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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 50: As Estrelas Sabem

  <Elly>
 

         Enquanto Fei e os outros procuravam pelo local de descanso da última Relíquia Anima conhecida, eu temporariamente retornei a Nisan.

         Não sei por que eu voltei para lá. Apenas... Eu tinha esta inquietação dentro do meu coração... que algum perigo estava esperando pelas pessoas de lá...

         Todas as pessoas aceitas em Nisan estavam em vias de recuperação.
         Ainda havia aqueles que não eram capazes de se recuperar completamente, mas as nanomáquinas de Taura continuavam a evoluir dia após dia. Graças às nanomáquinas, os tratamentos estavam se tornando mais e mais bem sucedidos e o dia em que todos recuperariam sua forma corpórea original estava se aproximando.

         Um tremor...

         Houve uma súbita explosão na cidade de Nisan. No interior do fogo incandescente... erguia-se um Omnigear dourado...

         Era Ramsus.
         Ele atacou Nisan para que pudesse derrotar Fei.

         O sentido de sua existência estava em risco...

         As milícias de Nisan e Shevat, e até Renk e amigos de Solaris que agora serviam na proteção de Nisan, não podiam debelar o ataque.

         O povo foi evacuado para a catedral. Em sua busca por Fei, Ramsus arrasou a milícia e tomou o rumo da catedral.

         Ele estava... arruinado... Sua mente estava voltada unicamente em conseguir chegar a Fei.

         Eu me pus diante dele.
 

         _ Onde! Onde ele está?! – Ramsus exigiu, olhando de um lado para outro sem de fato ver coisa alguma – Eu sei! Ele está aqui! Por que não se mostra?!
         _ Ramsus!
         Elhaym Von Houten estava diante do Omnigear dourado, de pé e de braços erguidos, sem o seu próprio Gear, esperando conseguir ao menos a atenção do transtornado comandante da Gebler.
         _ O Fei que você busca não está aqui! Então, por favor, pare com essa violência sem sentido!
         _ Você... Sim... Você vai servir...
         Sem aviso, Vendetta inclinou-se e agarrou Elly para depois erguê-la acima da cidade, enquanto seu piloto voltou a chamar:
         _ Apareça! Fei! Se você não aparecer, eu vou esmagar Elhaym!
         _ Uuhg...!
         Os cinco Gears dos Cavaleiros da Gebler e também Margie apareceram, sem saber ao certo como agir. Nenhum deles teria qualquer chance contra o Omnigear, mas não conseguiam abandonar Elly à própria sorte.
         _ Elly!
         _ Chefe...
         _ Para trás – Elly ordenou – Fiquem longe...
         _ Não vai sair, não é? – Ramsus murmurou, ainda procurando por um alvo que não aparecia – Seja como quiser. Desta noite em diante, então, você vai chorar com o cadáver desta mulher nos seus braços!
         _ Aaaaaaaaahhhhhhhhhhhh!
         Quando a pressão na mão do Omnigear aumentou, uma luz intensa fluiu de Elly e por um momento ninguém pôde ver o que acontecia. E ao tornar a enxergar, Margie viu que Vendetta estava de joelhos curvados e cabeça baixa, Elly estava ilesa, caída na rua diante dele, e Ramsus estava perplexo.
         _ C-como foi...? O que aconteceu?! Por que eu não consigo me mover?!
         _ Elly!
         _ Você está bem?!
         Os Cavaleiros formaram um anel protetor ao redor de sua líder enquanto Margie veio até Elly, aliviada em ver que a amiga estava bem. A defesa dos Cavaleiros não queria dizer coisa alguma para o Omnigear, mas a surpresa de Ramsus era mais do que suficiente para mantê-lo onde estava.
         _ C-como eu pude... para gente como você...? N-não apenas para ele, mas também sou inferior a você...?! Eu?!
         _ O que aconteceu com você, Ramsus...? – Elly perguntou, ficando de pé – Por que está tão obcecado por Fei... Por que se incomoda tanto com quem é mais superior?
         _ ... Eu originalmente fui criado para ser a integração de todas as habilidades humanas – Ramsus murmurou depois de um momento, parecendo falar mais para si mesmo do que para os outros – Para ser capaz de me alinhar com todas as Relíquias Anima... Fui criado para ter os poderes equivalentes àqueles do Imperador Cain... Pode-se dizer que eu deveria ser a forma ideal que todas as pessoas anseiam em se tornar...
         “No entanto... assim que ele nasceu, eu fui... rejeitado... Recebi a vida numa pilha de lixo... Nascido no abismo escuro e frio da inutilidade...”
         A memória de Ramsus voltou no tempo e ele viu a si mesmo novamente sentado sobre uma montanha de entulho de Solaris, muito parecida com aquela por onde Fei, Elly e Citan tinham um dia invadido as dependências do laboratório de Krelian.
         _ Mas eu fui capaz de rastejar para fora de lá! – Ramsus prosseguiu, agora com mais energia – Eu fui capaz de sobreviver pela minha própria força! A fim de dar o troco a todos aqueles que tinham me abandonado! Apesar de tudo aquilo, eu consegui chegar tão longe! Eu fui capaz de prover a mim mesmo com o calor de que necessitava para continuar vivendo!
         “Mas... ele tinha que vir e intervir na minha vida mais uma vez! Ele tentou tomar aquele calor de mim outra vez! Enquanto ele existir... eu não pertenço a lugar algum...”
         Novamente, Ramsus parecia mais falar a si mesmo do que aos outros que agora olhavam para ele de forma diferente. Renk, na frente dos cinco Cavaleiros da Gebler, nunca teria pensado que o inalcançável Comandante pudesse se mostrar tão vulnerável. E Elly olhava para o Omnigear dourado com pena.
         _ Acho que agora eu sei porque você está tão fixo em Fei... Você não sabe realmente o que deveria fazer da sua vida nesse momento. Simplesmente está tentando se proteger ao atacar Fei... Ao atacar os outros, você está confirmando sua própria existência. É por isso que você anseia estar acima de todos os demais... Porque, do contrário, você seria engolido por um vazio... Porque você mesmo vai acabar desaparecendo... Porque esse vazio no seu coração vai apenas crescer... porque quer algo ao que amar.
         _ Silêncio!
         O Omnigear ergueu-se, e Ramsus finalmente pareceu dar-se conta de que não estava sozinho ali. Os Gears dos Cavaleiros assumiram postura defensiva ao redor de Elly, e Ramsus agora olhava fixamente para ela.
         _ Até mesmo você, está tentando tomá-lo de mim? O calor...! O mesmo calor que eu finalmente obtive!
         _ Ramsus... Ninguém o está atacando. Ninguém está tentando tomar o que é tão precioso para você... Ninguém está ameaçando a sua existência... Está tudo na sua mente. Então, não esconda os sentimentos que estão no seu coração. Não tenha medo de amar...
         Mas a memória de Ramsus agitou-se novamente, e ele teve uma visão do passado. Estava encolhido dentro de um cilindro... um nanorreator. Duas pessoas olhavam para ele do lado de fora, e ele achava poder reconhecer aos dois, ao homem e à mulher que o contemplavam.
         _ V-você... Agora, você... Aaarrrgghhh!!
 

