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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 40: Para Dentro de Solaris

           Em algum lugar em meio ao oceano, um efeito massivo como a estática num monitor se fez presente. A todos os que puderam presenciar a mudança, pareceu levar quase um minuto antes que a imagem se estabilizasse, formando uma imensa torre prateada que erguia-se sem limites ao céu, a princípio muito semelhante à Torre de Babel. Uma estrutura artificial que abriu-se por completo, como uma gigantesca flor de metal, e cada pétala estendida a partir de um suporte central muito mais fino, até que todas as pétalas estivessem abertas e ligeiramente voltadas para o alto.
         Na sala do trono em Shevat, a Rainha Zephyr falava a todos os membros do grupo de Fei e mais Jesiah, explicando a situação:
         _ Nós finalmente somos capazes de localizar e ver Solaris depois de destruir os três Portões na superfície. No entanto, a não ser que destruamos o gerador principal final, na terra natal de Solaris... não podemos eliminar completamente o Portão deles.
         _ Maria, é aqui onde você e Seibzehn entram – Citan disse – Agora que o Portão está enfraquecido, podemos utilizar o canhão de partículas pesadas de Seibzehn para distorcer o espaço e neutralizar o Portão por um breve momento! Quanto a penetrar em Solaris, seria melhor nos movermos em grupos pequenos para que não cheguemos a atrair atenção. Bem, se possível, eu gostaria de...
         _ Sim – Elly concordou, notando que o olhar de Citan se voltara para ela – Eu posso guiar vocês... através de Solaris.
         _ Eu vou também – Fei adiantou-se – Eu fico um pouco preocupado se for a Elly.
         _ Do que está...? – Elly se voltou para ele, e então pareceu entender – Espere, eu não quis dizer que...
         _ Entendido! – Citan bateu as mãos uma na outra, satisfeito – Então Elly, Fei e eu iremos juntos. O restante formará um grupo separado para se infiltrar. Maria, me parece que você e Seibzehn vão esperar do lado de fora, como apoio.
         _ Claro... Eu entendo.
         _ Bem, vamos descansar por enquanto. Assim que todos estiverem prontos, devemos todos nos encontrar aqui antes de partir...
-o-
         _ Você vai, não vai...? Para Solaris...
         Citan estava na área de descanso sobre o palácio de Solaris, meditando sobre o que viria. Depois de tanto tempo, retornaria à sua terra natal. E era mais do que o risco de ser feito prisioneiro o que o preocupava... como Yui, de pé atrás dele, bem sabia. E ele concordou:
         _ Sim... Eu escolhi meu próprio caminho. Não há volta...
         A esposa baixou os olhos. Sempre soubera que aquilo um dia poderia acontecer. O que não tornava mais fácil aceitar a situação quando finalmente se apresentava.
         _ Você vai se ferir... Eles também vão se ferir...
         _ Certamente... Mas eu não pude encontrar qualquer outro caminho para escolher. Se, por acaso, eu for sobrepujado pelo lado sombrio – baixou os olhos – Até tal ponto, eu já...
         _ Não diga mais nada – Yui acenou afirmativamente, também baixando os olhos – Eu já sei.
         Os dois ficaram em silêncio por um instante. Ela temera aquele momento desde a primeira vez que seu marido levantara tal possibilidade, e embora falasse demais por vezes, era espantoso o quanto os cálculos dele podiam ser precisos. Principalmente em situações como aquela.
         Abanou a cabeça, afastando os pensamentos ruins. Era a hora de ter coragem. E aproximou-se, tocando o braço esquerdo de Citan.
         _ Agora, aqui. Tome a sua espada. E por favor... Por favor, volte vivo!
         Ele se voltou para ela, um pouco admirado. Que criatura curiosa era sua mulher, de olhos e atitude tão serena que mesmo ele não podia calcular tudo o que se passava nos pensamentos dela. Isso, também, fora o que o atraíra para ela. Anos antes, tinha-lhe prometido não tornar a matar. Agora, era ela quem lhe devolvia a katana.
         _ Por favor, tome conta de Midori – ele acenou, aceitando a arma – E de você também.
         Os dois se abraçaram então, um último beijo antes da partida. Algo para se lembrarem um do outro, e do porquê  estavam ali.
         A espada já na cintura, Citan voltava pelas escadarias rumo à sala do trono de Solaris quando reconheceu uma figura de cabelos grisalhos recostada na parede, que se dirigiu a ele sem se voltar.
         _ Escute, Hyuga. Eu vou para Solaris, também.
         Citan ficou ligeiramente surpreso. Sabia que Jesiah não era homem de se manter de fora da ação, mas dadas as circunstâncias, era de se esperar que ele fosse confiar sua parte ao filho Billy. Seria possível que ele...?
         _ Não me entenda mal – Jessie continuou mantendo o olhar para fora da janela do corredor – Não significa que eu vou te ajudar. Eu não sei o que você está pensando, ou tentando fazer... mas, se ficar do lado deles, eu vou te matar, sem sombra de dúvida. Mesmo que seja pelas costas.
         Jessie o encarou então. Citan conhecia bem o outro, sabia que ele estava falando sério. Baixou os olhos, um pouco envergonhado; era de imaginar que Jesiah tivesse enxergado além das aparências. Não se tornara o líder dos Elementos em sua geração apenas por ser um grande atirador. Mas, longe de se sentir ameaçado, Citan sentiu uma estranha segurança naquela ameaça. Se o pior lhe acontecesse... não teria que, um dia, enfrentar sua própria filha como Nikolai fizera.
         _ Sim... Estarei contando com isso.
         _ Heh... – Jessie sorriu, dando as costas a Citan – Assim perde até a graça...
-o-
         _ Seibzehn, vamos!
