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<Fei>
Sonhando...
Eu estava sonhando...
Talvez tenha sido apenas uma memória há muito esquecida...
Um sonho...
Uma memória...
Coisas lembradas quando a pessoa está adormecida...
Coisas esquecidas quando a pessoa está acordada...
Onde as camadas mais profundas das memórias
Se tornam as camadas mais expostas dos sonhos da pessoa...
Quais são realidade?
Quais são ilusões?
A pessoa não sabe dizer até despertar...
Ou talvez elas sejam,
Ao mesmo tempo, ambas as coisas.
Verdade e ficção...
Uma vasta nebulosa...
Sem limite algum...
Um vazio equivalente
À minha própria existência...
Eu sonhei um sonho tal como esse...
Um longo...
Sonho sem fim...
_ ... La... Can...
Uma janela imensa aberta na parede. Uma janela, em forma de um crucifixo
cristalino muito familiar. A luz do sol penetrava por ela em sua plena
majestade naquele horário, fazendo parecer que a figura representada
na parede era feita de luz.
_ Lacan, o que houve?
A sala parecia melhor focalizada agora. Havia um castiçal pendurado,
e a sala parecia tremendamente antiquada para ele.
_ Lacan?
Naquele sonho, eu era chamado ‘Lacan’...
Eu era um artista...
Eu tinha me tornado reconhecido como um artista talentoso e agora estava
pintando o retrato da Madre de Nisan, ‘Sophia’...
Havia um grande retrato diante dele, e era ele quem pintava. A luz da janela
em crucifixo na parede se desenhava perfeitamente no centro do tapete vermelho
quadrado no chão, e Sophia estava sentada numa cadeira, olhando
para ele com ansiedade e alguma preocupação, e ele soube
que deveria responder...
_ Hã... Não, não é nada.
O olhar dela era mais expressivo do que qualquer coisa que ela pudesse
ter dito. Não acreditava nele. Mas era gentil demais para dizer
tal coisa.
_ ... Vamos encerrar por hoje. Você parece um tanto cansado... Você
está mesmo bem?
_ Eu estou bem, obrigado. Mas, agora que mencionou...
Voltou sua atenção para ela. Tinha uma razão boa o
bastante agora.
_ Que tal se encerrarmos por hoje? Deve ser você quem está
cansada, ‘Madre Sophia’?
_ Já chega disso – ela baixou os olhos, e parecia um pouco aborrecida
– Quando estivermos só nós dois, sozinhos, quer parar de
me chamar assim?
Ela ergueu o rosto e, como sempre, não havia qualquer desagrado
ali. Apenas a gentileza e a tristeza de sempre, que faziam com que ele
deixasse de respirar por um momento.
_ Me chame apenas de ‘Elly’... Como você costumava fazer nos velhos
tempos... E não tem que ser tão rígido e formal.
_ Ah, er... Está certo. Muito bem então... Não, digo...
Ele se sentia um idiota. Mas conseguiu sorrir quando tornou a olhar para
ela.
_ É, vamos fazer isso então, ‘Elly’!
‘Elly’...
Era um tempo em que ela respondia por tal nome.
Um tempo em que tínhamos nos reencontrado...
Um tempo em que nada importava entre nós...
Era melhor daquele jeito...
Só duas pessoas, juntas...
Seria melhor que tivesse ficado daquele jeito...
_ Acho que eu podia voltar pra casa – ele suspirou, se afastando do quadro
e ficando sob a luz da janela para então erguer a cabeça
– Só por uma semana, mais ou menos.
_ Ah, mesmo? Qual o problema?
_ ... Eu fiquei sem tinta – ele respondeu, olhando para ela e ainda um
tanto sem jeito – Então, eu... er, preciso ir fazer mais um pouco.
_ Vai andar toda aquela distância... só pra fazer isso?
_ Se eu não for até lá – ele acenou com a cabeça,
parecendo muito sério – não vou conseguir obter os pigmentos
certos.
_ Ah – ela ficou de pé – Então, que tal se eu pedir a um
dos meus seguidores, os ‘Kahal’, para levarem você em um dos nossos
Gears? Você vai chegar mais rápido e vai estar muito mais
seguro.
Eu menti...
Eu não estava sem tinta.
Só temia que pudesse acabar o retrato.
