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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 39: Portão 3 – As Profundezas

           Estavam todos reunidos no Castelo Fatima, e Citan deu o diagnóstico.
         _ Então, resta apenas um Portão na superfície...
         _ O problema é a localização dele – Bart considerou, braços cruzados e cabeça baixa.
         _ É – juntou Fei – Mas a Rainha Zephyr disse que há três deles na terra, e um em Solaris...
         _ De acordo com o relatório de Shakhan – lembrou Sigurd – cada portão está colocado em forma de triângulo ao redor de Solaris.
         _ Vamos dar uma olhada no mapa dado pela Rainha, que descreve as áreas nas quais os portões foram colocados.
         Citan estendeu o mapa sobre uma mesa da sala de recreação, e todos se reuniram ao redor dele enquanto o catedrático começou a mostrar:
         _ É assim que a terra realmente se parece do outro lado da barreira invisível. Os Portões devem estar armados em algum lugar aqui, neste mapa. Primeiro, o Portão de Ignas está... aqui.
         E fez uma marca azulada no ponto onde ficava a caverna de Nisan onde Fei, Bart e Maria tinham confrontado Shakhan. Depois, indicando um ponto a sudoeste ele mostrou o alvo mais recente e comentou: 
         _ O quartel-general do ‘Ethos’ em Aquvy é aqui, então...
         _ Bem, pensando logicamente – Fei fez uma marca em vermelho no mapa ao sul do grande deserto de Aveh, no meio do oceano – o próximo local poderia ser aqui, ou... aqui. Um dos dois.
         O segundo ponto fora marcado no extremo noroeste do mapa, em meio ao continente gelado de Ignas, e Elly comentou:
         _ Norte ou sul, hein...? Bom, ao menos temos chances iguais de adivinhar qual das posições é a correta.
         _ E se a gente tentar os dois? – Bart deu de ombros – Não é só isso que precisa?
         _ Seria muito difícil – Sigurd meneou a cabeça – Eu duvido que eles esperassem que o segundo Portão fosse destruído. Assim, tenho certeza de que eles levarão a sério da próxima vez. É melhor que planejemos a ação com cuidado, mas rapidamente.
         _ Seja lá como for – Citan ponderou – não seremos capazes de evitar a interferência da Gebler, seremos?
         _ Doc, Elly, onde exatamente Solaris está localizada?
         _ Só existe um mapa de Solaris em Solaris – Elly acenou negativamente – Eu nem sequer conhecia a área desta terra até que cheguei aqui.
         _ Mesmo na Gebler?
         _ Isso mesmo – Elly confirmou – As relações com a terra só são reveladas aos comandantes.
         _ Se é esse o caso – Bart acenou com a cabeça – mesmo o pai do Billy não deve saber, então.
         _ Jesiah partiu de lá no meio disto – Sigurd confirmou.
         _ Sigurd e eu éramos contrabandistas e não tínhamos tempo para olhar para fora da janela – Citan explicou – Mais ainda, quando se vai através do Portão de Solaris nos transferimos para outros lugares utilizando o plano ambiental entre cada Portão. Lembram-se quando fizemos contato com o Portão de Kislev no Golias? A mesma coisa acontece e perdemos todo o senso de onde estávamos antes.
         _ Mesmo que o Portão divida o outro espaço – Fei perguntou com ar pensativo – não dá para reconhecer sua topografia? Algo como montanhas, selvas ou algo parecido?
         _ ... Eu não acho que havia montanhas – Elly respondeu depois de considerar por um momento – Era mais como se estivéssemos cercados pelo oceano...
         _ Oceano... – Bart animou-se – Então não pode ser o norte? Lá é o pólo, tá tudo coberto de neve.
         _ Então está acertado! – Fei seguiu o entusiasmo do amigo – A localização do Portão é ao sul daqui. O centro do triângulo é apenas oceano. Se os portões estiverem colocados no ponto mais alto ao norte, o centro vai ser o continente. Assim, coincide com a história da Elly.
         _ Você pode estar certo – Citan acenou afirmativamente. Mas Sigurd objetou:
         _ Esperem um minuto; não deve haver qualquer instalação sobre o oceano.
        _ Então, sob ele? – Elly opinou, e o imediato de Bart considerou a idéia.
         _ Hmmm... Mas a área inteira nesta região é profunda. Se existir, deve estar muito abaixo.
         _ A Yggdrasil é um submarino, certo? – Fei deu de ombros – Então, qual é o problema?