         O imenso Gear azul de Maria Balthazar deixou seu hangar em Shevat, desta vez levando consigo todos os outros. Mergulhando pelo poço de lançamento e tomando o rumo de Solaris, enquanto sua mestra murmurava, enfim partindo rumo ao inimigo:
         _ Estou chegando, Solaris... Seibzehn e eu seremos as asas negras que levarão todos vocês às suas mortes!!
         Fei esperara que tivessem problemas ao se aproximar, mas Citan descartou a possibilidade; era provável que a terra natal ainda não tivesse sido informada da queda dos Portões; seus cidadãos decerto estavam desavisados quanto ao problema, o que tornaria seu avanço mais simples.
         Em certo ponto do vôo, no entanto, Seibzehn pareceu incapaz de prosseguir, e enquanto o trio nas mãos dele sentia o Gear estremecer, Maria pediu:
         _ Isso é a... barreira!! Por favor, Seibzehn!!
         A saída dos jatos imensos de Seibzehn pareceu aumentar ao apelo de sua mestra, mas a princípio, ele apenas se manteve voando sem sair do lugar. Então, uma ondulação azulada pareceu se formar diante dele, e Maria compreendeu:
         _ Um campo de gravidade está se abrindo! A correção de distorção do espaço está começando!
         Os jatos de Seibzehn forçaram, aumentando sua saída. E mais e mais, aos trancos, o Gear de Shevat finalmente conseguiu ir através da barreira e rumo a uma das hastes de Solaris.
         Por causa da distorção do espaço, a sensação fora no mínimo peculiar para Fei, que teve a nítida impressão de que estavam de cabeça para baixo, e saltar na plataforma metálica parecia indicar que iam cair dela para a terra lá embaixo. Mas ele, Elly e Citan desembarcaram sem problemas e Bart repassou a estratégia:
         _ É perigoso nos movermos num grupo grande. Vamos pegar rotas separadas.
         _ Certo – e Citan acenou enquanto Seibzehn se afastava, com Maria, Emeralda e Chu-Chu na cabeça, Rico e Hammer em seu ombro esquerdo e Billy e Jessie no direito, levando Bart nas mãos. E Hammer fez sinal de positivo.
         _ Não se preocupem, eu sou bom em conseguir informação!
         _ Você só gosta de assistir a miséria dos outros – Rico retrucou, de cara fechada e braços cruzados ao lado dele – Só vai ficar no caminho.
         _ Ah, perdão! Sinto muito!!
         _ Maria...? – chamou Citan.
         _ Sim, o quê?
         _ A perturbação que Seibzehn causou quando rompeu o portão quase se dissipou. Você e todos os outros devem partir antes que o sistema de detecção de inimigos se ative novamente. Nós cuidaremos do resto.
         _ Certo. Tomem cuidado.
         Seibzehn afastou-se, subindo embora parecesse ir para baixo, e Fei olhou incomodado ao redor.
         _ Parece que o mundo inteiro está de cabeça pra baixo, é assustador.
         _ A gravidade em Solaris é oposta àquela da terra – explicou Elly – Não temos tempo de explicar, você se acostuma mais tarde. É desconfortável quando vamos à superfície pela primeira vez, também.
         _ Certo... – mas ele claramente não parecia sentir que o desconforto fosse passar tão depressa, e para tirar sua mente daquilo, olhou ao redor – Ei, que lugar é esse?
         _ Parece algum tipo de depósito ou centro de distribuição – Elly também olhou ao redor – Não tenho certeza, mas provavelmente é usado para despachar suprimentos extras, materiais e combustível reunidos da superfície. São a tecnologia e produtos que vocês, da superfície, recebem do ‘Ethos’.
         _ Por enquanto, recolhamos alguma informação – Citan olhou em volta, parecendo inquieto, e eles se encaminharam para dentro. Fei se deteve ao lado de um tubo hexagonal metálico e perguntou:
         _ Isso é um container do sistema de transporte de que a Elly estava falando?
         _ Bem... não tenho certeza – Elly pareceu pensativa – Mas acho que já vi isso antes...
         _ Vamos... dar uma olhada?
         E Fei de fato entrou no tubo, olhando curioso ao redor enquanto Elly repreendia.
         _ O que está dizendo? Não temos tempo pra isso. Precisamos sair daqui depressa.
         _ Vocês não disseram que tínhamos que conseguir informação? – Fei deu de ombros – Provavelmente, podemos invadir o lugar usando essa coisa.
         Foi quando a porta do container se fechou e o tubo deslizou para dentro da parede, enquanto Citan e Elly o perseguiram até onde foi possível. Dentro do tubo, parecendo desconcertado enquanto tudo parecia voltar a uma posição normal, Fei olhou ao redor e sentiu que o tubo finalmente parara.
         _ E agora, onde é que eu estou...?
         Saiu do tubo metálico, e viu-se numa plataforma flutuante que seguiu com ele até uma imensa área metálica, semelhante a uma rua. Descendo da plataforma e olhando ao redor, Fei viu-se diante de painéis sextavados divididos em inúmeros triângulos, de forma muito semelhante a uma colméia. E mal descera, ouviu alguém gritar:
         _ N-nããããããoooooo! Não posso mais aguentar!!
         Voltou-se. Uma pessoa estava de pé numa das estruturas sextavadas da parede, um pequeno robô amarelo flutuando diante dele enquanto esbravejava:
         _ Alguma coisa está errada com todos vocês! Trabalhando feito máquinas dia após dia... Vocês não têm vontade! Isso não é viver!! Isso é... É...! Pare! Solta!
         O robô flutuante estava carregando o cidadão pelo ar, enquanto ele parecia se decidir se devia ou não continuar se debatendo. E a máquina passou sobre Fei e para além da rua, detendo-se sobre o imenso vazio entre as plataformas sextavadas que formavam o piso, deixando então o protestante cair e desaparecer.