Eu queria continuar pintando... para sempre.
Por isso eu queria ganhar tempo...
Ela provavelmente me desprezaria por isso...
Não, ela provavelmente só me daria o seu costumeiro sorriso.
Ela era esse tipo de mulher...
Sonhos...
Uma vida de um homem chamado Lacan...
E as vidas de incontáveis outros homens...
Nada além de sonhos...
Agora que estou acordado,
Aquele número incontável de longos sonhos de partir o coração
são quase absolutamente impossíveis de se lembrar...
Naqueles sonhos,
Eu amava uma mulher...
Não importando o dia,
Não importando a era...
Isso não mudava...
Nem o nome dela...
‘Elly’
Aquele sonho me mudou...
Aquele sonho foi o catalisador para que eu resolvesse qual era o meu propósito.
Eu acho que sei agora...
O que tenho que fazer...
Aquela memória longa, tão longa
De um sonho...
Talvez fosse a memória
Da minha alma...
<Elly>
Um sonho...
Eu estava sonhando um sonho...
Ou talvez fosse uma memória
De um passado distante...
Um sonho...
Uma memória...
Aquelas palavras que eu era
Incapaz de expressar...
Naquele dia...
Naquele tempo...
Aqueles pensamentos que eu era
Incapaz de levar adiante...
Palavras e pensamentos...
A conexão entre os dois...
Sem palavras,
Pensamentos não podem ser expressos...
Sem pensamentos,
Não há palavras...
São ambos vitais,
Tanto um quanto o outro...
Eles nunca podem ser divididos...
Como as asas dos anjos...
Como um homem e uma mulher...
Um destino imutável...
Sentimentos que uma pessoa gostaria de poder mudar...
Me encontrar com a pessoa que me transformaria...
E assistir a mim mesma enquanto mudava...
Eu sonhei um sonho tal como esse...
Um longo...
Sonho sem fim...
_ La... Can...
Uma janela imensa aberta na parede. Uma janela, em forma de um crucifixo
cristalino. A luz do sol penetrava por ela em sua plena majestade naquele
horário, fazendo parecer que a figura representada na parede era
feita de luz.
_ Lacan, o que houve?
A porta estava fechada, ninguém interromperia, e ela não
entendia porquê ele parecia tão inquieto.
_ Lacan?
Naquele sonho, eu era chamada ‘Sophia’...
Madre Sophia...
Um nome simbólico...
Colocado como uma coroa sobre a pessoa que seria a esperança do
povo...
Um nome que eu estava destinada a ter.
Quer eu o quisesse ou não...
_ Hã... Não, não é nada.
Mas ela o conhecia bem demais para acreditar tão facilmente. Alguma
coisa
o perturbava, e ela gostaria muito que ele não fosse tão
reservado agora, quando estavam sozinhos.
_ ... Vamos encerrar por hoje. Você parece um tanto cansado... Você
está mesmo bem?
_ Eu estou bem, obrigado. Mas, agora que mencionou...
Ele parou de pintar, parecendo realmente prestar atenção
a ela pela primeira vez em quase uma hora; em seus olhos e na pessoa dela,
não em sua modelo.
_ Que tal se encerrarmos por hoje? Deve ser você quem está
cansada, ‘Madre Sophia’?
_ Já chega disso.
Ela baixou os olhos. Não havia como evitar aquele nome, mas era
pior ter que ouví-lo vindo dele. Fazia com que mesmo ele a tratasse
de forma diferente.
_ Quando estivermos só nós dois, sozinhos, quer parar de
me chamar assim? – e olhou para ele, o pedido implícito em seu olhar
– Me chame apenas de ‘Elly’... Como você costumava fazer nos velhos
tempos... E não tem que ser tão rígido e formal.
_ Ah, er... Está certo. Muito bem então... Não, digo...
Ela sorriu, ocultando o riso verdadeiro que estava em seu interior. Assim
era melhor. Quando ele ficava sem jeito, era como nos velhos tempos. E
ele também parecia mais à vontade quando sorriu e respondeu:
_ É, vamos fazer isso então, ‘Elly’!
‘Elhaym’...
Eu sempre gostei desse nome...
Porque, quando eu me encontrei com ele pela primeira vez,
Foi assim que ele me chamou...
Esse é meu verdadeiro nome...
