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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 36: Portão 1 – Aveh

           _ Sem agitação pra você – Bart disse à Margie quando voltaram a Nisan – Vai ter que se aquietar por um tempo.
         _ O que quer dizer com, ‘por um tempo’? – ela emburrou.
         _ Não fica tão agitada. Ha ha ha ha!
         _ Malvado!
         _ Sigurd!
         Estavam todos reunidos agora na estalagem de Nisan, onde os cuidados devidos tinham sido dados ao ferimento de Margie, e um dos auxiliares do imediato acabara de entrar. Sigurd foi até ele, ouviu as informações trazidas e acenou, com ar grave.
         _ ... Muito bem. Por favor, diga a Maison que vamos ficar por aqui por mais algum tempo.
         _ Entendido!
         _ Nós ouvimos de nossas unidades em Bledavik – Sigurd comunicou, enquanto seu auxiliar se retirava – As coisas estão se desenrolando com suavidade. Eles entraram no castelo. Estão investigando o quarto particular de Shakhan no piso superior. Mais uma coisa, a Yggdrasil está estacionada nas proximidades e apanhou vários Gears no radar.
         _ Shakhan! – exclamou Bart, e Sigurd confirmou com um aceno.
         _ Muito provavelmente. Mas aqueles Gears foram para a capital e então se voltaram e retornaram em nossa direção.
         _ Ele viu que as coisas não pareciam muito bem e fugiu – deduziu Fei.
         _ É... – Bart comentou, pensativo – Mas, faz parecer que ele tá voltando pra cá.
         _ O que é que há por aqui...?
         _ Quanto a isto, a informação da capital – retomou Sigurd – Não há um ‘Portão’ nesta área?
         _ Um ‘Portão’?
         _ Onde? – perguntou Citan.
         _ Diretamente a oeste de Nisan – respondeu Sigurd, que se voltou para Bart – Jovem mestre, sabe a grande caverna que existe lá?
         _ Caverna... no continente oeste? É perto do oceano – Bart concordou – Se me lembro bem, é grande o bastante pra um Gear andar lá dentro.
         _ Sim, lá. Foram encontradas evidências de que há alguma espécie de grande construção no interior daquela caverna.
         _ Shakhan está indo para lá – comentou Fei, sem entender – O que ele está fazendo?
         _ Acho que vamos ter que ir lá e ver! – Bart bateu os punhos um no outro, e Fei se animou, concordando. Sigurd confirmou com um aceno de cabeça e disse:
         _ Eu aguardarei aqui por informação da capital.
         _ Um portão! – Citan admirou-se – Naturalmente, eu gostaria de chegar a vê-lo de verdade... mas acho que desta vez eu vou passar. Há mais dois restando. E além disso... Só para o caso das coisas não saírem muito bem, pode ser melhor se ficarmos aqui e protegermos Marguerite.
         _ Entendido – Bart agradeceu – Eu deixo o resto pra vocês.
         _ Marguerite e Bartholomew – a Irmã Agnes sorriu sonhadoramente ao ver os dois primos juntos – Fico muito feliz de ver vocês dois se dando tão bem.
         _ Irmã, por favor, pare – pediu Margie – Está me deixando envergonhada de novo.
         _ Mas não é vergonha, Marguerite – Agnes pareceu perplexa – Desde os tempos antigos, as Grandes Madres de Nisan e os Reis de Aveh sempre se...
         _ Não, pára, não fala nisso... Ai aiaiaiaiaiai!
         _ Margie! – Bart veio depressa para o lado dela, e a fez ficar quieta na cama – Fica paradinha aí, é melhor você não ficar forçando!
         _ Aiai... Seu malvado...!
         _ Jovem mestre, vai encontrar Andvari fora de Nisan na Yggdrasil – lembrou Sigurd – Ele já está refeito dos danos da última batalha.
         _ ‘Andvari’? – Fei olhou em dúvida para Bart, que acenou.
         _ É o nome do Omnigear de Fatima. Encontramos nos registros antigos da família sobre ele. Legal, né?
         _ Bom, é... – Fei comentou, olhando ainda em dúvida para o amigo – Mas o que vai fazer com o Brigandier, então?
         _ Reserva – Bart respondeu sem pestanejar – Não sabemos bem que tipo de coisa vamos encarar mais pra frente, mas vai ser preciso mais força. E, de qualquer maneira, meu velho Gear já é parte do tesouro de Fatima, também. Além do mais, a gente não sabe tudo sobre os Omnigears; pode ter algo que o Andvari não consiga fazer, e o Brigandier possa. Nunca se sabe, ele ainda pode ser muito útil no futuro.
         Parecia improvável considerar uma situação em que o Omnigear de alguma forma perdesse para o Brigandier, mas Fei sabia que isso também tinha a ver com o grande respeito de Bart pelo que servia a ele. Fosse seu povo, fosse o seu velho Gear, nada era substituível.
         Era preciso garantir a segurança de Nisan até que estivessem certos da vitória. Então, Bart julgou que apenas ele, Fei e Maria deviam investigar a caverna até que tudo estivesse resolvido. Fosse qual fosse a força protegendo Shakhan, provavelmente Andvari teria poder o bastante para lidar com eles, mas ter o apoio de Seibzehn e Weltall como garantia não era cuidado demais.