         Ramsus estava com medo.

         Ele temia perder o lugar ao qual pertencia... Temia que Fei fosse a pessoa que iria tomá-lo dele...

         Ele acreditava que amor era algo que se toma... Ele ansiava por amor mais do que qualquer outra pessoa...
 

         _ Inútil...
         _ Lixo...
         _ Rejeitado...
         _ Por que se incomoda em existir...?
         _ Defeito...
         _ Desapareça...
         _ Não temos uso para você...
         _ Hah! Lixo é mais útil para nós do que você...
         Ramsus ficou parado e silencioso, de cabeça baixa diante de onde o SOL-9000 estivera, sequer percebendo que o computador se fora. Apenas Miang permanecia ao seu lado.
         _ Kahr... Não se preocupe. Eu sempre estarei ao seu lado. Ninguém o conhece melhor do que eu. Então, não...
         _ Miang! – Ramsus voltou-se para ela, a expressão angustiada – Isso é... É tudo o que eu posso fazer? Essa é a extensão da minha força e habilidades? Eu não pude vencê-lo... e, diante daquela mulher, eu nem sequer pude...
         Ele voltou-se, encarando a escuridão deixada pela partida do SOL-9000 e olhando para as próprias mãos, como se pudesse avaliar a si mesmo daquela maneira.
         _ Esse é o limite da minha existência?! Minhas habilidades...?!
         _ ... Você é o mesmo que Cain.
         Ramsus e Miang voltaram-se. Krelian se aproximou deles, andando devagar e falando com serenidade, como de costume.
         _ É um arquétipo que ultrapassa a todos os humanos. Eu o criei dessa maneira. Mas é ele quem o está impedindo de liberar plenamente os seus poderes. Poderes divididos... Aquele homem era a sua forma original. O ser superior primordial... Se pudesse derrotá-lo, então você seria...
         _ Sim – Miang apoiou, colocando a mão sobre o ombro de Ramsus – Mesmo com sua constituição superior, a existência do ser original o bloqueia. Se você pudesse eliminar o poder dividido, então ele seria todo seu... Não concorda, Kahr...?
         Era verdade, pensou Ramsus, sua mente transtornada demais para perceber como os demais o estavam conduzindo. Se ele fora criado como um segundo advento de Cain, ambos tinham potencialmente o mesmo poder... mas, por ser o primordial, o Imperador sempre viria antes dele, sempre teria a força maior. Sempre, enquanto existisse...
 

<Fei>
 

         Tendo completado o alinhamento da primeira Relíquia Anima com Billy, houve uma mudança impressionante na aparência e estrutura do Renmazuo. Eram unidades que se mesclavam com o inorgânico...

         Naturalmente, nós não tínhamos idéia de para qual propósito essas antigas Relíquias Anima tinham sido criadas. Mas o fato de que elas desempenhavam algum papel como armas era gritante.

         Eventualmente, seu verdadeiro poder seria liberado... e não podíamos permitir que tal poder caísse nas mãos do Mal.

         A fim de obter a última Relíquia, nós partimos para uma ruína que se acreditava ter quase dez mil anos de idade... Os restos da primeira civilização do nosso planeta.

         E...

         Uma reunião com um velho ‘amigo’ esperava por nós...
 