Ele olhou inquieto para o quadro enquanto guardava seus pincéis,
e acenou com a cabeça. Parecia insatisfeito com algo, e veio até
o centro do tapete vermelho, onde o crucifixo desenhado a sol iluminou
seu rosto quando ele ergueu a cabeça e disse:
_ Acho que eu podia voltar pra casa. Só por uma semana, mais ou
menos.
_ Ah, mesmo? Qual o problema?
_ ... Eu fiquei sem tinta – ele respondeu, parecendo sem jeito – Então,
eu... er, preciso ir fazer mais um pouco.
_ Vai andar toda aquela distância... só pra fazer isso?
Lá estava ele, querendo se afastar de novo. Mas por quê?
_ Se eu não for até lá – ele acenou com a cabeça,
parecendo muito sério – não vou conseguir obter os pigmentos
certos.
_ Ah. Então, que tal se eu pedir a um dos meus seguidores, os ‘Kahal’,
para levarem você em um dos nossos Gears? Você vai chegar mais
rápido e vai estar muito mais seguro.
Eu me pergunto quando foi que começou...
Que ele começou a me rejeitar...
Os muros entre nós...
Nossas ‘posições’...
Nossas ‘circunstâncias’...
Ele se recusava a reconhecê-las...
Não... Talvez fosse eu...
Sendo assim...
Eu não as queria...
Eu queria que nós dois
Ficássemos por nossa própria conta...
É isso o que eu desejava...
Por isso,
Eu fiz com que ele me pintasse...
Da forma como eu realmente sou...
Sonhos...
Uma vida de uma mulher chamada Sophia...
E as vidas de incontáveis outras mulheres...
Nada além de sonhos...
Agora que estou acordada,
Aquele número incontável de longos sonhos de partir o coração
são quase absolutamente impossíveis de se lembrar...
Naqueles sonhos,
Eu amava um homem...
Não importando o dia,
Não importando a era...
Isso não mudava...
Apenas o nome dele...
‘Fei’
Aquele sonho me mudou...
Aquele sonho foi o catalisador para que eu resolvesse qual era meu propósito.
Eu acho que sei agora...
O que tenho que fazer...
Aquela memória longa, tão longa, de um sonho...
Aquilo talvez fosse a memória da minha alma...
Um sinal eletrônico se fez ouvir no que parecia uma biblioteca antiga,
iluminada por velas. Mas não havia nada de antigo no equipamento
localizado bem ao centro do cômodo, nem o sinal parecia uma surpresa
ao senhor idoso que estivera lendo sob a vela e voltou-se para os cilindros
separados. No interior do esquerdo uma jovem de cabelos vermelhos flutuava
num líquido esverdeado luminescente; no direito, um rapaz de cabelos
castanhos presos num rabo de cavalo.
_ Hmm... Ele finalmente despertou...
O estudioso deixou o que estivera lendo e acercou-se do painel de controle
no cilindro do rapaz, e sob os óculos seus olhos se iluminaram com
um sorriso. As condições finalmente estavam estabilizadas,
e ele iniciou os procedimentos de esvaziamento.
_ Pronto...! Aí está...
Fei mal podia acreditar, flexionando os dedos e as mãos estendidas
diante de si mesmo e então olhando para o ventre, e para as pernas.
As lembranças estavam muito confusas, mas acreditava se lembrar
de algo quebrado em seu tronco... Talvez também a perna direita...
E agora...
_ ... Estou curado...
_ Você ficou dormindo nesse nanorreator por três semanas.
Havia um senhor idoso de ar gentil diante dele, e Fei estava certo de não
conhecê-lo de parte alguma. Olhou para a máquina que lembrava
um liquidificador e de volta para o desconhecido.
_ Nanorreator...? Quem é você?
_ Eu...? – deu de ombros e se afastou um pouco, de costas para Fei – Eu
esqueci o meu nome... Algumas pessoas me chamam Taura...
O homem voltou-se, sorrindo abertamente para Fei. O rosto estava meio encoberto
pelo manto branco que usava, mas era possível notar que ele estava
muito avançado em idade, talvez fosse a pessoa mais idosa que Fei
já vira. Bem, depois da Rainha Zephyr, embora ela não parecesse
ter a idade que tinha. Mas, ainda havia muita vitalidade naquele senhor,
que obviamente sorria ao acenar afirmativamente para ele.