         _ Cê tá é louco! – Bart exclamou – É um submarino, certo, mas não é feito pra exploração submarina tão profunda. A pressão da água ia esmagar a gente na hora!
         _ Parece que temos um problema...
         _ Podemos ser capazes de usar os escafandros ou Gears utilizados pelos Resgatadores – opinou Citan.
         _ ‘Resgatador’? Ah, certo! É isso aí! – Bart tornou a animar-se – O capitão da Thames deve ter uma dúzia deles! Ele nos deve pela última vez. Vamos pra Thames!
         _ Sim, pode ser nossa melhor escolha agora – concordou Citan – Então, vamos até a Thames?
-o-
         Enquanto os procedimentos para a partida eram efetuados na Yggdrasil, em outra parte, o Ministério Gazel analisava a situação no interior do SOL-9000, sempre girando na escuridão.
         _ Então, resta apenas um Portão na superfície.
         _ Ramsus, ele não pôde defendê-lo... – outro ministro queixou-se.
         _ Qual o propósito da existência dele...?
         _ Uma vez ‘lixo’, sempre ‘lixo’. Quanto se pode esperar de fato?
         _ No entanto – outro deles tornou, voltando-se para um aspecto mais prático – não deve ser alinhado antes que os dados do ‘Animus’ sejam recuperados.
         _ Você tem razão. Há uma probabilidade mais alta de não conseguir o tipo apropriado.
         _ Como foi no passado...
         _ Não podemos permitir que os cordeiros fiquem livres ainda.
         _ Seja como for – Krelian interrompeu, entrando no aposento – quem se importa com o Portão?
         A atenção dos Gazel voltou-se para a plataforma que não estivera lá até então, e para a figura de cabelos brancos e olhar indiferente sobre ela.
         _ Krelian...
         _ Isto não pode ser. O pânico espalhou-se até Etrenank.
         _ Aqueles tolos que chamamos de cidadãos – Krelian meneou a cabeça em negativa – são facilmente manipulados pelas palavras do Imperador, apenas.
         _ Acha que Cain será receptivo?
         _ Seu corpo já está no limite, ele não pode suportar por muito mais tempo...
         _ Como sempre, um clone pode ser utilizado – Krelian afirmou – Aqueles tolos não perceberão a diferença. E mesmo que a barreira falhe, ainda não será como o desastre anterior. De algum modo... Se bem me lembro, há alguns dados muito intrigantes naquele cubo de memória.
         _ E o que é?
         _ A ‘mãe’ – respondeu Krelian gravemente, abalando todos os Gazel.
         _ A ‘mãe’?
         _ Certamente – o cientista assentiu – É provável que a ‘mãe’ exista entre os Cordeiros.
         _ Está nos dizendo que nossa ‘mãe’ está em outra parte? Por que não percebemos tal coisa mais depressa...?
         _ O sinal da ‘mãe’ – Krelian tornou a acenar negativamente – A persona dela, aparece apenas depois que ela alcança uma certa idade... Também há uma alta probabilidade de ela ter transmigrado para um ‘Antítipo’.
         _ O ‘Antítipo’ – um dos Gazel pareceu lembrar – Aquela mulher de Nisan...?
         Krelian baixou a cabeça, ocultando suas feições. Era simples iludir os velhos tolos, mas aquele assunto ainda conseguia perturbá-lo o suficiente para que seu disfarce se arriscasse. Mesmo depois de tantos anos. Para se ocultar, dirigiu a conversa para seu plano.
         _ Aqui... Eu gostaria de usar aquele produto de nanotecnologia, ‘Emeralda’.
         _ Aquele que você recuperou da Thames? Por quê?
         _ Para me certificar. Como diz a ‘mãe’, aquela colônia de nanomáquinas, aquele organismo artificial, foi uma criação entre o ‘Contato’ e o ‘Antítipo’ há quatro mil anos atrás.
         _ A memória da ‘mãe’... – ponderou um Gazel.
         _ Sim, é isso – confirmou Krelian – Nós podemos provavelmente conseguir algum tipo de reação. Mas, mesmo que não tenhamos qualquer reação, e se ‘Emeralda’ for destruída, já reuni todos os dados de que preciso. Qualquer perda dela não trará qualquer conseqüência ao plano.
-o-
         Longe dali, a Yggdrasil atracava na Thames. Bart, Fei e Rico foram imediatamente ter com o Capitão, que de imediato pareceu reconhecer a localização no mapa que lhe mostraram.
         _ Ponto X 1507, Z 1235? Hans, isso parece familiar?
         _ É o ponto Sargasso.