         A caverna de fato não era afastada de Nisan. Havia uma pequena cadeia de montanhas a oeste da cidade, separando o continente do mar, e a entrada estava voltada para o sul. Após um primeiro exame superficial, os três entraram com Bart na liderança, já que ela era o único que conhecia o lugar. Ou ao menos, ele acreditava conhecer.
         _ O quê?! – Bart parecia intrigado, olhando para a parede nos fundos da Caverna de Ignas.
         _ O que houve? – Maria perguntou de sua posição sobre Seibzehn.
         _ Aquele buraco, não estava lá da última vez em que vim até aqui.
         _ Ande, vamos dar uma olhada.
         Mas, assim que se aproximaram a ponto de Fei perceber uma espécie de painel luminoso montado próximo ao ‘buraco’ descrito por Bart, da entrada e da saída da caverna vieram Gears imensos cobertos em mantos, Gears que eles reconheceram prontamente.
         _ São sobreviventes da última batalha! – Fei exclamou, colocando Weltall em guarda – Os Neo Etones!
         De fato eram, quatro Gears ao todo, dois vindo do interior da caverna e dois outros da retaguarda, como se pretendessem aprisioná-los ali. No ato, sem que uma palavra fosse necessária, os três se lançaram à batalha.
         Bart tomou a dianteira com Andvari, Weltall e Seibzehn confrontando a retaguarda. De cajados erguidos, um deles em chamas, os Neo Etones atacaram o Omnigear, ainda lembrando-se das ordens do Bispo Shakhan de apreendê-lo com poucos danos, se fosse possível.
         E Andvari bateu seus chicotes em cruz, braços abertos fechando-se diante de si mesmo enquanto alcançava os dois adversários. Os dois cajados quebraram-se ao tentar bloquear o ataque, e também seus braços. O primeiro ataque fora demais para eles.
         Bart sorriu, fazendo o Omnigear se voltar depressa. Ainda estava se adaptando a comandar com os pensamentos ao invés de usar controles, mas era uma adaptação rápida. Quase pudera sentir o choque dos chicotes contra os Gears, e fora como bater em palha. Procurou pelos amigos, imaginando se algum deles precisava de ajuda e pronto para continuar.
         Mas seu entusiasmo o fizera esquecer que seus companheiros também eram fortes. Voltara-se a tempo para ver Weltall desintegrar um Neo Etone com um Tiro Guiado, enquanto os dois punhos de Seibzehn atingiram pesadamente o seu adversário que despejava chamas sobre ele, aparentemente sem efeito.
         _ Maria, você está bem?
         _ Sem problemas, Bart – ela acenou de volta – O ataque atingiu Seibzehn, mas nada que a blindagem não suporte. E acho que esse foi o último. 
         _ Aqueles caras, parecia que estavam esperando por nós – Fei comentou ao ver o último Neo Etone cair.
         _ Será que é uma armadilha? – perguntou Maria, ao que Bart deu de ombros.
         _ Seja lá o que for, temos que continuar! Vai ser uma vergonha eterna se deixarmos eles escaparem!
         Seguiram adiante pela caverna num corredor escavado diretamente na rocha com laser. Por fim chegaram a duas imensas portas metálicas que se abriram diante deles para revelar o que parecia um poço de metal sem fundo, e mesmo com a experiência que tivera nos tempos recentes, Fei ainda se surpreendeu com o que viu.
         _ Isso é... o gerador do Portão?!
         Três passarelas conduziam ao centro da imensa caverna, onde um pilar estava situado entre as três. Um fluxo de energia que parecia infinito era claramente visível a partir dele, algo que se parecia com a descrição que Citan e Sigurd tinham feito sobre o gerador. Mesmo Maria parecia impressionada, sem ter o que dizer, e Bart resumiu sua apreciação numa única palavra.
         _ ... Filho da mãe. Não só ele estava sentado no trono de Aveh, também controlava isso.
         _ Exatamente.
         O Gear de Shakhan pousou exatamente diante deles, entre o pilar do portão e os três Gears, e não parecia que ele estivesse disposto a fugir novamente. Andvari, Weltall e Seibzehn se puseram em guarda, mas Shakhan não tomou qualquer iniciativa a princípio.
         _ Pensar que você sabia da existência do portão... Muito interessante. O portão que dividiu Solaris da terra estava sob a supervisão do ‘Ethos’.
         “No início, era supervisionado sem qualquer verdadeiro conhecimento do que ele fazia. No entanto, ao longo dos anos, o ‘Ethos’ fez suas próprias experiências para revelar sua verdadeira natureza. Eles aprenderam como usá-lo. Em nome de nos libertarmos de Solaris, nós descobrimos uma nova forma de utilizá-lo!”
         Das costas do Gear satélite de Shakhan, um longo tubo metálico destacou-se e se plugou diretamente na cápsula de energia do pilar atrás de si. No ato, todo o corpo do Gear começou a cintilar com energia e poder, parecendo algo bem próximo do invencível.
         _ Seu! – Bart exclamou – Essa era a sua intenção original!