         _ Os destinos de todos nós estão unidos num só – um pedestre ao lado de Fei murmurou, meio que para si mesmo – São os descontentes como ele que fazem com que todos sejamos punidos. Me mata pensar que todo o nosso trabalho pra melhorar o nível do nosso bloco esteja arruinado.
         _ O que disse? – Fei voltou-se para o cidadão – ‘Posição’...?
         _ É, eu quero subir um nível e me tornar cidadão de Segunda Classe – um segundo pedestre comentou – Então, finalmente eu vou poder viver com a Segunda Classe.
         _ Um bocado de pessoas tentaram alterar suas identificações e escapar ultimamente – outro pedestre comentou, quase parecendo assustado – Geralmente eles são pegos e ‘rearranjados’, ou re-educados. Nem sequer pense em tentar escapar.
         E um dos painéis sextavados de repente se moveu, desaparecendo em pouco tempo dentro da parede. O primeiro pedestre sacudiu a cabeça em negativa, reprovando.
         _ E eles trabalharam tanto...! Se ele não tivesse criticado o sistema, nada disso teria acontecido. Agora os dois vão ser re-educados.
         Fei sacudiu a cabeça, entre revoltado e horrorizado. Apesar da evidente modernidade que emanava do lugar, aquilo era só outro bloco de prisioneiros, idêntico a Nortune. Talvez pior; ao menos, não havia execuções públicas para controle da população nas ruas de Kislev.
         _ Não devia ter morrido em vão – outra voz disse, e Fei se voltou assustado, porque parecia tremendamente familiar. Mas, não podia ser...?
         _ T-Timothy?
         _ Não, o nome é Samson – o homem que lembrava seu amigo morto em Lahan respondeu – Mas, ei, eu te conheço! Do Torneio em Aveh...! Infelizmente, eu perdi na primeira rodada. Desmaiei no caminho de casa...
         _ E...?
         _ Quando dei por mim, já estava aqui. Todos os outros foram o que chamam de ‘rearranjados’. É uma mistura entre lavagem cerebral e amnésia. Mas fizeram alguma bobagem na minha vez, acho, porque ainda consigo me lembrar.
         _ Então... O que houve com aquela pessoa de agora há pouco...?
         _ É, ele também – Samson baixou a cabeça – Morreu em vão... Um dos meus poucos amigos, também. Eu não vou sair daquele jeito. Sabe aquela torre de guarda ali, perto de nós? Eu vou passar por ela até o bloco de Segunda Classe, então vou invadir o porto naval e dar tchauzinho pra sempre pra Solaris.
         _ É possível se fazer isso?
         _ É sim, porque eu consegui um passe – Samson mostrou o cartão – Me colocaram pra trabalhar no porto naval. Só tenho permissão de sair no meu turno, mas já ‘resolvi’ esse probleminha. E, que tal? Você pode vir junto! Com a sua força, estamos fora!
         Na verdade, Fei não tinha planos de sair de Solaris ainda; mal chegara, e não cumprira sua missão. Mas, alcançando o porto no bloco da Segunda Classe, poderia ajudar o rapaz a escapar e ainda procuraria por Citan e Elly.
         _ Tudo bem, eu concordo.
         _ Isso aí, esse é o espírito! Mas – e falou baixo, procurando ao redor – é melhor tomar cuidado! Uma garota da Gebler acabou de passar por aqui por alguma razão.
         _ Gebler?! – Fei olhou ao redor – E, ela por acaso tinha cabelo ruivo?
         _ É, essa aí mesmo!! O quê – olhou desconfiado para Fei – vocês são amigos, por acaso? Falar nisso, ela estava mesmo procurando por alguém... Ela ainda deve estar por aí em algum lugar. Devia ir procurar.
         Agradecendo e tomando o rumo indicado por Samson, Fei acabou descobrindo que as plataformas flutuantes serviam como elevadores particulares, cada uma conduzindo a um nicho diferente entre os painéis sextavados. E após de experimentar alguns deles, encontrou-se com Elly no compartimento 10-1-1.
         _ Elly!
         _ Fei! Ah, Fei, você é tão descuidado! Se está tentando se infiltrar na base, você tem que ser sutil.
         _ Desculpe... Bem, onde nós estamos?
         _ Estamos no ‘Bloco F da Terceira Classe’ de Solaris – Elly explicou, mostrando uma tela holográfica de computador – Existem por volta de vinte blocos de cada, com habitantes da terra morando neles. Nós Solarianos estamos a par de toda a informação pessoal... A estrutura de DNA de todos é registrada a nível molecular. E mesmo a classe deles... Sabe do quê esses cidadãos são chamados?
         _ Não...
         _ ‘Abelhas Operárias’ – Elly voltou-se para Fei – Por causa da forma dos blocos de habitação deles. Essas pessoas fornecem o trabalho manual vital para o centro de apoio de Solaris. Fiz uma viagem de campo para cá uma vez, há muito tempo. Eu lembro de pensar que as vidas deles não tinham nada a ver comigo. Nunca pensei que eu terminaria aqui, desse jeito...
         _ Então, isso quer dizer que você deve saber para onde ir daqui, Elly.
         _ Vagamente – ela acenou com a cabeça – Precisamos escapar primeiro.
         _ Ah, e por falar nisso, onde foi parar o Doc?
         _ Ele entrou num casulo diferente pra procurar você. Deve ter ido parar em um bloco diferente.
         _ Droga... Estamos todos separados.
         E por culpa sua, ele pensou. Depois de criticar tanto a impulsividade de Bart, agira igualzinho ao amigo. E aquele não era um lugar para que cometessem enganos. Mas Elly não parecia muito abalada.
         _ Eu não me preocuparia com Citan. Ele conhece esta cidade melhor do que eu.
         _ Me pergunto se Bart e os outros conseguiram?
         _ Jessie está com eles, então acho que devem estar bem. Seja como for, vamos andando. Precisamos encontrar uma forma de sair desse bloco.
         _ Eu acho que já encontrei, na verdade.