_ E você, parece ter se recuperado completamente. Aqueles eram ferimentos
terríveis, mas talvez sua juventude e força tenham ajudado.
Mas... os ferimentos da sua amiga são mais sérios, e podem
tomar um pouco mais de tempo...
E ele solenemente se afastou, enquanto Fei se dava conta do outro cilindro
no aposento.
_ Minha amiga...? Elly!!
Imersa no mesmo líquido esverdeado e num cilindro diferente, Elly
parecia dormir. Estava flutuando sentada em posição fetal
e parecia inconsciente, e Fei sentia em si uma confusão de sentimentos
ao vê-la naquele estado. Ao menos, pelo pouco que podia enxergar
de seu rosto, ela parecia estar dormindo tranqüilamente e não
sentindo dor.
_ Elly...
_ Ei! – Taura chamou da porta do aposento enquanto saía – Pare de
ficar olhando para a garota nua e venha pra cá!
Foi quando Fei se deu realmente conta do estado de Elly e ficou de costas,
o rosto em brasa enquanto Taura deixava o recinto. Mas, ao se voltar para
fazer o mesmo, Fei percebeu alguma movimentação no cilindro.
_ Elly...?
Era como se ela tivesse se movido. Continuava inconsciente e flutuando
no nanorreator, mas estava voltada para ele.
_ Fei!!
Citan estava esperando lá fora, e o alívio em seu rosto era
imenso quando ele se aproximou e cumprimentou o jovem amigo.
_ Doc!!
_ Eu ouvi o que houve de Taura e vim direto para cá! Rapaz, aquilo
sim foi sorte. Foram muito afortunados de ter descido perto da instalação
de pesquisas de Taura...
_ Hm, isso não é instalação de pesquisas nenhuma
– Taura corrigiu – É o ‘esconderijo de um homem’! E você,
rapaz... Citan me falou a seu respeito. Eu fiquei chocado ao ver um casal
caído e encoberto de sangue.
_ Um casal...
_ Seja lá como for – Citan interveio – Vocês escaparam por
muito pouco. Fei, não se esqueça de agradecer a Taura!
_ Taura, muito obrigado a você – Fei curvou a cabeça – por
ter salvo Elly... Elly e eu fomos feridos com tanta seriedade, e agora...
Afinal, que máquina é aquela?
Ele tornou a olhar para o próprio corpo, sentindo o local onde tanto
doía antes. Parecia difícil acreditar que realmente estivera
ferido, porque não havia sequer uma cicatriz.
_ É chamada de ‘nanorreator’. É um equipamento que pode reconstruir
substâncias em nível molecular. Não apenas pode curar
humanos mas, em teoria, deve também ser capaz de criar muitas substâncias.
Ao ouvir falar em cura molecular e criação de substâncias,
Fei sentiu sua memória se agitar. Agora se lembrava de onde ouvira
o termo ‘nanorreator’ antes.
_ Não é a mesma coisa que daquele cara em Solaris...? Digo,
é o mesmo que Krelian está estudando?
_ Sim, isso mesmo – concordou Taura, desviando os olhos – Eu fui a pessoa
quem ensinou nanotecnologia a ele.
_ Foi você?
Um sinal eletrônico se fez ouvir no outro aposento, e Taura voltou
seus olhos para a porta.
_ Não deveríamos desperdiçar tempo falando de um assunto
tão pouco importante. Parece que o tratamento dela terminou. Ah,
você não precisa vir – ele acrescentou, ao notar que Fei parecia
disposto a acompanhá-lo – Apenas espere aqui.
Fei se manteve em silêncio, pensativo enquanto esperava, e Citan
percebeu que seu jovem amigo estava imerso em reflexões. E assim
ele se manteve até que a porta se abriu e Taura retornou, com Elly
caminhando diante dele e parecendo tão ilesa quanto o próprio
Fei.
_ Elly!
_ Fei... Eu...
Os dois olharam de um para o outro nos olhos em silêncio pelo que
pareceu um tempo muito longo. Enquanto estavam inconscientes... algo acontecera.
Algo que dançava nos recessos das memórias de ambos, algo
muito importante e profundo, que dizia respeito aos dois. E não
havia como descreverem o alívio que cada um sentia por ver o outro
plenamente recuperado.