         _ Então, deixe ver se eu entendi... – Rico murmurou, parecendo aborrecido – Não temos como chegar ao outro lado, é isso?
         Fei, Bart e Rico eram o trio designado para aquela exploração, mas Elly, no último instante, se candidatara a ir. Tendo concluído até então seus deveres em Nisan e com o conhecimento que tinha de tecnologia antiga, os outros não viram motivo para não aceitar. Tinham penetrado a primeira câmara da área onde a Relíquia estava oculta, e havia uma fenda razoavelmente profunda entre eles e a porta seguinte.
         _ Bom, a caverna é baixa demais para se voar com os Gears – Elly analisou, olhando para o teto – Ativar propulsores aqui pode fazer o teto vir abaixo. É uma caverna muito antiga...
         _ E parece que um desabamento anterior deixou os dois extremos da caverna separados – observou Fei, vendo a pequena ravina que tinham diante de si.
         _ Então, que diabos estamos fazendo aqui? – Rico explodiu – Já não temos o bastante pra fazer lá fora, pra ter que ficar escavando cavernas sem saída?!
         _ Se houver mesmo outra Relíquia Anima aqui, Rico, não podemos deixar que Solaris tenha a menor chance de consegui-la – lembrou Fei – Não desanime, deve haver outra passagem por aqui.
         _ Aí, Fei! – Bart chamou, apontando um rochedo – Os sensores do Andvari mostram algo escondido aqui atrás. Espera só um pouco...
         E diante do olhar surpreso de Rico, o Gear de Bart empurrou o rochedo para revelar uma imensa porta metálica oculta, de aparência antiga. Suspirando como se tivesse feito o esforço usando as próprias mãos, Bart disse:
         _ É isso aí, Fei, caminho aberto... Tá rindo do quê?
         _ Desculpe, não deu pra evitar – Fei continuou rindo – Lembra da Caverna de Estalactites, onde caímos depois da nossa luta no deserto?
         Bart lembrou-se, e então começou a rir também. Naquela ocasião tão distante que parecia ter sido em outro tempo de existência, Fei e ele tinham ficado presos numa caverna cuja única saída estava bloqueada por um rochedo ao menos tão imenso quanto aquele que Bart acabara de mover, e na época o pirata comentara que Gear algum poderia mover algo daquele tamanho.
         _ Quem ia pensar, naquela época, que um dia eu ia pilotar um Omnigear... Muita coisa rolou.
         _ Fizemos um longo caminho...
         _ ... e vai demorar o dobro do tempo pra percorrer o resto – Rico interrompeu, impaciente – Principalmente se ficarem perdendo tempo. Passagem secreta, não é? Vamos descer e dar uma olhada.
         Fei e Bart se entreolharam, e o pirata deu de ombros, e os dois seguiram o Campeão pela porta antiga, levando a uma câmara baixa demais para Gears.
         Os antigos tinham sistemas de segurança interessantes, que utilizavam sistemas de distribuição de água, alavancas de pedra e alçapões para manter seus segredos tão a salvo quanto os sistemas eletrônicos o tinham feito pela relíquia que se alinhara com o Renmazuo. Após drenar um lago inteiro com uma combinação de marcas numeradas num painel, os quatro conseguiram alcançar uma sessão interna.
         Atrás de um sistema de trancas semelhante ao que antes guardara o catalisador do Renmazuo, Fei, Bart e Rico encontraram uma nova Relíquia Anima, um tablete dourado com um olho imenso gravado nela, girando entre dois diamantes de luz dourada pura.
         _ Então, existe uma Relíquia Anima nessas ruínas – murmurou Elly.
         _ Hmph – fez Rico – Então, os povos antigos veneravam coisas sem sentido também, não?
         Ele calou-se de repente enquanto Elly e Fei liberavam as trancas da Relíquia, olhando para ela como se visse algo mais.
         _ Quem está aí? O quê? O que foi que disse?
         Bart, Fei e Elly olharam para Rico, que olhava fixamente para a Relíquia agora e parecia estar discutindo com ela.
         _ Droga, fale alguma coisa que eu entenda! Quem é você?! Cai fora da minha cabeça!
         _ Rico, você está bem?
         Os prismas dourados começaram a girar mais e mais depressa ao redor da placa retangular e, como antes, desapareceram num clarão de luz forte. Antes de desaparecer, contudo, a imagem de um Gear diferente mostrou-se por um instante. E Rico murmurou, olhando para o espaço vazio:
         _ Sabem, eu já vi aquela forma em algum lugar...
         _ Não era o Gear do Rico? – Fei voltou-se para o amigo – Então, parece que agora foi a sua vez, Rico! De qualquer forma, vamos descobrir em breve, quando formos lá pra fora.
         Stier estava diferente, também. Mais alto, com uma nova crista dourada sobre sua cabeça e braçadeiras do mesmo tom em seus pulsos, sua cor agora mesclada em verde escuro e negro. Os quatro ainda admiravam a novidade quando sentiram um novo tremor sacudir a caverna.
         _ Whoa! E agora, o quê...?
         _ Todo mundo pros Gears! – gritou Bart.
         Tinham acabado de se instalar em suas cabines quando um estranho Gear flutuante surgiu da ravina sob eles. Sem pernas, com os braços sempre em movimento, como se não soubesse mantê-los parados, ele ergueu-se e, passado o primeiro instante, uma escotilha sobre sua cabeça deslizou para trás e todos ouviram uma voz familiar:
         _ Ei, mano...
         Não havia piloto visível na máquina flutuante, e a escotilha que deslizara era apenas uma espécie de escudo protetor. Abaixo dele, apenas o topo de uma cabeça recoberta de pêlos castanho-claros e de olhos vermelhos apareceu no que parecia um tipo de máscara biônica, com vários cabos ligados à sua base.
         _ Heh heh heh. Já faz um bocado de tempo que não nos vemos, mano!
         _ Hammer, é você? – Fei perguntou, sem poder acreditar no que via – O que está fazendo nessa coisa?
         _ Eu finalmente fui capaz de conseguir... Super-força... Igualzinho a você, mano! Isso é tão bom... Ser um só com o seu Gear. Krelian fez isso pra mim.
         _ Krelian...
         Hammer podia sentir-se melhor de algum modo, mas não era o que parecia ao olhar para ele, pensou Fei com tristeza. Aqueles cabos ligados ao seu novo rosto deviam ser os sistemas de suporte vital e, mesmo sem ser um especialista, o rapaz não acreditava que Hammer fosse capaz de sobreviver agora sem a máquina. Mas ele não parecia consciente disso.
         _ Seja como for, agora deixem esse Gear e a Senhorita Elly pra mim. Resistir é inútil. Eu sou poderoso demais pra vocês agora...
         _ O que está dizendo, Hammer? – Fei perguntou com cautela, movendo-se devagar para colocar-se entre Hammer e Elly.
         _ O quê? Não vai entregá-los pra mim? ... Tá certo, então eu simplesmente vou ter que usar a força e tomar a garota e o Gear de você!
         _ Pára com isso, Hammer!
         _ Mesmo você, ‘Campeão’, não vai ganhar de mim agora – Hammer voltou-se para Stier, antes da escotilha fechar-se sobre sua cabeça novamente – Aqui vou eu!
         Parecia tolice que Hammer quisesse enfrentar três Omnigears sozinho, e mais ainda por avançar justamente sobre o Stier de Rico, e o Campeão colocou-se em guarda, avisando:
         _ Hammer, sem essa! Vou acabar te machucando!
         _ Não vai conseguir.
         _ Idiota...! Pare com isso!
         Sem qualquer outra escolha, Rico atacou e atingiu Hammer em cheio no peito, fazendo o outro recuar quase até a borda do penhasco por onde viera. Com o punho direito do Stier ainda erguido, Rico murmurou:
         _ Então, é assim que funciona... Esquisito. Acho que ainda prefiro comandos manuais... mas não dá pra negar que isso é muito mais poderoso. Hammer, você está...? 
         _ Auto-modificação ativada.
         Os braços do corpo Gear de Hammer deram lugar a dois tentáculos com pontas de lança maciças, e ele tornou a atacar, agora investindo sobre Fei, mais próximo a ele.
         _ Aí vou eu, Mano! Me segure se puder!
         Seu tentáculo esquerdo bateu e foi contido pelos punhos de Weltall-2, mas o direito encontrou espaço para disparar gel ácido, do mesmo tipo que tinham enfrentado antes, durante a invasão de Shevat, e Fei gritou enquanto seu Gear tombava.
         De imediato, Andvari laçou a cabeça do Gear com seu chicote direito e o girou, afastando-o de Weltall-2 e ganhando espaço para cruzar seus pulsos enquanto seu mestre murmurava:
         _ Temos que manter distância até ele esfriar a cabeça... Sorriso Selvagem!
         Hammer voltava-se na direção dos adversários quando o efeito do ataque ether de Bart o envolveu. Detendo-se por um instante, ele tornou a dizer:
         _ Auto-modificação ativada.
         Desta vez, da base flutuante do corpo metálico de Hammer uma longa cauda de serpente cresceu, com aletas semelhantes a barbatanas brotando por toda sua extensão. E de onde estava ele chicoteou de volta, atingindo aos quatro Gears onde estavam e se pondo em posição para atacar novamente.
         _ Não funciona mais, Mestre Bart – Hammer replicou, com os tentáculos em guarda – Esse corpo tem a versão de Krelian do sistema de desenvolvimento de Nortune; cada ataque faz com que ele crie recursos próprios de contra-ofensiva. Sejam coletores de energia ether, uma cauda que ataque mais longe que os seus chicotes... ou tentáculos mais resistentes e mais fortes do que os braços do Stier!
         A investida seguinte foi violenta e muito veloz, a ponto de Hammer conseguir atacar aos quatro numa só passagem, golpeando enquanto era atacado por Vierge e Weltall-2 simultaneamente.
         _ Raigeki!
         _ Tempestade!
         _ Gaaahhh!!
         Mesmo ao ser atingido, Hammer ainda espalhou o gel ácido para os lados, interrompendo os golpes em Nível de Ataque e, enquanto tombava, tornou a se auto-modificar.
         _ Elly! Elly, você está bem?