         _ O quê? O Sargasso?
         _ Sargasso, o que é isso? – Fei perguntou, reparando no rosto do Capitão.
         _ É uma caverna formada de micróbios ao longo de muitos anos. Supostamente há tesouro escondido, mas ninguém que tenha ido jamais retornou de lá – o Capitão sacudiu a cabeça, como que para afastar uma má impressão – A história é que a caverna em si está viva. Vocês estão a caminho do Sargasso?
         _ É o que parece – Fei confirmou, e o Capitão tornou a abanar a cabeça em negativa.
         _ Seus Gears não podem mergulhar tão fundo. Se fizessem isso, vocês não seriam capazes de se mover. Vou lhes dizer o que fazer: equipem seus Gears para funcionar sob a água por aqui. Então, levem sua nave até onde puderem, e mergulhem a partir dali com seus Gears. Eu vou acordar aqueles molóides lá de baixo pra ajudar vocês.
         _ Obrigado por sempre nos ajudar, Capitão – Fei, Bart e Rico agradeceram, e o veterano fez um gesto de pouco caso, abrindo um dos seus amplos sorrisos e já erguendo a bengala como de costume.
         _ Nah, nem se preocupem com isso! Afinal, nós somos...!
         _ ‘Homens’, ‘Do Mar’, certo? – Fei comentou com um sorriso, ao que o Capitão olhou admirado para o rapaz, com ar de aprovação.
         _ É, parece que já pegou o jeito... Cuidem-se, então!
-o-
         “A propósito, isso pode ajudar a usar seus Gears sob a água – os três lembraram das recomendações do Capitão enquanto desciam – Pode-se saltar na água sem que seus pés toquem o solo. Fiquem pulando para aumentar a velocidade. Dá pra nadar muito bem num Gear, mas podem haver lugares em que não dá pra passar se não fizer isso direito”
         “Outra coisa pra a qual devem ter cuidado são ataques elétricos; a maioria dos monstros das profundezas parece capaz disso. Nossos Resgatadores já tiveram problemas com esses bichos, e temos Armaduras de Isolamento que reduzem a eletricidade do ataque. Vocês devem ficar bem se colocarem algumas placas delas sobre a proteção natural dos seus Gears. Infelizmente, não costumamos ir até o fundo da caverna, então, não posso falar nada quanto ao que vão encontrar mais adiante. Mas acho que vão se sair bem.”
         _ Esse lugar com certeza é profundo – comentou Rico, um pouco nervoso com as leituras dos sensores do Stier – Não pensei que teríamos que descer tanto...
         _ É, eu falei – Bart conferiu o painel de Andvari também, e olhou pelos monitores – Acho que ninguém vem até aqui. Cara, dá até pra entender o que o Capitão falou sobre esse lugar estar vivo... Repararam nas plantas ao redor?
         _ Verdade – Fei concordou a bordo do Weltall – Parece que formam uma traquéia indo rumo ao fundo. E parece... que tem uma corrente vindo de lá.
         _ Estou sentindo também – Rico confirmou, parecendo forçar os controles – Uma resistência maior da maré pelo túnel da direita, não é isso? Não sei... se vai dar... pra descer por ali...!
         _ Ah, tá brincando, né...? – Bart tentou tomar a frente com Andvari – Tá certo, tem essa coisa da correnteza... mas nós temos... Turbos, droga!
         Com Turbos ou não, no entanto, nenhum dos três Gears parecia capaz de seguir adiante. Ao contrário, a força contrária os estava empurrando rumo à caverna por onde tinham vindo.
         _ Isso parece... a vez em que tentamos desviar a Hecht – Fei lembrou, enquanto Weltall estremecia mais e mais com o esforço de seguir adiante – É como se estivéssemos dentro... de um furacão...!
         _ E tentando fazer ele girar ao contrário – bufou Rico – Droga! Não teríamos tanto trabalho... se o impulso fosse inverso...!
         _ Nah, espera aí Rico, não desanima...! – Bart insistiu – Parece... que finalmente... tá dando pra avançar um pouco...!
         Não parecia haver qualquer explicação lógica para isso, mas era verdade. Aos poucos, os Gears começaram a vencer a resistência da corrente, e tornaram a avançar na caverna.
         _ Não estou entendendo... – Fei comentou, sentindo que a resistência diminuía cada vez mais depressa – Não fizemos nada de novo... Como foi que, de repente...
         _ Ah, não reclama Fei! – Bart animou-se – Se dá pra ir adiante, o resto não importa!