_ Aham! – fez Taura, interrompendo o silêncio – Agora, por quê
os dois não vão respirar um pouco de ar fresco lá
fora? Isso deve acalmar o choque da mudança.
_ Eu sabia que era você...
_ Fei...?
Estavam do lado de fora da casa de Taura, na floresta. Era dia claro e
no entanto, estava consideravelmente escuro ali; as copas das árvores
eram amplas e próximas e escondiam muito da luz do sol, como na
Floresta das Trevas onde ele a conhecera. Ou... onde a reencontrara...
_ Quando você entrou na sala agora há pouco – ele deu as costas
a ela, parecendo encabulado – Eu tive medo de que você pudesse ter
esquecido de mim e de todo o resto...
_ O que quer dizer...?
_ Digo... porque... Elly, você parecia um pouco diferente de antes...
Elly também deu as costas a ele. Agora ela também estava
sem jeito.
_ O... o meu rosto mudou?
_ Não, não é isso – ele voltou-se para ela – Foi mais
como se... Bom... Eu quis dizer que sua atmosfera, ou impressão
está diferente... só um pouquinho... Mas... eu senti algo
familiar...
Ele tornou a esconder o rosto, e baixou os olhos. Era estranho, sabia do
quê estava falando, mas não sabia como dizer aquilo. Principalmente,
não sabia como dizer sem parecer ter enlouquecido.
_ Eu me senti do mesmo modo como quando conheci você... Uma sensação
peculiar como se já tivéssemos nos encontrado antes, em algum
lugar...
_ Fei...
Elly também se afastou um pouco, sem se voltar. Quase parecia que
ele também...
_ Sim, o que foi?
_ Eu não me lembro muito do que aconteceu depois que fomos alvejados...
_ Acho que é melhor assim.
_ Mas eu ouvi alguém chamando o meu nome – Elly voltou-se para ele,
muito séria, e sabia que de algum modo ele saberia do quê
ela estava falando – Eu senti que estava coberta com algo muito caloroso...
Me lembro disso com clareza.
Ele não encontrava nada para dizer. Era estranho. Era como se houvesse
muito a dizer, mas não com palavras.
_ Obrigada, Fei.
_ Elly...
Cada um deu um passo na direção do outro, ambos olhando diretamente
nos olhos. Era sério, muito sério. Estarem juntos ali, vivos
apesar de tudo, era algo de extrema importância. Era o que tinha
de ser.
_ Fei...
_ Ei, já deu a hora de vocês dois voltarem para dentro! –
gritou Taura lá embaixo – Há uma coisa importante de que
precisamos falar com vocês!
Os dois olharam ao redor como se despertassem de repente, e Fei tornou
a olhar para Elly. O momento passara, sabia. Ela suspirou profundamente
e ele respondeu gaguejando que já estavam indo.
Fei e Elly retornaram à câmara do nanorreator, e Taura olhou
para ambos com um sorriso satisfeito.
_ Como se sentem agora? O ar fresco da floresta deve tê-los refrescado
um bom bocado, hein?
Fei e Elly se entreolharam. Fei só podia supor, mas pela expressão
de Elly, ela partilhava a opinião dele, de que Taura podia muito
bem ter esperado mais uns dois ou três minutos antes de chamá-los
de volta. Sem fazer qualquer conta da troca de olhares, no entanto, o ancião
pigarreou e prosseguiu:
_ Seja como for... É sobre a remoção do selo... Eu
descobri que ele pode ser liberado usando-se a nanotecnologia que regenerou
vocês dois. Os nanomontadores estão selados neste casulo.
_ Se ao menos pudéssemos espalhá-los por sobre o mundo todo
– murmurou Citan, e Taura voltou-se para ele.
_ Há uma antiga instalação militar nas proximidades...
Podemos ser capazes de utilizar o ‘Dispersor em Massa’ localizado lá
para lançar este casulo até a atmosfera superior. Uma vez
que os nanomontadores sejam liberados lá em cima, as correntes convergentes
devem bastar para espalhá-los pelo mundo!
“Eu gostaria de poder fazê-lo – ele acrescentou, voltando-se para
Fei – mas estou ficando velho demais para esse tipo de coisa. Além
disso, diz respeito ao seu futuro. Um velho não deveria se intrometer.
