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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 17: Campeão Lutador

            O dia seguinte encontrou Fei na Arena Imperial de Kislev, onde a recepcionista o informou de que seriam três disputas da semifinal antes de se classificar para as finais. Weltall estava preparado e Fei entrou na Arena, iniciando o combate contra um Gear chamado Hatamoto que lembrava o Musha que vencera no dia anterior. Ao invés da espada e do rifle, no entanto, Hatamoto trazia uma lança longa e era um mestre no ataque à curta ou longa distância apenas com ela. O giro da arma formava uma barreira eficiente e mesmo os disparos das Balas de Ether de Weltall não podiam alcança-lo.
          Weltall investiu de frente quando Fei percebeu isso, instigando Hatamoto ao ataque com a lança. Era o único momento em que ele não podia se defender. 
          A lança perfurou. Weltall saltou sobre ele e os dois golpes seguintes de seus punhos inutilizaram as juntas dos braços do adversário. Então, erguendo Hatamoto e lançando-o dentro do lago artificial, encerrando a batalha.
          O segundo oponente era um Gear que usava dois ioiôs gigantes de batalha no lugar dos braços, Roda de Fogo. Sua seqüência de ataque era veloz, e o peso e a força de seus ataques desequilibraram Weltall. Um salto acompanhado de uma Bala de Ether, no entanto reduziram a sua velocidade de ataque e quando ele tornou a atacar, o Gear negro agarrou o seu ioiô e afastou-se com os Turbos ativados, arrastando o Roda de Fogo pela arena para depois saltar e concluir com uma Bala de Ether, classificando-se assim para a luta contra um Gear prateado, o Estrela de Prata.
          O Gear de prata foi um rival à altura, tão veloz quanto Weltall e de braços e pernas mais compridos, com maior alcance, e mãos de garras que lhe serviam como escudo contra os ataques de Weltall. E, em meio à batalha, Estrela de Prata afastou-se e disparou Balas de Ether em seqüência rápida, atingindo Weltall pesadamente e lançando-o para trás.
          Estrela de Prata avançou, e Fei considerou que era a hora de tentar algo novo, erguendo-se enquanto disparava sua própria Bala de Ether. Ainda que pego de surpresa, o Gear de prata ergueu as garras diante da cabeça e bloqueou o ataque com sucesso, mas Weltall aproveitara a distração para aproximar-se do Estrela de Prata por trás e golpeá-lo pelo flanco, antes que o outro o localizasse.
          O Estrela de Prata girou como um pião, braços bem abertos para derrubar Weltall novamente, mas o Gear negro saltou e afastou-se correndo. Estrela tornou a disparar uma seqüência de Balas de Ether em alta velocidade, mas Weltall usou a cordilheira como abrigo e os disparos se perderam.
          O Estrela então acelerou, usando seu Turbo para perseguir Weltall. A distância o obrigou a manter seus Turbos ativos e, quando Weltall voltou-se para ele já dentro do lago, Estrela tornou a disparar uma seqüência de Balas Ether... e apenas uma delas partiu, enquanto o Gear ficava mais lento. 
          O uso abusivo dos Turbos e disparadores superaquecera o Gear de prata e o sistema de emergência reduzira sua velocidade para impedir uma explosão. Weltall, já resfriado por ter entrado no lago, atacou pela frente com força e antes que pudesse recuperar sua velocidade normal, derrotando-o ao faze-lo atingir as montanhas atrás de si. Fei conseguira se classificar. Hammer veio saltando para dar os parabéns:
          _ Mano, cê conseguiu! Ganhou! É o Campeão Lutador! Ou... já tá bem perto disso! A vitória tá ao alcance da mão! Se ganhar só mais as finais da Liga amanhã, vamos ter nossos nomes limpos e vamos ser liberados!
          _ Mas, Hammer - Fei parecia inseguro - você sabe que o meu oponente não é fácil! O poder dele é incrível! Tem sido o Campeão Lutador por três anos consecutivos! Vence-lo não vai ser tarefa fácil... Consegui vencer até hoje de algum modo, mas amanhã é outra história! Duvido que eu vá vencer.
          Olhando seriamente para Fei em silêncio por um momento, Hammer retrucou como Citan teria feito:
          _ Se essa é a sua atitude, vai perder mesmo que pudesse ter vencido! Qualé, mano, mostra um pouco de espírito de luta!
          Fei ficou visivelmente surpreso depois de ouvir isso e, após um instante de surpresa, jogou a cabeça para trás e começou a rir.
          _ Hahahaha, eu não achei que você seria quem ia me dizer algo assim! Mas tem razão, nunca vou vencer com essa depressão pré-batalha. Obrigado, Hammer - e olhou em volta, vendo que os procedimentos de fechamento da Arena tinham se iniciado - Bom, acho que é melhor voltarmos aos dormitórios agora.
          _ Bem, eu até diria 'firmeza!', mas amanhã são as Finais da Liga, e isso é importante! Não acha que devia se ocupar em cuidar e equipar o seu Gear? Nossos destinos dependem disso!
          _ Equipar o Gear, hein? - Fei ficou pensativo - Pra falar a verdade, deixar isso pra um só mecânico me preocupa um pouco. Vou pedir ao Doc pra nos dar uma ajuda, também.
          _ Preocupa um pouco?! - Hammer pareceu ofendido - Não é por aí, mano! Esse mecânico aqui tá fazendo o melhor que pode, sabia!
          _ Ei, não foi o que eu quis dizer, Hammer - apaziguou Fei - Não fique tão nervoso. É só que mais de uma pessoa pode ser uma boa idéia. Então, vamos voltar aos dormitórios e chamar o Doc, certo?
          Naquela noite, Fei, Citan e Hammer empregaram seus talentos e fizeram todos os acertos que poderiam em Weltall com as peças que Hammer pudera conseguir. Limpando a fronte depois do esforço, Fei perguntou:
          _ ... Será que isso é tudo?
          _ A-hã - fez Hammer - É o melhor que dá pra ser obtido por aqui.
          _ Você acha que eu consigo vencer com essas peças nesse estado?
          _ Hm, questão interessante - observou Citan - Comparando ao Gear do Campeão, a qualidade simplesmente não tem igual.
          _ Não há nada que possamos fazer - contrapôs Hammer - O Gear do mestre Rico é um modelo de Gear especial providenciado pelo Comitê. Da manutenção às peças, recebe o melhor de tudo. Enquanto tiver dinheiro envolvido, o Campeão vai superar em tudo. É uma das razões dele ser tão poderoso...
          _ Não dá pra conseguirmos peças melhores? - Fei desceu do Gear e parou um tanto desanimado diante de Hammer - Isso é...
          _ Hahahaha! - veio de algum lugar - Como sempre, você não aprendeu coisa alguma, não foi?
          _ Quem está aí?! - perguntou Fei. Eles olharam em volta, encontrando apenas um hangar vazio, até Fei sentir a presença de alguém e olhar para o alto. De pé sobre as contenções do Gear, uma figura num manto com uma máscara estranha olhava para eles. Não era Grahf, no entanto.
          _ Já faz muito tempo... Fei.
