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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 22: Thames

            _ Eu sabia... Achei que essa coisa estava flutuando de forma incomum...
          _ Seu peste...!
          Elly estava ocupada verificando as condições do destroço em que ela e Fei tinham estado desde a queda do Golias, e tão ocupada que não percebeu que o rapaz estava mais ocupado com um pequeno peixe verde.
          _ Mas mesmo sabendo disso, não há como nós os tirarmos... certo?
          _ Espera aí!
          Fei continuava correndo de um lado para o outro, tentando pegar o peixe, o que Elly ainda não tinha percebido dentro do alçapão.
          _ Eles estão logo abaixo de nós, mas cobertos por água e uma parede espessa. Provavelmente são Weltall e Vierge. Para o bem ou o mal, eles continuaram ligados a nós até aqui – e ela saiu do alçapão com um salto – mas agora são inúteis, a partir deste ponto. Parece que nossos Gears estão aqui embaixo, Fei. Mas não podemos alcançá-los...
          Ela se deteve, olhando de um lado para o outro enquanto Fei nadava aborrecido atrás do peixe que estivera fugindo dele.
          _ O que está fazendo, Fei?
          _ O que... estou fazendo? – ele deteve-se na borda da plataforma – Não tá vendo...? Estou tentando pegar um peixe! Esse aqui fica pulando pra cima e pra baixo, bem na minha frente, tentando me fazer parecer um idiota...
          Como para confirmar o que ele dissera, um peixe verde saltou na água, e Fei se voltou para ele novamente.
          _ Ah, seu pestinha! Eu já vi você!
          E mergulhou novamente, deixando Elly olhando para ele com ar de dúvida.
          _ Hã... um, você não vai pegá-lo e comê-lo, vai?
          _ Se não comermos, vamos morrer... ah, peguei!!
          E jogou o peixe para a plataforma, enquanto Elly recuou com ar de reprovação olhando para o peixe enquanto Fei tornava a subir.
          _ Você tá brincando. Vai ficar doente!
          _ Você não vai comer? Deixa ver... – voltou a pensar consigo mesmo – Vamos precisar de algo pra cozinhar ele.
          Elly viu Fei saltar novamente para o alçapão e balançou a cabeça. Não podia ser sério.
          _ Anda, pára com isso. Eu não vou me responsabilizar se você ficar doente e morrer.
          _ Não se preocupe – ele respondeu lá dentro – Uma vez que esteja no estômago, é tudo a mesma coisa.
          _ Eu não vou... –e então a voz dela pareceu alarmada – Fei!! Olhe, lá...!
          _ O quê, o peixe escapou?
          Fei voltou depressa para a plataforma, e a primeira coisa que viu foi que a coisinha verde que o incomodara continuava onde ele o deixara.
          _ Do quê está falando? Ele ainda está... o quê? Aquilo é...!
          Na direção em que Elly apontava no céu, uma forma alaranjada em forma de disco passava diante do sol. Estava muito mais distante do que quando Fei a vira no deserto de Aveh, mas sua estrutura sólida dentro do escudo ainda era bem visível.
          _ Aquilo é... a coisa que eu vi no deserto. Está voando bem mais alto desta vez.
          _ É Shevat – respondeu Elly – Esta é a altitude normal dela.
          _ Shevat... – Fei ficou procurando lembrar – Onde foi que eu já... Ah, isso mesmo! Aquele estranho mascarado! Ele disse que meu pai estava no exército deles... Então, aquele disco é o que o Doc e aquele mascarado disseram que era o país em que meu pai e minha mãe moravam?
          _ Mesmo? Eu não saberia... É um país fora do alcance de Solaris. Shevat usa o mesmo tipo de barreira que Solaris, então não se pode alcançá-la por meios convencionais.
          _ Como uma coisa daquelas, que voa em tal altitude, pode ser um ‘país’?
          _ É, eu não culpo você por ficar tão surpreso. Geralmente ela flutua sobre a região conhecida como a área das Ilhas Aquvy. Provavelmente você a viu num tipo de missão especial. Por isso estava voando tão baixo.
          _ Shevat...
-o-
          Alheia aos comentários e à surpresa de quem quer que fosse, a terra flutuante de Shevat seguiu seu caminho sobre o oceano de Aquvy. Assim como Fei e Elly em sua plataforma silenciosa, Bart Fatima também a contemplava no convés ruidoso da Yggdrasil II sobre a superfície. Mas seus pensamentos vagavam em outro rumo, parte dele dizendo que merecera o que Rico havia feito. Se bem que o Campeão fora um pouco... Bem, ‘entusiasmado’ demais em sua reprimenda, e o braço direito do pirata doeu quando ele tentou proteger a vista do sol e ver a forma flutuante.
          _ Ai... Acho que os Mísseis Bart não foram uma idéia tão boa, hein...
          Na verdade, ele estava mais chateado consigo mesmo do que Citan ou Rico poderiam estar, e era isso o que mais incomodava. Segurando o braço ferido, ele disse em voz alta para o vento:
          _ Fomos capazes de salvar você e seus amigos, Citan... Mas me pergunto o que aconteceu com Fei e Elly...
          Ele suspirou. O que quer que possa ter acontecido com os amigos... era culpa dele. Baixou os olhos e sacudiu a cabeça, tentando se controlar. Não devia ser pessimista. Eles haviam de estar vivos.
          _ É, eu tenho certeza... Eles estão vivos, em algum lugar... E, mais uma vez...
          Voltaria a viajar com os dois, tinha certeza. Tinha que ter certeza disso. E ele voltou-se, esfregando o único olho com o braço ferido.
          _ Cara! A brisa do mar machuca os olhos! Então, isso é o que chamam de mar... Antes de tudo, eu preciso me desculpar com aqueles dois.
          Era o melhor que podia fazer, dadas as circunstâncias. E precisava se manter ocupado para não pensar demais. Perguntando, ele soube que Citan estava na Loja de Gears da nave e foi falar com o doutor.