Vocês, jovens, devem fazê-lo por si mesmos! Aqui.”
E entregou a cápsula com os nanomontadores que, caso a missão
fosse levada adiante com êxito, liberariam os Limitadores de cada
pessoa em Ignas. Fei olhou para o objeto do tamanho de um controle remoto,
imaginando como algo tão pequeno poderia afetar o mundo inteiro.
_ E, naturalmente, não estou pedindo que faça isso de graça
– Taura acrescentou, retirando algo do bolso – Experimente essa braçadeira.
Sem entender, Fei colocou no pulso esquerdo o que parecia ser apenas uma
pulseira de cor escura.
_ O que é isso? – perguntou Citan.
_ Um ‘Dispositivo de Controle das Emoções’ no qual nanotecnologia
é aplicada – Taura explicou – Desta máquina em forma de braçadeira,
nanomáquinas são infundidas através de sua epiderme
até o seu cérebro. Lá, elas refinam as substâncias
intracerebrais SSRI, tais como a serotonina, que controlam as emoções.
Taura voltou-se. Fei continuava olhando para ele com dúvida, e ele
acenou negativamente.
_ Bem, eu suponho que seja razoavelmente difícil que você
compreenda... Mas, de forma resumida, significa que a manifestação
de sua segunda personalidade, ‘Id’, pode ser suprimida.
_ Id...
Fei desviou os olhos e baixou a cabeça. Sim, era forçado
a retornar à batalha. E Id estava esperando exatamente por isso
para vir á tona novamente. Talvez, dessa vez, em definitivo. Ele
sentiu a mão de Elly em seu ombro e perguntou-se se iria colocá-la
em risco outra vez.
_ Bem, é claro, isso tudo é teórico... – Taura prosseguiu
– Ah, e eu fiz mais uma coisinha, também...! Instalei o mesmo sistema
de controle no seu Gear...
_ Você quer dizer que isso pode libertar Id à vontade...?
– Citan perguntou, incrédulo.
_ Sim. Eu o chamo ‘Sistema Id’. Mas, naturalmente, não deve ser
utilizado indiscriminadamente – Taura acrescentou, uma nota de aviso em
sua voz – Use-o apenas como um último recurso.
_ Elly, Doc... Eu...
Fei estava dividido entre a necessidade de agir e o risco que isso envolvia.
Eles, os amigos próximos, seriam os primeiros a se ferirem caso
algo saísse errado. E não acabaria neles, ele ainda se lembrava
do que lhe haviam dito sobre Solaris.
_ Fei, não havia nada que você pudesse fazer – Citan comentou
– Embora, isso nunca tornará a acontecer com a tecnologia de Taura.
Ele é um dos três Sábios de Shevat.
_ Se você acredita ou não, cabe a você – Taura deu de
ombros, e Fei olhou para a braçadeira em seu pulso. A idéia
de usar o poder de Id e manter-se no controle podia ser a resposta a várias
situações de crise... mas o próprio Taura admitia
que não era mais do que teoria. Se algo saísse errado...
Então ouviram a porta de entrada do outro aposento abrir e fechar-se,
e Taura olhou naquela direção.
_ Ah? Parece que temos um visitante!
_ Fei...! Nós temos problemas!!
Era um emissário de Shevat. Longe de parecer preocupado com o fato
de Fei estar livre, no entanto, ele vinha pedir ajuda.
_ Hoje, um acordo de paz entre Aveh e Kislev está sendo assinado
em Shevat... Mas, as armas móveis de Solaris estão se aproximando
de Shevat enquanto falamos! Por favor, nos ajude!
_ Isso não tem nada a ver com este jovem!! – Taura interrompeu,
passando adiante de Fei e Elly e se colocando entre eles e o emissário,
que ficou tremendamente surpreso.
_ Taura!!
_ Vocês estão me dando nos nervos por serem tão egoístas.
Citan me falou de vocês. Vocês aparecem depois de descobrir
que Id agora está sob controle... Não têm vergonha?
Vocês não mudaram nada desde aquela época! Só
se importam consigo mesmos! Fei! – ele voltou-se para o rapaz – Não
precisa escutar essas pessoas que um dia tentaram matá-lo!!