          _ Você... - Fei lembrou-se - É aquele do Torneio de Aveh... O que quer? Estou ocupado agora!
          _ Hmph - fez o outro - Não importa quão alta seja a qualidade do seu Gear, você não será capaz de derrotar Rico.
          Aquilo foi um balde de água gelada nos ânimos de Fei, e ele precisou de um instante para se recuperar e perguntar:
          _ D-do quê está falando?
          Ao invés de responder, o Sábio apenas desapareceu novamente, e os três procuraram por ele. O mascarado ressurgiu quase ao lado de Hammer e o fez gritar e pular, mas ignorou-o, dirigindo-se a Fei.
          _ Ainda não entende, não é? Então deixe eu te mostrar.
          E assumiu uma postura de ataque, ao que Fei reagiu automaticamente se posicionando para defender, mas ainda confuso.
          _ Por quê você quer lutar, de repente desse jeito? Está louco ou coisa assim?
          _ Já chega de falar - o outro jogou o manto para trás - Tome isso!
          Fei saltou para trás enquanto o estranho moveu três vezes os pulsos para ele, e algo semelhante ao Tiro Guiado surgiu. Mas não havia comparação em seu tamanho e poder destrutivo, atingindo o solo e destroçando a blindagem do hangar. Mais ainda, deu para notar que o desconhecido não o fizera à toa. Se fosse atingido de guarda baixa, Fei poderia ter morrido.
          _ Ei! E-está falando sério!
          _ Claro! Então, me dê uma luta! Porque se não o fizer, sua vida é minha!
          Fei iniciou, sabendo que não poderia descuidar com o desconhecido e seu Raijin foi o primeiro golpe, testando o que o outro podia suportar.
          Para sua surpresa, o Sábio meramente se esquivou para a direita e deixou o punho descer e encontrar o vazio, e enquanto Fei se voltava, uma nova seqüência de disparos brotou das mãos do Sábio, lançando Fei para trás enquanto o rosto do homem se mantinha oculto, mas sua voz demonstrava indiferença.
          _ Vai ter que fazer melhor.
          _ Ora... Cale-se!
          Fei tornou a erguer-se, enquanto Hammer olhava sem acreditar e Citan notava uma certa semelhança entre os movimentos de seu jovem amigo e os do desconhecido. Fei começou a seqüência de golpes do Senretsu, mas o Sábio evitou um a um, contendo apenas o último, saltando para trás um passo e tornando a derrubar Fei com suas ondas de energia.
          _ Concentre-se no que está fazendo, Fei, ou não vai vencer.
          _ C-como...? como você...?
          _ Vença primeiro, se quiser saber.
          Fei ergueu-se novamente, já cambaleando e resfolegando. Novamente ele correu para o Sábio, mas desviou-se no último instante e saltou para cair sobre o mascarado com os chutes de seu Hazan.
          E o Sábio conteve pacientemente um após o outro os chutes da técnica, e assim que Fei girou sobre si mesmo para voltar ao solo, um giro e uma varredura do pé de seu oponente o derrubaram. E antes que o rapaz se recuperasse, o Sábio formou uma postura familiar e seu punho carregou-se de energia, descendo violentamente sobre Fei para a surpresa dele e de Citan. Aquela técnica era o seu Raijin!
          _ Ugh... uhh... - apesar da semelhança visual, no entanto, Fei notou que havia muito mais poder naquela versão do seu golpe, e estava aturdido - Aquela é... a minha técnica...! Mas como pode...?
          _ Enfrentar força bruta com força bruta é o sinal de um grande tolo - disse o Sábio, parado diante de Fei - É óbvio que um corpo mais leve como o seu vai sempre estar em desvantagem em um ataque frontal. Acabei de dar-lhe um bom exemplo. Essa diferença mínima entre você e eu teve este resultado. Então, contra alguém com uma massa várias vezes maior que a sua, como Rico, tem um resultado altamente aparente. Isso também se aplica a Gears... Mesmo que tivesse conseguido peças comparáveis às de Rico, ainda haveria essa diferença na massa. Para compensar por isso, uma pessoa deve realizar um único ataque final que atravesse a fraqueza do oponente.
          Fei ficou intrigado. Então, aquilo era um tipo de aula? Mas o estranho deu-lhe as costas, obviamente pronto para partir.
          _ Já dei a você a dica. Cabe a você agora descobrir pela experiência.
          _ Espere! - pediu Fei - Por quê é que você tem o mesmo estilo de luta que eu? E, como sabe meu nome? Me diga!
          O Sábio voltou-se por um momento em silêncio, como se decidindo se deveria ou não responder. Por fim, pareceu dar de ombros antes de responder:
          _ Hmph... Claro. - Fei acenou que 'sim' com a cabeça, enquanto o Sábio começou a explicar - Foi há três anos atrás... Aquele que o levou, em seu estado mutilado, para aquela vila da montanha não foi outro senão eu mesmo.
          _ Foi você quem me levou pra Lahan?!
          _ ... Sim - ele desviou o rosto - A pedido do seu pai.
          _ Meu pai...?! Qual a sua relação com o meu pai?
          _ Khan e eu fomos colegas de estudo - o Sábio respondeu, dando as costas a Fei.
          _ ... Khan? Esse é o nome do meu pai?
          _ Por quê pergunta pelo nome do seu pai? - indagou o Sábio, voltando-se outra vez para Fei - Não me diga que perdeu...?
          _ Sim - Fei baixou os olhos - Então, por favor, me conte tudo o que puder. Pode fazer isso?
          _ Entendo... - meditou o Sábio - Em seu estado ferido... Eu não deveria ficar surpreso...
          _ Sábio...
          O Sábio mascarado voltou seu rosto para longe, parecendo de repente travar alguma luta interior. Ao fim, sem olhar para Fei, ele começou:
          _ Khan Wong. É o nome do seu pai. Desde nossa juventude, Khan e eu estudamos as artes marciais juntos...
          _ Meu pai e você?
          _ ... Sim. Por fim, seu pai se tornou um oficial de um certo país. Lá, ele conheceu uma jovem. Ela tinha cerca de vinte anos de idade. Seu nome era 'Karen'. Ela era como uma flor em pleno desabrochar.
          _ Flor...? - Fei pareceu ficar confuso, e coube a Citan explicar:
          _ Ele quer dizer que ela era extraordinariamente bela.
          _ Sim, entendo. Então, ela é...?
          _ Sim, sua mãe - confirmou o Sábio - Khan se casou com sua mãe e eu parti numa jornada para me fortalecer.
          _ E quanto à minha mãe? Onde está a minha mãe agora?
          _ Também não se lembra disso...? - A voz do Sábio parecia pesarosa - Entendo... De acordo com Khan, quando você era apenas uma criança, ela faleceu.
          _ Ah...
          Fei pareceu desolado, e o Sábio afastou-se um pouco antes de tornar a falar:
          _ O tempo passou... Durante minha viagem, recebi uma carta de Khan. A carta dizia que seu filho... tinha sido levado por um homem. Khan um dia disse que você tinha poderes especiais. O homem que queria esse poder levou você. Esse homem era... Grahf.