          _ Ah, jovem. Queria me ver?
          _ Um... – baixou a cabeça, muito sem jeito. Falar com Citan fazia com que ele pensasse em um de seus tutores, e ele se sentia como um garoto que fizera algo de errado – Sobre eu ter atirado no Golias... eu realmente... Errh, digo... Me... Er...
          _ Ah, isso? – voltou-se para o que estava lendo, com ar indiferente – Acho que não podia ser evitado. Mas atirar antes de perguntar é um mau hábito seu. Um rei deveria sempre manter a calma e julgar com cautela!
          “Maison diz a mesma coisa”, Bart pensou para si mesmo, o tom sério do doutor outra vez fazendo com que se lembrasse de seu tutor.
          _ É, eu sei. Eu sei. A propósito, tem uma coisa que eu queria perguntar...
          _ Oh? – Citan pareceu admirado, olhando para Bart – Isso é incomum.
          _ Bom, é sobre essa nave de guerra em que estamos, que é do mesmo tipo da Yggdrasil. Anos atrás, meu velho me disse que ela foi desmontada porque a negociação de paz com Kislev estava progredindo. Então, eu sabia que existia.
          _ Hmm. Então, o que o está incomodando?
          _ O símbolo da nave... Não é o nosso Brasão Real! Olhe pra isso.
          E mostrou a figura que supostamente era o símbolo dos construtores da Yggdrasil. De fato, não era o Brasão de Fatima. Era um símbolo desconhecido para Bart, um círculo amarelo que cercava um ‘Y’, cujas extremidades ultrapassavam as bordas. Não era, no entanto, desconhecido para Citan.
          _ Isso é...
          _ Eu achei que você conhecia. De quem é esse símbolo?
          _ Não estou totalmente certo, mas parece-se com o símbolo de Shevat.
          _ Shevat? – Bart ficou confuso – Do quê está falando?
          _ A Yggdrasil pode não ter sido feita pelo seu pai – explicou Citan – Naquela época, muito da tecnologia potencial não era compreendida e, assim, foi escondida. Talvez seu pai possa ter ficado temeroso do poder dela e assim, resolveu trancá-la.
          _ Hmm... sei – Bart pensou para si mesmo – Então, isso pode não ter sido nosso no início. Se for verdade, eu gostaria de encontrar os caras que fizeram essa belezinha.
          _ Na verdade – Citan murmurou – eles podem estar mais próximos de você do que imagina...
          _ Hã? O que foi que disse?
          _ Bem, de qualquer maneira, basta de se preocupar – desconversou Citan – Mas acho realmente que você deveria se desculpar com Rico. Ou pode conseguir mais do que alguns arranhões numa próxima ocasião.
          _ É...
          _ Rico estava verificando seu Gear. Acredito que vai encontrá-lo no hangar.
          Juntamente com os mecânicos, Rico Banderas estava supervisionando seu Stier. Limpando a garganta e tomando coragem, Bart começou assim que o viu:
          _ B-bom, sabe... A gente precisa conversar. Ei?
          Rico nem sequer se voltou para ele, e o embaraço de Bart se tornou irritação. Droga, ele estava tentando consertar as coisas!
          _ Sem essa do tratamento do silêncio! Eu vim aqui pra me desculpar!
          _ ... qual o seu problema? – Rico voltou-se para ele, o ar severo de sempre no rosto. Mas não parecia irritado – Achei que já tinha cuidado de você agora há pouco. Não sou do tipo que vive no passado.
          Bart ficou desarmado. Estava esperando dificuldades com o gigante verde, mas ao que parecia, o assunto já estava encerrado para Rico. Voltando-se simplesmente para o Stier, ele deixou que a surpresa aparecesse em sua voz.
          _ Estou mais preocupado com aqueles dois Gears ali – apontou para o Heimdall de Citan e o Brigandier de Bart – Quem diabos é você? Eu estou admirado que vocês aqui consigam ajustá-los pra funcionar tão bem! Achei que Fei e eu éramos os únicos que podiam fazer Gears funcionarem assim...
          _ Uau! – foi a vez de Bart se surpreender – Você é mesmo o Campeão Lutador... Digo, ex-Campeão. Estou admirado que você consiga dizer o quanto um Gear é bom só de olhar pra ele.
          _ Acho que não dá pra aprender tudo sobre o mundo dentro de uma prisão escura – Rico voltou-se para Bart – Realmente interessante. Eu estava pra dar o fora, mas agora mudei de idéia. Deixe eu me juntar a vocês, chefe.
          E estendeu a mão com um sorriso raro, ao que Bart também sorriu. Era raro encontrar alguém que gostasse de Gears tanto quanto ele, e com o conhecimento técnico de Rico. O Campeão dos Lutadores sem dúvida seria uma grande aquisição ao seu grupo, e ele apertou a mão estendida.
          _ É, eu acho que vai ser legal.
          Sua mão doeu com o aperto de Rico, mas Bart manteve o sorriso. Novamente, não começara uma amizade da melhor forma, mas no fim as coisas haviam se encaminhado bem. Agora precisava encontrar Fei e Elly.
-o-
          A noite caíra no mar. Sentados juntos na beirada da plataforma, o casal via a escuridão se tornar onipresente. Haviam estado em silêncio contemplativo por algum tempo, e Elly se pronunciou:
          _ Parece... que estamos sendo levados à deriva.
          _ Constantemente à deriva... – Fei refletiu – Parece comigo nesse momento.
          _ O que quer dizer?
          Os reflexos dos dois ainda surgiam palidamente na água, em meio à iluminação das estrelas e das luas no céu. Em meio à ondulação do oceano, o rapaz respondeu:
          _ Eu mesmo tenho sido levado à deriva... sendo conduzido pelas circunstâncias.
          _ Não... Não foi bem assim – Elly corrigiu gentilmente – Em Aveh, você ajudou Bart quando ele precisou. E em Kislev, você deu tudo de si pra defender, pra salvar a todos.