         _ Ele provavelmente veio por causa desta caverna! – Fei entendeu – Ele só queria a energia do gerador de portão!
         Foi então que algo inusitado aconteceu; o fluxo quase infinito de energia que cintilava por toda a estrutura do imenso Gear branco de Shakhan repentinamente desapareceu. Todas as leituras de sensores de Weltall, Andvari e Seibzehn batiam: não havia qualquer fluxo partindo do gerador de Portão para o Gear de Shakhan, embora não houvesse qualquer explicação plausível para aquilo. A não ser...
         _ Isso... não pode ser...!? – ouviram a voz de Shakhan, tão surpreso quanto eles mesmos – É ridículo...! Esta coisa devia ser capaz de retirar uma quantidade adequada de energia do portão! Não devia ter havido qualquer problema na teoria! Por quê? Por quê não se move?
         Quase podiam imaginar Shakhan batendo nos controles, tentando inutilmente fazer o monte de metal ainda plugado ao gerador de portão se mover, e ainda que aquilo fosse um sinal de que a vingança de Bart seria muito mais simples do que teriam ousado sonhar, não deixava de ser ridículo.
         _ Putz, você trocou as bolas? – Bart comentou sem expressão – Se meu pai ouvir falar que eu fui deposto por um idiota desses, vai rolar no túmulo...
         _ Eu não precisava disso, de qualquer maneira! – Shakhan parecia ter desistido de seu plano de utilizar a energia do portão, pois o Gear moveu os braços e pôs-se em posição de batalha – Acabarei com você eu mesmo!
         Enfim, parecia que ao menos ele não se entregaria pacificamente. Mas então, um cintilar poderoso de energia e todos os Gears captaram um poder que não estivera ali até um minuto antes, e uma voz sinistra e familiar perguntou:
         _ Você não deseja o poder?
         O Gear de Shakhan procurou ao redor, mas não havia ninguém na caverna que pudesse ser o dono daquela voz, a princípio. Fei e Bart, mais familiarizados com aquilo, voltaram-se num impulso para o alto.
         _ Ele de novo?!
         Um Gear de bronze desceu do teto da caverna em velocidade vertiginosa, detendo-se sem qualquer dificuldade bem diante de Shakhan com seus braços cruzados. Weltall olhou ao redor ainda mais, e Fei perguntou-se como ele podia ter entrado ali. Diante do Gear do ‘Ethos’, o Gear de bronze começou a cintilar uma agressiva aura vermelha enquanto flutuava sobre o abismo sem fim abaixo de si, e seu piloto falou:
         _ Sou Grahf, o caçador do poder. Desejais o poder?
         _ Poder? Que espécie de poder? – perguntou Shakhan – Eu tenho o poder do Portão! Assim que eu conseguir fazer esta máquina se mover...!
         _ Seus poderes são meramente superficias – Grahf retrucou inexpressivamente – As ferramentas às quais você produziu com seu intelecto imaturo... Agora, acha que pode vencer?
         _ O quê está dizendo? – Shakhan, como outros antes dele, também estava incomodado pela presença do estranho. O que ele dizia, sua atitude, flutuando sem parecer se dar conta sobre aquele abismo sem fim abaixo do Portão, tudo era perturbador e ele não conseguia entender – Poder superficial?
         _ Os esforços escassos de vocês, habitantes da terra, são insignificantes perto do único e verdadeiro poder. Eu o dotarei de meus poderes verdadeiros!
         Mais uma vez, a mão do Gear de Grahf cintilou enquanto toda a sua aura vermelha pareceu concentrar-se nela e ele recitava:
         _ Meu punho é o sopro divino! Desabrocha, ó semente caída, e revela teus poderes ocultos!!
         A mão erguida do Gear estendeu-se na direção de Shakhan e Grahf concluiu:
         _ Concedo a ti o poder da gloriosa ‘Mãe da Destruição’!
         Shakhan urrou de agonia enquanto o poder oculto em seu interior foi exposto à força por Grahf, e Maria perguntou alarmada:
         _ Mas afinal, quem é este homem? O quê ele está fazendo?
         _ O nome é Grahf, Maria – Fei respondeu, Weltall novamente posto em guarda – Quanto ao quê ele está fazendo...
         _ Basta dizer que ele tá arrumando problema pra nós, certo? – Andvari bateu seus chicotes, enquanto o Gear de Shakhan voltava a cintilar com poder – Lá vem!
         O Gear branco do ‘Ethos’ avançou depressa, e seu punho de três garras caiu primeiro sobre o Andvari e o choque de ambos foi terrível, centelhas voando para todos os lados.
         Após o primeiro instante do choque, Andvari foi jogado para trás. O Omnigear continuava sendo poderoso, mas a barreira de energia extraída do Portão também era.
         _ Droga... Bart!
         _ Isso não é nada bom – Maria diagnosticou – Ele ainda não sabe usar direito o Omnigear.
         _ Como assim? Não era só se concentrar nos movimentos?
         _ Um Omnigear é mais do que uma máquina comum, Fei – Maria negou com a cabeça – Ele é capaz de tudo o que um Gear comum pode fazer, e vai além. Bart já sabe como fazê-lo lutar, mas até que pare de considerar Andvari apenas um ‘Gear mais poderoso’, não vai conseguir retirar o verdadeiro poder dele.