          _ Grahf?! - Fei saiu por um instante de seu pesar - Ele me levou embora?
          _ Você... já o encontrou? - o Sábio voltou-se para perguntar.
          _ É... três vezes.
          _ É impressionante que você ainda esteja ileso.
          _ Pareceu ao Grahf que eu ainda não era poderoso o suficiente pra conquistar o seu supremo objetivo. De qualquer forma, me deixe ouvir mais dessa história.
          _ Khan desejava ir encontrar seu filho - o Sábio tornou a se afastar - e, se possível, queria minha ajuda... Concordei com o pedido de Khan e comecei a procurar por você... e aquele homem. Então, deu-se uma noite fatídica há três anos atrás. Houve uma violenta tempestade. A tempestade parecia ter sido lançada sobre nós numa fúria cega. Naquela noite, Khan me avisou que tinha localizado seu filho. Então, parti para o local como se fosse atraído para lá.
          E o Sábio fez uma pausa longa, baixando a cabeça e acenando negativamente.
          _ Você e Khan estavam seriamente feridos. Não tenho idéia do que aconteceu entre vocês e Grahf. Até então, Grahf já tinha partido. Não sei porquê, mas ele provavelmente foi afugentado por Khan. Khan decidiu perseguir Grahf e me deixou para tomar conta de seu filho. Providenciei os primeiros socorros necessários a você e o deixei na custódia do povo daquela vila. Então, fui atrás de Khan - e voltou-se para Fei - Você provavelmente perdeu sua memória quando foi ferido naquela ocasião.
          _ Por quê meu pai perseguiu Grahf?
          _ Nem mesmo eu sei. Só o que ele disse era que não era apenas em nome do seu filho, mas pelo bem do mundo inteiro, aquele homem tinha que ser eliminado. Ele acrescentou que, se algo acontecesse a ele, eu teria que cuidar do resto... Não o vejo ou ouço falar dele desde então.
          _ Grahf disse - Fei baixou a cabeça - que meu pai estava... morto.
          _ Hmmm - ponderou o Sábio - Se Grahf tem aparecido na sua presença... então isso é uma possibilidade... É realmente lamentável - Voltou-se novamente para Fei - Lembra-se de algo sobre suas técnicas de luta?
          _ Hã? Não... nada.
          _ Hmm, suas habilidades provavelmente foram ensinadas a você por Khan. Khan e eu estudamos com o mesmo mestre. É por isso que minhas técnicas são similares às suas. Bem, então - ele afastou-se - é melhor que eu me vá.
          _ Pra onde?
          _ Eu vou encontra-lo. Preciso atinar com quais são suas intenções... e, também, em nome de Khan.
          _ Só me diga uma coisa - pediu Fei - De que país meu pai era um oficial?
          _ Você vai até lá? - o Sábio tornou ainda uma vez seu rosto mascarado para Fei.
          _ Eu não sei. Há outras coisas das quais eu tenho que cuidar...
          _ Sim - e o Sábio desviou o rosto novamente - A terra flutuante que tenta se ocultar atrás de uma muralha, protegida, como se para ocultar seu fracasso. Esta é Shevat. É a terra do seu pai.
          _ Shevat...? A... terra flutuante?
          _ Adeus.
          O Sábio afastou-se mais um pouco e, como se não fosse mais que uma visão, desapareceu em meio ao vento. Citan e Hammer aproximaram-se, então, e Citan olhava pensativamente na direção onde o mascarado desaparecera.
          _ ... Que pessoa misteriosa. Já é a segunda vez em que o encontra?
          Hammer estava espantado, ao mesmo tempo em que Fei estava distraído e pensativo com as palavras do Sábio, então, a resposta dele se confundia com os comentários alarmados do mecânico.
          _ Hã...? É. Desde o Torneio de Aveh. Ele com certeza é uma pessoa misteriosa... 
          _ O que foi tudo aquilo?? Ele desapareceu como o v-vento!
          _ Provavelmente, não vou entender imediatamente o que ele quis dizer hoje...
          _ Eu só passei a conhecer vocês depois que chegaram aqui! Que negócio é esse de Torneio de Aveh?
          _ ... mas acho que entendi a idéia geral. Eu posso ser capaz de conseguir alguma coisa na final de amanhã...
          _ O que é que tá havendo?!
          _ A diferença de desempenho entre as peças dos Gears não vai influenciar o resultado... bom, não tanto quanto eu pensava antes.
          _ Nunca subestime a situação - Citan meneou a cabeça - Você pode ser sumariamente derrotado se achar que pode vencer apenas por ter um vislumbre do conceito.
          _ Eu sei, Doc.
          _ Bem, vamos voltar aos nossos aposentos e repousar, Fei. O seu destino jaz no resultado da competição de amanhã. Precisa preservar sua força.
          O dia seguinte seria de fato decisivo, e Fei passou uma noite inquieta pensando nisso. Por fim, o dia raiou e Fei dirigiu-se até a Arena de Batalha de Kislev. A expectativa dos espectadores era enorme: Fei, o piloto Lutador novato, abrira caminho entre os veteranos e participaria das finais contra ninguém menos que Ricardo Banderas! Ainda que as chances fossem contra ele, a verdade era que as apostas estavam equilibradas. Havia descontentes fora do Bloco D que torciam intensamente pela derrota de Rico já havia anos, por 'não suportarem mais aquele mutante como o Campeão'. Por outro lado, especialmente dentro do bloco dos prisioneiros, onde Rico era bem conhecido, havia torcedores fiéis que conheciam o Campeão como um bom homem, ainda que de modos rudes, e que torceriam ardorosamente por ele.
          Os Gears ficaram frente a frente. Stier, o Gear de Rico, fazia mesmo lembrar seu mestre: verde, enorme, de aparência forte e brusca. Seu punho esquerdo era uma garra tripla que, fechada, funcionava como broca, e o Gear era tão pesado que deslizava sobre esteiras gigantes de seus pés ao invés de se mover com movimentos das pernas. Apesar disso, a velocidade de deslocamento dele era alta, capaz de igualar ou até superar as Balas de Ether em modo Turbo.
          O duelo começou. Stier deslizou para frente e seu punho e o de Weltall se chocaram, embora o peso e força maior do Gear do Campeão fossem maiores, lançando o Gear de Fei para fora da plataforma inicial.
Weltall estabilizou-se, mas Stier deslizou em sua direção. Turbos ativados, Weltall aproveitou sua massa menor para se aproximar do oponente em espiral ao redor dele, saltando sobre Stier para surpreende-lo com ataque pela retaguarda, mas uma Bala de Ether o pegou em meio ao salto, lançando-o pesadamente para trás.
          O Gear negro de Fei ainda estava se pondo de pé quando a broca de Stier o atingiu em cheio no peito, erguendo-o por um instante; então, seu punho direito desceu sobre Weltall como uma marreta, lançando-o de volta ao solo com violência.
          Fei sentiu que não era à toa que Rico era o Campeão. Com aquele poder de ataque e a longa experiência de cinco anos consecutivos de vitórias, dificilmente alguém ganharia dele. Ouvindo jatos, ele viu Stier ganhar altura, descendo depois sobre Weltall, e mais do que depressa o Gear negro disparou uma Bala de Ether, afastando Stier por um momento para afastar-se, usando seus Turbos.