         E Fei contou a ela sobre seu encontro com Samson e o que o outro dissera, conseguindo um olhar de aprovação de Elly.
         _ Muito bom, Fei! Sim, deve ser mais simples nos movermos a partir da Segunda Classe. E onde encontramos essa pessoa?
         _ Ele disse que estaria esperando próximo à torre de vigilância. Vamos.
         Os dois dirigiram-se à torre de vigilância e, passada a surpresa de Samson ao ver a ‘garota da Gebler’ com o campeão do Torneio de Aveh, ele os conduziu para dentro. Uma vez fechada a porta, ele disse:
         _ Daqui por diante, é melhor se nos dividirmos. É um labirinto, então tenham cuidado.
         _ Certo, você também.
         Samson deu-lhes polegar erguido e avançou primeiro. Depois de darem uma curta dianteira a ele, Elly e Fei seguiram.
         A descrição de Samson não poderia ter sido melhor. Um labirinto, de fato, e Elly alertou Fei para os sistemas de segurança. Drones vasculhavam cada corredor, e eles apenas podiam avançar quando a passagem ficava livre. Depois de alguns minutos tensos esquivando-se pelos corredores e junções, chegaram ao ponto de checagem adiante do labirinto, reunindo-se a Samson, que sorriu.
         _ Nada mal. Acho que vou eu mesmo à frente, daqui.
         _ Espere! Você não é um Gazel! – Elly alertou – O que vai fazer?
         _ Sem problema. Eu usei tecnologia do submundo pra reescrever minha ID. Fique só olhando.
         Elly parecia temerosa do que podia acontecer, Fei percebeu sem entender enquanto Samson subia no que parecia apenas uma esteira de bagagens com lâmpadas fluorescentes no piso. Os scanners fizeram a leitura e a voz do computador seguiu:
         _ ... Leitura de ID... Incorreta. Eliminar.
         Não houve tempo para que fizessem coisa alguma, nem mesmo para Samson recuar. Feixes de laser o desintegraram onde estava e, passado o choque do primeiro momento, Fei ergueu os punhos.
         _ Maldita máquina... Eu vou acabar com você!
         _ Não! Vai ser inútil fazer isso – Elly o deteve – Você não vai conseguir atravessar sem ter ou uma ID de Cidadão de Primeira Classe ou uma ID militar.
         _ Então, o que vamos fazer?
         _ Bom, não podemos simplesmente ficar parados aqui... Acho que vai ter que ser tudo ou nada.
         _ Se não funcionar... nos preocupamos com isso mais tarde. É o que você está dizendo? – ele deu um sorriso fraco – Isso parece algo que o Bart diria.
         _ Ai, que grosseiro – Elly pareceu emburrada – Não é como se eu sempre fizesse as coisas sem um plano. Acho que precisamos passar os dois juntos, ao mesmo tempo. Isso deve enganar os sensores.
         _ Espera um pouco, como assim ‘os dois juntos’? Dá pra fazer isso?
         _ S-sim, eu acho – Elly parecia um tanto sem jeito – Se nós... passarmos ao mesmo tempo, bem próximos um do outro, os sensores provavelmente só vão detectar a mim.
         Fei olhou significativamente para a máquina. Se acabassem desintegrados... Bem, ao menos parecia ser rápido. Tornou a olhar para Elly.
         _ Acha mesmo que vai funcionar? Que vai reconhecer você?
         _ S-sim, eu acho...
         _ Tá. É o bastante pra mim.
         E sem palavra, Fei tomou Elly nos braços e os dois subiram nos sensores, ela olhando espantada e com as faces vermelhas enquanto ele próprio olhou para a máquina, parecendo preocupado. Passado um instante de silêncio, a mensagem da voz metálica se fez ouvir:
         _ ... Cidadão de Primeira Classe, Gazel, confirmada. Por favor, prossiga de modo ordenado.
         _ Isso! – Fei exultou – Nós podemos passar!
         Foi quando ele percebeu o rosto de Elly, a expressão ainda distante e olhando para longe dele, como se estivesse perdida em pensamentos.
         _ Elly? O que foi?
         _ ... Hã? Ah, bem... É que, depois de tudo o que eu fiz, estou surpresa que ainda não tenham me rotulado como traidora.
         _ ... Você acha que eles ainda não relataram isso? Para a Gebler, isso seria como admitir uma falha; não acho que quisessem isso.
         _ ... Eu espero que sim.
         _ Certo! Então, vamos andando!
         Seguiram adiante, subindo pelo elevador da torre de guarda e saindo enfim num salão circular, onde um guarda na porta os deteve.
         _ Ei! Por que estão saindo por aí? Venham pra cá!
         Antes sequer que Fei pudesse se preocupar, Elly tomou a frente e retrucou, com atitude:
         _ Eu sou uma tenente das Forças Imperiais Especiais, Elhaym Van Houten. Acabei de completar a coleta da leva especial do nível de Terceira Classe. Estou agora no processo de levar este habitante da superfície ao Q.G. Algum problema com isso?
         Fei não compreendera a conversa em solariano, mas era evidente pela atitude do guarda e a de Elly que ela usara sua autoridade de oficial da Gebler para que passassem. Era fácil imaginar que, mesmo em Solaris, não deviam haver muitos dispostos a criar problemas com a Gebler. As outras pessoas ao redor tinham um ar de superioridade do qual Fei não gostou, e achou que talvez fosse melhor não entender o que estavam dizendo. Imaginou se eles já saberiam que seus Portões tinham sido destruídos, e não eram mais tão inatingíveis quanto de costume.
         Saíram no que parecia uma praça central repleta de acessos e escadarias para pisos superiores e inferiores. Não parecia ser algo novo para Elly, mas Fei estava muito admirado com tudo. Até onde sua visão podia alcançar, o piso era metálico, repleto de luzes e com mostradores holográficos de notícias. As pessoas tinham um ar saudável e roupas de qualidade e sobriedade, mas por uma estranha razão, ele sentia que havia algo de errado. A vida parecia perfeita para os habitantes de Solaris; perfeita até demais.