         _ Devia importar – Rico observou curioso os instrumentos – Não estamos vencendo a corrente; ela está sumindo, isso sim! Mais um pouco e vamos avançar sem resistência.
         _ Mas como isso pode ser...
         Sem aviso, os Gears foram puxados adiante num impulso súbito, enquanto a corrente que até então os impulsionara para fora era revertida, e Weltall, Stier e Andvari foram sugados para o interior e colidiram nas bordas da caverna a cada curva enquanto acompanhavam o fluxo. Foi uma viagem turbulenta de quase vinte segundos até que finalmente se detiveram numa caverna submarina iluminada, e os três ficaram atordoados demais para qualquer comentário por algum tempo. Bart, o primeiro a recuperar a fala, murmurou:
         _ Da próxima vez... eu acho que venho a pé... Tá todo mundo bem aí, gente?
         _ Nada quebrado, eu acho... 
         _ O que diabos foi aquilo...?
         _ ... Tá parecendo que o seu pedido foi atendido, grandão – Bart comentou, sacudindo a cabeça – O mesmo empuxo que forçava pra fora puxou a gente pra dentro. Sei lá quantos quilômetros. Mas que boca, hein ô?
         _ Fique quieto – Rico resmungou, olhando em volta – E agora, aonde viemos parar?
         _ ... Acho que isso é uma caverna secundária – Fei também olhou ao redor, tentando entender a situação – Aquele fluxo deve ter nos jogado aqui... além da respiração.
         _ Além do quê?
         _ Eu disse que a caverna lembrava uma traquéia, certo? – Fei deu de ombros – Se ela soprava pra fora, devia soprar pra dentro também. O Capitão tinha uma certa razão, afinal. É quase como se a caverna estivesse viva.
         _ ... Já parou pra pensar no quanto isso parece idiota? – Rico resmungou, colocando Stier de pé, e Fei deu de ombros novamente.
         _ Se quiser uma explicação decente, vai ter que perguntar ao Doc quando a gente voltar. Por enquanto, acho que podemos sair por ali.
         E Weltall tomou o rumo da luz da caverna, vinda do teto. Andvari e Stier subiram logo após e viram-se numa cavidade fora d’água iluminada artificialmente. E também, como na caverna em Ignas, havia uma espessa porta de metal conduzindo para outro compartimento.
         _ Deve ser isso. O terceiro Portão – Fei comentou, e com um consentimento mudo os três avançaram. Como da vez anterior, também, havia três passarelas levando à fonte de energia num pilar central. E havia um Gear diante deles.
         Era diferente do imenso Gear branco de Shakhan, no entanto. Ao contrário, parecia um Gear humanóide feminino, como o de Elly, mas em cores de verde, prata e amarelo. Duas características curiosas eram a falta de braços e duas imensas asas de anjo instaladas nos dois lados de sua cabeça. A primeira reação do trio foi se colocar em postura de defesa, e Fei, à frente, perguntou:
         _ Quem é você?
         _ Eu vou... matar vocês.
         Os três ficaram admirados ao ouvir a voz de criança que respondeu, e o rosto do piloto do Gear apareceu nos comunicadores deles. Era uma menina de cabelos verdes e pele bronzeada, algo como um longo cachecol enrolado em volta de seu pescoço e praticamente escondendo sua boca, e de olhos de cor dourada. Antes de qualquer outra pergunta, um Gear misterioso caiu ao lado do primeiro. Longe da delicadeza inerente ao Gear da garotinha, no entanto, este parecia ter saído das lutas da Arena de Kislev: imenso, com uma imensa bola de ferro no lugar da mão direita e um escudo quadrado ainda maior no lugar da esquerda, ele estremecia sem parar como uma máquina antiga e tinha feições de uma caveira no módulo de sua cabeça. E a voz que falou aos três, rachada e rouca, também parecia vir da máquina, não de um piloto humano.
         _ Como é que vão? Eu sou um Rattan, um dos seguidores de Krelian. Peço que me desculpem, eu gostaria de mostrar meu rosto a vocês, mas como um resultado da fusão humano-máquina...
         _ Um seguidor de Krelian? – indagou Bart, curioso – Achei que vocês estavam trabalhando pro carinha brilhante e dourado.
         _ Nossa tarefa atual é totalmente voltada à inspeção da evidência – Rattan pareceu ignorar Bart – Vai arruinar tudo se alguém tão morto para o mundo quanto ele aparecer por aqui. Uma pessoa calma e jeitosa como eu mesmo seria a escolha perfeita para o trabalho.