         _ S-sim, eu acho... Mas Fei, o que podemos fazer?
         _ Olhem! Ele tá mudando de novo!
         Alertados por Bart, Fei, Elly e Rico viram um segundo par de tentáculos brotar nos flancos de Hammer, e estranhas aletas crescerem em seus ombros. Movendo-se agora com a elasticidade de uma serpente, os tentáculos e a cauda nunca imóveis, sua voz veio por todos os comunicadores:
         _ É o último aviso em nome do tempo em que andamos juntos. Entreguem o Gear e a senhorita! Vocês não têm como me derrotar!
         _ Droga, Hammer, não dá pra entender? – Rico rosnou – Estamos nos segurando! Essas coisas, os Omnigears, são fortes demais, não dá pra conter o poder deles em batalha! Se lutarmos pra valer, você vai...
         _ Aahh, já entendi – as quatro pontas dos tentáculos se armaram, apontadas para Stier – Os quatro ficaram com medo, e não querem me enfrentar. É, não dá pra culpar vocês por isso...
         _ Nós, com medo? – Bart perguntou. Mas Hammer parecia voltado para Fei e, principalmente, Rico.
         _ Não achei que ia ter que explicar isso pra vocês dois, depois da Arena de Nortune; isso aqui é uma luta de vida ou morte, sem rendição! Não interessa quem pode ou não lutar, é como na luta do Campeão com o Mano! É pra se dar tudo o que tem pra dar, e pouco importa quem foi parceiro de quem. Só um vai sair vitorioso aqui... e vou ser eu!
         _ Hammer...
         A cauda de serpente bateu com violência, novamente derrubando os quatro ao atingir as pernas de seus Gears. Mas Rico já esperava aquele movimento e se lançou ao ataque, agarrando o corpo Gear de Hammer e erguendo-o sobre a cabeça para girar sobre si e golpear no solo.
         _ Tornado D!
         _ É isso, Campeão – Hammer pareceu sorrir, mesmo caído – Lutar de verdade... mesmo que não adiante pra nada no final!
         As aletas em seus ombros dispararam projéteis luminosos no Stier, apanhando Rico de guarda baixa e cegando-o por tempo suficiente para que a cauda de Hammer o imobilizasse e os quatro tentáculos atacassem de uma vez, e Rico grunhiu de dor.
         _ Nnnng! C-como foi que...?
         _ Redutores de armadura, Campeão – Hammer respondeu, rindo – Demais até pra o Stier, hein?
         _ Hammer, já chega! Raibu!
         Weltall-2 atacou pelo lado, a combinação da precisão de golpes do Raigeki com a força de impacto do Hazan abalando a estrutura do corpo Gear de Hammer o suficiente para que ele largasse Rico. Mas também ficando aberto para um novo ataque do gel dos tentáculos.
         _ Tá mais forte, né Mano? Mas não o bastante.
         _ H-Hammer, eu já... me cansei desse gel.
         _ Hein?
         Oculto pelo ataque de Hammer, Weltall-2 unira as mãos e concentrava a energia ether flamejante entre as palmas, e quando o oponente finalmente percebeu, Fei liberou o ataque.
         _ Onda de Thor!
         Apesar dos coletores de ether, Hammer não podia absorver um impacto tão próximo sem sofrer dano algum, e seus emissores de gel foram entupidos e explodiram, danificando os tentáculos superiores enquanto Weltall-2 esquivava-se para esquerda.
         E Andvari surgiu por trás dele, prendendo o corpo Gear de Hammer com seus chicotes enquanto Bart dizia:
         _ Seu chicote é maior mesmo, Hammer... mas eu tenho dois, e uso melhor. Tempestade de Golpes!
         Com a força de seu Omnigear, Bart jogou Hammer de um lado para o outro e o fez atingir o solo pesadamente antes de jogá-lo para trás, na direção de Stier.
         Hammer atingiu o Gear do Campeão como se o outro fosse uma parede, e desabou no chão. E ao olhar para o alto, pareceu ver o semblante severo de Rico o encarando, ao invés da cabeça do Omnigear.
         _ Vai querer levar isso até o final?
         _ N-não tem... outro jeito, mesmo que eu quisesse, Campeão – Hammer pareceu rir em meio à tosse, e seu corpo começou a deixar fumaça escura escapar por várias juntas – Lembra o que eu falei... do sistema de desenvolvimento...?
         Hammer ergueu-se, os tentáculos ainda se agitando, embora com menos coordenação. E Rico adivinhou o que ele diria.
         _ Auto-destruição...
         _ Heh... Esperto, né? – Hammer apontou para si mesmo com os tentáculos superiores, e o corpo metálico pareceu brilhar por um instante – Acertou, Mestre Rico. Esse corpo... não pode perder. Se chegar a um ponto em que não dê... pra vencer a batalha, ele se autodestrói. Q-qualquer coisa pra levar... o inimigo junto.
         _ Seu idiota... Isso é acordo que se faça? Mais força do que você possa manejar? Vai se matar a troco de nada!
         _ N-não a troco... de nada – Hammer murmurou, e sua cauda bateu no solo como desafio – Vou ser forte o bastante... pra derrotar até mesmo os Omnigears... ou v-volto pra ser desmontado... pelo Krelian.
         _ Hammer, por favor – Elly pediu – Deve haver algum outro meio! Se tirarmos você...
         _ Não vou... sobreviver – Hammer meneou a cabeça – Eu e meu Gear... Um só. É tudo ou nada, senhorita. Te levo para Krelian... ou pago pelo que fiz em Solaris. Sem meio termo.
         _ Hammer, eu não...
         _ Elly, por favor, afaste-se.
         Weltall-2 estava de pé e afastando Vierge do caminho, de frente para Hammer. Stier e Andvari estavam parados, parecendo de cabeça baixa, e o rosto de Elly surgiu no comunicador de Fei.
         _ Fei, o que está fazendo?
         _ Ele tem razão, não temos mais tempo – Fei respondeu, os olhos baixos para não ter que encará-la – Veja seus sensores; o Gear está alcançando massa crítica. E tem energia suficiente pra fundir toda essa caverna, e nós quatro junto com ele. Já é irreversível, Hammer? 
         _ A não ser... que destrua o meu núcleo de força, Mano – Hammer colocou-se em guarda, os quatro tentáculos apontados para Weltall-2 e movendo-se como cobras – Acha que consegue?
         _ Eu acho... que entendo agora, Elly – Weltall-2 também se colocou em posição de ataque enquanto Fei explicava – Uma vez, pelo menos, acho que Hammer quer uma luta de verdade... com os melhores Lutadores que conheceu. Nos mesmos termos, e sem rendição. E forçou a situação pra nos deixar sem escolha; mesmo com os Omnigears, não temos como sair da caverna sem passar por ele.
         _ Você não pode... Está considerando lutar com ele de verdade? Isso é loucura!
         _ Não concordo com ele, Elly – e Fei olhou para frente, encarando Hammer – Mas não posso fazer mais nada, a não ser aceitar o desafio. Um último embate e decidimos, Hammer. Está bem assim?
         _ Vem pra cima, Mano – e Hammer pareceu sorrir – Me mostra... o que pode fazer.
         _ Rico, Bart, vocês não podem fazer nada?? – Elly pediu, mas os rostos dos amigos também apareceram de olhos baixos, parecendo estranhamente solenes.
         _ É a punição que ele mesmo se passou, Elly – Bart respondeu – Hammer deve se sentir culpado pelo que houve com seus pais, e tudo o que aconteceu em Solaris...
         _ E quer ser julgado da forma mais honrada em que pôde pensar – Rico concordou, apertando os punhos em frustração – É falta de respeito não lutar a sério com um Lutador forte; ele aprendeu isso na minha luta com o Fei. Idiota...
         _ Hammer...
         As asas negras de Weltall-2 abriram-se, revelando os projetores de energia do Sistema Id, e a cauda de Hammer bateu. Fei checou os instrumentos: Hammer estava alcançando massa crítica.
         _ Você foi um bom amigo, Hammer... Vou te livrar da máquina de Krelian com o meu melhor ataque.
         _ Obrigado... Mano. Aqui vou eu!!
         _ Weltall-2, em modo Hyper...
         Impulsionado pela própria cauda, Hammer deslizou com os quatro tentáculos em riste, o corpo biônico deixando fumaça negra para trás enquanto as aletas sobre seus ombros disparavam os nanoprojéteis que reduziam a capacidade da armadura e cegavam o piloto ao mesmo tempo, investindo com força suficiente para atravessar o Gear negro de Fei.
         E Fei ignorou totalmente a perda de armadura. Não fazia mais a menor diferença.
         _ Kishin!!
         Weltall-2 avançou, os Turbos e a sincronização do Modo Hyper tornando-o tão veloz que seus golpes preliminares despedaçaram os tentáculos com seus punhos no espaço de uma batida cardíaca.
         E então seus chutes, também impulsionados pela energia negra da técnica, o fizeram correr sobre Hammer e girar no ar, caindo numa postura de guarda perfeita onde estivera, enquanto o corpo metálico de Hammer era arrastado pela força do impacto até o abismo por onde viera, não tombando apenas graças aos levitadores em sua base.
         _ Heh heh – fez Hammer, em meio à fumaça escura saindo de todos os tentáculos – Esse é o meu Mano... Forte até não poder mais...
         _ Hammer...
         _ Até mesmo pra mim... Logo quando eu achava que finalmente... tinha ficado poderoso o bastante pra vencer você, também!
         _ Droga, Hammer...!
         _ C-Campeão – ele voltou-se para Stier uma última vez – Me prometa... que vai voltar pra Nortune um dia... V-você é... o próximo da linhagem... pra ser o Kaiser...
         _ Você sabia?
         _ N-não subestime... – ele parecia sorrir sob a máscara biônica – o poder da minha... rede de informações... Mas... agora não adianta. Eu...
         Outra explosão menor, e o braço direito caiu. Tossindo, ou fazendo um som semelhante à tosse, Hammer continuou:
         _ Pra um... jogador menor... como eu... Esse p-provavelmente é o fim... que eu mereço...
         Os levitadores entraram em colapso então, e o Gear fumegante tombou de costas na ravina, explodindo em mil pedaços diante da tristeza dos quatro amigos e do chamado de Fei.
         _ Hammeeeeer...!