          Ela voltou-se para ele e sorriu, de maneira suave – Você até mostrou preocupação comigo muitas vezes.
          _ Não... – ele baixou os olhos – Eu não sou tão bom assim.
          _ Por quê? – ela perguntou olhando para ele.
          _ Provavelmente, bem lá no fundo – ergueu os olhos – eu não estou realmente tentando ajudar. Por alguma razão, eu tenho a impressão de que tudo o que tenho feito, eu fiz porque eu queria ser necessário. Que, se eu fizesse algo por eles... então, talvez, eu teria um lugar ao qual pertencer... Tem um lado de mim que se conforta com essa idéia.
          Ele voltou-se para Elly. – Não quer dizer que eu não queira ajudar. Mas, também não quer dizer que eu queira. Pode não ser um ‘nada’, mas com certeza também não é o ‘todo’. Eu... estive á deriva, vagando sem rumo até que conheci você, Elly.
          Talvez o rosto dele tenha se avermelhado, enquanto voltou outra vez seus olhos para o horizonte. Talvez o dela também. Mas estava escuro demais para notarem. E ele ergueu os olhos para as estrelas.
          _ Agora, estamos perdidos no oceano. Desculpe... Eu fiz você se envolver nisso.
          _ Está tudo bem. Não se preocupe comigo – foi a vez dela de erguer os olhos – Eu estive pensando no motivo para estar aqui. Eu podia simplesmente ter voltado. Mas por alguma razão, não voltei. – sorriu – Provavelmente porque você disse que é melhor fazer alguma coisa do que coisa alguma. Acho que foi por isso que eu senti que tinha que fazer algo. Está tudo bem não sentir o ‘todo’. Mesmo que só se sinta parcialmente completo, se você repetir isso o bastante, vai eventualmente se tornar o ‘todo’. Um pouco... é melhor do que zero.
          _ Você está certa – Fei comentou, olhando para os reflexos dos dois nas águas escuras – Me desculpe...
          Fizeram silêncio por mais algum tempo. Os ventos do mar estavam apenas fortes o bastante para agitar seus cabelos e dar uma leve sensação de tempo fresco, mas não chegava a ser frio para um ou para o outro. E Fei então se voltou para Elly.
          _ Se formos salvos... você vai voltar?
          _ Provavelmente, não vou voltar pro meu esquadrão – Elly respondeu, ainda olhando adiante – Por enquanto, eu realmente não quero estar lá... Além disso, eu podia provavelmente fazer alguma outra coisa... Eu não preciso estar no exército. Então, estou pensando em voltar ao meu país.
          _ Isso é possível? Mas, e quanto ao exército?
          Fei estava preocupado que a interferência de Elly na missão de bombardeio a Kislev se tornasse pública e ela fosse punida, mas ela sacudiu a cabeça, os cabelos ruivos ondulando.
          _ Não é como se alguém soubesse o que eu fiz. Provavelmente já me classificaram como ‘desaparecida em ação’.
          _ Hmm. Espero que pelo menos você sobreviva. Tenho certeza de que você vai descobrir o que quer fazer da sua vida.
          _ Você disse... – ela voltou-se para ele – algo sobre... ser confortado.
          _ É.
          _ Não seja duro demais com você mesmo. Todo mundo quer ser necessário às vezes – ele voltou-se para ela, que continuou falando – Todos nós queremos dar algo de dentro de nós mesmos aos outros para sermos aceitos... mesmo eu. Lembra de como você se obrigou a comer aquelas rações de emergência?
          Era recente demais para não lembrar. Fei acabara devolvendo todo o peixe que comera, e estava tão mal que Elly correu até onde ele estivera, visivelmente preocupada.
          _ Ei... Você está bem?
          A expressão no rosto dele dizia tudo. Agora que tirara o peixe de dentro de si iria melhorar, mas continuava péssimo, e Elly comentou com ar de reprovação.
          _ Eu te disse pra não comer um bicho com aparência tão ruim.
          _ O gosto é horrível – Fei continuava inclinado na direção do mar – A última vez em que comi algo tão ruim foi quando o Doc cozinhou. Mas... a não ser que façamos alguma coisa, nós vamos morrer.
          _ Acho que não tem outro jeito – Elly buscou um estojo preso em sua cintura – Eu estava esperando economizar isso mais um pouco.
          E estendeu para Fei o estojo, abrindo-o. Parecia um kit de emergência.
          _ Isso deve nos manter por mais um dia... mas é só pra calorias de emergência, então não posso prometer nada quanto ao gosto.
          Fei pegou uma porção das rações desidratadas de Solaris no estojo de Elly, e sua reação foi espontânea demais ao primeiro contato.
          _ Hã? Que? Seco e esfarelado...?
          _ Foi o que eu pensei – Elly baixou os olhos – Você não gostou, não é?
          _ Quê? N-não, não, está bom. É – e colocou apressadamente na boca, mastigando e continuando a elogiar – Está... ótimo. E... qualquer coisa que você divida comigo não poderia ser tão ruim, poderia?
          _ Você se forçou a comer aquelas rações antes, não foi?
          Estavam novamente sentados juntos, em meio à noite, e Elly tinha um sorriso no rosto, embora não estivesse olhando para Fei. E continuou:
          _ Para que eu sobrevivesse, teria sido melhor não dividir. Mas, ver você comer mesmo que o gosto fosse ruim me confortou. Me senti feliz de ter dividido com você... Fez eu me sentir um pouco melhor.
          _ Pro seu próprio bem? – mas ele entendia do que ela estava falando.
          _ É, pelo meu próprio bem. Egoísta, eu admito. Mas, acho que está tudo bem agir assim a princípio. Mas pouco a pouco, você aprende sobre a sua própria felicidade... e algum dia, você se torna capaz de partilhar essa parte importante de você com alguém mais. Algum... dia. Ah...
          Elly ficou de pé com um ar pensativo em seu rosto, olhando para Fei como se tentasse lembrar de algo, e ele perguntou:
          _ O que foi?