         _ Então ande logo – bufou Rico, os punhos do Stier batendo um contra o outro – Menos conversa e mais ação aí, se não se importa. Não tenho o dia inteiro.
         _ Ah, mas não se preocupe. Eu só vou inspecionar hoje. É Emeralda aqui, quem vai tomar conta de vocês.
         _ Ah, tá me tirando? – Bart bateu os chicotes – Essa menininha vai segurar nós três, sozinha? Tô duvidando, Ratão.
         _ Bart, espera aí! – Fei chamou de volta, enquanto Andvari avançava sobre o Gear de Emeralda. E a menina repetiu:
         _ ... Matar... vocês.
         Andvari avançou primeiro, tão depressa quanto um Omnigear era capaz. Mas o Gear verde foi ao encontro dele, e tudo o que Bart viu foi que algo atingiu pesadamente seus visores enquanto Andvari tombava para trás.
         _ Mas hein...? O que foi isso...?
         O Gear da menina estava parado diante dele, a asa esquerda estendida e fechada como se fosse um punho. E Rico perguntou em voz baixa, ao lado de Fei:
         _ Viu o que ela fez?
         _ Quase não deu pra acompanhar – Fei respondeu na mesma voz – Ela conseguiu acompanhar a velocidade do Bart, e não acho que tenha sido com Turbos.
         _ O nome dela é Crescens – Rattan falou, sem deixar seu posto – É um Gear feito sob medida para Emeralda, construído com nanotecnologia de ponta. Reage com a prontidão de um Omnigear, já que é na verdade uma extensão da própria Emeralda. Lamento, mas seu Omnigear não é nada especial para ela.
         _ Está ótimo pra mim – Rico avançou, e ativou os próprios Turbos – Sob medida, não? Vamos pôr à prova!
         Stier avançou deslizando sobre as próprias esteiras, as metralhadoras de ombro disparando. E Crescens fechou as asas sobre si, bloqueando a artilharia.
         Stier girou, o punho direito fechado ganhando velocidade e atingindo Crescens com o peso de um martelo e fazendo-a deslizar para trás. E o punho de broca ergueu-se.
         _ Bloqueie isso. Broca de Guerra!
         Stier saltou sobre Crescens, mas quando seu punho esquerdo deveria ter atingido o adversário, o Gear de Emeralda desviou-se e flutuou como se não tivesse peso. Suas asas fecharam-se sobre Stier como mãos gigantes e ela girou no ar, atirando o Gear verde do Campeão contra o piso com violência.
         _ M-maldição... Como...? – Rico ergueu os olhos e viu Crescens pousar suavemente diante de si, como uma bailarina. E enquanto Rattan parecia estar se divertindo muito com a situação, Fei avançou e começou a lutar.
         “Usou o peso e a velocidade de Rico contra ele mesmo, e conseguiu desviar de um Nível de Ataque; é muito rápida. Preciso tomar cuidado”
         Weltall e Crescens começaram a lutar, os punhos do Gear negro sendo contidos e contendo as asas do oponente. À esquerda e à direita, os ataques foram ficando mais e mais rápidos enquanto eles se golpeavam e defendiam, e Fei percebeu algo curioso de repente.
         “Espera um pouco; o que Rattan disse sobre o Gear dela... Eu não deveria...”
         Ele estava sentindo novamente, da mesma forma que na Torre de Babel. Desta vez, no entanto, sua mente estava muito clara, e se não conseguia abrir a guarda de Crescens, ela também não conseguia abrir seu bloqueio. As asas imensas do Gear verde desciam mais e mais depressa sobre ele, mas Weltall conseguia acompanhar o ritmo e reagir cada vez mais depressa também, e Fei não se lembrava de quando tinha acionado os Turbos.
         “Estou acompanhando a velocidade dela, com a capacidade de um Omnigear! Mas, Weltall não é um...?”
         O quanto ele sabia, de fato, quanto ao seu Gear? Aliás, seu Gear? Ele tinha aparecido do nada dentro da sua vila, e ele o pilotara desde então. Citan lhe dissera, uma vez, que não era capaz de pilotar Weltall tão bem quanto ele... e, durante a luta na Torre de Babel, ele utilizara o Modo Hyper.
         “Mas Maria disse que o Gear tem que poder funcionar em alinhamento perfeito com o piloto! Isso só seria possível se Weltall fosse...”
         _ Acorda, Fei! Isso tá indo devagar demais!