<Fei>
 

         Hammer desapareceu na fenda com um olhar de satisfação...

         Será que ele estava feliz porque tinha sido capaz de consegui-lo...? O seu ‘breve momento de poder’...

         O sorriso de Hammer...
         Era o olhar de alegria por conseguir poder...?
         Ou era o olhar de alívio da dor que fora trazida a ele pela sua mutação...?

         No final, não tivemos outra escolha a não ser derrotar o nosso ‘amigo’, Hammer, em nome da nossa própria sobrevivência...

         Havia alguma outra maneira...?

         Eu nunca tinha sentido que lutar era tão fútil, até então...

         Elly chorava sem parar...
         Ela se odiava por não ter o poder de ser capaz de fazer qualquer coisa para ajudá-lo.

         Quando eu a vi daquele jeito, não pude deixar de pensar... 
         Que não podia mais permitir que ela lutasse daquele jeito...

         Todos nós voltamos para Ignas... sentindo que isso tinha se tornado muito mais do que podíamos suportar...
 

         A sala do trono, onde o Imperador em pessoa regia o mundo, imagens de locais variados mostradas por monitores em eterna rotação à sua volta. Era de se esperar que alguém tão antigo e de tais responsabilidades eventualmente se perdesse em considerações, e dependesse de guardas para protegê-lo. Mas na verdade, surpreendê-lo era algo que beirava o impossível.
         _ O que você quer... Ramsus...?
         Cain não precisava se voltar de fato para perceber a presença de seu subordinado ao lado do trono. Sem saber exatamente porque, Cain começou a emitir sua aura agressiva, sentindo perigo. Mas, que risco lhe trazia Ramsus...?
         _ Você... – Ramsus trazia a espada na mão, e os olhos baixos – Se você não existisse... eu...
         Cain voltou-se, mas não alcançava Ramsus. O outro estava se mantendo fora de sua vista, e ele não conseguia voltar-se mais do que aquilo. As limitações de seu corpo...! Enquanto se esforçava, ouviu a voz perturbada do Comandante balbuciar:
         _ É por isso que... eu devo... me livrar de você... Só então eu serei capaz de vencê-lo...
         _ O que acha que está fazendo? Ramsus...!?
         Ramsus moveu-se devagar, colocando-se exatamente à frente de Cain. E o Imperador viu, para seu espanto, que sua aura se dispersara. Mas aquilo...!
         _ Isso é absurdo! Acha que pode neutralizar meu poder?!
         _ É claro que ele pode – Krelian manifestou-se, surgindo calmamente do lado oposto – Ele foi feito para ser capaz disso.
         _ Krelian...?! – Cain voltou-se, percebendo enfim até onde ia a conspiração – Certamente, não está do lado deles, agora?!
         _ Ora, francamente – Krelian fez um gesto de pouco caso – Não me importo com um grupo de velhotes que estão tão obcecados em se agarrarem às suas vidinhas desprezíveis que até tiveram que recorrer a se tornarem dados no SOL-9000 a fim de sobreviver. Não é por isso...
         E colocou-se diante de Cain, e o Imperador involuntariamente estremeceu diante da indiferença naquele olhar. Ele não mentia, não estava ajudando o Ministério. Mas não era nada favorável a Cain, tampouco.
         _ A sua existência me obstrui quanto a alcançar meu objetivo. É só...
         _ V-você... Não esteve trabalhando pelo futuro da humanidade... para que os humanos vivam mais? Foi por isso que eu o auxiliei...
         _ Sim, está correto. Eu tento conduzir as pessoas da minha ‘maneira própria’. Isso não mudou em nada.
         _ Krelian, o que deu em você...?!
         O cientista deu as costas ao Imperador. No que lhe dizia respeito, a conversa terminara.
         _ Mate-o, ‘Ramsés’!
         Um brado de ataque, um golpe rápido de espada... e os monitores deixaram de girar lentamente, até se apagarem. E o corpo de Cain ficou inerte sobre seu trono, enquanto a máscara cadavérica caía de seu rosto e rolava desamparada pelo piso.