          _ Nada... – ela sacudiu a cabeça – Só acabei de sentir como se já tivesse dito a mesma coisa a você a muito tempo atrás... Deve ser minha imaginação. Eu não podia ter dito isso antes pra você, porque acabamos de nos conhecer, não é?
          Dito isso, Fei olhou para ela admirado. Sentira também a impressão de já ter ouvido alguém lhe dizer aquilo. Era familiar, como se realmente tivesse sido Elly... Era alguém que lhe dava a mesma sensação que ela. Mas...
          _ É, provavelmente foi só a minha imaginação...
-o-
          Na manhã seguinte, Fei veio correndo até a porta do alçapão e bateu apressadamente, chamando:
          _ Elly! Ei Elly! Acorde!
          _ Bom dia, Fei – ela abriu a porta do alçapão e sacudiu os cabelos, a voz um pouco surpresa – Levantou cedo.
          _ Não é hora pra formalidades. Olha só aquilo!!
          _ Hã?
          Um navio gigantesco da cor de ferrugem vinha em direção a eles. Dois guindastes terminados em garras mergulhavam adiante de si e mais um à bombordo, como que pescando no mar. E um dos guindastes desceu sobre a plataforma em que estavam, que não parecia mais que um container diante do tamanho da embarcação. E o casal foi recebido por um pingüim meio humano, um dos tripulantes, que se dirigiu a eles.
          _ Eu fiquei muito surpreso ao ver gente viva flutuando no vasto mar. Pra completar vocês estavam com dois Gears. Isso é mais que incomum.
          _ Obrigada – Elly adiantou-se – Vocês nos ajudaram.
          _ É melhor agradecerem ao Capitão – disse o outro – Quem nos deu a ordem de resgatar vocês dois, náufragos, foi o Capitão da Thames.
          _ Thames? – Fei não estava entendo coisa alguma – Capitão?
          _ A Thames, a cidade do mar. É onde estão agora. O Capitão aqui é um velho camarada meio estranho. Vão ver quando o encontrarem. E isso é pra não dizer que ele é um velho maluco e excêntrico.
          _ Hã... E quanto aos nossos Gears? – perguntou Elly.
          _ Não se preocupem com isso. Nós os colocamos dentro da Thames pela doca de suprimentos. Entrou água do mar neles, então vai levar algum tempo pra consertar.
          _ Estão consertando eles pra nós?
          _ Bem estranho que sejamos tão bondosos, aposto que é o que estão pensando – disse o tripulante – Mas, sério mesmo, não tivemos escolha porque são as ordens do Capitão. Bom, eu tenho que ir agora. Sou um sujeito ocupado, sabem. Venham pra a ponte depois de dar uma volta por aí. Tenho certeza de que o Capitão gostaria de conhecer vocês.
          E ele se foi, deixando Fei e Elly sozinhos nos convés. E ela reparou que o rapaz tinha uma expressão pensativa no rosto.
          _ Fei, o que foi?
          _ Tenho a sensação de já ter visto aquele camarada em algum lugar... mas, esqueça.
          Na verdade, o tripulante da Thames parecia-se muito com o navegador de Bart na Yggdrasil, Franz. Tirando da mente as lembranças, Fei seguiu Elly e ambos resolveram conhecer a cidade do mar.
          O convés da Thames era realmente enorme. Gears brancos, num total de três, revezavam-se mergulhando e retornando das profundezas em turnos, eventualmente com algo curioso em suas mãos. Estavam fazendo um trabalho semelhante ao dos guindastes, recuperando itens das profundezas. Havia um pequeno mercado também, onde faziam a manutenção do que era resgatado e eventualmente os vendiam. Uma das coisas mais curiosas, no entanto, era o ‘Elevador em Espiral’ da Thames que unia todos os andares da embarcação e que, como o nome dizia, fazia seu caminho girando em espiral para cima e para baixo. Havia dois níveis no porão, sendo o segundo, mais abaixo, uma doca para navios e embarcações que quisessem aportar na Thames, e o primeiro a entrada de suprimentos. O convés ficava no primeiro andar, a ala médica no segundo, a cervejaria de bordo no terceiro e a ponte de comando no quarto, e para lá foram Fei e Elly, dispostos a agradecer e conhecer o famoso Capitão.
Capitγo da Thames          Era outro meio humano, como o imediato pingüim. Tinha a aparência de um velho leão marinho num corpo de humano, vestido num traje completo de almirante de cor vermelha, e com um quepe rubro negro. Andava com o auxílio de uma bengala negra e dourada e fumava um cachimbo, e apesar de não saber bem o que esperar, os dois ficaram surpresos com a cordialidade e o ar divertido nos olhos do velho marinheiro quando este veio saúdá-los.
          _ Vocês são os dois pequenos que flutuaram pra dentro com os Gears.
          _ Eu não gosto muito, pra falar a verdade, de ficar flutuando por aí... – Fei respondeu, um pouco embaraçado com sua situação, mas o Capitão riu à vontade.
          _ Gahahahahaha. Bem, não leve isso tão a sério. Pra nós, qualquer coisa que retiremos do mar é tesouro. E vocês são um tesouro de grande e verdadeira importância. Fomos realmente cuidadosos, desta vez.
          _ Um... Obrigada pela ajuda – Elly disse, e os olhos do Capitão brilharam com a visão da moça.
          _ Que linda dama!
          Algo como suspeita deve ter transparecido no rosto de Elly, porque a voz do Capitão se tornou risonha novamente – Ah, não faça essa cara, eu não mordo! Eu vou devolver a vocês os seus Gears limpos e perfeitos.
          _ Porquê está sendo tão bondoso? – Elly perguntou, ainda um pouco admirada. O Capitão de fato não dava a impressão de más intenções. E ele respondeu:
          _ Isso é porque...
          E ergueu sua bengala para a esquerda, espantando Fei e Elly com o movimento brusco enquanto dizia:
          _ Eu sou!
          Voltou-se para a direita, a bengala apontada para frente.
          _ Um homem!
          E voltou-se para trás, de costas para o casal.
