|
|
|
|
Capítulo 16: Horror nos Esgotos
|
Fei desceu na frente, seguido por Rico e Citan. O cheiro ali era horrível,
mesmo o ar poluído e decadente do Bloco D de Kislev seria preferível
ao ar quase irrespirável daquele sistema de esgotos. As águas,
iluminadas pelas lâmpadas de manutenção, eram esverdeadas
e escuras, e corriam em seus canais rumo aos níveis inferiores,
e ele perguntou a Rico.
_ Que lugar é este que você falou? _ Vamos dar uma olhada por aí. Vamos falar mais se acharmos mesmo ele. _ Você duvida mesmo de mim? _ Shh, quietos! Fei e Rico voltaram-se para Citan, que olhava para as áreas internas do sistema de esgotos com um olhar apreensivo e cauteloso, procurando ouvir além do som da água corrente. Rico aproximou-se do doutor, os músculos poderosos subitamente tensos. _ O que foi? (Ele espreitou pelo canto de uma parede. Três homens, um deles... olhando em sua direção! Voltando-se depressa, ele deixou-se seguir o fluxo da correnteza e tratou de desaparecer nos esgotos). Citan continuou olhando para baixo, incerto se havia mesmo visto algo estranho mais abaixo ou não. Por fim, voltou-se para os demais e respondeu evasivamente: _ Bem... Vamos dar uma olhada pelos arredores. Não tiveram que procurar muito para serem atacados por um par de Vespas Gigantes, mas não houve maiores problemas com o esforço combinado do trio. Desceram pela escuridão e atravessaram uma das pequenas pontes que cruzavam os canais, encontrando por fim uma silhueta humana traçada no chão, típica de cenas de assassinato, e havia uma quantidade considerável de manchas de sangue espalhadas pelas paredes e pelo piso, e Fei perguntou: _ Aqui...? _ Esta é uma das áreas de assassinato - confirmou Rico. Citan aproximou-se e notou que algumas das manchas na parede eram mais do que marcas espirradas; haviam letras marcadas precariamente ali. _ Há algo escrito no muro... Ve... Vermelho... Monstro Vermelho... Deve ter sido a mensagem final do assassinado. Um monstro vermelho... Muito interessante. _ Deve ter escrito enquanto estava morrendo. - observou Rico, enquanto Fei como de costume olhava para Citan sem entender para onde os pensamentos do seu amigo estavam indo. Ele obviamente tinha tirado alguma conclusão, mas não estava certo dela ou não queria comenta-la. E Rico notou então algo mais. Um dos canos de escoamento do sistema de esgoto, próximo ao local do assassinato, estava repleto de uma substância verde pegajosa que se espalhava por toda a volta. _ Ei, que meleca é essa? Que sujeira...! Tornaram a encontrar a mesma substância mais abaixo, próxima novamente a uma marca de assassinato. Era o mesmo cenário de antes: a silhueta marcada em giz branco, manchas de sangue por toda a parte e a gosma verde espalhada pelo cano de escoamento. _ O que é essa coisa pegajosa, afinal? - perguntou Fei. _ Tem mais disso perto daquele cano lá de cima, e desse aqui - E Rico apontou para o cano. _ Seria alguma coisa que o monstro deixou então? _ Ainda não podemos ter certeza - Citan comentou pensativamente - mas... é bem provável. _ Bom, não podemos ficar rondando aqui embaixo o tempo todo - Rico interrompeu bruscamente, mostrando algo similar a um mapa dos esgotos - Os sons das lutas que temos de tempos em tempos com os monstros normais daqui do esgoto só vão servir pra atrair mais deles. Isso aqui deve nos guiar pelos trechos mais perigosos, até encontrarmos o meu conhecido daqui de baixo, que deve nos ajudar. _ Você conhece alguém que mora aqui? - Fei não podia acreditar - Que tipo de pessoa viveria aqui, em meio aos monstros e ao esgoto? _ E quem foi que disse que é uma pessoa? Fei olhou indagadoramente para Citan, que meramente deu de ombros, e os dois seguiram Rico até as proximidades de uma queda d'água formada pelo desnível dos esgotos, e resolveram descer logo antes que mais monstros chegassem. (Lá embaixo ele rosnou, podia sentir que continuavam vindo, e ele não podia descer mais do que aquilo. Iria evita-los se pudesse, mas se fosse inevitável, os três perseguidores encontrariam um destino semelhante ao dos outros infelizes que haviam descido até ali. Já morrera tanta gente...! Por quê continuavam vindo?) O trio não tardou a chegar lá embaixo, e Citan novamente tomou a dianteira, olhando intrigado na direção do interior do sistema de esgotos, fato que chamou a atenção de Rico depois que ele tirou os olhos do mapa que trazia: _ O que houve, Citan... Tem alguma coisa aqui? _ Um tilintar... Acho que ouvi algum tipo de som de sinos! _ Sino...? - Fei perguntou, e uma luz de reconhecimento se fez presente nos olhos de Rico, que ficou pensativo também por um momento. _ Sino...? Um sino! Agora que mencionou, Citan... Há um rumor sobre um som estranho de