         Stier avançou pela esquerda, ultrapassando Weltall e atingindo Crescens com as metralhadoras em seus ombros, e abrindo a guarda dela, agarrou suas pernas e girou-a sobre a cabeça, enquanto Rico rosnava:
         _ Desvie agora, se puder. Twister D!
         Como no movimento de luta livre, Stier rodopiou com Crescens nos braços e tombou sobre ela, golpeando-a violentamente contra o solo enquanto Andvari também investia, passando à direita de Weltall enquanto Bart lembrava:
         _ Nossa prioridade é o gerador de Portão! Só mantenham ela ocupada mais um pouco e eu já resolvo...
         Crescens estremeceu sob Stier, e Fei bradou seu aviso e afastou Weltall ao mesmo tempo em que a voz da menina soava pelos comunicadores:
         _ Pancada de Braço!
         Ante os olhos espantados de Fei, Stier foi lançado ao ar a uma certa altura e Crescens subiu logo atrás dele, as asas erguidas novamente para golpear o Gear de Rico uma segunda vez para o alto, antes de agarrar seu braço de broca, girar no ar e cair com ele.
         Crescens voltou-se para o gerador, sendo atacado por Andvari, e arremeteu na direção dele. Antes que pudesse alcançá-lo, contudo, Weltall se aproximou e tornou a atacá-la, bloqueando a pancada de sua asa quando ela se voltou. E Fei recuou um passo, investindo com o Raibu enquanto novamente analisava a situação.
         “Um Nível de Ataque! E, com a habilidade de um Omnigear... não seria nada estranho se ela alcançasse o Modo Hyper também”.
         Novamente as asas de Crescens atacaram, e Weltall conteve, e revidou e foi bloqueado. O piso estremecia sob os dois, mas nenhum conseguia deslocar o outro e Rattan, mais do que ao gerador sob ataque, estava prestando plena atenção ao combate. Também eram ordens de Krelian, buscando confirmar suas informações e suspeitas quanto à Emeralda. E ele percebeu o momento que aguardara chegar quando, após um ataque simultâneo, tanto Weltall quanto Crescens se repeliram e deslizaram para trás, assumindo posturas diferentes.
         _ Weltall em Modo Hyper...!
         _ Crescens em Modo Hyper...!
         Rico novamente colocara Stier em pé, admirado e aborrecido. Seu braço de broca estava pendendo, quase totalmente solto da articulação pelo golpe de Crescens, e ele se preparava para intervir no duelo quando viu a investida simultânea.
         _ ‘Modo Hyper’...? O que...
         _ Kosho X!
         _ Onda de Escuridão!
         Weltall e Crescens se atacaram ao mesmo tempo, ambos atacando sem se proteger e sendo atingidos um pelo golpe do outro. O Gear de Fei girou e disparou os dois feixes de chi enquanto Crescens estendeu suas asas e, como dizia o nome, ondas de escuridão se projetaram contra Weltall.
         Uma explosão violenta se deu em seqüência ao estrondo do ataque simultâneo; Bart tinha acabado de avariar o selo de energia do gerador, e centelhas intensas partiam do núcleo danificado.
         _ É isso aí, gente, esse lugar já era! – Bart bradou, voltando-se para os amigos – Agora, acho que é uma boa hora pra a gente... ah, não!
         Weltall estava se levantando com dificuldades; no entanto, diante dele, Crescens estava fazendo a mesma coisa. Tanto Rico quanto Bart podiam ver que não escapara ilesa, ligeiramente curvada e com a asa direita pendendo para baixo, mas parecia óbvio aos dois que ela continuava disposta a lutar. O mesmo devia ter parecido para Fei, que começou a bater no painel de comando enquanto os braços de Weltall levavam um instante a mais para se colocarem em guarda.
         Mas sua piloto não estava atacando, ao menos não naquele momento. Através dos comunicadores de Crescens e Weltall, ela quis ver quem fora capaz de atingi-la daquela forma. Seus pensamentos ainda agiam com a lógica fria de uma máquina, cumprindo a ordem que recebera de Krelian de eliminar aqueles que viriam para destruir o gerador de Portão. Era impossível que qualquer piloto humano lutasse em igualdade de condições com ela, quer tivesse um Omnigear ou não. E ela pretendia analisar aquela impossibilidade que enfrentava.
         _ Ah...!
         Lembranças de um tempo antigo pulsaram na mente da colônia de nanomáquinas, e ela ficou confusa enquanto pensamentos próprios entraram em conflito com as ordens que recebera. O rosto do homem de cabelos castanhos presos num rabo de cavalo não era desconhecido para ela, e nem era o de um inimigo. Apenas parecia mais jovem do que devia ser, mas ela estava certa de que era a mesma pessoa.