         _ Artificial – ele murmurou, fazendo com que Elly se voltasse – O padrão de vida daqui... Tudo parece tão correto, tão ordenado... Não parece um lugar onde pessoas de verdade vivam.
         E então Fei pareceu dar-se conta de Elly, olhando para ele com aquele ar de estranheza, e desculpou-se:
         _ Ah... Perdão, Elly. E-eu... acho que estava pensando em voz alta.
         _ ... Está tudo bem. Eu sei o que quer dizer – e ela acenou em afirmação enquanto ele parecia surpreso – Nasci e me criei em Solaris, então isso deveria ser muito natural pra mim, e a vida na terra lá embaixo deveria ser estranha... mas, por alguma razão que não sei explicar, o que senti ao ver a vida na superfície foi alívio. Era como se, finalmente... eu estivesse vendo a vida real de pessoas reais. Por isso me pareceu tão estranho ouvir você dizer isso; acho que nunca parei para pensar em como outras pessoas viam Solaris.
         _ Elly...
         E então perceberam uma comoção próxima; ao lado de um elevador entre os pisos, um guarda em trajes negros estava barrando o avanço de outros cidadãos.
         _ Sinto muito, mas sem acesso especial, ninguém pode seguir. Estes são lugares especiais para a cerimônia de dedicação.
         _ ‘Cerimônia de dedicação’ – Elly murmurou ao lado de Fei – Solaris provavelmente não está indo tão bem agora.
         _ Hã? – Fei olhou ao redor sem entender – Por que temos que assistir isso? Decidimos que íamos encontrar com todos os outros. Não temos tempo pra ir a esse festival.
         _ Não é um festival comum. As pessoas estão perturbadas com a destruição do Portão. A dedicação provavelmente é para acalmar as massas. Precisamos checar a postura de Solaris quanto a habitantes da terra. Temos que assistir à cerimônia, Fei.
         Havia muita movimentação ao redor da praça central. Não foi difícil para Fei notar que as pessoas de fato pareciam inquietas, como Elly dissera. Mal pareciam olhar ao redor enquanto naves imensas se posicionavam no céu claro sobre eles, um teto de cristal translúcido mostrando o topo da imensa estrutura que era Solaris com suas várias hastes estendendo-se em todas as direções. Num ponto mais alto sobre a praça havia um brasão, o símbolo de Solaris que Fei já vira em naves e uniformes da Gebler. De lá, numa imagem ampliada em várias vezes por holoprojetores, foi possível ver um trono erguer-se com uma figura de expressão mumificada em um longo manto vermelho. A presença do Imperador Cain deu início a um coro de saudação, ao qual o rapaz não se uniu. Sentira ao mesmo tempo admiração e um medo instintivo ao ver aquela figura de feições de esqueleto, cuja voz foi irradiada pela praça:
         _ Meus amados filhos, vocês podem ficar em paz. O Ministério Gazel e eu planejamos a destruição do Portão há muito tempo atrás.
         “As pessoas escolhidas por Deus... Nós, os Gazel, retornaremos ao paraíso de Deus. Para a deusa mãe adormecida. O tempo de nossa imortalidade chegou”
         “Nós abrimos a porta para ‘Mahanon’... o local onde Deus descansa, a fonte de sabedoria e poder. Os habitantes da superfície sem dúvida usarão esta oportunidade para dominar seu poder. No entanto, não há necessidade alguma de preocupação... Desde que Solaris tenha esse poder...”
         E sua voz ficou mais alta e poderosa, cobrindo o coro de aclamação por um instante, e a praça inteira pareceu estremecer.
         _ Vamos mostrar a essas feras estúpidas, os Cordeiros, nosso verdadeiro poder!
         As naves no céu começaram a disparar fogos de artifício enquanto o azul cristalino pareceu escurecer, e Fei precisou de um instante a mais para perceber que aquilo devia ser um efeito artificial produzido no cristal do teto. Voltando-se, ele reparou nas expressões vidradas das pessoas à sua volta e, mais perturbador, de Elly também.
         _ Elly...? Ei, Elly!
         A moça sacudiu a cabeça levemente, como se acabasse de despertar, e voltou-se para ele como se acabasse de perceber sua presença ali.
         _ Desculpe... Você disse alguma coisa?
         _ Se ‘eu disse alguma coisa’? Elly, você está bem? Parece que foi drogada, não sei... A sua mente não está aqui.
         _ D-desculpe, eu... só estava pensando – e ela pareceu se esforçar para despertar – E... todo esse barulho da multidão...
         Ela então voltou seus olhos para a projeção nos céus novamente e avançou alguns passos, sem parecer consciente da presença de Fei ou de quem quer que fosse novamente. E Fei percebeu que uma segunda figura surgira à esquerda do trono do Imperador, numa plataforma. Um homem de cabelos grisalhos e ar sereno, que tomou a palavra.
         _ Filhos do Imperador, por favor abram seu coração.
         _ Krelian!
         _ Hã? – Fei voltou-se, vendo que Elly parecia plenamente desperta agora. E ela repetiu:
         _ Aquele é Krelian. Ele é o verdadeiro líder de Solaris. Ele não aparece muito em público. E isso é tudo o que eu sei.
         _ Ele é... o líder de Solaris? O que...?
         Algo estava diferente... o cabelo, provavelmente. A expressão serena, também. Ao menos, nem sempre fora assim. Fei não sabia como, mas... não era a primeira vez que via aquele homem. Tinha certeza disso.
         _ Por que eu sinto... Algo parece familiar...