         _ Nem terá tempo para tal – Shakhan voltou-se na direção deles – Chegou a sua vez!
         Shakhan avançou sobre eles, e Weltall e Seibzehn ativaram seus Turbos. Era a melhor chance deles de se equipararem em velocidade ao Gear do ‘Ethos’.
         Weltall saltou e passou sobre o ombro direito de Shakhan enquanto Seibzehn o atacava pela frente, e o Gear branco pareceu confuso pelo ataque.
         Em meio ao salto, Weltall girou e pisou nas costas de Shakhan, lançando-o na direção de Seibzehn, que o recebeu disparando os dois punhos ao mesmo tempo.
         Shakhan deteve-se com o choque, mas não parecia realmente danificado. Ao invés disso, ele avançou sobre Seibzehn com seu punho direito, semelhante a um escudo, e o Gear de Maria o enfrentou com seu próprio punho.
         Enquanto avançava por trás, Fei viu atônito o soco de Shakhan lançar Seibzehn pesadamente rumo à borda da plataforma onde estavam. Não conseguia imaginar nada fazendo aquilo com o poderoso Gear de Shevat, nem mesmo o Stier de Rico.
         Shakhan voltou-se para ele depressa, mas Weltall tinha a vantagem de uma massa muitas vezes menor, manobrando com facilidade para evitar o punho de três garras e subindo no antebraço do Gear branco e ganhando altura com um novo salto.
         Estava fora de alcance por um segundo ou dois, e pretendia usar bem esse tempo. Unindo as mãos à sua direita e então as voltando na direção de Shakhan, Weltall ativou sua Máquina de Ether enquanto Fei bradou:
         _ Tiro Guiado!
         Uma torrente de chi despejou-se sobre Shakhan, e Fei duvidava muito que aquilo fosse realmente causar muitos danos. No entanto, se pudesse cegar o oponente por algum tempo, Bart e Maria teriam tempo de se recuperarem, e ele podia procurar fraquezas em Shakhan enquanto isso.
         Após a descarga de chi, Weltall caiu diante do Gear branco de Shakhan e Fei avançou pela frente, aproveitando-se da cegueira do outro para lançar mão de seu Nível de Ataque.
         _ Raigeki!
         Um golpe leve, outro e mais outro, e finalmente um último soco explosivo num ponto mais vulnerável, e Fei viu que Shakhan parecera abalado. Fosse lá o que Grahf tivesse feito...
         O punho de escudo avançou contra seu ventre, e Weltall procurou contê-lo com seus braços. No entanto, uma emanação de ether cintilou de repente um instante antes de tocar o metal do Gear de Fei, que apenas teve tempo de perceber algo de anormal.
         _ O quê...
         _ Punho do Selo!
         O poder do ataque ‘Selo’ dos Gears Etones ampliado pelo impacto de um Gear de grande porte como o de Shakhan, um ataque poderoso e fortalecido pela descarga de poder de Grahf e do Portão, um golpe que teria pulverizado qualquer Gear comum.
         Mesmo Weltall, no entanto, ficou danificado quase além de qualquer esperança de ainda participar daquela batalha. Fei viu, admirado e em dores, seus sistemas registrarem danos massivos em toda a estrutura do exoesqueleto e parte da estrutura interna de Weltall ao mesmo tempo.
         _ P-praga...! Esse golpe foi...!
         _ Fei! Fei, você está bem?
         Andvari saltou sobre Shakhan e o atingiu com seus chicotes, afastando-o de Weltall por um instante.
         O Omnigear girou sobre si mesmo, tornando a bater os chicotes e agora ficando entre o amigo e o inimigo. E Bart Fatima suspirou de alívio ao ouvir a resposta:
         _ Ainda funcionando, Bart... mas acho que vou precisar de algum tempo antes de voltar à luta. Esse último ataque fez um belo estrago no Weltall.
         _ Tudo bem, fica tranqüilo – Bart concentrou-se no inimigo diante de si – Esse cara é meu, de qualquer forma. Se recupera aí e deixa comigo.
         _ Pirralho convencido – rosnou Shakhan em seu próprio Gear – Vão todos estar mortos muito antes disso!
         _ Bart, preste atenção!
         Seibzehn deslizou por trás de Shakhan e o atingiu sem aviso com mísseis de seus dedos, fortalecendo seu Nível de Ataque enquanto sua mestra falava:
         _ Há poderes ainda ocultos em Andvari que só você pode revelar! Os sábios de Shevat retiraram os Limitadores de todos vocês; você deve ser capaz de fazê-lo agora!
         Shakhan voltou-se depressa, seu punho de escudo perdendo Seibzehn por pouco enquanto se afastava. E Maria tornou a atacar, deslizando depressa na direção de Shakhan e chamando:
         _ Seibzehn! Ataque Rompimento de Ferro!
         O punho de garras de Shakhan veio à frente, mas Seibzehn saltou com o auxílio de seus jatos e caiu pesadamente sobre o Gear branco com seus dois punhos batendo na cabeça do oponente como um martelo.