          Rico colocou o Stier de pé. Suor escorria de sua fronte, enquanto o braço esquerdo ainda não recuperado se tornava mais incômodo. Se aquilo não terminasse logo, ele estaria perdido. E Fei parecia mais cauteloso agora, mantendo a distância e evitando o confronto direto. Bom, mas não seria o bastante.
          Weltall e Stier avançaram novamente um contra o outro, Stier disparando Balas de Ether em seqüência e Weltall fazendo o mesmo, as balas se chocando entre eles até que os dois Gears estivessem à distância de um golpe.
          Stier avançou com seu punho broca novamente, mas Weltall saltou sobre ele de repente e disparou do alto. O impacto abriu a guarda do Gear verde por um segundo, tempo suficiente para Weltall voltar ao solo e alcançar o Stier por trás e despejar sobre ele três socos poderosos e velozes.
          Stier voltou-se depressa, tentando atingir Weltall. O Gear negro recuou depressa, girando num chute que lançou o Gear de Rico do alto do morro onde estavam lutando.
          Um brado de horror se fez ouvir nas arquibancadas enquanto Stier rolava montanha abaixo. Em sua cabine, Rico Banderas travou os dentes para conter um gemido quando seu braço ferido se chocou contra o painel de instrumentos. Bom. Muito bom, de fato. Outra manobra daquelas, e a luta estaria acabada para ele. Se quisesse vencer Fei e seu Weltall, teria que dar tudo de si no próximo ataque.
          Weltall tornou a deslizar na direção de Stier, aproximando-se em espiral e evitando o confronto direto tanto quanto possível. Esperto, pensou Rico com um sorriso forçado no rosto contraído.
          Stier moveu-se para o lado, em direção ao Weltall. O Gear negro disparou para interceptar o atacante, mas Stier reverteu o curso e seus Turbos eram suficientes para evitar a Bala de Ether, então ele correu em círculos, e saiu da trajetória circular de repente, prendendo a cabeça de Weltall sob o braço esquerdo para então usar o punho direito e atingi-la como uma marreta três ou quatro vezes, soltando-o por um instante para prende-lo novamente, agora pela cintura, num aperto compressor terrível.
          A torcida vibrou! Com aquele golpe, Rico derrotara inúmeros oponentes e nenhum deles o havia superado. Weltall começou a estalar diante da pressão e Fei viu a análise de danos por toda a estrutura do exoesqueleto aumentar vertiginosamente. Golpe arriscado, mas agora ele teria uma definição.
          Posicionando a perna direita do Weltall atrás da esquerda do Stier, mais baixo, Fei ativou os Turbos. Com o impulso inesperado, Stier tombou para trás e sobre o grande jato propulsor de suas costas, ficando momentaneamente deitado. A surpresa e também o ferimento no braço fizeram Rico relaxar o aperto, e Weltall livrou-se num movimento brusco para então subir num salto, disparando três Balas de Ether sobre o Stier, pesado demais para se levantar a tempo de evitar os tiros.
          Rico sentiu os trancos violentos e rosnou em sua cabine, abafando o grito. Seus sensores acusaram danos por toda a estrutura e ele soube que sua vitória estava em risco. Colocou Stier de pé como pôde e viu Weltall correr para trás dos morros, sem dúvida evitando seu contragolpe com Balas de Ether. Inteligente, mas agora ele podia cortar a frente do Gear negro, e subiu o morro deslizando velozmente.
          E Weltall surgiu diante de si assim que ele alcançou o topo do morro, e disparou mais Balas de Ether. Fei utilizara a cobertura para, antecipando a subida de Rico, chegar ao topo primeiro com o seu Gear, mais veloz que o Stier de Rico e atacar enquanto o outro ainda subia. O Gear verde foi atingido em cheio e a visão de seu piloto foi obstruída. Confuso, Rico protegeu a cabine com os braços grossos de Stier.
          Então, Weltall agarrou o braço direito do Stier e girou ao redor dele com seu turbo, tirando seu equilíbrio ainda no terreno inclinado do morro, fazendo-o rolar morro abaixo e saltando enquanto o outro caía, caindo sobre ele com seus pés num golpe impressionante que levantou um brado surpreso da torcida. E recuou em seguida, disparando mais e arriscando-se ao superaquecimento.
          Pego de surpresa e posto na defensiva, Stier ergueu-se como pôde e saltou, tentando buscar o refúgio na posição atrás do morro. Weltall posicionou-se e saltou logo atrás dele.
          Stier voltou-se em seu pretenso recuo e saltou também, subindo para encontrar Weltall no meio do caminho. Fora o outro quem caíra na armadilha agora, pensou Rico, e não havia como se esquivar em meio ao salto. As mãos de Stier adiantaram-se para agarrar o Gear negro...
          Weltall, mais leve, girou sobre ele e agarrou seu braço esquerdo. Com o impulso dos Turbos e sua leveza, ele se movia melhor em meio ao salto do que o Stier. Num movimento circular, Weltall aproveitou o impulso do próprio Stier e dirigiu-o contra a base do morro, fazendo-o cair de cabeça, e ambos os Gears atingiram o solo com um estrondo violento. E quando a audiência pôde ver através da poeira, Stier estava tombado no chão e com danos demais para se reerguer. Weltall, ainda que muito danificado, continuava de pé. O duelo terminara.
          O coro da vitória foi alto. Fosse como fosse, mesmo os partidários de Rico reconheciam que fora uma batalha extraordinária, e os gritos aclamando Fei continuaram por muito tempo. Ainda podiam ouvi-los quando já estavam nos bastidores, e embora até a torcida tivesse se conformado com o resultado, o mesmo não podia ser dito de dois auxiliares diretos de Rico que o acompanhavam, e um deles ergueu o dedo acusador para Fei.
          _ Ei, a sua máquina foi adulterada! Vou te denunciar ao Comitê!
          _ É, isso mesmo! - confirmou o segundo - Ele obviamente teve peças não permitidas instaladas no seu Gear, ou coisa assim!
          _ Calem-se!!
          O brado de Rico fez os dois auxiliares recuarem, e ele baixou a cabeça antes de prosseguir:
          _ Não me envergonhem ainda mais... De qualquer maneira, como poderiam existir na Capital Imperial peças tão especiais? Principalmente quando não se pode deixar a capital com estes colares no pescoço!
          _ m-m-m-mas... Rico... Então... - começou um dos auxiliares, e Rico tornou a encara-lo.
          _ Achei que tinha dito a você para parar... Fique quieto!
          _ É isso aí, é impossível! - confirmou Hammer com atitude de superioridade - O mano ganhou com a própria força! Sem essa de tentar inventar acusações falsas!
          _ Hã... 'Mano'...? - fez o outro servo de Rico, olhando com ar estranho.
          _ Já chega, Hammer - cortou Fei, enquanto Rico se voltava para ele. E o rapaz acenou negativamente com a cabeça.