-o-
         Dois anjos, cada um apenas com uma asa, pairavam diante de um mural magnífico, representando os céus. Havia candelabros antigos pendendo do teto, e o jovem acabara de rezar diante de um altar abaixo do mural. Ficou de pé, voltou-se e desceu a escadaria, afastando-se pelo tapete vermelho ao longo da nave central quando uma porta abriu-se à sua esquerda.
         Ele sentiu alguma surpresa ao rever o velho amigo, o rosto pouca coisa mais moço do que aquele que acabara de ver, a mesma tiara sobre a fronte... Apenas seus cabelos estavam realmente diferentes, azuis ao invés de brancos. Não usava ainda as roupas douradas de Solaris, mas algo em tons de azul e branco que quase parecia ser do clero. E ele deteve-se a poucos passos, cumprimentando-o com um aceno gentil.
         _ Já faz muito tempo, Lacan.
         _ Krelian. Está de volta?
         _ Cheguei ontem à noite – Krelian acenou afirmativamente, sereno – Vai voltar para casa para buscar tintas, certo? Sophia me contou. Permita que eu o acompanhe.
         _ Não há problemas nisso? – Lacan perguntou. Sabia que o outro tinha suas próprias ocupações e... ele próprio não sabia se queria companhia naquele momento. Mas Krelian acenou afirmativamente outra vez.
         _ Nenhum. Deixarei alguém a cargo da minha unidade. Por causa de Solaris, as coisas são muito mais perigosas hoje em dia. De qualquer modo – ele perguntou, braços cruzados e olhos fechados – não se sentiria mais seguro se estivesse comigo?
         Embora ainda tivesse suas objeções, Lacan sorriu, um pouco sem jeito. Quem via Krelian sereno daquela maneira dificilmente o relacionaria com o Krelian no campo de batalha, um comandante capaz e um guerreiro feroz, fosse em Gears ou fora deles. Estaria muito bem acompanhado, então. Quisesse, ou não.
         _ ... Obrigado.
         E os dois homens deixaram a nave central da catedral, cujos vitrais no teto deixavam entrar um único feixe de luz do sol.
         Estavam caminhando agora pela praça de Nisan, uma Nisan bem menos antiga do que a dos tempos modernos, embora as ruas e casas parecessem ser exatamente as mesmas. E ele deteve-se diante de uma escadaria, sem acreditar, e voltou-se para Krelian.
         _ ... O que foi que disse? Como é o nome do professor com quem está estudando?
         _ Melchior.
         _ Mas, afinal – ele perguntou enquanto subiam pelas escadas – por que está estudando?
         _ Sophia me disse que a melhor maneira de acalmar o coração é ler um livro – Krelian subiu, passando por Lacan – É uma boa oportunidade. E despertou o meu interesse em estudar.
         Lacan sacudiu a cabeça, como se aquilo não fizesse muito sentido. Era verdade, Krelian começara a mudar muito desde que o conhecera, mas ainda não conseguia pensar nele como um estudioso. E apesar dos modos serenos, a chama do interesse cintilava em seus olhos.
         _ ... Agora, estou lendo três livros por dia.
         _ Se puder mudar, então vai mudar.
         O olhar de Krelian pareceu intrigado, e Lacan deteve-se quando estavam nas portas de Nisan e voltou-se para o amigo com ar sério.
         _ ... A arte da guerra, isso é tudo no que você pensa.
         _ Ei, isso é maldade – protestou o outro – Sabe, eu sou o melhor de todos os alunos dele.
         _ Sei... – Lacan ainda tinha suas reservas, mas no final das contas, talvez estivesse exagerando. Era bom ver Krelian interessado em outras coisas, afinal – Isso é muito bom, parece que você encontrou algo no qual colocar seu coração.
         _ O que quer dizer? – da forma como dissera, Krelian pensou, Lacan podia estar dizendo que ele próprio não tinha seu coração em nada – Você tem algo. Seus quadros são esplêndidos. Devia ser grato...
         Memórias antigas, a cidade certamente era Nisan... e de lá para outro lugar, um ambiente mais sombrio, um local de conhecimento. Havia um cilindro cheio de um líquido esverdeado que se mantinha borbulhando, e Krelian voltou-se para ele, parecendo empolgado.
         _ Lacan, olhe para isso. Eu finalmente o completei. Isso vai salvar as vidas das pessoas.
         Lacan acenou com a cabeça. O entusiasmo do amigo era palpável. E Krelian voltou-se para o homem idoso próximo a eles, diante de um painel.
         _ Não é mesmo, Melchior? Com isso, até mesmo Sophia vai...
-o-
         _ ... Fei? Fei! O que há com você?
         _ Hã?
         Fei sacudiu a cabeça, não se lembrando exatamente  onde estivera. Mas, algo das memórias permanecia.
         _ Não, não é nada... Mas aquele sujeito, Krelian... Eu sinto como se... já o tivesse conhecido antes...
         _ Entende o que eles estão falando? Quer que eu traduza?
         _ Sim, por favor.
         _ ... O Portão que controlamos foi removido pela vontade do Imperador – Elly traduziu – No entanto, há animais tolos aqui profanando nossa terra sagrada com seus pés. Essas feras destruíram o Portão e querem remover o Imperador do trono na confusão. Isso é uma questão grave, o trono do Imperador foi poluído. Não podemos descansar ainda. Aqueles imbecis foram apanhados e acorrentados como os cães que são!
         E diante do trono de Cain, cinco plataformas holográficas surgiram flutuando, e as figuras de Billy, Rico, Bart, Emeralda e Chu-Chu apareceram para indignação do público na praça e a surpresa de Elly e Fei, que não soube se conter.
         _ Não, Bart! Ughh!
         _ ‘Não grite!’ – Elly o agarrou e tapou sua boca – E se eles descobrirem que você é um habitante da superfície?’
         _ ‘Desculpe, não pude evitar. Eles foram pegos! Droga... Vamos! Nós temos que ajudá-los...’