-o-
         _ Então... Cain está morto?
         _ Sim.
         Krelian estava diante do SOL-9000, enquanto os Gazel exultavam com a constatação inegável de que seu maior obstáculo não existia mais.
         _ O destino final para alguém fadado à carne duradoura...
         _ Se ao menos ele tivesse aceitado nossos ideais lógicos, também...
         _ Um final adequado para alguém que se tornou dominado pela carne desnecessária – outro dos Ministros comentou – Excelente trabalho, Krelian.
         Krelian ficou em silêncio. Qualquer um pensaria que ele o fizera por simpatizar com eles. Anciões tolos...
         _ Agora, não há nada que possa ficar em nosso caminho e nos impedir de cumprir nosso objetivo.
         _ As ‘Relíquias Anima’ foram despertadas, e se alinharam com seus respectivos ‘Animus’... Dan, Joseph, Gad... cada um foi alinhado com um habitante da superfície como seu ‘Animus’...
         _ O Asher de Hyuga, o Zebulun de Ramsus, o Judah de Krelian, a Dinah de Sophia...
         _ Reuben, Simeon, Levi e Issachar já foram alinhados há quinhentos anos atrás...
         _ E finalmente... a Naphtali de Grahf... Todas as ‘Relíquias Anima’ foram agora ativadas.
         _ A identidade da máscara – Persona – da ‘mãe’ também se tornou clara.
         _ O momento chegou.
         _ Agora é a hora de abrir a porta ao domínio de deus, para conseguir o corpo de carne e a sabedoria de deus...
         _ Chegou a hora do verdadeiro despertar... para nos conduzir a novos horizontes... Sim, chegou a hora do gospel...!
         _ Agora, humanos! Glorifiquem o despertar de deus!
         Da base do SOL-9000, uma imensa chave dourada desceu, encaixando-se na fenda em forma de fechadura sob o banco de dados dos anciões. Silenciosamente ela girou... e o piso metálico revelou círculos sobre círculos, repletos com sinais antigos que pessoa alguma daquele mundo saberia interpretar. E nenhum dos presentes notou o sorriso discreto de satisfação de Krelian.
 

<Fei>
 

         Subitamente, o uivar irrompeu.
         Mesmo as pessoas que não tinham mutado foram transformadas... em Wels.

         Eles uivavam como gritos de guerra, como se para convocar alguma coisa.

         Isso se deu porque Ramsus tinha sido manipulado para assassinar o Imperador.

         Agora, sem nada mais para contê-los, o Ministério tinha colocado em uso a ‘Chave Gaetia’...
         Cujo efeito era alterar aquelas pessoas que tinham sido destinadas por deus.

         Aquelas pessoas destinadas por deus, pouco importando se eram habitantes da superfície ou solarianos, começaram a mudar de forma, uma após a outra...
         O uivar eram as pessoas, que tinham preenchido a terra, chamando por deus.

         ‘Assim que os humanos tiverem preenchido a terra, deus vai despertar de seu longo sono...
         e o despertar de Mahanon, o paraíso no céu, virá em seguida...’

         O verdadeiro significado do que o Ministério tinha dito, a verdadeira natureza daquela lenda, estava enfim começando a ser percebido.

         Isso é o que eles queriam dizer quando disseram ‘assim que os humanos tiverem preenchido a terra’...

         Eventualmente, ‘Mahanon’, o local de descanso de deus, despertou de seu longo sono e começou a se erguer... quase como se respondendo ao chamado das pessoas.
         Ela apareceu diante de nós em toda a sua glória majestosa...
 

         Do meio do oceano, uma forma imensa de metal começou a erguer-se. Coberta com manchas quilométricas de ferrugem, vazando água salgada por inúmeros pontos, com cortinas colossais de algas pendendo de si, a nave era tão imensa que poderia ter encoberto ilhas menores ou cidades grandes, como se não fossem nada. ‘Mahanon’, como conhecida naquele mundo, passou a pairar nos céus de Ignas.
 

         Solaris – o Ministério Gazel – enviou uma força maciça para lá para obter ‘deus e sua sabedoria’.

         ... Mas, a essa altura, nem a nação de Solaris nem a organização conhecida como Gebler existiam mais.

         A única coisa que havia restado era um acúmulo inumerável de armas.
         Quase todos os solarianos tinham sido transfigurados em armas...

         O Ministério Gazel agora reinava sobre eles como seus comandantes.

         Não havia como podermos permitir que deus, ou a sabedoria de deus, caíssem nas mãos do ministério.
         Decidimos reunir todas as forças que pudemos, e partimos rumo à Mahanon.

         Era uma batalha perigosa. Não havia garantia alguma de que conseguiríamos retornar vivos.

         Deveríamos conduzir o plano ao alvorecer. Assim sendo, eu tive que tornar mais severa a minha decisão com relação a ‘ela’...
 