         E Shakhan recuou. Ainda devia poder lutar, mas o dano causado por Seibzehn parecia demais para que ele se mantivesse em combate. Desta vez, no entanto, Andvari prendeu-o com seu chicote direito.
         _ Sem essa, careca! Dessa vez... você não vai fugir!
         _ Idiota, eu não tenho qualquer intenção de fugir! Vou acabar com todos vocês!
         Apesar da contenção de Andvari atrasá-lo, Shakhan aproximou-se mais do gerador de Portão, e o tubo às suas costas ligou-se ao cilindro de energia. E seus sistemas imediatamente começaram a se reparar, mais depressa do que qualquer coisa que já tivessem presenciado.
         _ Nada bom! – Maria exclamou – Bart, a energia do Portão está acelerando a capacidade dos sistemas de auto-reparo do Gear dele! Desse jeito, não importa quanto dano nós causemos, ele pode recuperar! A luta vai durar pra sempre!
         _ Pra sempre não, Maria – Bart comentou, sombrio – O nosso combustível não vai durar tanto assim. Mas, sem problemas; é só acabar com ele agora, enquanto ainda não se recuperou! Onda Dançante!
         Aproveitando-se de estar preso a ele, Andvari puxou-se para mais perto do inimigo girando e batendo seu chicote livre, girando-o sobre a cabeça e tornando a bater. O braço direito mantinha Shakhan de guarda baixa enquanto o outro aplicava o castigo.
         Mas Shakhan não se deteria tão facilmente. Conectado ao gerador do Portão, ele ergueu o punho de escudo de seu Gear e bradou:
         _ Tempestade de Ignas!
         Ao seu comando, um poderoso ataque de chamas explodiu por toda a caverna do gerador e jogando tanto Andvari quanto Seibzehn para trás, dando ao Gear do ‘Ethos’ mais tempo e garantindo que recuperasse mais de si mesmo.
         _ Que tal isso, moleque? – Shakhan perguntou entre dentes – O ‘Fogo de Ignas’ dos Etones, amplificado pelo poder do gerador! Poder mais que suficiente para afastar qualquer rato de mim enquanto faço os reparos em meu Gear! Poder para vencer até mesmo um Omnigear, que não pode me causar mais danos do que consiga reparar.
         _ Você... fala demais!
         Weltall estava na sombra de Seibzehn quando a Tempestade de Ignas irrompera; talvez por isso, as chamas não pioraram sua condição. Saltando e novamente valendo-se de sua velocidade superior, ele caiu diante do surpreso Shakhan e lançou Weltall ao ataque com o ataque mais poderoso de seus Níveis de Ataque.
         _ Raibu!
         Uma seqüência de socos atingiu primeiro a junta do braço direito e depois a do esquerdo de Shakhan, que prontamente reagiu.
         Weltall saltou sobre o braço que atacou e caiu sobre Shakhan golpeando depressa com os pés, pois o Raibu era algo como uma mistura dos golpes fracos do Raigeki com a tempestade de chutes do Hazan, tornando a recuperar os danos causados pelo ataque de Seibzehn.
         E o braço de garras de Shakhan bateu para a esquerda, derrubando Weltall novamente. Os danos do Punho do Selo não tinham sido reparados devidamente, e o Gear negro ficou caído diante de Shakhan.
         _ Imbecil, de que isso valeu? Vou poder recuperar qualquer dano que me causem! E você – ergueu o braço do escudo novamente – pode dizer o mesmo? Tempestade de Ig...
         _ Seibzehn, Ataque Meteoro!
         O Seibzehn de Maria mergulhou sobre Shakhan antes que este completasse seu ataque, e o peso do Gear de Shevat fez o inimigo recuar. Com seu Gear parado diante do outro, Maria acreditava ter entendido o plano de Fei. Desmontar os braços de Shakhan, para que ele não pudesse continuar o combate. Mas estava numa situação delicada.
         _ Miserável... – Shakhan rosnou, seu Gear voltando-se na direção deles – Todos vão pagar por isso!
         “Se eu atacar com Seibzehn agora – Maria percebeu – Weltall vai ficar aberto à Tempestade de Ignas, e não acho que Fei vai sobreviver a outro ataque nas condições de agora. Se eu tivesse espaço, poderia afastá-lo daqui, mas...”
         _ Maria, tira o Fei daqui! Vai!
         Andvari saltou por trás de Seibzehn, caindo sobre Shakhan com seus dois chicotes e fechando os braços, mantendo também o outro contido. Enquanto durava a surpresa do inimigo ao ver que não conseguia se mover, Bart tornou a dizer:
         _ Tira o Fei daqui, anda! Mais um ataque e ele já era; eu vou acabar com isso e preciso de campo aberto!
         _ Bart...
         _ Eu já disse que nenhum de vocês... vai sair daqui! Punho de...! 
         Bart puxou os dois braços para esquerda, e Shakhan foi forçado a acompanhar o movimento, e seu Gear ficou voltado para o gerador de Portão. Não havia como lançar ataques sobre os outros Gears, mas ainda podia atingir sua fonte de força.