         _ ‘Espere! Ele ainda está falando... – os curiosos que tinham se voltado para eles tornaram a dar atenção para Krelian, e isso deu tranqüilidade suficiente para que Elly continuasse a traduzir o discurso – Para reviver nossos progenitores, os Gazel de outrora, no dia depois de amanhã, estes habitantes da superfície serão eliminados no interior do Sistema Soylent.’
         _ ‘Reviver Gazel? Sistema Soylent? O que é isso?’
         _ ‘Gazel’ são pessoas de Solaris de raça pura – Elly voltou-se para ele – A palavra significa ‘cidadãos de Primeira Classe’. Mas, neste caso, provavelmente significa o ‘Ministério Gazel’. Há muito tempo, os membros do Ministério Gazel perderam seus corpos de carne a fim de proteger o povo de Solaris. Ouvi dizer que o Sistema Soylent é um sistema de apoio importante para Solaris, mas não sei muito mais. Seja como for, é provavelmente uma cobertura para alguma espécie de experiência.
         _ Experiência?
         E ficou claro pela atitude de Fei que ele pretendia avançar de alguma forma pela praça, agora que a evidência de que seus amigos estavam em perigo era clara. Elly tentou detê-lo, mas ele se soltou bruscamente.
         _ Não me diga o que fazer! Eu estou indo! Esses sujeitos não vão me deter.
         _ É por isso que eu disse pra esperar! – Elly enfatizou, já sem muita paciência – Não sabemos o quê está havendo por lá. Se nós simplesmente sairmos correndo sem direção, podemos muito bem cair na mesma armadilha! O palácio está em alerta, então temos que investigar... Não sabemos sequer onde eles foram feitos prisioneiros.
         Fei não parecia nem um pouco convencido a esperar, mas Elly respirou fundo, tentando ser razoável.
         _ Nós ainda temos dois dias. Tenho certeza de que há uma maneira de ajudá-los. Nós temos que descobrir qual é antes de qualquer coisa.
         _ ... Como você sabe que temos dois dias inteiros? E se eles mudarem de idéia e então, amanhã... Quero dizer, é possível, não é?
         _ Talvez – Elly baixou a cabeça – Mas, não há nada que possamos fazer, certo? Citan não estava lá, o que significa que ele provavelmente está assistindo a transmissão de algum lugar nesse exato momento. Primeiro temos que encontrá-lo. Ele conhece a estrutura do núcleo central da cidade melhor do que eu. Então, não vamos fazer nada descuidado, tá bom?
         _ Onde é que ele está? – Fei se voltou para ela, parecendo agitado de novo – Precisamos dele!
         _ Como é que eu vou saber?
         _ ... Não seja convencida – Fei deu as costas a ela novamente – Você também não pensou em nada!
         _ Eu só estou dizendo que temos que ser cuidadosos!
         _ Mas...!
         _ O quê...!
         Enquanto os dois discutiam, cada vez mais acalarodamente, uma pequena multidão começou a se formar ao redor. Havia gente discutindo em voz alta durante uma cerimônia de dedicação e, mais ainda, não estavam falando solariano.
         _ O quê está havendo?
         _ Ei, o que vocês estão...?
         O burburinho de vozes desconhecidas chamou a atenção de Fei, e de repente ele percebeu que eram o centro das atenções.
         _ Veja! Fomos descobertos!
         Elly olhou ao redor e, após o primeiro instante de susto, bronqueou:
         _ Isso porque você fica levantando sua voz! Vem, por aqui!
         Enquanto os dois se afastavam da praça apressadamente, um alerta de segurança soou por toda a parte:
         _ Alerta... Falha de Segurança... Dois invasores localizados... Ativar drones de segurança...
         Dois robôs flutuantes vermelhos alcançaram Fei e Elly numa passarela próxima ao centro da cidade e os detiveram exigindo com suas vozes mecânicas que toda a ação fosse interrompida. Fei lembrava-se do que um irmão amarelo daquelas máquinas tinha feito no momento em que ele chegara ao bloco da Terceira Classe e se colocou em guarda.
         _ Elly, eles estão aqui! E agora?
         _ Se esses Cubos de Segurança nos apanharem, estaremos encrencados! Fei, por aqui!
         E sem a menor cerimônia, Elly correu até a mureta de proteção e saltou para baixo. Fei mal tivera tempo de se surpreender quando os cubos se aproximaram.
         _ Pare...! Desista de qualquer movimento!
         _ ... É. Vou ter que pular!!
         E saltou para juntar-se a Elly, esperando que ela soubesse o que estava fazendo. Para sua surpresa, havia uma entrada para uma trilha subterrânea de escoamento logo abaixo, onde sua parceira o estava esperando. 
         _ Fei, você está bem?
         _ Sim... Foi só muito repentino. Mas, temos que ir andando! Aqueles robôs esquisitos vão vir atrás de nós!
         Elly pareceu pensativa por um momento e Fei tocou seu braço, preocupado.
         _ ...? Elly, o que foi?
         _ ... Então, este é o lugar... Eu podia ser capaz de fazer alguma coisa. Bem, seja como for, vamos tentar fugir por aqui!!
         O casal desapareceu no sistema de esgoto, enquanto os drones de segurança desceram levitando, analisando a situação.
         _ ... suspeitos, fugindo!! Resposta de emergência! Requisitando apoio...!
         Fei e Elly correram pelo escoamento d’água nos esgotos, e mesmo a iluminação melhor e as paredes de metal não bastavam para que o rapaz reclamasse:
         _ Esgoto! Mais organizado que o de Nortune, mas cheira tão mal quanto...
         _ Guarde o fôlego para correr! – Elly bronqueou – Aqueles drones vão nos alcançar em breve se não nos apressarmos! Vem!
         A trilha d’água era plana, mas as margens por vezes se elevavam, por vezes desciam e tornavam a subir, forçando o casal a subir por meio de escadas. Elly estava à metade de uma delas quando o som dos levitadores se fez ouvir, e Fei se voltou.