         Todos estavam reunidos na sala de reuniões da Yggdrasil III, e Elly Van Houten não podia acreditar no que acabara de ouvir.
         _ Espere aí um minuto! Você quer que eu fique aqui? Não, eu vou com vocês!
         Fei Fong Wong suspirou, acenando negativamente. Houvesse o que houvesse, sua decisão estava tomada. Não importando o que tivesse de fazer ou dizer... Elly não iria.
         _ Não. É perigoso demais...
         _ Por quê? Eu já estive em muitas situações perigosas antes. Essa não é a primeira vez!
         _ Eu disse NÃO – Fei deu-lhe as costas – Nós não podemos levar você. Por favor, entenda!
         _ Não, eu quero ir! – Elly insistiu, apertando as próprias mãos – Nós estivemos lutando juntos todo esse tempo! De repente, você vem e me diz para não ir?! Eu simplesmente não entendo!!
         Fei tornou a suspirar. Os amigos estavam todos reunidos ali, e pelas expressões em seus rostos, não entendiam sua súbita resolução melhor do que Elly, a não ser talvez Citan. Mas o catedrático também não parecia concordar com ele, o que significava que estava sozinho dessa vez.
         _ Essa luta não é como nenhuma outra! – Fei voltou-se novamente, encarando-a – É uma batalha pela sabedoria criada por deus. É vida ou morte. Quem quer que a controle vai se tornar o verdadeiro dominador do mundo! É óbvio que o Ministério vai trazer as tropas mais fortes possíveis. Não há qualquer garantia de que você vá voltar viva!
         _ Mas é exatamente por isso que eu quero ir... – Elly começou novamente, e Fei baixou a cabeça e acenou com impaciência.
         _ Ah... Você não tem a menor idéia, não é...?
         _ Do quê?! Não tenho a menor idéia do quê, Fei?
         _ Se o inimigo fosse apenas o Ministério, ou meras armas mecânicas, estaria tudo bem – Fei respondeu, voltando os olhos baixos para Elly – Mas a maioria dos inimigos será feita daqueles que um dia foram humanos... Humanos iguais a você e eu!
         Elly hesitou. Não pensara nisso até então, mas ele estava certo. Não era mais apenas uma batalha de Gears, ou tropas.
         _ Eu os vi naquelas instalações... – Fei murmurou, a mão sobre o ombro dela – Gears que foram feitos de humanos. Eram iguais ao Hammer... Acha que conseguiria destruí-los, agora que sabe disso?! A fim de salvar a nós mesmos, pode mesmo dizer que conseguiria matar aqueles que um dia foram nossos amigos?!
         Ela abriu a boca para responder, mas não disse palavra. Ter que eliminar antigos amigos... E ela conhecera tanta gente em Solaris... Seria capaz de destruí-los, mesmo no calor da batalha? Elly deu-lhe as costas, e Fei pressionou a vantagem que conseguira.
         _ E então, ainda quer ir agora?! – voltou-se de costas para ela – Você nem sequer consegue matar uma pessoa. A sua presença seria um empecilho durante a luta. Você... só ia ficar no caminho.
         Elly já ouvira o bastante, ao que parecia. Baixando os olhos ela correu, desviando-se dos outros em seu caminho e tomando o rumo de seu próprio quarto na Yggdrasil. Fei soube, ao ouvir o som da porta abrindo e fechando lá embaixo, que conseguira o que queria. Mesmo assim, não sentia qualquer satisfação nisso.
         _ Aí, Fei – Bart perguntou – Você não acha que foi um pouquinho longe demais dessa vez, não?
         _ Nós não podemos culpá-la – Citan comentou do lado oposto, os braços cruzados e a cabeça baixa dando-lhe um ar ainda mais sério do que de costume – Ao menos, deveríamos entender seus sentimentos.
         _ Eu sei como Elly se sente – Fei retrucou, desviando o rosto – Eu sabia que ela não teria me escutado se eu simplesmente tivesse dito, ‘Você não vem!’... Já que ela lutou junto a nós por tanto tempo, e tudo o mais... Foi por isso que eu tive que explicar a ela desse jeito.
         Ele voltou-se para os amigos. Todos continuavam a olhar para ele com reprovação, e ele balançou a cabeça.
         _ As pessoas reunidas em Nisan precisam de Elly. Ela precisa perceber o quanto as pessoas estão dependendo dela. Não posso colocá-la numa situação perigosa...
         _ Mas, a forma como você disse foi um pouco rude – Margie comentou.
         _ Você não precisava ter sido tão frio – Billy apoiou – Ela estava chorando, sabe?
         Sim, ele sabia. Fei tornou a dar as costas para todos, parecendo de repente muito interessado no estandarte da Yggdrasil exposto na parede.
         _ Mas...
         _ Eu estou certo de que ela entende isso – disse Citan, e Bart concordou.
         _ Eu também acho. Talvez seja você quem não entende?
         _ Eu...? – Fei olhou para as próprias mãos – Eu não entendo?
         _ O coração... de uma dama...? – Margie deu-lhe as costas. E Billy sorriu com gentileza.
         _ Ela quer ir, estar com você, Fei... Até o fim.
         _ Isso.
         Fei não disse coisa alguma, mantendo o rosto baixo para que não vissem o quanto devia estar vermelho, e sem notar que àquela altura, o estranho seria que ninguém tivesse percebido. Aproveitando-se do silêncio e para quebrar o gelo, Bart subiu na mesa de reuniões.
         _ Se eu fosse você... – ergueu a mão direita como se estivesse num palco e disse com atitude – Eu ia abraçar ela bem apertado e diria ‘Vamos os dois, juntos!’... Desse jeito!
         _ Sério? – perguntou Margie, olhando significativamente para Bart, que imediatamente pareceu se dar conta do que estava dizendo.
         _ Hã... Não... Digo, er...
         _ Jovem mestre, não vá exagerar – pediu Maison.
         _ Ah, fica quieto!
         Fei sorriu, ainda encabulado. Só mesmo Bart... E o amigo desceu da mesa e acenou com a cabeça na direção por onde Elly se fora.
         _ Tanto faz. Por que você não vai lá, e pede pra ela vir com você? Quer ela vá ou não, você devia expressar seus sentimentos em palavras. Se realmente se importa com ela, tem que ir dizer isso.
         _ Expresse seus sentimentos... certo? – Citan pediu com gentileza, e Fei tornou a ficar sem jeito.
         _ E-eu... Eu não...!
         _ Tarde demais – Bart estava olhando para ele com ar de pouco caso – Todo mundo já sabe.
         _ Não está sendo honesto consigo mesmo, está? – perguntou Citan, com aquele mesmo ar de quem sabia demais, e ao que parecia, todos tinham a mesma opinião.
         _ Eu concordo – Margie.
         _ Fei... Diz... De uma vez – Emeralda.
         _ Anda Fei, vai de uma vez! – Margie exigiu – Vai atrás dela! O quê está esperando?
         _ Eu não sou muito bom nesse tipo de coisa – Rico murmurou – Mas Hammer costumava me dizer, ‘Seja gentil com as mulheres’.