         _ Vamos, Shakhan... eu quero ver! Mande a gente pelos ares, anda! Quero só ver!
         _ M-moleque...!
         Maria aproveitou a chance concedida por Bart e Seibzehn ergueu Weltall, levando-o ao outro extremo da passarela que conduzia até o gerador. E no centro da plataforma, Shakhan continuava a reparar seu Gear numa velocidade impressionante, e não parecia haver coisa alguma que Bart pudesse fazer para impedir.
         _ Isso... é tudo o que pode fazer, menino? Então... é melhor começar a rezar!
         O esforço de manter o Gear branco contido parecia vir de seus próprios braços, Bart sentiu, e sua mente viajou no tempo para a época do golpe de estado. Para seu tempo aprisionado em Bledavik. Para ele próprio e Margie sendo interrogados sobre o tesouro da família Fatima.
         _ Shakhan!! Doze anos atrás, se você não tivesse sido tão faminto por poder – Bart rosnou entre dentes – Margie ainda teria a família dela e não teria tido que ir morar no deserto!
         _ O que é que você sabe, seu fedelho nascido no trono?! – Shakhan cuspiu de volta, e apontou o escudo para Andvari – Tempestade de Ignas!
         Àquela distância, foi como se explosões de fusão tivessem sido começadas à sua volta, Bart percebeu. Era como se o calor fora do Andvari fosse sentido por ele... Era como se ele fosse a mente, e o Gear o corpo. Não era apenas ‘manejar’ sua máquina... Era ser parte dela!
         _ Nunca vai se livrar de mim, moleque! – a garra do Gear branco fechou-se no chicote, e agora era Shakhan prendendo o inimigo a si – Aveh é minha, agora e para sempre! Você perdeu!
         _ Não hoje...
         Andvari ergueu lentamente seus olhos para o Gear branco, e Shakhan estremeceu quando eles cintilaram.
         _ ... e nem pra você!
         O chicote ainda livre bateu novamente livrando Andvari, mas Shakhan mal percebera.  Por um nítido momento, ele pudera ver os dois olhos de Bartholomew Fatima encarando-o, da mesma maneira que faziam quando ele mandava castigá-lo vez após vez por negar-se a lhe dizer onde estava o Jasper de Fatima. Nunca tivera a chance de quebrar o espírito do garoto, pois o haviam resgatado antes disso. E ele voltara agora como um homem, confrontando-o de igual para igual.
         _ Você queria o tesouro de Fatima, não queria Shakhan? Foi pra isso que tomou Aveh. Queria poder. Muito bem... Aqui vai o poder que você procurou!
         Andvari ergueu seus braços, os chicotes erguidos como se tivessem vida própria. E Shakhan, atônito, viu que uma forma espessa de ether começou a se formar entre eles. Aquilo não era um ataque ether de Bart, mas sim do Omnigear! E a última coisa que ouviu foi a voz de Bart bradando:
         _ Andvari em Modo ‘Hyper’! Queda de Meteoro!
         _ Modo... ‘Hyper’...?
         Os chicotes começaram a cair sobre Shakhan numa sequência cada vez mais rápida, e cada um de seus impactos parecia carregar um pequeno meteoro feito de pura energia ether, atingindo o Gear branco do inimigo como bombas de reação em miniatura.
         E Shakhan viu seu Gear enroscando-se ao cabo que o mantinha preso ao gerador. Se a ligação permitia recuperação mais rápida, também queria dizer que ele não podia se afastar, não sem soltar o cabo. E Bart ainda lançava seu último ataque sobre ele quando as reações de energia dentro e fora do Gear o fizeram explodir.
         Fei e Maria a tudo assistiram de sua posição pouco mais afastados da área da luta, e a menina, filha e neta de construtores de Gears, murmurou:
         _ ‘Modo Hyper’... Bart conseguiu! Alcançou o ‘Nível de Ataque Infinito’!
         _ Nível... Infinito? – Fei perguntou, seu Gear pondo-se de pé devagar, e Maria explicou:
         _ Gears comuns alcançam o Nível Três, mas nada além disso. Gears que respondem a comandos mentais, no entanto, podem retirar poder do Modo Hyper, onde todos os sistemas funcionam em perfeito alinhamento com o piloto, e então superar os níveis deles. É parte do que torna os Omnigears tão poderosos. No Nível Infinito, são capazes de destruir praticamente qualquer coisa.
         _ Incrível... – murmurou Fei – Mas, se Gears que respondem a comandos mentais podem fazer isso...
         _ Sim, Seibzehn também – Maria confirmou, antecipando a próxima pergunta – Mas o Modo Hyper pode levar algum tempo de batalha para ficar plenamente carregado. Acho que Bart conseguiu ativar o dele mais depressa como resposta às suas emoções.
         O rapaz, enquanto isso, parecia alheio á conversa de seus amigos. O gerador de Portão à sua volta morria em explosões de chamas, e o Gear de Shakhan caiu no fosso sem fundo à volta deles.
         _ Trono? Pode ficar com ele! – Bart murmurou enquanto o outro desaparecia – Um rei tem que carregar as responsabilidades mais pesadas entre todas! A maior dureza! Uma coisa que você nunca entenderia, seu rebelde!
