivido à batalha. Com a queda do vaso de guerra e o caos resultante, Roni pudera liderar uma retirada por meio do caminho já aberto por Krelian e através dos Gears automáticos de Solaris, inertes com a queda de sua central de comando. Olhando ao redor, Lacan viu Roni, exausto, ferido e incomumente triste, mas vivo. Rene, seu amigo, a jovem Zephyr e outros a quem ele conhecia também estavam ali. Mas muitos outros conhecidos... não estavam mais lá. E entre eles...
         Elly...
         _ Fomos sacrificados... como peões.
         Krelian também sobrevivera. Ele estava de pé, sobre uma pequena elevação do deserto, voltado para o poente e de costas para todos, falando para si mesmo, embora alto o bastante para que todos o ouvissem.
         _ A fim de proteger a própria autoridade, eles... Sophia foi...
         Apertando os punhos em frustração, Krelian baixou os olhos e sua voz cresceu em meio à indignação.
         _ Esse é o mundo ideal pelo qual estivemos procurando? O que estivemos fazendo? Seguindo rumo aos ideais de Sophia? É essa a nossa salvação? Isso não é justo... Sophia foi sacrificada por aqueles bastardos...!
         _ Sophia dizia, se você ao menos tiver fé o caminho pelo qual espera vai se abrir. Mas olhe para a realidade! Deus não respondeu às nossas preces. É por que nós não tínhamos fé? Mesmo que não tivéssemos, Sophia tinha. Por que ela teve que ser sacrificada? Deus está morto...? Ele apenas não está lá...? Talvez deus nem sequer existisse, desde o início!
         “Fé em deus...”
         Krelian lembrou-se de algo, vendo nitidamente com os olhos de sua mente. Estavam reunidos na nave central da catedral de Nisan, onde Sophia estava dando um dos sermões...
         “Não procurem por ela em seu exterior... pois é algo que se deve construir no interior de si mesmo.”
         Parecera tão impressionante na atmosfera da catedral...! Mas agora Krelian acreditava ter compreendido, enfim.
         _ Ha, ha, ha ha... Entendo... É isso... Se deus não existe em nosso mundo, então... Eu vou criar deus com minhas próprias mãos!
         _ Krelian... – murmurou Lacan.
         _ Sophia... por favor me guie – Krelian sussurrou aos ventos, de modo que ninguém o ouvisse – Eu destruirei todas essas falsas pretensões de amor, por você...
         E Krelian então desapareceu, para não tornar a ser visto por qualquer de seus companheiros por muito tempo. Em dúvida, todos começaram a se entreolhar, perguntando-se a mesma coisa. O que seria de sua rebelião dali em diante?
         _ Precisamos reunir todos os nossos companheiros sobreviventes – Roni pronunciou-se, atraindo a atenção de todos à sua volta – Nunca os venceremos se os enfrentarmos individualmente... Assim, vamos criar um país que possa, algum dia, erguer-se contra eles.
         Várias pessoas na multidão concordaram silenciosamente, algo da antiga determinação recuperada. Não podiam permitir que a morte de Sophia fosse em vão, e seguiriam Roni. E ele voltou-se para alguém que não se pronunciara.
         _ E você, o que vai fazer, Lacan...?
         _ Eu...
 

         Precisava continuar pintando. Enquanto aquele quadro não estivesse pronto, ao menos. Ainda havia retoques, não podia deixar daquela maneira. Ao menos ali dentro... Ele podia sentir o olhar dela, seu sorriso... Ainda estavam ali...!

         Mas a cadeira, onde ela antes posava para o retrato, estava vazia. Sempre ficaria assim, dali em diante. Não pudera proteger, não tivera forças para isso. Elly...!
 

         Lacan não sabia muito bem como fora parar ali. Quando dera por si, não estava mais em Nisan. Aquilo era um bloco de celas, um lugar que conhecia. Estava na Ala Prisional de Shevat, diante de uma cela trancada... e havia alguém lá dentro. Em sua mente confusa, ele pareceu ver um rosto sereno de longos cabelos castanho-claros, sorrindo para ele...
         _ ... Elly!?
         Por um longo momento, realmente parecera um milagre. A figura feminina, silenciosa e sorridente, parecia ser Elly. Mas a ilusão se desfez quando Lacan olhou melhor e se viu diante de uma jovem de rosto desconhecido, cabelos curtos cor índigo e... aquele sorriso... O sorriso de Elly não era frio como aquele. Mas foi com voz serena e compreensiva que ela enfim falou:
         _ Se ao menos você tivesse poder... poderia tê-la salvo.
         Caído de joelhos diante da jaula, Lacan baixou os olhos. Era como se ela pudesse ler sua mente, como se estivesse ciente do pensamento que o torturara desde a explosão que abrira a rota da retirada, em troca da vida de Elly. Se o tivesse...! Se não fosse tão fraco...!
         O vulto de Elly novamente sobrepôs-se ao da prisioneira, agora parecendo entristecido e sacudindo a cabeça em negativa, enquanto a outra continuou a falar:
         _ Você o quer, não? Poder sem rival...!
         Os olhos dela cintilaram e a figura de Elly desapareceu. Tudo o que Lacan podia ver, ouvir e perceber agora era a prisioneira, falando com sua voz baixa e sedutora:
         _ Não quer se tornar... o ser absoluto...?!
 