         _ Elly, continue. Eu alcanço você num instante.
         _ Fei...?
         Elly voltou-se a tempo de ver Fei atingir um drone vermelho com seu Raijin, praticamente atravessando o drone ao descarregar a energia do seu punho direito.
         Voltou-se novamente, o segundo drone flutuando no ar e passando por ele, manobrando para retornar. Portinholas estavam se abrindo nele, mas a lentidão de seu sistema de armas parecia perfeita para o rapaz.
         _ Acabo com ele antes que ataque. Senretsu!
         A seqüência de chutes e socos, encerrada com um golpe mais forte de punhos unidos, deveria ter lançado o drone contra a parede aos pedaços; no entanto, não fizera mais do que empurrá-lo sensivelmente para trás antes que ele abrisse fogo, colhendo Fei em cheio numa salva de rajadas de concussão.
         _ Anemo Bolt!
         Dolorido, atordoado, Fei ergueu os olhos esperando ver o drone de segurança avançar sobre ele como fizera com o cidadão de Terceira Classe que vira antes, mas um relâmpago de ether o destruíra ao comando de Elly, e ela estendeu sua mão para ele.
         _ Anda Fei, levanta! Depressa! A central já deve ter registrado a destruição desses dois, mais deles vão vir! Me dá a sua mão, anda!
         _ C-cura... Interior...
         A sensação de torpor em sua cabeça era forte, mas sua própria técnica de recuperação com o chi também era. A dor e as lesões dos disparos diminuíram, ele ficou de pé e saltou, agarrando a mão estendida de Elly e apoiando-se na parede para subir mais depressa, ofegando.
         _ Obrigado... Mas como... você conseguiu...?
         _ Os drones de segurança têm escudos poderosos, mas que só podem proteger contra um tipo de ataque por vez. Drones reforçados contra ataques físicos são mais fracos contra energia ether, e vice-versa. Mas venha! Deve haver uma saída pouco mais à frente.
         Movido mais pela urgência do que qualquer outra coisa, Fei seguiu Elly sem questionar enquanto se recuperava da sensação causada pelos disparos concussivos. O casal seguiu em frente, Fei tendo a impressão de ouvir novamente o som dos levitadores dos drones se aproximando de algum ponto à retaguarda deles, até que Elly subiu por uma escada na parede que conduzia ao teto daquela sessão subterrânea e Fei a seguiu, fechando a passagem atrás de si e vendo-se diante dos muros de uma mansão magnífica que, diferente da maioria das moradas em Solaris, tinha até mesmo plantas verdadeiras no jardim. A maior diferença para Fei, no entanto, era que mesmo os muros eram feitos de metal, diferente das habitações da terra. Olhando ao redor, ele perguntou:
         _ Onde nós estamos?
         _ Nível de cidadãos de Primeira Classe – Elly respondeu – É aqui onde as pessoas de Solaris chamadas Gazel vivem. Me acompanhe.
         E ela despreocupadamente passou pelos portões automáticos, parecendo muito à vontade. Mas Fei não estava tão tranquilo.
         _ E-espera um pouco. O guarda robô pode acabar nos encontrando outra vez se você entrar aí.
         _ Não se preocupe – ela sorriu – Esta é a minha casa.
         _ S-sua casa...? Essa mansão enorme é sua??
         Fei arregalou os olhos. A mansão, aparentemente toda construída naquele metal platinado ainda mais imponente do que todas as habitações de Solaris que ele vira até então, com um jardim circular em frente à entrada principal... era a casa dela?
         _ Isso. Entre, vamos.
         Ainda um pouco sem jeito em frente a tal habitação, Fei seguiu Elly para dentro do salão de visitas, onde uma senhora pareceu admirada ao ver a jovem oficial entrando.
         _ Elly? Elly, é você?
         _ Mãe!
         Fei olhou de uma para a outra. Então, aquela era a mãe de Elly...? Alta, de cabelos loiros e olhos azuis, vestida no mesmo tipo de roupa que parecia comum em Solaris, ela desceu a escadaria e veio correndo abraçar a filha.
         _ Você... Estou tão feliz... Você está bem... O exército me disse que você... tinha desaparecido em combate...
         _ Não mãe, não é verdade. Veja, eu estou viva! Mãe – olhou ao redor, parecendo sentir falta de alguém – Cadê o pai?
         _ Ainda está no palácio. Acho que ele vai voltar em breve.
         _ Entendo...
         Foi então que a mãe de Elly pareceu se dar conta da presença de Fei, quieto e parecendo sem jeito por estar ali.
         _ Elly, quem é esse rapaz?
         _ O quê...? Ah! Ele, er, é das Forças Especiais, o mesmo que eu. Ele acabou de... ser promovido, de cidadão de Terceira Classe. Foi graças a ele que eu consegui voltar. Certo Fei?
         _ O quê? – Fei olhou para Elly e para a mãe dela – Hã, não... Digo...
         _ Entendo – a mãe de Elly sorriu – Deve ser por isso que ele está vestido como um habitante da superfície. Meu nome é Medena, e sou a mãe de Elhaym. Muito obrigada por tê-la trazido de volta para nós. Mas, por que ele não está usando um uniforme das Forças Especiais igual a você, Elly?
         Isso estava ficando complicado, pensou Fei, e aparentemente Elly chegou à mesma conclusão, porque se apressou a empurrá-lo e disse:
         _ Ah, mãe, eu... sinto muito, mas tem um relatório que eu preciso mandar imediatamente, então... Fei, vem comigo.
         E Elly arrastou Fei para cima, enquanto ele não sabia o que dizer ou se devia dizer alguma coisa. Diante do olhar espantado de Medena, ele ainda disse:
         _ Hã... Sua casa é muito bonita...
 
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BUT JUST YOU AND I