         _ O Portão está em chamas...! – bradou Fei – Vamos, precisamos sair logo daqui!
         Weltall, ainda que muito danificado, estava em condições de seguir a retirada, mas Seibzehn e Andvari o apoiavam por sob os braços e, Turbos ao máximo, os três abandonaram a caverna que desabava. No oceano próximo, enquanto isso, os pescadores haveriam de se lembrar para sempre da coluna de luz que saiu das águas, seguida por relâmpagos que pareciam se originar de dentro do próprio mar e que, depois de faiscarem sobre a superfície por alguns segundos, resumiram-se numa violenta explosão submarina. Lendas nasceriam, teorias seriam tecidas, mas muito poucos deles chegariam a associar o fenômeno inexplicável com a derrota final de Shakhan, ou com a cerimônia que teve lugar no dia seguinte em Bledavik, capital de Aveh.
         Bart estava na varanda do Castelo Fatima, todo o povo da cidade reunido no pátio lá embaixo onde, algum tempo atrás, ele e os amigos tinham estado encurralados por Shakhan e Miang, e onde a intervenção de Maison os resgatara. A situação estava totalmente sob o controle deles agora, mas por alguma razão, ele estava ainda mais nervoso.
         Voltou-se. O fato de ter seu melhor amigo ali, seus dois tutores e até o sábio Citan não fazia com que se sentisse melhor; era como se o povo ali embaixo fosse começar a atirar coisas nele. Havia algo estranho tentando sair por sua garganta, e ele respirou profundamente, olhando para todos.
         _ Fei, se der qualquer coisa errada, eu ainda sou seu amigo, certo? Sig... você não vai mudar, não importando o que eu faça, vai?
         _ Qual é o problema, jovem mestre...? – Maison perguntou, e Bart sacudiu a cabeça. Tinham sido de grande ajuda, todos eles, mas ninguém podia fazer por ele o que era sua obrigação.
         _ Nah... Acho que eu tenho que fazer o que me pediram.
         A população lá embaixo subitamente silenciou quando o jovem pirata veio até eles, repentinamente parecendo mais velho e mais sério do que qualquer um teria imaginado até ali, e foi com solenidade que ele se dirigiu a eles.
         _ Meu bom povo de Aveh... Este é Bartholomew Fatima, o Décimo Nono Rei de Aveh, filho de Edbart Fatima IV, o Décimo Oitavo Rei de Aveh.
         “Em primeiro lugar, esta pessoa deve se desculpar pelos problemas causados pela ausência inevitavelmente longa desta pessoa do palácio. Em especial, esta pessoa quer dar suas condolências àqueles que perderam família na guerra com Kislev. Esta pessoa vai imediatamente pedir uma trégua a Kislev e iniciar as reparações às vítimas de ambos os países. Todos os cidadãos convocados como soldados também receberão permissão de retornar para casa. Vamos trabalhar juntos, rumo à reconstrução de Aveh!”
         O povo lá embaixo exultou em agradecimento e alegria, ouvindo o anúncio que alguns tinham esperado suas vidas inteiras para ouvir. Mas a mão direita estendida de Bart pediu silêncio e encurtou a celebração, e Fei pensou consigo mesmo que nunca antes tinha visto o amigo parecer tanto com um rei.
         _ ... Esta pessoa também tem uma outra mensagem final, mas muito importante. Uma declaração da vontade de Edbart IV que desejava apenas paz para seu reino, Aveh. Eu, Bartholomew Fatima, o Décimo Nono Rei de Aveh, assim declaro... Deste dia em diante eu abandonarei a monarquia e criarei a República de Aveh!
         Silêncio seguiu-se à declaração por um curto espaço de tempo, no qual Bart deu as costas ao povo. O fez ainda em tempo de deparar com as expressões admiradas de seus dois tutores, Sigurd e Maison.
         _ Jovem mestre...
         _ O que, em nome de Aveh, está fazendo...?
         _ É o desejo do meu pai – ele respondeu de cabeça baixa – Sig, Maison, eu sinto muito. Vocês dois se esforçaram tanto por tantos longos anos pra me devolver ao trono. Agora que não estou mais na linha de sucessão pra ser o rei, nem nada mais que pareça com isso, vocês dois são livres pra ir.
         _ O que está dizendo...? – Maison mal parecia poder se manter de pé.
         _ Inacreditável.
         _ Mestre Sigurd?
         Pois a expressão de Sigurd não era de surpresa, em absoluto. Ele tinha um sorriso no rosto e, diante de Bart, perguntou:
         _ Não consegue ouvir a multidão lá fora?
         Foi quando Bart se concentrou em ouvir. Sim, desde que começara a falar aos tutores ele ouviu que diziam algo lá de baixo, mas não dera a devida atenção, ocupado em ser tão franco quanto pudesse e se desculpar com seus mestres por frustrar as expectativas deles. Mas Sigurd não parecia aborrecido em absoluto, nem Maison, ainda que surpreso. E agora, pareciam estar chamando o nome dele...
         _ Eles o escolheram como seu rei – Sigurd acenou serenamente – Você vai ficar muito ocupado.
         _ Sig...