         A resposta de Lacan fora agir ao invés de falar. Estava caminhando sozinho, através de uma forte nevasca, cruzando uma vastidão glacial. Não tinha noção de quanto caminhara, ou por quanto tempo. Seus dedos das mãos estavam dormentes, bem como suas pernas. Afundava na neve até os joelhos a cada passo, mas não sentia mais cansaço. Não agora, diante do pilar de luz colossal que parecia erguer-se à distância.

         Lá... É aquilo que eu tenho buscado...

         A luz parecia crescer e intensificar-se enquanto ele se aproximava. O Poder...! Assim que pudesse alcançá-lo...!

         Mas espere! Não é isso o que eu quero! Não! Isso é o meu próprio desejo!

         A luz pareceu intensificar-se ainda mais, refletida na brancura da neve por toda a volta e na nevasca cruel que soprava e assobiava no vento. E contra toda a dormência em seu corpo, ele ouviu a voz dela uma última vez...

         ... Viva!

-o-

         _ Então, é aqui que Fei está sendo mantido? Ele merece!
         O pequeno Dan entrou a passos largos no sombrio bloco de celas de Shevat, ignorando a atmosfera depressiva do lugar. Seu rosto estava sério e zangado demais para uma criança tão pequena.
         _ Deixem eu rezar diante da cara chorona dele como se fosse um ídolo! Heh heh... Até parece!
         Fei não estava em cela alguma que ele pudesse ver. Uma jaula após a outra... Não estava tão escuro que ele não pudesse, ao menos, ver a silhueta do prisioneiro, não? E então, reparou no que parecia ser um bloco de concreto da altura de um homem, mantido nos fundos da prisão.
         _ Yech...! O... O que é isso...?!
         Dan emudeceu ao reconhecer o semblante adormecido de Fei à meia-luz, e ele sentiu algo frio em seu interior. Aprisionar Fei pelo que fizera parecera a ele muito bem feito até então, mas... aquilo mais parecia como se o tivessem enterrado vivo.
         _ ... Isso é terrível... – ele sacudiu a cabeça, recuando um passo e sem conseguir tirar os olhos de Fei – Não interessa o que ele tenha feito, isso é ir longe demais...
         Tal visão trazia uma sensação incômoda de desespero, apesar de Fei parecer apenas estar serenamente adormecido. Adormecido, ou...?!
         _ Ele ainda tá... vivo...? Como poderia?! Vocês... são humanos também, não são?! Droga...!
         Ele não conseguia compreender como o povo de Shevat, que o acolhera e cuidara dos sobreviventes de Lahan, podia cometer tamanha atrocidade. Ele queria que Fei fosse punido antes, mas não daquela maneira...!
         _ Fei... Ah, Fei...?!
         _ Chorando...
         Dan sobressaltou-se, voltando-se assustado para a porta. Midori Uzuki viera atrás dele à sua maneira quieta de sempre, e ele suspirou de alívio ao reconhecê-la.
         _ Midori, é você... Ufa... Não me assuste desse jeito! E, chorando...? Quem está chorando?
         A menina olhava em silêncio para o bloco de carbonita, e então Dan compreendeu.
         _ Está dizendo que nosso amigo Fei está chorando?
         _ Zangado... Ferido... –Midori murmurou, sempre olhando para o rosto adormecido de Fei – Ele vai despertar logo... Está chamando por ele...
         _ Do que você tá falando?!
         A princípio, Dan não percebeu nada. O bloco de carbonita começara a vibrar e se aquecer do nada, tremores pequenos demais para que ele visse. Do nada, uma luz intensa emanou do corpo de Fei e um pulsar cada vez mais alto se fazia ouvir apenas para ele, e Dan percebeu enfim que algo estava errado.
         _ Whoa...! O que...?!
         A luz intensificou-se mais, o bloco de carbonita começou a estremecer incontrolavelmente, e as duas crianças pareceram ouvir os pensamentos de Fei.

         Gah! Argh! P-pare... Pare... com isso!!

         _ Fei?

         D  a  n... Mi  do  ri...  C... Corram... V-vão  em  bo  ra...!!

         As crianças foram ao chão, Dan jogando-se sobre Midori para protegê-la enquanto a luz explodia para além do bloco de carbonita e das paredes do bloco de celas de Shevat.
 

<Citan>
 

         Ele rompeu sua prisão de carbonita...

         ‘Id’... Fei tomou seu Gear, Weltall,
         e partiu em busca de Zohar.

         Seguimos a trilha de Fei.

         Eventualmente, nós chegamos ao local
         Onde Zohar tinha caído na terra...
         A tanto tempo atrás...

         Nada poderia ter nos preparado para o que estávamos prestes a ver lá...

 
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MAS APENAS VOCÊ E EU