          _ Eu ganhei por sorte... e porque tive um bom professor. E a ferida do seu braço também não se curou completamente, não foi? Não fosse por essa ferida, eu tenho certeza de que você teria vencido...
          _ Derrota é derrota - atalhou Rico - Meu ferimento não é desculpa. O Campeão Lutador agora é... você!
          Fei sentiu-se um pouco encabulado. Fora necessário vencer para poder cumprir a promessa que fizera a Bart, mas Rico era um homem orgulhoso, ainda que bom perdedor. Seu rosto mostrava o quanto sentia perder sua posição. Mas o outro sacudiu a cabeça e disse, num tom que poderia ser de indiferença.
          _ Bem... eu tenho algo pra resolver. Estou de saída.
          _ Campeão, espere! Deixe-nos ir com você...
          _ Não sou mais o Campeão - cortou Rico sem se voltar para os auxiliares - Vocês, caras, só ficariam no meu caminho! Não me sigam! OK?
          E saiu sem se voltar, enquanto os outros não sabiam como agir.
          _ No seu caminho...? Mas... Campeão...
          _ Ri~~co---!
          Os dois viram apenas Rico sair sem lhes dar qualquer atenção, e pareciam totalmente perdidos. Fei tornou a sentir-se mal, embora Hammer sem dúvida alguma não partilhasse de seu pesar.
          _ Quer dizer que eu tô livre! Limpinho da Silva! Inocentado! Tô fora! Oh, cara...!

          Longe dos olhares de todos, Rico voltara à cocheira dos Gears, detendo-se para erguer os olhos para o grande Gear verde que era seu e que tantas vezes vencera. Antes de Fei. Mas, pensou consigo mesmo, essa era a natureza de ser um campeão; você defendia sua posição por algum tempo, se cansava e era derrotado por alguém melhor. Depois de tantos anos vencendo, Rico já quase se considerava o melhor, invencível. Agora, só havia uma última coisa a fazer, então...
          _ Stier... Este é o fim... Agüente firme comigo!
          O Gear verde parecia-se muito com seu dono,  forte, brutal e aparentemente pronto para qualquer coisa.
_ ... pegá-lo, só eu...

-o-
          Enquanto o som de motores se fez ouvir no hangar de Kislev, num hangar de Aveh que estava sendo utilizado pela Gebler, Elhaym Van Houten e seus comandados Cavaleiros encaminhavam-se para suas máquinas, prestes a iniciar sua missão. Renk, segundo em comando de Elly, foi o primeiro a reparar;
          _ Ei, olhem, vejam só isso...
          Voltaram-se para onde ele indicava. Oito naves de batalha estavam de prontidão para a partida, embora houvesse uma curiosa peculiaridade...
          _ Só há uma nave de controle... - notou Stratski - As outras sete são todas guiadas por Ether. Afinal, quem diabos vai controlar todas elas?
          _ Eu nunca imaginei que você seria o comando da escolta.
          A voz áspera e grosseira não combinava com uma mulher, e veio por trás do grupo de Elly, e a tenente foi a única a reconhecer a oficial alta de cabelos brancos, ainda que jovem, que se deteve diante deles com ar de superioridade.
Dominia_ Dominia?!
          _ Dominia, quem é essa? - indagou Helmholz - Ei, não aquela dos Elementos...?
          _ Já faz muito tempo, Elhaym - a oficial passou entre os subordinados de Elly como se não existissem, detendo-se diante da tenente - A última vez foi em Jugend, não foi?
          _ O que está fazendo aqui? - indagou Elly, sabendo que não teriam designado Dominia, líder dos Elementos, por um motivo à toa.
          _ Esta é uma missão vital, ordenada pela Central. Já tenho as ordens de Ramsus. A Hecht não deve ser pilotada por um soldado comum. Eu levarei a Hecht - depois de uma pausa significativa, onde ela olhou com o canto dos olhos para o grupo de Elly, prosseguiu com voz de desagrado - Eu nem sequer necessitava de uma escolta, mas isso também era parte do plano. Vai ser uma boa luta.
          E passou por todos então, andando com ar altivo e sem voltar-se, mas Elly chamou para perguntar:
          _ Espere! Me diga qual é o nosso alvo! Você deve saber.
          _ Isso é restrito... - ela respondeu depois de uma pausa - mas acho que posso contar. O gerador elétrico no setor do extremo leste da Capital Imperial de Kislev. O alvo é um reator deixado lá por uma civilização antiga.
          _ O reator?! - Elly ficou alarmada - Se você atacar aquilo, então Kislev vai...
          _ Provavelmente a maior parte dela será destruída - confirmou Dominia indiferentemente - O resto ficará inabitável por centenas de anos.
          _ Por quê vai fazer isso? - Elly perguntou, ainda sem acreditar na frieza da outra.
          _ Purgar, o que mais? - Dominia deu de ombros - Você já deve saber, Kislev tem o Gerador do Portão. O portão original é controlado por aqueles Cordeiros vulgares. Esta barreira de terra foi feita por nossos predecessores. Os Cordeiros estão tentando destruir o portão. Vai permitir isso?
          _ Pode ser verdade - Elly respondeu cautelosamente - mas nós temos o direito de nos envolver?
          _ Isso te incomoda? - Dominia franziu o cenho - Desde quando você tem uma consciência? Guerra, angústia, traição, engano... São tudo o que há nas mentes dos Cordeiros. Com certeza você deve saber disso olhando para os idiotas neste país. Deixe-os à solta e veja o que eles farão. Eles pilhariam e arrasariam nosso mundo agindo como se fossem donos dele. Conhecimento avançado ou ferramentas não são necessários para animais domésticos. Temos que conduzi-los ao local ao qual pertencem.
          _ Você originalmente era uma habitante da terra - interpôs Elly - Então por quê...?
          _ Eu fui escolhida pelo Comandante! - Dominia finalmente perdeu a atitude indiferente quanto a tudo, parecendo zangada - Não olhe para mim como se fosse igual àqueles Cordeiros estúpidos! Sim, bem... - e pareceu recuperar-se - você recebeu o dever que foi instilado em você desde seus dias de Jugend. Discutir com você é uma perda de tempo.
          Dominia afastou-se então, mas voltou-se uma última vez para Elly, num tom de voz estranho:
          _ Eu mesma já fui um habitante de superfície, mas vou purgar os Cordeiros. Quero que vocês, os Pastores - Abel - vejam o que eu posso fazer com seus próprios olhos.
-o-
          De seu hangar especialmente construído, uma esquadra de naves da Gebler emergiu, seguindo a liderança da Hecht de Dominia. Tomaram o rumo da Capital Imperial de Kislev, e lá deveriam chegar durante a noite. E na capital, Fei constatava com surpresa que conhecia o lugar preparado para ele.
          _ ... Este quarto? Este é o quarto do...
          _ Sim, é o aposento dado ao Campeão - confirmou Rue - Não é do seu agrado?
          _ Não... Não é isso... E quanto a Rico...?
          _ ... Rico? Ele é o ex-campeão - comentou Rue com ar de pouco caso - Agora você é o Campeão.
          _ Mas, o que aconteceu com ele?