         Bart se voltou. Era o nome dele, sem dúvida. Estavam chamando por ele. Então, ao que parecia, o primeiro líder eleito pela república seria o último rei da monarquia de Aveh... E Sigurd perguntou, quase casualmente:
         _ Não vai precisar de alguns assistentes capacitados?
         _ Bom – ele voltou-se, sorrindo resignado para os amigos – Aí vai o de sempre.

         -o-

         Mais tarde, o Castelo Fatima estava silencioso. Todo o povo tinha voltado para suas casas, e Bledavik estava em festa, as ruas carregadas de uma atmosfera de liberdade e contentamento que não se mostrava já havia anos. A paz de espírito voltara a todos... ou quase todos.
         Maison ouviu a porta da biblioteca se abrir e voltou-se. Bart entrou com uma expressão preocupada para a qual, a princípio, o mordomo não tinha explicação.
         _ Ah, jovem mestre! Ainda não foi descansar?
         _ Velho Maison, tem uma coisa que eu quero te perguntar.
         _ O que é? – Maison perguntou, intrigado com a incomum seriedade de Bart.
         _ Onde o Sigurd nasceu?
         Não era, de forma alguma, algo que Maison não esperasse algum dia. Bartholomew não era exatamente brilhante fora dos campos de batalha e dos Gears, mas se preocupava muito com todos os seus e aquela curiosidade um dia teria que vir à tona. No entanto, ele dificilmente teria esperado que viesse à tona em tal situação.
         _ Jovem mestre, isso...
         _ Ele tem olhos azuis – Bart comentou, lembrando-se do episódio no Forte Jasper – É o Jasper de Fatima.
         _ Bem – sim, era a hora de contar – Foi há muito tempo. Quando Sua Alteza e eu ainda éramos jovens... Muito antes de Sua Alteza conhecer a mãe de meu jovem mestre. Sua Alteza se apaixonou por uma certa garota de uma pequena seita religiosa a leste de Aveh.
         “Esta seita era muito diferente de Nisan e do ‘Ethos’, mas ela era muito bonita. Então... Ela simplesmente desapareceu. Mais tarde, houve rumores de que ela tinha tido um filho.”
         _ Ela desapareceu? – Bart não podia acreditar – Meu pai abandonou ela?
         _ Até onde eu sei, foi o contrário – Maison replicou de olhos baixos – Sua Alteza foi abandonado.
         _ Sig é do deserto oriental de Aveh...
         _ Certamente – Maison concordou – Quando ele tinha dez anos, foi designado a Sua Alteza, o Rei Edbart, como um escudeiro.
         -o-
         Sigurd estava de pé, na mesma sacada onde Bart se pronunciara naquela tarde. Parecia perdido em pensamentos, o único olho fitando a distância como se ponderasse algo, mas não estava tão desatento para não perceber o momento em que não estava mais sozinho, e voltou-se para deparar com Bart, parado e olhando para ele com um olhar indecifrável.
         _ Jovem mestre...?
         _ É, não consigo dormir.
         _ Sim, tanto aconteceu de uma só vez.
         Bart adiantou-se, debruçando-se também sobre a amurada da sacada e sem olhar para Sigurd, que após o primeiro instante também voltou à sua observação silenciosa. Mas ele estava muito consciente da presença de Bart para voltar à sua reflexão.
         _ Ô Sig – Bart perguntou, sem deixar de olhar para a distância e em tom casual – Como era a sua mãe?
         Sigurd voltou-se, mas Bart não olhou para ele. Após o primeiro instante de silêncio, respondeu:
         _ ... Ela morreu quando eu era apenas uma criança, por quê?
         _ Tem alguma lembrança dela? – o mais jovem perguntou, ainda sem se voltar – Que tipo de pessoa ela era?
         _ Hmm, bem... Ela era muito gentil... Mas, quando eu nasci, parece que o médico disse a ela que não lhe restava muito para viver. Ela vivia com medo constante disso. Como resultado – baixou os olhos – mesmo se ela encontrasse alguém de quem gostava, seu medo da morte era um empecilho. Ela se preocupava com a idéia de poder não estar comigo até o fim...
         _ E quanto ao seu pai? – Bart agora voltou-se, mas Sigurd continuou a olhar para frente.
         _ Supostamente, ele não sabe que eu nasci. No entanto, mesmo sem saber ele ainda me tratou como a um filho.
         _ Por quê você não contou pra ele que era seu filho?
         _ Se minha mãe ocultou esse fato – Sigurd baixou os olhos novamente – devia haver uma razão.
         _ ... Tem mais no testamento do meu pai do que eu declarei hoje – Bart disse depois de uma curta pausa – Eu devo dividir minha herança com o meu irmão. Ele também disse, ‘Você deve dividir a sua metade e a do seu irmão com o povo’.
         Sigurd voltou-se para ele, os dois finalmente olhando um para o outro enquanto Bart prosseguiu.
         _ Isso sempre tinha me deixado encucado até agora. Eu não sabia o que ele queria dizer. Bom... É tudo o que eu queria dizer. Boa noite!
         E Sigurd olhou em silêncio enquanto Bart se retirava de volta para seus aposentos.

 
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