         _ Ki....m... ? – Emeralda perguntou olhando para Fei com olhos admirados, como alguém que encontra algo perdido há muito tempo – Ah, ah-a-a, eu...
         _ ... Será que só eu percebi que essa caverna vai cair? – Rico perguntou aborrecido, ainda sem conseguir acreditar no que acontecera. Seu Gear, derrotado por aquela garotinha! E Rattan, sempre alheio ao conflito, pareceu ver o que esperara o tempo todo.
         _ ... Entendo... Descuidada... E agora isso... Deveria ver isso como uma liberação de... memória, ou talvez uma gravação. Aconteceu exatamente como Krelian disse. É uma manifestação da impressão. Seja como for, foi provado. Com isso, se me dão licença.
         E o Gear imenso, ou o próprio Rattan, saltou e ergueu-se aos ares, mantendo-se no ar sobre eles por um instante, dirigindo-se a Fei.
         _ Eu devo relatar os resultados. Ah, sim, e fique à vontade para levar a menina. Use-a como quer que lhe convenha. Afinal de contas, ela é a sua ‘filha’...
         _ Ah, a aha-a-a-a-a!!
         _ ... Filha...?
         Crescens ficara parado, voltado para o gerador de Portão, cada vez mais brilhante. Andvari e Stier se retiraram para a mesma comporta por onde tinham vindo, e foi de lá que Bart voltou-se e gritou:
         _ Fei, anda logo! Esse negócio vai explodir, cara!
         A voz do amigo chegou até ele como algo distante, enquanto Fei teve novamente uma sensação familiar. Parecia estar dentro de uma câmara isolada, não sabia onde, e havia uma porta selada à sua frente. Através do vidro reforçado ele via tropas pesadamente armadas entrando, e abrindo fogo. Inútil; não tinham como passar pelas portas com rifles. No entanto, a pessoa do outro lado das portas... Uma pessoa que ele parecia reconhecer...
         Não... outra vez...
         Ele não saberia dizer depois o que o fizera agir daquela forma; naquele momento, no entanto, ele sentiu um temor profundo ao pensar que aquela caverna ia explodir e Emeralda estaria lá dentro. Iria perdê-la de novo, e para sempre...!
         Andvari ainda estava na porta quando Weltall tomou Crescens nos braços e então partiu com as primeiras explosões já demolindo a caverna, e Bart perguntou:
         _ Escuta Fei...
         _ Agora não! Pra fora!
-o-
         No oceano, um brilho intenso foi seguido por um estrondo violento que lançou ondas em todas as direções, e uma breve, mas poderosa descarga de energia se libertou das águas enquanto a Yggdrasil III se afastava pelos ares.
         Mais tarde, na sala de recreação, uma máquina semelhante a uma menininha de cabelos verdes e roupas vermelhas saltava com o entusiasmo das crianças diante de Fei, repetindo o mesmo nome inúmeras vezes:
         _ Kim! Kim! Kim! Kim! Kim!...
         Bart, Elly, Citan, Rico e todos os outros estavam ali, mas era Fei quem parecia mais confuso. Ao mesmo tempo tinha uma sensação muito boa ao ver a menininha pulando diante de si, e não conseguia entender o que estava acontecendo.
         _ Bom... vamos ver... o que isso está dizendo, afinal?
         _ ... Fei...?
         Ele voltou-se. Elly estava chegando mais perto, insegura, e de algum modo ele sabia que ela também devia estar se sentindo como ele. Não havia como explicar aquilo, mas uma sensação de familiaridade enorme vinha da colônia de nanomáquinas... e a impressão parecia ficar ainda mais nítida perto de Elly.
         _ ... Você não acha... – ela voltou-se para a menina – Ele parece alguém que você conhece?
         _ O que você quer dizer com ‘parecer’? – a menina perguntou – Kim é Kim!
         _ Kim? A pessoa que se parece com Fei, certo? Quem é ele? É a pessoa que te criou?
         _ O que você quer dizer com ‘me criar’? – a menina parecia não entender – Kim é Kim! Você não tá vendo?
         E abraçou Fei entusiasticamente, voltando a repetir o mesmo nome.
         _ Kim! Kim! Kim! Kim! Kim! Você está mesmo aqui! Eu achei que estava sonhando. A pessoa do meu sonho. É, Kim! Eu estava sonhando! Um sonho muito, muito longo.