          _ Depois das Finais da Liga, durante o encerramento da liga de grupos, seu Gear saiu de controle. O Gear descontrolado atingiu os assentos do Kaiser, e ficou danificado. Nada foi ouvido do ex-campeão, Ricardo, e ninguém mais o viu desde o incidente...
          Fei não fez comentários, mas estava profundamente absorto em seus pensamentos. Fora de controle? Rico sabia muito sobre o seu Gear para que ele ficasse fora de controle. Mas, por outro lado, não conseguia atinar com o motivo para que ele quisesse atingir o Kaiser Sigmund. Fúria de prisioneiro?
          _ Não há competições de Lutadores por algum tempo - observou Rue - então você pode descansar um pouco. Agora que o colar explosivo foi removido, que tal dar um passeio pelo Bloco A - a área civil de Nortune?
          _ Área civil... do Bloco A...?
          _ A área sudeste da Capital Imperial... É chamada de Bloco A, ou área civil. Bem - e ela fez sinal para seus guardas, que tomaram o rumo das escadas - nós já vamos indo. Seja como for, este cômodo é para o seu uso. A porta ao lado é a porta do quarto. Ah, e Fei... agora você vai receber o título de Campeão, bem como os privilégios do Ranking S, especiais.
          Ela se encaminhou para a escadaria, detendo-se um instante ainda para dizer:
          _ Parabéns por vencer o Campeonato de Lutadores... Fomos capazes de obter bons dados da batalha por nós mesmos, hahahahm... - e ficou um tanto embaraçada ao notar que dissera algo que não deveria, desconversando - Mais uma coisa, boas novas. O Kaiser Sigmund gostaria de conhece-lo, Campeão Fei. Por favor, visite o Distrito Central Administrativo. Bem... Adeus.
          Após ouvirem o som da porta sendo fechada no andar de baixo, Citan veio até Fei e indagou:
          _ Então,a gora você está livre em nome e... realidade, certo?
          _ Então, o que vai fazer agora, mano? - indagou Hammer - Deixar Nortune?
          _ Ainda não terminamos - Citan juntou pensativamente - Ainda resta uma coisa a fazer aqui.
          _ Eu sei... - Fei acenou afirmativamente - Weltall, certo? Não podemos simplesmente deixa-lo aqui. Temos que recupera-lo de algum modo...
          _ É melhor que presumamos que Weltall foi levado para uma doca diferente - raciocinou Citan - Então, acho que é onde você entra... Hammer.
          _ Entendido doutor! - Hammer acenou animadamente - Vou descobrir onde está o seu Gear... Aposto meu nome como 'o fornecedor número 1 da Capital Imperial' nisso!
          _ Certo, então vamos trabalhar separadamente - disse Fei - Eu trabalho sozinho enquanto vocês, Hammer e Doc, trabalham juntos...
          _ Mano, cê não confia em mim ou coisa do tipo? - Hammer indagou com ar de dúvida - Eu trabalho melhor sozinho! Nada contra Citan, mas ele só vai ficar no caminho, mano. Então, é só deixar comigo, firmeza?
E saiu sem dar espaço para resposta, deixando Fei a balançar a cabeça em negativa.
          _ Esse Hammer...
          _ ... devemos nos mover, também.
          Lembrando-se da mensagem deixada por Rue, Fei e Citan decidiram que era um bom momento para conhecer o Kaiser Sigmund, mas enquanto ainda saíam do aposento, a garçonete e proprietária do prédio, Latina, chamou por Fei.
          _ Ah, Fei, espere um segundo. Hammer acabou de sair, mas deixou uma mensagem pra você. Ele quer que você o encontre no bar 'Gato Selvagem' na parte civil da cidade, uma vez que tenha cuidado de tudo. Entendeu?
          Agradecendo, Fei e Citan tomaram o rumo para o Distrito Administrativo Central, como Sigmund requisitara. As pessoas do Bloco D o olhavam com admiração agora enquanto caminhava pelas ruas, curiosos com o recém-chegado que derrotara Ricardo Banderas. Havia olhares rancorosos, também, mas Citan alertou que Fei não desse atenção. Fosse como fosse, não ficaria muito tempo com o título do Campeão, uma vez que estava livre do colar explosivo e em breve recuperariam Weltall, deixando Nortune.
          Nortune tinha em seu centro urbano o imponente Distrito Administrativo, uma construção de cor avermelhada imensa que parecia sobressair-se por sobre toda Kislev. Para lá foram Citan e Fei, e os guardas interpelaram o rapaz assim que chegou:
          _ Este é o Centro Administrativo. Apenas pessoas autoriz... hã? Ora, se não é o Campeão dos Lutadores, Fei. O Kaiser o aguarda. Por favor, venha por aqui.
          Escoltados pelos dois guardas do portão, Fei e Citan penetraram no Distrito. Sendo assim, não viram que segundos depois o próprio Ricardo Banderas entrou no salão frontal, olhando em volta.
          _ Hm. Ninguém aqui - acenou com a cabeça - Como pensei. A segurança foi reduzida para atrair Fei. E...
          Verificou a porta de acesso. Trancada. E mesmo ele não poderia forçar aqueles portões eletrônicos, e nem sabia as senhas da tranca.
          _ Agora, suponho que bater na porta está fora de questão? - olhou em volta, encontrando o que procurava à sua direita - Acho que posso entrar por aquele duto de ar ali em cima.
          Enquanto entravam, Fei notou que os corredores, portas e acessos eram realmente impressionantes em sua tecnologia, e Citan discretamente comparou o maquinário e o nível de avanço ali presentes no Distrito com a da Yggdrasil de Bart e Sigurd. Detendo-se diante de um elevador, um dos guardas os instruiu para que seguissem até a escadaria da ala oeste, para chegar aos aposentos do Kaiser. Citan também achou curioso que o elevador não apenas subisse, mas se deslocasse na horizontal em parte do trajeto. Por fim, chegaram aos aposentos de Sigmund, um homem idoso, de rosto barbado e orelhas pontudas, com um ar natural de liderança e olhos firmes, que tocava órgão quando eles entraram. Sem se voltar, ele indagou:
          _ Quem são vocês?
          Voltou-se, então, e pareceu ficar surpreso antes de reconhecer o rapaz diante de si.
          _ Entendo... Então, você é Fei... Seja bem vindo.
          _ Você...? - Fei estava confuso, por estar certo de não reconhecer o idoso governante de qualquer outra ocasião - como me conhece?
          _ Há há hah. Perdoe-me. Eu sou o Kaiser de Kislev, Sigmund. Isso pode soar um tanto súbito, mas você gostaria de unir forças conosco? Preciso de seu apoio.
          Um pedido estranho e incomum, que deixaria Fei abismado em outra ocasião. No entanto, com um súbito som de queda, uma figura verde musculosa caiu dos dutos de ar do teto e levantou-se tão depressa quanto pôde, olhando com espanto para os demais.
          _ Ah...
          _ Hã? - Sigmund foi o mais surpreso - É você! Rico!
          _ Oh-oh, nada bom! - mais que depressa, Rico voltou-se para a porta e saiu dizendo - Foi mal, volto outra hora. Até mais!