          _ Do mar!
          O silêncio de Fei e Elly seria, num anime, o momento apropriado para uma gota de suor cômica aparecer enquanto o Capitão gargalhou, ainda de costas para eles.
          _ Gahahahahahahahaha.... mas – e voltou-se para os dois, com um olhar gentil – vocês provavelmente estão famintos. Vou providenciar alguma comida para vocês. Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaans! – ele voltou-se para o imediato, que definitivamente não estava longe o bastante para justificar tamanho berro – Eu vou recepcionar os convidados! Você toma conta do resto.
          _ Sim senhor – respondeu o pingüim no timão – Só não exagere.
          _ É claro que eu sei disso – e fez um gesto de pouco caso – Como pode ser tão calmo?
          _ O Capitão e todos são muito irresponsáveis – respondeu Hans com tranqüilidade, voltando-se para o timão, e o Capitão respondeu com impaciência.
          _ Hmph, sim, sim – e voltou-se para Elly e Fei, enquanto saía da ponte – Deixa eu ir preparar as coisas.
          Sozinhos por um momento onde estavam, Fei e Elly se entreolharam, e o rapaz perguntou baixinho:
          _ O que...? Quem são essas pessoas, afinal?
          _ Não parecem ser... gente tão má.
          Os dois tomaram o rumo que o Capitão seguira, atravessando uma porta paralela que levava à cervejaria da Thames. Não foi difícil encontrar o Capitão, que como antes os recebeu com um sorriso.
          _ Demoraram um pouquinho, mas as coisas ainda não estão prontas – e voltou-se para a cozinha – Ei, se apresse! Não faça os nossos hóspedes esperarem!
          Voltou-se novamente para Fei e Elly, agora quase sem jeito.
          _ Desculpem, não tem lugar pra sentar por aqui... mas, a vista não é simplesmente esplêndida daqui? Esta cervejaria é o orgulho da Thames.
          Havia amplas janelas diante do Capitão e, sem dúvida, a visão que tinham do mar por toda a volta era magnífica, considerando o tamanho da cidade navio e a altura em que estavam. Tinham uma visão de longo alcance dos arredores e ainda estavam admirados quando o Capitão comentou:
          _ Vocês provavelmente acham que é um tanto quanto peculiar ter uma cervejaria logo ao lado da ponte, mas tá ótimo por mim. Se você não tira tempo na vida pra aproveitar uma bebida, vai ser engolido pelas ondas da ansiedade... mas nós não temos esse problema. Graças à esta cervejaria, tá todo mundo encharcado demais por aqui pra se preocupar!
          _ Sempre ficam vagando assim pelos mares? – perguntou Fei, curioso.
          _ Bem, normalmente. Tem aquele guindaste que fisgou vocês. Usamos aquilo ou os Gears pra retirar tesouros do mar. Somos Resgatadores. Recentemente, no entanto, quase não tem tido tesouro nenhum... só coisas menores. Desde que começamos com o grande trabalho, bom, isso é tudo o que tivemos.
          _ Grande trabalho? – perguntou Elly, e o Capitão respondeu:
          _ Ah, é um trabalho para o ‘Ethos’. O ‘Ethos’ está planejando um resgate dos grandes na próxima vez. Não sei os detalhes, mas parece que estaremos procurando por algum tesouro enterrado.
          _ Por quê o ‘Ethos’ está envolvido...? – Fei questionou-se, e o Capitão deu de ombros.
          _ Quem sabe... Mas, nós dependemos do ‘Ethos’ pra comprar nossas coisas. Então, não vai parecer nada bom se desistirmos do trabalho. Bom – e voltou-se com ar satisfeito para a cozinha – o jantar finalmente está pronto. Vamos comer.
-o-
          A uma certa distância dali, enquanto isso, uma jovem oficial recebia uma resposta do seu computador e relatava:
          _ Temos uma leitura no sonar... Não é essa. Este modelo... Ele combina com a nave pirata de Aveh, Yggdrasil.
Kelvena          Kelvena não possuía a visão como suas colegas, mas longe de debilitada, ela era parte da Gebler. Mais ainda, era um dos quatro membros dos Elementos, capaz até de pilotar Gears graças às suas habilidades. Naquela missão, estava pilotando o Gear submarino Haishao juntamente com sua colega, a líder dos Elementos, Dominia, que ficou surpresa com o resultado do sonar.
          _ Yggdrasil? Ela não afundou na última batalha?
          _ Não há registro do seu naufrágio – lembrou Kelvena, cujo raciocínio claro e inteligência seriam comparáveis aos de Citan quando mais moço, ao contrário da impetuosidade de Dominia – Nós estávamos ocupados demais lutando com aquele Gear vermelho para confirmar isso.
          _ Então, há uma chance de que não tenha afundado... – considerou Dominia – Acredito que os dados mostrem que a Yggdrasil era o transporte para aquele Gear.
          _ Um momento – Kelvena verificou seu banco de dados, confirmando segundos depois – Sim, isso está correto.
          _ Excelente. Me passe os controles.
          _ Excelente? – Kelvena surpreendeu-se – O que você está planejando fazer?
          _ Afundá-la, claro. Ela nunca mais vai preocupar o comandante novamente.
          _ Espere. As ordens do comandante eram de investigar o desaparecimento daquela nave de batalha voadora. Não podemos nos desviar de nossa missão. Além disso, estamos com pouco combustível e precisamos reabastecer.
          _ Nós temos o suficiente – retrucou Dominia – Eu vou afundá-la.
          Kelvena resmungou algo inaudível. Conhecia Dominia por tempo suficiente para não se espantar, mas a teimosia da colega ainda podia aborrecê-la.
          _ Uma vez que começa, não há como parar você, há? Espero que saiba que lutar na água é totalmente diferente de lutar em terra.
          _ É claro. Desculpe Kelvena.