_ Mas...
Ele também pensava assim, mas de algum modo, aquilo não parecia
correto. Parecia errado não tomar atitude alguma enquanto Solaris
se lançava ao ataque, e mesmo já tendo uma outra missão
diante de si, ele...
_ Por favor vá. Eu irei até o Dispersor em massa...
_ Elly?
_ Não importa o que aconteceu antes – Elly estava de costas para
ele, se afastando – Shevat precisa de sua ajuda agora. Mesmo que você
esteja salvando algumas pessoas egoístas... ainda há o mundo
e seus países com muito mais gente inocente. Por favor, não
se esqueça disso.
Ela voltou-se para ele, olhando-o nos olhos, e um entendimento mútuo
passou entre os dois.
_ Bart e seu pessoal estão lutando para proteger essas mesmas vidas,
não estão? Então, por favor, vá ajudá-los!
_ Tem certeza disso? E quanto a você?
_ Não se preocupe comigo. Eu vou conseguir de algum jeito.
_ Mas, você sozinha...
_ Eu acompanharei Elly – Citan assegurou – Você não precisa
se preocupar. Eu trouxe comigo o meu próprio Omnigear.
_ Seu próprio Omnigear...? – Fei voltou-se para Citan, admirado,
e o catedrático sorriu.
_ Sim, meu Omnigear, ‘Fenrir’. É o mesmo que eu trouxe de Solaris.
Eu o deixei com Gaspar para o caso de uma emergência.
_ Doc... – e Fei concordou – Muito bem. Por favor, tome conta dela por
mim. E Elly, tome cuidado.
_ Ficamos realmente gratos pela sua bondade, Fei!! – o emissário
exclamou, e Taura deu-lhe as costas.
_ Hmph! Se enxerguem.
_ Meu destino é Ignas, certo? – perguntou Fei, e o emissário
confirmou.
_ Sim. O objetivo do inimigo é destruir as cidades em Ignas. Já
destruíram metade de Bledavik e provavelmente alcançarão
Nisan em cerca de quatro horas. Shevat vai tentar afastá-los com
todo o poder que tem!
_ Quatro horas – Fei ponderou – Isso é muito em cima!
_ Não precisa se preocupar – Taura sorriu – Balthasar e eu consertamos
seu Gear com as nanomáquinas. Está muito mais poderoso do
que jamais foi antes. E digo mais, você pode chegar lá na
metade do tempo.
_ O quê? O Velho Bal está aqui?
_ Emeralda também está aqui – Citan ajeitou os óculos,
e todos foram para fora, onde Weltall esperava por Fei. Era o mesmo Gear
de antes, mas não era exatamente o mesmo. As aletas em suas costas
assemelhavam-se mais com asas, ele ganhara uma crista maior sobre a cabeça
e um ar mais imponente. Parecia exalar confiança.
_ Isso é incrível...! – murmurou Fei.
_ Nos encontramos novamente.
Balthazar veio de trás do Gear e acenou solenemente a cabeça
para Fei, voltando-se então para olhar o Gear negro atrás
de si.
_ O hospedeiro para o espírito do assassino de deus... Não
achei que eu voltaria a trabalhar nele novamente...
_ Mas – Fei olhou para Balthazar e Taura – por que vocês dois estão
me ajudando...?
_ Há algumas coisas que não se pode explicar com as palavras
– Taura deu de ombros – Destino. Você vai ter que ver o que vai acontecer
com seus próprios olhos.
_ Fei... Indo?
Emeralda surgiu de algum lugar por trás do grupo. Fei voltou-se
para ela e confirmou.
_ É, isso mesmo. É melhor eu me apressar!
Sem mais uma palavra, Emeralda se afastou.
_ Ei, pra onde você vai?
_ Fei, por favor se apresse! – pediu o emissário.
_ Ah... c-claro.
Os jatos às costas de Weltall-2 foram ativados e, por um instante,
ele se manteve onde estava como se apenas se aquecesse. Subitamente, o
Gear negro curvou os joelhos e saltou, ganhando os ares velozmente. E sobre
a casa de Taura, Elly e Citan observavam a partida.
_ Tem certeza de que você quer seguir adiante com isso? – Citan perguntou
– Você queria viver de forma tranqüila, longe do campo de batalha,
não queria?