          _ ... Mutante! Segurança! - gritou Sigmund - Prendam este intruso! Ele não estava com vocês, estava?
Seu olhar inquiridor e frio parecia estranho vindo do mesmo homem que ainda um instante atrás pedia a eles que se unissem a ele de forma gentil, e de qualquer forma, Fei não entendia o que estava havendo e tentava se explicar enquanto, do lado de fora, Rico fugia pelos corredores. Deteve-se por um instante diante dos elevadores, mas sacudiu a cabeça e tornou a correr.
          _ Não. Pra baixo não adianta...
          Correu mais, seguindo pelos corredores até uma curva onde dois guardas protegiam uma porta selada, e pareceu a Rico que podia ser um bom lugar para ficar oculto até que a situação se acalmasse. Dirigindo-se às sentinelas com sua atitude mais natural, ele disse com simplicidade:
          _ Ei! O Kaiser está chamando vocês.
          _ Sério? - um dos guardas abandonou imediatamente o posto, mas o outro olhou desconfiado para o mutante enorme e desconhecido e perguntou:
          _ Tá tudo bem se...?
          _ Claro, pode deixar! - o outro guarda disse - Essa porta não abre pra ninguém, exceto o Kaiser e sua esposa.
          Os guardas se foram e Rico aproximou-se da porta. Se pudesse ocultar-se lá dentro, pelo que ouvira dos guardas, podia ser possível encontrar outra entrada de ar insuspeita e então...
          A porta abriu-se sozinha assim que ele se aproximou e, apesar de surpreso, Rico ficou satisfeito. Fora mais fácil do que esperara. Entrou no aposento reservado para procurar uma entrada para o sistema de ar, e então se deteve.
          O quarto era ricamente mobiliado, como convinha à esposa do Kaiser de Kislev. Mais do que a opulência do lugar, no entanto, havia algo mais que prendeu a atenção do ex-Campeão dos Lutadores de Kislev, fazendo-o esquecer momentaneamente seus planos de fuga. Algo familiar demais.
          _ ... Esse quarto...?
          Caminhou até o centro do aposento sextavado, olhando em volta e farejando.
          _ Esse perfume...
          Foi como se houvesse um clarão diante de seus olhos e Rico olhou fixamente para o espelho da penteadeira. Havia algo familiar demais naquele móvel.
          _ ... Eu já vi isso...
          A cama à sua direita, o espelho... Era muito estranho, mas ele estava certo de já conhecer aquilo. Mas, se nunca entrara ali...
          _ ... Quando é... Que foi...
          Outro lugar. Uma cabana pobre e muito estreita, e uma voz de criança.
          _ ... ãe.
          A porta abriu-se, revelando um garotinho de longos cabelos e descalço. Ele falava com uma senhora de ar gentil diante de um antigo fogão de duas bocas.
          _ ... amãe.
          Correu até a mãe, conseguindo então a atenção dela, o ar abatido abrindo-se num sorriso ao ver a criança.
          _ Mamãe, por quê Jenny tem um pai e eu não tenho?
          _ Bem, é que o seu pai é... Então... É por isso que...
          Havia uma explicação, claro, mas parecia difícil ouvir as partes mais importantes, pensou Rico.
          Uma curta passagem de tempo. Apesar disso, o menino e sua mãe continuavam a morar na mesma casa, sem sinal do pai. E a pobre mulher parecia mais enfraquecida à medida que o tempo seguia em frente.
          _ ... amãe... você tem que descansar.
          _ Agora me escute! - ela interrompeu com ênfase - Seu pai é um grande homem... Algum dia, você vai seguir os passos dele...
          Foi subitamente interrompida por um acesso de tosse e o menino acudiu como pôde, apavorado.
          O tempo seguiu adiante. O menino começara a entrar na puberdade, beirando os onze ou doze anos, e entrou novamente correndo para encontrar sua mãe sentada a um canto da cabana.
          _ ... ãe. Mamãe... Eu sou diferente das outras crianças.
          A mãe voltou-se com ar cheio de pesar e cansaço, parecendo esforçar-se para dar atenção, enquanto o menino olhava para si mesmo confuso.
          _ ... até as minhas unhas são longas, e olhe pra as minhas orelhas...
          Foi a primeira vez em que a mãe pareceu abalada de fato, sem saber realmente o que dizer.
          _ ... não, não... não é... Não é bem assim...
          _ ... Miyo, do outro lado da rua - os olhos do menino agora estavam cheios de lágrimas - fica dizendo que eu não sou humano e que, quando eu ficar mais velho, vou me tornar um meio-humano.
          Correu até a senhora de ar cansado e a abraçou, e então ergueu os olhos úmidos para ela.
          _ Eu... não sou humano? Então... você não é minha mãe...? Não... Eu não quero isso...
          _ Oh Deus... - a senhora de ar cansado abraçou o menino e baixou a cabeça - tenha piedade desta criança...
          O tempo tornou a avançar. A aparência do menino mudara mais, e seus cabelos, unhas, presas e orelhas longas eram indisfarçáveis. A cabana estava cercada, e vozes vinham de fora.
          _ ... Saia! Vá embora, seu menino mutante!
          A mãe do menino afastou-se da janela, parecendo ir até a porta, mas não dera três passos quando um violento acesso de tosse a fez dobrar-se e, depois de cair de joelhos sem conseguir recuperar o fôlego diante de um acesso tão violento. O menino, sem saber ao certo o que fazer, aproximou-se dela e abraçou-a, gritando:
          _ Waaaaaaaa, ajudem! Ajudem, minha mãe está...!
          Um lapso menor de tempo desta vez. Ela estava deitada, em seus momentos finais. O menino chorava ao seu lado. Com um sorriso terno no rosto, ela esforçou-se para dizer:
          _ Aqui... Escute... Você estará... por si mesmo... de agora em diante...
          _ Mãe... Eu estou... Eu sou...
          _ Eu sou...? Sou mesmo...?
          A figura do menino mudou, e Rico então percebeu que era um rosto que conhecia bem.
          _ É... Aquele menino... sou eu? Minhas memórias da infância... Eu tinha esquecido... Por quê estou lembrando disso agora... Este quarto...? Aquele perfume suave...
          Rico ainda estava preso às suas lembranças, alheio a tudo a sua volta por algum tempo, e por isso levou algum tempo antes de ouvir as batidas na porta e a voz familiar de Fei.
          _ Ei! Você está aí? Abra...
          De forma meio ausente, quase como se despertasse de um sonho, Rico foi até a porta, abriu-a e tornou a voltar-se para o aposento, enquanto Fei dava-lhe uma reprimenda e Citan observava de forma curiosa à decoração e também a reação de Rico.
          _ O que você está pensando, invadindo o Distrito Central desse jeito? Isso não é nada bom... hã? O quê?
          Por um instante, parecera a Fei ver pelo reflexo do espelho na parede diante deles que o Campeão dos Lutadores de Kislev, Rico Banderas, tinha algo brilhante em seus olhos, algo que ele não podia ver enquanto o outro estava de costas. Rico voltou-se para ele esfregando os olhos displicentemente e não parecia alterado quando disse:
          _ Esqueça... Esqueça-se disso...