         _ ... Parece que você lembra ele – Elly comentou, vendo o rosto confuso de Fei enquanto ele dava tapinhas na cabeça da menina e olhava para eles como que perguntando o que fazer – Alguém que é importante para ela... Provavelmente a pessoa que a criou.
         _ Hã...? E-ei, você – e fez a criança olhar diretamente para ele – Meu nome é Fei. Não Kim.
         A menina olhou fixamente para Fei por um momento, piscou como que assimilando a nova informação e então concordou com a cabeça, tornando a sorrir.
         _ Agora eu sei, Fei é Kim! Escuta, escuta, eu estava sonhando! Um sonho muito, muito longo!
         Fei colocou as mãos na cabeça. Isso levaria algum tempo...! Mas concordou com a cabeça.
         _ ... Tá, Kim está bem...
         _ Para ela, ‘Kim’ é mais do que apenas um nome – Citan ponderou, observando a atitude da menininha – É mais como... ‘pai’.
         _ ... Pai?...
         _ Não, não – Citan riu da expressão no rosto do rapaz – Eu quero dizer, num sentido geral.
         _ Escuta, escuta Kim! – a criança puxou o braço de Fei novamente, chamando sua atenção – Eu estava sonhando sobre tempos antigos de verdade. Kim era muito mais velho, e eu estava em algum tubo claro... Kim estava... colocando um monte de velas numa confecção branca macia... Eu não sabia por que ele estava fazendo aquilo... Mas eu sentia que ele estava ansioso pra me ver sair do tubo. Mas...
         Ela baixou a cabeça, sacudindo os cabelos longos em negativa, e todos voltaram sua atenção para o tom entristecido de sua voz.
         _ ... Mas... logo depois... todo mundo tinha ido embora... Meu corpo desapareceu... Aí, eu fiquei em algum lugar escuro por um tempo muito... muito longo...
         Fei não estivera presente durante o primeiro contato com a pequena colônia de nanomáquinas durante a exploração da caverna Zeboim, ainda de cama depois da luta submarina com Ramsus. Mas, de algum modo, ele quase podia ver a câmara de que ela estava falando, e sentiu muita pena quando a menininha voltou os olhos com um apelo para ele.
         _ Por favor! Promete que você vai ficar, Fei que é Kim?!
         _ Hã...? Ah, claro.
         _ Mesmo? Mesmo, de verdade?
         _ Mesmo – Elly sorriu para a menina, também entendendo do que ela falava. E, para surpresa geral, a menina fechou o rosto e retrucou:
         _ Não me amola! Quem é essa tia? Eu estou falando com Kim!
         _ Tia...! – Elly apertou a própria mão num punho, olhando feio para a menina – Acho que eu devia enterrar ela no fundo do oceano de novo...!
         _ Ei...
         _ Por que você não fica sendo o Kim dela? – Elly estalou à tentativa de Fei de interromper – O Fei... Kim!!
         E deu-lhe as costas, cruzando os braços e ficando quieta. Após um instante de silêncio desconfortável, Fei passou a mão pelos cabelos e perguntou:
         _ Hã... a propósito, você tem um nome?
         _ Ah, não! – a menininha pareceu desapontada – Você é cruel, Fei que é Kim! Sou eu, Emeralda, Emeralda! Kim me deu esse nome porque eu tenho cabelo cor de esmeralda! Você não lembra...?
         _ Ah, claro, tudo bem – Fei ajoelhou-se de novo, para poder olhar de frente para a menina, e sorriu – Emeralda, certo? Tudo bem, Emeralda. Vou ficar com você dessa vez. Eu prometo!
         _ Mesmo? Mesmo de verdade? Viva!
         Emeralda tornou a abraçar Fei, que tornou a afagar os cabelos dela e tornou a olhar para Elly, que continuava de costas para eles e de cara amarrada, enquanto os outros tornavam a rir da cena. Mas Citan estava levando outras coisas em consideração.
         _ ... Eu duvido que Krelian agisse por vontade própria quanto a usá-la como um soldado dispensável. Alguma informação existia no interior dela, que deve ter sido passada para Krelian. Quem sabe o que ele fará em seguida. Devemos encontrar Solaris antes que isso aconteça...
         _ Com licença – a voz de um oficial de comunicações soou na sala de recreação – Isso acaba de chegar, uma mensagem de Shevat! Devido a um portão enfraquecido, uma cidade que pode ser Solaris foi descoberta!!
         _ Perfeito! – Citan acenou, agradecido – Voltemos a Shevat por enquanto!
 
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THE OLD ECHO FADES AWAY