          Afinal, o combate submarino era especialidade de Kelvena. Embora fosse tão devotada a Ramsus quanto Dominia, no entanto, a jovem de cabelos escuros preferia demonstrar obediência ás ordens para mostrar a devoção. Dominia, por outro lado, era muito afeita ao combate e, por vezes, agia de forma intempestiva como estava fazendo agora, conduzindo Haishao para um curso de interceptação rumo à Yggdrasil.
-o-
          De volta à Thames, Fei e Elly aproveitavam uma refeição bem generosa juntamente com o Capitão, e Elly olhava admirada para o apetite do companheiro de viagem.
          _ Eu sei que faz algum tempo que você não come, mas como consegue comer tanto assim?
          _ Gahhahahaha... – fez o Capitão ao lado dos dois – Isso é ótimo, é ótimo! Eu gosto de como come. Vocês não estiveram à deriva por nada...
          E tornou a erguer a bengala, dizendo com atitude:
          _ Os homens têm!
          Voltou-se para a esquerda.
          _ Coragem!
          Voltou-se novamente, ficando de costas para a mesa.
          _ E têm apetite!
          Mais uma vez, Fei e Elly olharam em silêncio para o Capitão, que tornou a rir.
          _ Gah ha hah...
          Seu riso, no entanto, foi perturbado por algo que fez com que todos se voltassem para as janelas amplas, e apenas Elly perguntou:
          _ Por acaso, nós acabamos de balançar?
          _ Você está só imaginando – Fei continuou comendo, olhando em volta por um instante quando o navio tornou a estremecer, agora mais intensamente, e Elly balançou a cabeça.
          _ Eu acho que não!
          _ Capitão! – alguém gritou da porta que levava à ponte – Seu imediato está chamando!
          _ Entendido. Eu estou a caminho – e voltou-se para Fei e Elly, enquanto se afastava da mesa – Desculpem, mas parece que está acontecendo alguma coisa. Eu preciso voltar à ponte. Mas, por favor, fiquem à vontade.
          Outro tremor enquanto o Capitão se afastava, e Fei voltou-se para as janelas, forçando a visão na direção do horizonte. Parecia ter visto algo.
          _ Elly, aquilo é uma coluna d’água?
          _ Está muito longe – ela forçou a visão para onde Fei estava mostrando – Eu não consigo ver direito. Mas parece com... uma batalha!
          A Thames tornou a estremecer, e Fei também se afastou da mesa.
          _ Vamos pra a ponte também.
          Elly acenou que sim, e os dois tomaram o rumo da ponte de comando. Lá, observando por um telescópio, o Capitão murmurava entre dentes num sorriso.
          _ Eles têm coragem de começar uma briga perto da Thames! Isso faz o meu sangue ferver! Ei Hans! – voltou-se para o imediato – Faz muito tempo que eu não disparo o grande canhão. Que tal darmos um tiro ou dois?
          _ Está brincando? – voltou-se o imediato, incrédulo – Para quê fazer a Thames se envolver numa luta entre lados que não são nem inimigos nem aliados? E aquele grande canhão não é nada mais que um pedaço inútil de sucata que você enfiou na Thames num estupor alcoólico!
          _ Você simplesmente não entende o código dos homens do mar... – lamentou o Capitão, enquanto Fei e Elly se aproximaram.
          _ O que estão fazendo?
          _ Parece que tem um submarino sob ataque – respondeu o Capitão, para surpresa de Fei.
          _ Submarino?
          Fei tomou posição na luneta, no lugar do Capitão, e pôde ver à distância o motivo para os tremores que chegavam à Thames: grossas colunas d’água erguiam-se à volta de uma nave de metal cinzento com um emblema amarelo em sua proa, semelhante a um círculo amarelo com um ‘Y’ da mesma cor ultrapassando suas bordas, como um grande timão. Era um emblema que Fei conhecia muito bem.
          _ Ei, aquilo é...
          _ O quê? – Elly voltou-se para ele em dúvida – O que foi?
          _ Aquela é a Yggdrasil!
          _ Yggdrasil? – Elly reconheceu o nome – Não é a nave do Bart?
          _ Isso! Ele ainda está vivo! Ótimo! – e se voltou, afastando-se da luneta – Não podemos simplesmente ficar sentados aqui! Vamos!
          _ Ir aonde? – perguntou Elly, enquanto Fei alcançava a porta para o Elevador Espiral.
          _ Ajudar, é claro!
          _ Sem um Gear?
          _ Hmm...
          _ Parados aí.
          Fora o Capitão da Thames quem falara, e era a primeira vez que Elly e Fei o viam parecer sério. Indo até o comunicador interno da ponte, ele chamou.
          _ Convés, aqui é a ponte! Como estão os Gears dos nossos convidados?
          _ Os reparos em breve vão estar terminados.
          _ Dois minutos.
          _ Hã?
          _ Terminem em dois minutos! E então os enviem para fora através da entrada de suprimentos do convés!
          _ S-sim senhor! – o tom de voz do Capitão não aceitava réplicas, e ele então se voltou para o casal.
          _ Seus Gears estão sendo levados para o convés. Vão pegá-los.
          _ O que está dizendo, Capitão? – perguntou Hans – E se formos bombardeados enquanto formos pegos no meio de uma luta?
          _ Fique quieto!! – retrucou o Capitão com seriedade – Nossos convidados estão lutando para salvar os amigos. Não fique no caminho! Se não ajudarmos, será uma mancha no bom nome dos homens do mar!!
          Hans silenciou. Não gostava da idéia de comprometer a Thames, cidade e moradia de todos os tripulantes, que não era exatamente um navio de batalha. Mas o Capitão era irredutível quanto àquilo, e ele concordou. Também, intimamente, era uma das razões pelas quais ele era tão respeitado a bordo.
          _ ... Sim senhor. Mas a Thames, a própria Thames, não vai se juntar à batalha alguma.
          _ Obrigado – agradeceu Fei – Isso já é mais do que o suficiente.
          Fei e Elly correram para o convés, e enquanto eles desciam pelo elevador, Weltall e Vierge eram içados até lá pelos guindastes da Thames. Subindo a bordo do seu Gear, Fei procurou espaço amplo para decolar e tomou o rumo da Yggdrasil.