          E deu as costas a eles outra vez, dirigindo-se para a saída do aposento. Fei não entendeu o que acontecia, mas Citan tocou seu ombro e fez que não com a cabeça. Fosse o que fosse, não era algo que devessem mencionar, e o melhor era que se retirassem de qualquer forma.
          Sigmund e mais dois guardas fortemente armados aguardavam Rico do lado de fora, e o ex-Campeão encarou o Kaiser, que parecia ao mesmo tempo irritado e perturbado.
          _ Você... como entrou aqui? Como passou pela porta? 
          _ Não fiz nada... - Rico respondeu, a voz ainda um tanto abalada - Simplesmente passei pela entrada.
          _ Besteira! - um dos guardas exclamou - Ela não abriria a menos que lesse o DNA correto! Não ia abrir assim tão facilmente!
          _ ... provavelmente foi um defeito - murmurou Sigmund - Não importa... Prendam o intruso. O Comitê de Batalha está atrás dele por romper o contrato. Deixe que eles lidem com ele.
          "Sim senhor!", responderam os guardas em coro, pra algemar Rico e conduzi-lo. Detendo-se por um momento, ele voltou-se para Citan e Fei uma última vez.
          _ Bem... vejo vocês qualquer dia.
          Sigmund ficou olhando fixamente enquanto seus guardas levavam o musculoso meio humano que fora o Campeão de Kislev por três anos consecutivos com um ar profundamente pensativo, e Citan achou particularmente curioso o comentário feito por ele em seguida.
          _ Não... Não há possibilidade de que ele seja...
          O Kaiser pareceu então se lembrar dos dois homens parados ali e se recompôs como pôde, explicando:
          _ Aquele homem foi suspeito de tentar me assassinar. A polícia está cuidando do assunto agora. Bem, tenho questões urgentes a cuidar, então, se me dão licença... Estejam à vontade para andar ao seu gosto pelo distrito. E quanto à minha proposta... Estarei aguardando uma resposta positiva. Tenham um bom dia.
          Citan lembrou então que Hammer já devia ter a informação que queriam e sugeriu que fossem até a área civil da Cidade para encontrar o bar Gato Selvagem e também ao fornecedor. Chegando à cidade, mal Citan sugerira algo para que encontrassem o bar, Hammer surgiu correndo e gritando alegremente:
          _ Ei, mano! Com esses ouvidos, eu consegui tudo o que precisava saber do seu Gear! Hee-hee, descobri onde tá o seu Gear, mano!
          No ato, Fei saltou sobre Hammer e agarrou sua boca. Havia guardas nas proximidades guardando os portões daquela ala e com certeza devia haver ocasião melhor para discutirem sobre Weltall do que ali.
          _ Espere um segundo! (você não acha que é perigoso falar desse tipo de coisa por aqui??)
          _ Hã? O que há com você, mano? - Hammer parecia confuso - Eu tenho informações sobre o seu Gea...
          Citan imediatamente aproximou-se da direita de Hammer, assim como Fei o guardava pela esquerda e os dois guardas olhavam com ar desconfiado. Numa voz baixa, Citan explicou:
          _ Mais tarde eu explicarei. Agora, apenas vá andando, OK?
          Fei fez que sim com a cabeça, os dois largaram Hammer e se afastaram, seguindo para o centro da cidade enquanto Hammer continuava sem entender.
          _ Hã? Mano? D-doc? Citan? A-aonde vocês vão? Espeeeeeeeeeeeerem!
          Os guardas olharam interrogativamente um par o outro e balançaram as cabeças. Ex-prisioneiros podiam ser loucos por vezes!
          Fei e Citan conduziram Hammer até o terraço de uma das casas, sem dúvida um ponto seguro, e Fei acenou que sim.
          _ Deve ser seguro aqui. Agora, Hammer, me diga onde está o meu Gear.
          _ Como o Doc previa, mano, seu Gear foi levado pra outra doca de envio.
          _ Então - indagou Citan - onde, neste mundo, está Weltall?
          _ Não 'neste mundo', mas sob ele! - respondeu Hammer - Ele está numa doca subterrânea do Bloco D! Eu já verifiquei e descobri que há duas rotas que podemos usar pra penetrar lá. A primeira exige que entremos através do terreno da Arena de Batalha.
          _ Bom - Fei meditou de cabeça baixa - não há como penetrarmos pela Arena de Batalha. Qual é a segunda maneira?
          _ A segunda maneira é um pouquinho perigosa, já que envolve o túnel do trem de suprimentos. Você tem que entrar nos dutos do túnel e segui-los direto até que levem às docas. Mas não deu pra descolar a planta dos dutos... foi mal, mano.
          _ Ah, aquele túnel, hein? - Fei já vira o trem automatizado passar próximo de seus aposentos - Bem, agora que temos o problema da bomba fora dos nossos pescoços, podemos ser capazes de conseguir!
          _ Sim - ponderou Citan - mas ainda não temos qualquer conhecimento dos horários em que os trens passam. Será possível um trem de suprimentos passar em um horário que seja de qualquer valia para nós?
          _ Nem tudo isso tem que ser decidido agora. - lembrou Fei - Vamos aproveitar nosso tempo e planejar com calma. Primeiramente, Hammer - e voltou-se para o mecânico - desculpe por te deixar de fora, mas... poderia descobrir pra nós os dias e horários em que o trem de suprimentos opera, por favor?
          _ 'Xá comigo, mano! Bom então, eu vou nessa.
          Por ora, Fei e Citan resolveram voltar ao Bloco D para planejar seus próximos passos, embora muito ainda fosse depender dos horários que Hammer iria conseguir. Assim que chegaram ao bloco dos prisioneiros, no entanto, foram abordados antes de chegar aos seus aposentos por dois Lutadores e uma Amazona, e Fei achava que já os reconhecia de algum lugar.
          _ Quem são vocês?
          _ Não seja tão cruel - disse um dos Lutadores - Estivemos esperando por vocês.
          _ Esperando? - Citan ficou cauteloso - por... nós?
          _ Por favor, venham com a gente - disse o outro Lutador, e Fei ficou apreensivo.
          _ Isso não vai ser outra estúpida ' Cerimônia de Batismo', vai?
          _ Ei, ei, esperem um minuto! - interrompeu a Amazona - Não estamos tentando começar uma briga. Fiquem falando assim - dirigiu-se aos colegas - e vamos acabar tendo um mal-entendido. Deixem isso comigo.
          _ Tá, desculpa...
          _ Bem... - Citan ponderou - presumo que vocês não sejam hostis...
          Fei concordou com a cabeça, ainda cauteloso, mas a Amazona fez que não e comentou:
          _ Não aqui... Vamos para outro lugar. Venham, me acompanhem.
          _ Me parece que não temos escolha - comentou Citan em voz baixa - Vamos, Fei?
          O rapaz concordou com um aceno. Os três não pareciam perigosos, mas ele lembrava-se de que Rico tinha muitos servos fiéis até a cegueira, que poderiam agir violentamente mesmo contra a vontade do Campeão. Assim, todos foram até os aposentos reservados para conversar.
 
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