_ ... Eu percebi a mim mesma fugindo da realidade – Elly murmurou, dando
as costas a Citan – No início, eu achei que minha situação
era parecida com a dele. Eu achei que Fei entenderia meus sentimentos...
Eu não sabia se meu amor por ele era real... Eu podia apenas estar
desesperada depois de perder minha mãe e meu pai...
_ Elly...
_ Apesar de tudo aquilo – ela voltou-se para Citan, os olhos ainda baixos
– eu talvez ainda o ame... É por isso que, eu quero ver o que Fei
pode fazer e o que eu posso fazer. Quero que fiquemos separados e pensemos
sobre nós mesmos outra vez. Quero entender... como eu realmente
me sinto...
Ela desviara os olhos, olhando para algum ponto adiante na mata. Após
um instante de silêncio contemplativo, Citan comentou:
_ Você mudou muito, Elly. O que aconteceu a você nessas últimas
três semanas?
_ Mesmo? – ela voltou-se, sorrindo fracamente para Citan – Eu não
acho que mudei...
_ Sim, você mudou. Eu diria... que você amadureceu. Como uma
mãe...
_ Como é que é! – ela ergueu os olhos, agora tremendamente
corada – Eu só tenho dezoito anos! Não estou nem perto da
idade de ser sua mãe!
_ Desculpe – Citan riu – Você me deu essa impressão, foi só
isso.
Ele continuou rindo por mais algum tempo, e Elly sacudiu a cabeça.
Fosse como fosse, os eventos já estavam se dando. Não podiam
esperar mais.
_ Seja como for, Citan, eu estou indo.
_ Muito bem – ele concordou – Seguirei você assim que terminar por
aqui...
_ Eu, eu vou, também.
Emeralda se aproximara enquanto os dois conversavam, e apesar da aparência
infantil, seus olhos deixavam bem claro que aquilo não era um pedido;
era um comunicado.
_ O quê?
_ Eu vou!
_ Emeralda – Elly abaixou-se, ficando no mesmo nível que o rosto
da menininha – eu não posso levar mais ninguém comigo para
uma coisa dessas. Vou ficar bem se for sozinha.
Emeralda deu as costas a ela e cruzou os braços, repetindo:
_ Se Elly vai, eu vou também. Emeralda tem que ir com você.
_ Emeralda...?
_ Não! – ela voltou-se e gritou – Emeralda vai também!
Elly olhou para a menininha sem saber o que fazer. Emeralda já se
provara em batalha, mas aquilo não seria um passeio, e ela não
achava que poderia tomar conta de si mesma e da outra quando estivessem
lutando. E Citan sugeriu:
_ Por que não deixá-la ir? Eu estou certo de que Solaris
tem um pressentimento quanto ao Limitador. Eles podem interferir, então
você talvez sinta-se insegura quanto a ir sozinha. Eu acho que Emeralda
é perfeita para esse trabalho. Além do mais – ele acrescentou
num tom mais baixo, enquanto Elly se voltava para ele – ela vai querer
ir, não importando o que diga. Cuide dela até que eu possa
me juntar a vocês, por favor?
Elly suspirou e então sorriu e acenou que sim, tornando a se abaixar
para falar com Emeralda.
_ Tudo bem, você venceu. Vamos ajudar uma à outra, tá
bem?
_ Eu posso fazer isso sozinha – a menina retrucou, o ar tão confiante
quanto Rico – Você fica olhando.
Em sua biblioteca, Taura verificava alguns livros e anotações
de forma distraída. Ao menos, era o que parecia. Mas ele não
estava tão desatento que não pudesse notar o momento exato
em que o outro entrara, sem usar a porta. O único sinal de que ele
percebera a presença do intruso foi parar de mexer em seus livros.
_ Como eu pensava – ele murmurou sem se voltar – Então, foi você
quem trouxe Fei e a garota dele até mim... Eu percebi no momento
em que vi os dois juntos. Aliás, como eu poderia deixar de notar...
Eles eram tal e qual você e ela. Sim, o mesmo que vocês dois
pareciam naquela época... Certo, Lacan?
Ele finalmente se voltou. De pé, semi-oculto nas sombras mal iluminadas
pela vela, Grahf olhava para Taura com os braços cruzados e em completo
silêncio. |
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