          _ Tudo bem... Vamos lá.
          _ E-espere... – e Vierge decolou logo depois, seguindo até a batalha. Sobre o convés do submarino, enquanto isso, Stier e Heimdall aguardavam impacientemente os procedimentos de apoio da Yggdrasil, enquanto Rico comentava:
          _ Ah, assim não dá, Citan. Logo quando achei que estávamos salvos, agora vamos ser transformados em queijo suíço.
          _ Não somos particularmente bem quistos aqui, não é...!
          O catedrático silenciou de repente com a surpresa de reconhecer em seus radares dois Gears em aproximação, e assim que Rico também os percebeu, Weltall e Vierge pousaram no convés da Yggdrasil.
          _ Fei, Elly! Vocês estão bem!
          _ Ou algo assim – respondeu Elly, mas Rico interrompeu.
          _ Não é hora pra reuniões comoventes.
          _ Verdade – Fei procurou em volta – Onde está o Bart?
          _ Está lutando lá embaixo – Citan respondeu com ar grave – Ele disse que ia conter o inimigo até que as cargas de profundidade estivessem prontas. Mas ele partiu sem os preparativos submarinos adequados... Estamos ocupados tentando preparar as cargas. Os seus Gears devem ser capazes de suportar combate submarino até certo ponto. Vão ajudá-lo.
          _ Entendido – respondeu Fei – Elly, vamos.
          E os dois saltaram do convés. Lá embaixo, o Brigandier foi golpeado por uma cauda imensa de metal e lançado para trás na água. Com dificuldades, Bart Fatima conseguiu deter o impulso do golpe, mas a situação era desfavorável para ele, enquanto o Gear semelhante a um imenso animal marinho flutuava diante de si.
          _ Que droga! Eu quase não consigo manobrar e você tá se mexendo pra toda a parte...
          Sinais de aproximação soaram em seus sensores, mas ele mal os percebera quando um Gear negro surgiu à sua esquerda, e um outro branco e rosado tomou a sua direita, enquanto uma voz familiar veio pelo seu comunicador.
          _ Parece que está tendo uma luta difícil, Bart.
          _ Fei? – e voltou-se para o Gear negro. Era Weltall, sem dúvida, e era realmente o rosto do seu amigo no comunicador – Cê tá vivo?
          _ Ei, essa fala é minha!
          À direita, Elly estava mais preocupada com o oponente do que com a reunião dos amigos. Ela o reconhecia, mas não imaginava quem poderia estar no comando.
          _ E quanto a esse Gear?
          _ Elhaym!
          O rosto de Dominia surgiu em seu comunicador, num misto de surpresa e raiva.
          _ O que está fazendo aqui?
          _ Dominia? Por quê está aqui?
          _ Por quê? Nós, Gebler, não precisamos de qualquer razão especial para afundar um navio inimigo! É o nosso dever divino governas esses Cordeiros, moradores das terras baixas.
          _ Mas por quê? No quê eles são diferentes de nós, Pastores – os Abel?
          _ Pra mim, Cordeiros e Abel são o mesmo – retrucou Dominia – A única diferença definida é a habilidade pessoal. O ignorante deve ser conduzido pelo sábio. É o nosso trabalho. Olhe para o que conseguiu como um Elemento, Elly. Por que você sequer questiona? Sua superioridade é óbvia!
          _ Então... – indagou Elly, depois de uma pausa curta, e de cabeça baixa – o sábio ferindo o fraco é um sinal de habilidade? Eu não quis isso... É só!
          E foi nesse momento que, notando a comunicação entre o inimigo e Elly, Fei conduziu Weltall para tomar posição ao lado dela e perguntou:
          _ Elly, está tudo bem?
          _ Esse Gear – Dominia lembrou-se da noite da purga sobre Kislev, e dos oponentes que tivera, e reconheceu a máquina que se detivera ao lado de Vierge. Sim, tudo fazia sentido para ela, agora.
          _ Então, é você? Hah! Então é por isso. Que divertido, Elhaym. Tudo isso por um homem? Acho que aquela história era verdadeira, afinal. Você nasceu daqueles Cordeiros desprezíveis.
          _ Chega! Não diga mais uma palavra! – Elly finalmente se irritara. Haviam rumores sussurrados nos baixos escalões do serviço militar de Solaris sobre seus pais, e eles punham em dúvida a fidelidade do pai dela.
          _ Hmph, e o que você vai fazer a respeito, idiota? Vai usar em mim o poder que usou naquele incidente? Vá em frente. Mostre-me. Me mostre seu verdadeiro poder!
          _ ... Pois eu vou mostrar – Elly estava incomumente irritada, a ponto de surpreender Fei. Dominia era arrogante demais, Elemento ou não, e precisava ser posta em seu lugar – Se vocês Gebler são os sábios... então eu prefiro ser uma tola!
          _ Pois então que seja. Nesse caso, você será tratada como a traidora que é. Venha Elhaym! Me mostre seu verdadeiro poder!
          Haishao tomou a iniciativa, investindo frontalmente. Weltall mergulhou, perdendo a investida de Haishao e passando sob ele, mas sendo atingido pela pinça direita, semelhante à de um caranguejo, e uma forte carga elétrica veio acompanhada do impacto.
          Vierge, no entanto, se saíra melhor. Também evitara o golpe corporal do Gear marinho, mas ganhara altura depressa para sair do choque e quando a pinça esquerda veio até ela, suas aletas laterais abriram e sua Máquina de Ether foi ativada por seu ataque elemental.
          _ Tempestade Terra!
          A investida da pinça era poderosa o bastante para não se deter demais com uma mera manifestação de ether, mas Elly conhecia bem as forças e fraquezas de um ataque elétrico, seu efeito podia ser ampliado sob a água, mas o choque com seu elemental oposto, Terra, o neutralizaria. E ela ganhara tempo suficiente para que seus Turbos a tirassem do caminho da colisão.