-o-
         A porta do aposento abriu e fechou-se, e Elly não precisava se voltar para saber quem era. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelas luzes de emergência, e Fei começou desajeitadamente a falar:
         _ Ah... Desculpe pelo que acabou de acontecer... Elly, me perdôe. Mas, eu quero explicar...
         Ela permaneceu em silêncio, imóvel, de pé no fundo do aposento e sem dar qualquer indicação de que percebera que não estava mais sozinha. Suspirando, Fei prosseguiu:
         _ Agora, pela primeira vez, pessoas da terra e de Solaris estão se tornando um só povo. Mas, até então, nem todos eles são fortes como a tripulação desta nave, ou como as pessoas em Shevat. Mesmo nós quase perdemos a visão do nosso futuro às vezes... Então, pode imaginar o que as pessoas comuns devem passar. E... é por isso que as pessoas precisam de alguém como você, alguém de quem depender. Como uma luz pra nos guiar.
         “Você libertou os corações das pessoas que tinham sido usadas como ferramentas por aquele Ministério por centenas de anos. Elly, foi você! E agora o seu corpo não pertence mais apenas a você. É por isso que eu não posso deixar que você corra qualquer perigo. E é por isso que eu não quero que você lute mais.”
         _ ... É engraçado, não é?
         Se ele esperava que ela dissesse qualquer coisa, não devia ser nada assim. Depois de um instante de silêncio, Elly ergueu a cabeça e disse, ainda sem se voltar:
         _ Nós costumávamos ser inimigos, mas agora estamos juntos desse jeito... No começo... Eu acho que via a mim mesma em você. Nós parecíamos nos sobrepor... Você estando numa situação parecida com a minha. Quando estava com você, eu não me sentia sozinha ou apreensiva. Foi por isso que eu pensei que gostava de você... Mas, não era isso. Eu simplesmente não tinha a coragem pra olhar para o meu verdadeiro eu. Eu me voltei para você pra fugir disso tudo... e confundi aquilo com amor.
         Ela finalmente voltou-se, seus belos olhos azuis claramente visíveis na penumbra, e Fei vagamente percebeu que não estava tão sem jeito quanto ficara há pouco. Era como se aquele fosse o modo como as coisas tinham que ser. E Elly prosseguiu:
         _ Mas, é diferente agora. Eu posso enfrentar meus próprios problemas. Eu sou eu... e você é você. Ficou tudo claro para mim agora. E eu também aprendi que realmente preciso de você... Não porque precise de você como um santuário para os meus problemas. Preciso de você porque eu verdadeiramente te amo.
         _ Elly...
         _ Eu sei o que está dizendo, Fei – ela conseguiu abrir um sorriso fraco – Eu sei porque está tão preocupado com a minha segurança... mas, sabe, eu... estou assustada. Eu temo que nós possamos nunca mais ver um ao outro... Simplesmente tenho essa impressão.
         _ Não se preocupe – ele meneou a cabeça – Eu não vou morrer.
         _ Não, não é isso – e ela baixou os olhos, parecendo assustada – É algo completamente diferente. É como se eu estivesse sendo dilacerada por alguma coisa à qual eu não posso resistir... Como se não fosse mais eu mesma. Mesmo que você volte em segurança... ainda assim... A inquietude é tão grande...!
         “É por isso que eu preciso ir com você – ela ergueu os olhos novamente, e seu olhar era tão intenso que parecia queimar – Eu não consigo suportar ficar separada de você”
         _ Eu... me sinto do mesmo jeito – ele acenou, os olhos baixos – Desde o dia em que conheci você naquela floresta. Acho que é a mesma sensação que você tem tido... Eu também estava correndo pra você. Mas eu tenho que resolver meus próprios problemas. Não posso despejar meus problemas em você.
         Fei apertou os punhos diante de si, e a braçadeira que Taura lhe dera ficou mais visível. Tocando nela, ele continuou:
         _ Existe outro ‘eu’... Id... Está dentro de mim. Eu temo que a qualquer momento Id possa despertar em meu interior. Você é a única que foi capaz de me impedir de me entregar ao Id. Foi porque você estava sempre ao meu lado que eu ainda fui capaz de não me perder.
         Fei ergueu seus olhos, a intensidade dos olhares deixando claro o quanto um precisava do outro. Caminhando até ela, Fei murmurou:
         _ Eu prometo a você que vou retornar. E... é por isso... Elly, eu quero que você seja a minha razão pra voltar... Que seja o meu lar, para o qual eu possa voltar. Elly... Se você esperar pelo meu retorno, mesmo que estejamos em lugares totalmente diferentes... Desde que esteja ao meu lado, eu sei... Sei que serei capaz de fazer qualquer coisa.
         _ Ah, Fei...
         Os olhos de Elly e os de Fei se fecharam, seus rostos aproximaram-se... e tudo o mais que tinham a dizer não foi dito em palavras.
-o-
         Na manhã seguinte, Fei terminou de se vestir e ficou de pé, tentando sair do quarto em silêncio.
         _ Está indo agora?
         Ele se voltou, sorrindo com um pouco de pesar para Elly, que estava sentada na cama.
         _ É, estou. Desculpe, eu te acordei?
         _ Está tudo bem – ela sorriu com serenidade – Eu estive acordada o tempo todo.
         _ O tempo todo?
         _ A-hã. Estava olhando pra você enquanto estava dormindo. E, antes que eu me desse conta, era de manhã.
         Fei baixou os olhos, as duas faces ardendo de repente. Não pensava que ainda fosse ficar assim perto dela.
         _ B-bem, eu... Eu já vou.
         _ Tá bem então – o sorriso terno dela se ampliou um pouco – Tome muito cuidado lá fora.
         _ Tá, eu vou, sim... Ah! Pode guardar isso pra mim?
         Aproximando-se dela, ele soltou algo que trazia em seu pescoço e entregou a Elly.
         _ O que é isso? Parece um... pingente?
         _ Eu não sei de quem é – ele explicou – Parece que estava em mim quando eu fui trazido pra Lahan. Pode ser meu, ou pode ser...
         _ Pode ser...?
         Fei sacudiu a cabeça. Apesar de tudo o que fora dito, e feito, ele descobriu que ainda não conseguia falar das visões que às vezes tinha, de pessoas e lugares que eram tão desconhecidos e ao mesmo tempo tão familiares. Nem mesmo com Elly.
         _ Ah, nada. Só tome conta disso pra mim, tá bom?
         _ Tudo bem – ela sorriu de novo, colocando o crucifixo cristalino em si mesma – Eu vou guardar pra você.
         _ Obrigado – ele sorriu calorosamente para ela – Bem... eu acho que isso é até logo, então!
         _ Ah... Fei?
         _ Hm?
         _ ... Obrigada.
         Ele acenou afirmativamente com a cabeça, indo até a porta do aposento e detendo-se ainda uma vez antes de sair. Elly... Por ela, ele precisava voltar. E foi levando consigo esse pensamento que ele saiu.
-o-
         A manhã já durava algumas horas e Elhaym Van Houten estava em Nisan, olhando na direção do deserto de Aveh e perdida em pensamentos. Margie aproximou-se dela em certo momento e perguntou:
         _ Elly. Você tem certeza disso? Não tem vontade de ficar com ele?
         _ É, mas... – ela juntou as mãos e acenou que sim – É porque eu acredito nele. Apenas ficar junto de uma pessoa não é necessariamente uma indicação de amor, é?
         _ Mas... – Margie emburrou um pouco – os homens são egoístas... Quando algo grande acontece, eles dizem ‘É perigoso... Você não pode vir!’ Eles tratam as mulheres como se fôssemos fracas! Se bem que – e baixou os olhos – é verdade mesmo que eu não consigo ajudar muito o Bart e os outros...
         _ Isso não é verdade – Elly voltou-se para Margie, o sorriso sereno sempre em seu rosto – Todo mundo quer alguém especial esperando por eles. Alguém que vai proteger um lugar para o qual eles possam voltar. Se não se tem esse tipo de paz de espírito, então não se é capaz de fazer coisa alguma.
         Elly tornou a olhar na direção do deserto. Ela gostaria de estar junto a Fei quando a batalha viesse... mas agora, não se sentia tão mal por ficar para trás.
         _ Os homens tentam ser fortes, e aparentar isso... E pra falar a verdade... – ela voltou-se para Margie e sorriu mais abertamente – É bonitinho o jeito como fazem isso, não é verdade?
         _ É – Margie também riu – Você tem razão.
         _ Seja como for – Elly suspirou, voltando-se para a cidade – Nós também temos coisas para fazer agora. E, enquanto as fazemos, vamos rezar para que todo mundo volte em segurança.
         _ Para deus?
         _ Não – Elly meneou a cabeça, juntando as mãos e fechando seus olhos, parecendo incrivelmente  solene – Para os nossos sentimentos mais interiores, em que todos acreditam.
         Elly se deixou ficar em silêncio por um momento, os olhos fechados e pedindo em silêncio que Fei e os outros voltassem bem. E quando tornou a olhar para Margie, viu que a outra olhava para ela com uma expressão curiosa.
         _ O que houve?
         _ Eu sabia... É, deve ser isso!
         _ O quê?
         _ Elly, é como todo mundo diz! – Margie explicou, parecendo muito agitada – Você deve ser uma reencarnação de Sophia! Não há como você conhecer os ensinamentos da Seita de Nisan, mas o que você diz... Bem, é exatamente o mesmo que Sophia sempre dizia.
         _ É... Pode ser – Elly murmurou, voltando-se para a cidade com ar carinhoso – Da primeira vez em que visitei esta cidade, eu tive a sensação mais incrível... Familiar... Triste... Como se eu tivesse estado aqui muitas vezes em meus sonhos...
         Seus olhos passearam sobre os telhados antigos das casas de Nisan com uma mistura de tristeza e saudade enquanto ela tornava a unir suas mãos, quase numa prece, e aspirava profundamente o ar da manhã.
         _ Eu sei onde é cada aposento, e o que está dentro deles. Eu simplesmente... sei que devo ter estado aqui no passado distante.
         “Antes, se você tivesse falado disso, eu teria me desfeito da impressão com uma risada. Mas agora... Agora, eu posso mais ou menos acreditar nisso. As coisas que eu não pude fazer naquela época... Provavelmente, eu estou tentando fazer agora.”
         _ Coisas que não pôde fazer? – Margie perguntou, olhando para ela com curiosidade. E Elly tornou a olhar para ela, acenando com a cabeça e sorrindo.
         _ Isso mesmo... Coisas que não pude fazer...
 
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INICIO
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UMA FACA BEM PRÓXIMA, AO ALCANCE DA MÃO...