          Brigandier não teve a mesma sorte, atingido em cheio pela investida do corpo pesado de Haishao e sendo lançado para trás, enquanto Bart praguejava. Não era páreo para o Gear da Gebler, não sem os preparativos submarinos. Brigandier estava pronto, seria poderoso no deserto... mas aquilo ali não eram as areias de Aveh.
          “Praga, eu sou peso morto aqui! – pensou irritado, olhando furioso para o monstro marinho diante do visor do Brigandier, e então deu um sorriso feroz – Mas mesmo que não dê pra fazer muita coisa... eu ainda vou lutar! Desvie disso, desgraçado!”
          Os punhos do Brigandier cruzaram-se diante de sua cabine, e Bart usou o melhor ataque de que podia dispor debaixo d’água.
          _ Sorriso Selvagem!
          O efeito foi imediato: as telas de Haishao pareceram apagar-se e Bart desvencilhou o Brigandier, deslizando para baixo do Gear submarino e rolando nas águas pelo empuxo do outro enquanto avisava:
          _ É agora Fei, Elly! Esse bicho tá cego, vai levar mais ou menos um minuto até se livrar dos efeitos do meu ataque! Aproveitem que não tá vendo e peguem ele!
          Dominia estava praguejando, em sua poltrona, as telas escuras e a movimentação de Haishao de algum modo parecendo abalada.
          _ Droga, mas o que é isso? Algum truque dos Cordeiros...
          _ Ataque de Ether, Dominia – Kelvena replicou na outra cabine – Os sistemas estão comprometidos por algum tempo, até que os auto-reparos possam compensar por isso, estaremos sem visibilidade e com a velocidade reduzida, receio.
          Impactos pesados vieram da retaguarda então, no momento em que Weltall atingiu o ventre do Gear submarino e Vierge por cima, carregando seus níveis de ataque. Dominia começou a reclamar novamente, mas Kelvena a conteve.
          _ Acalme-se. Haishao tem seus recursos para atingir alvos, não importando onde estejam.
          Kelvena tomou conta dos controles, orientando-se. Para ela, a perda da visibilidade não chegava a ser um problema, e os impactos indicavam seus oponentes na retaguarda, próximos à cauda do Haishao.
          _ Ataque Nereida!
          Repentinamente, com um movimento brusco da cauda, Haishao ativou seu ataque de ether, criando um redemoinho poderoso que lançou Brigandier para trás, sobre Weltall. Fei também não esperava por aquilo, e o Gear vermelho de Bart caiu sobre ele, e os dois foram lançados sobre os corais próximos.
          Vierge, no entanto, já estava diante de Haishao outra vez. Elly sabia o suficiente sobre o adversário para deter-se por tempo demais numa mesma posição, e seu Gear estava agora em modo Turbo, veloz o bastante para sair do alcance do Ataque Nereida e posicionado diante de Haishao, liberando seu Nível de Ataque em um de seus golpes especiais.
          _ Tempestade!
          Com o mesmo ataque que atingira Weltall quando Elly estava sob efeito da ‘Drive’, Vierge golpeou a cabine de Haishao em seqüência e com velocidade, enquanto Dominia recebia o aviso de danos múltiplos em seu exoesqueleto.
          _ Maldição... Se tudo o que podemos é atacar no escuro, então...!
          A pinça esquerda do Haishao foi novamente lançada, procurando por um alvo que se afastara. Sem visão e sem poder dirigir a garra para a direção certa, Dominia dependia mais de sorte do que queria admitir no que era um tiro a esmo, enquanto Vierge recuava de costas e suas aletas se abriam, e Elly lançava outro ataque ether.
          _ Anemo Bolt!
          Afinal, eletricidade podia ser particularmente perigosa sob a água, e o fato de Haishao usá-la como arma não queria dizer que fosse imune a ela. E Bart finalmente recebeu o aviso que estivera esperando desde o momento em que descera para atrasar o Gear submarino.
          _ Jovem mestre! – a voz de Sigurd se fez ouvir nos comunicadores – Cargas de profundidade serão lançadas! Por favor, afaste-se!
          Do alto, a Yggdrasil entrou no combate lançando seus explosivos na área do combate. Brigandier não tinha condições de se afastar da área do bombardeio sozinho e Weltall agarrou seus chicotes, rebocando-o para trás enquanto Vierge deteve-se e os torpedos vindo do alto abateram-se sobre o Haishao.
          _ Hyah! – Dominia foi jogada para trás pelos impactos, mas sua disposição não se abalou – Isso não foi nada, venham! Venham!
          _ Já chega, Dominia! – retrucou Kelvena na cabine esquerda – Retirada!
          Dominia rosnou, mas não poderia fazer mais nada. Kelvena era a encarregada daquela missão e, além disso, Haishao não estava em condições tão boas quanto a sua disposição.
          _ Tch! Eu estava tão perto... mas não pensem que eu vou embora de mãos vazias!
          A visão parecera melhor depois da ‘carga da Yggdrasil’, de qualquer forma, e as duas garras do Haishao foram disparadas em seqüência, na direção de Vierge. 
          O Gear de Elly prontamente moveu-se para desviar, mas enquanto a pinça esquerda vinha em perseguição, a direita fez uma volta longa em sua trajetória e a surpreendeu pela frente, fechando-se à sua volta e detendo-a o bastante para que também a outra a agarrasse. Então, uma descarga simultânea de eletricidade atingiu Vierge, deixando sua piloto inconsciente. Só então o Gear da Gebler recuou, carregando Vierge entre suas garras.
          _ Elly, você está bem? Elly!
          Mas não houve resposta para Fei, que soltou Bart e ativou seus Turbos para perseguir Haishao antes que se afastasse demais. E a cauda do Gear submarino ondulou, usando seu Ataque Nereida para cobrir sua retirada e lançando Weltall de volta por onde viera, concedendo a Haishao tempo suficiente para fugir.
          Levando Elly...
 
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ONLY CROWNED