tilintar aqui embaixo recentemente. Os três se puseram em guarda, esperando ver algum movimento nas trevas ao redor que pudesse denunciar o que Citan ouvira, mas nada surgiu a princípio. Quando finalmente aconteceu, uma forma semelhante a um tubarão saiu das águas do esgoto próximas a eles e os atacou, saltando sobre o trio. Fei e Citan se esquivaram, mas Rico a recebeu nos braços e caiu para trás, usando o impulso do monstro e o peso de seu corpo para esmaga-lo contra o chão. A luta terminara antes mesmo de começar, o que não deixou de ser impressionante. _ ... É realmente forte, Campeão - Citan observou, admirado. _ Hnf. É só o básico, se quiser sobreviver nos esgotos do Bloco D, doutor - Rico deu de ombros - Agora vamos. Duvido muito que fosse essa coisa o que você ouviu agora há pouco. Desceram por mais algum tempo pelos esgotos, e Fei pensou consigo mesmo que até mesmo o mapa de Rico não era suficiente ali, o sistema de esgotos parecia muito maior do que a própria cidade, e com a escuridão, os monstros e a coisa assassina desconhecida ali embaixo, eles estavam em franca desvantagem. Lutaram contra mais algumas criaturas do esgoto aleatoriamente e a luta não parecia mais ter fim. Os monstros, semelhantes a sapos gigantes, chamavam mais e mais reforço à medida que iam sendo derrotados, e mais do que a habilidade de batalha dos três, foram os poderes de cura de Citan que os mantiveram de pé até o fim. Já exaustos das batalhas, eles finalmente chegaram a uma curva à esquerda onde encontraram um pequeno lagarto verde que, curiosamente, perguntou: _ Quem são vocês? _ Ei Vovô, o que está fazendo aqui? - perguntou Rico - Achei que a entrada principal tinha sido bloqueada. Não devia estar tomando conta dos exterminadores de ratos mecânicos? Fei e Citan se surpreenderam um pouco, enquanto ambos percebiam que era aquele pequeno lagarto a 'pessoa' que Rico pretendia encontrar ali. E o velho lagarto fez um ar de enfado. _ Hnf. Eu conheço bem os meus deveres, mocinho! Só resolvi dar uma volta. Sempre cuidei daquelas máquinas idiotas, tenho certeza de que podem agüentar um tempo sozinhas. _ 'Sempre'? - perguntou Fei - O senhor viveu nesse lugar a vida toda? Não é perigoso? _ Como pode ver, eu sou um mutante. Então os monstros nunca me incomodam. Mas, ultimamente, meu novo vizinho tem agitado as coisas por aqui. _ Mesmo? Nós estamos procurando por ele. - respondeu Rico. _ Ah, é? Se livrariam dele por mim? Eu ficaria muito grato. E, se quiserem saber qualquer coisa, é só me perguntar. _ Pra começar - Citan indagou - sabe algo sobre o som de sinos que tem se ouvido por aqui? _ Ah, claro. Isso também tem a ver com o novo vizinho, imagino, já que não era ouvido até a chegada dele por aqui. E, recentemente, um dos exterminadores ficou encrencado por causa disso aqui. E estendeu para eles um tipo de amuleto curioso, semelhante a uma corrente de pescoço. O interessante era que tinha um minúsculo sino preso nele e, ao testar, Citan observou: _ É muito semelhante ao som que pensei ter ouvido quando viemos até aqui... Me pergunto o que significa... _ Talvez possamos atrair a coisa usando isso - Rico comentou - Vovô, talvez fosse melhor você sair daqui. _ Garoto idiota, isso não vai funcionar. Não assim, pelo menos. _ O que quer dizer? - perguntou Fei. _ Pense, menino. Tenho andado com essa coisa por toda a parte e duvido que não tenha tocado, nem ao menos acidentalmente. Se este sino fosse mesmo a isca ideal, eu já teria virado comida dele. Não... Sempre há aquela gosma verde perto dos canos que ele usa pra se mover pelo esgoto. E ele nunca volta duas vezes ao mesmo lugar. _ Então, do que precisamos é um cano com a gosma nas proximidades, mas sem áreas de assassinato por perto. _ É... ou pelo menos é o que eu acho. Há um assim neste nível, ao norte daqui. (Estava além de todos, agora. Encontrara um local fácil para mover-se, indo ao ponto de junção de todos os longos canos de escoamento, e podia deslocar-se com facilidade para onde quisesse. Ele não tinha mais consciência clara de certas coisas, mas o único acesso além dos canos para aquela sala era uma porta trancada. Ninguém deveria ser capaz de incomodá-lo ali. Por via das dúvidas, ainda, ele se mantinha nos canos mais altos, empoleirado como uma aranha ou um grande pássaro. Se alguém entrasse ali, ele tanto poderia fugir pelos canos... quanto atacar por cima). Fei, Citan e Rico dirigiram-se para onde o 'Vovô' indicara, e o doutor pareceu satisfeito. _ Com certeza, este deve ser o único cano de escoamento com a mesma substância verde e sem áreas de assassinato próximas. Bem, - ele olhou em volta e posicionou-se de costas para a parede, para não ser pego de surpresa - vocês estão prontos? _ Sim - Rico apertou os punhos. Toque logo essa coisa, Fei. _ Certo - Fei também estava nervoso, e o grupo se posicionou de forma que a criatura não pudesse surpreende-los em qualquer das direções - Aí vai. E o sino em sua mão tilintou vigorosamente, esperando que o som se propagasse o bastante pelo sistema de canos. (Um som! Sino! Aquilo... Quase fazia lembrar alguma coisa. Mas ele ainda se lembrava do mais importante; tinha que encontrar a fonte do som). Fei tocava o sino de forma que soasse uma vez num intervalo intermitente, e sempre com força, garantindo que seria ouvido mesmo à longa distância. (Ele deslizou depressa, aproveitando as águas para aumentar a velocidade. Passou por hélices de ventilação, limpadores de ratos... e viu a luz). Tenso como os outros, mais do que ver, Citan sentiu a presença próxima. _ Está aqui! _ Fei, atrás de você! Rico voltou-se de repente no momento exato em que... algo... irrompeu do cano e mergulhou diante deles. Os três então viram uma criatura envolta em farrapos vermelhos, com quase nenhuma pele e mãos semelhantes a garras, sendo as da direita longas como espadas. O monstro tinha feições como as de um esqueleto, e começou a atacar assim que os viu, cuspindo sobre eles um estranho gel esverdeado. Citan, que já conhecia aquele tipo de ataque, conseguiu evitar o gel com um salto de recuo, mas Fei e Rico tentaram bloquear a substância por reflexo e foram atingidos em cheio, sentindo-se atordoados e também mais fracos. O gel do monstro causava confusão e envenenamento, e não havia tempo para se curarem com a criatura atacando. O monstro olhou diretamente para eles, e rosnou. Citan se pôs em guarda e o monstro urrou para o alto, fazendo cair sobre eles algo flamejante, como uma chuva de lava. Era um tipo de ataque de Ether próprio de certos monstros, Citan reconheceu, a 'Chuva de Fogo'. "Mais do que força de ataque - ele ponderou - vamos precisar resistir mais do que ele!" A criatura assassina investiu sobre Fei, enfraquecido e curvado pelo veneno, e foi atacado de repente por Citan e seu 'Ukigumo', uma seqüência de golpes semelhantes ao Senretsu de Fei, lançando o monstro para o alto e golpeando-o nas costas com força, para então joga-lo com dureza no solo. O monstro assassino levantou-se rosnando, avançando agora para Citan e derrubando o doutor com seus ataques rápidos. Apesar de ter conseguido mover-se na mesma velocidade, a verdade era que apenas os punhos de Citan dificilmente poderiam conter a fúria da criatura e o doutor caiu para trás, ombros e mangas da jaqueta rasgados pelo monstro e resfolegando por um instante enquanto o assassino tornava a atacar. Ele precisaria de um segundo para se recompor, e estava certo de que não o teria quando a fera parou diante de si e ergueu o punho direito para o último golpe. Dois punhos verdes seguraram as garras da criatura por trás e o monstro pareceu surpreso ao ver Rico atrás de si, travando-o numa chave de braço para então gira-lo para trás num movimento de luta livre: _ Queda Livre! E aterrisou com o monstro por trás de si, derrubando-o de cabeça contra o chão. Mas Rico ainda sentia os efeitos do envenenamento do gel, e o golpe não foi perfeito. E o monstro era descomunalmente forte, livrando-se então do aperto e girando sua garra para abrir um corte considerável no corpo do Campeão. Rico ainda cambaleava para trás e o monstro tornou a atacar com suas garras em riste, quando Fei posicionou-se entre a fera e Rico e se concentrou para superar os efeitos do veneno. _ Hazan! Saltou, atingindo o assassino com uma seqüência de chutes que mais parecia uma caminhada e então saltou para trás, deixando que o monstro caísse na direção de Rico. E o Campeão, ainda que sentindo as dores, saltou e usou seu próprio golpe: _ Banderas! Rico aterrisou no peito do assassino com os dois pés, o peso e impulso de seu corpo arremessando o oponente para trás e retirando-o do solo. E então tornou a se erguer. Mais lentamente agora, mas ainda parecia estar longe de seu fim, enquanto Fei e Rico se colocaram em guarda, ainda sentindo o veneno enfraquece-los e então cambalearam, as vertigens tirando-lhes o equilíbrio como correntes pesadas, e Fei perguntou: _ S-será que... ele não se cansa? _ Bem depois de nós, aposto - respondeu Rico entre dentes - Não admira que os outros tenham morrido; ele é forte! Bem mais que nós, com esse maldito veneno! _ Lá vem ele de novo! Um rugido para o alto, e a Chuva de Fogo caiu sobre os dois novamente, fazendo com que baixassem a guarda. Subitamente, ambos foram lançados para trás pelas garras abertas do assassino, muito veloz para eles. Detendo-se por um instante, ele escolheu Fei para seu alvo, que caíra mais próximo a ele. Agarrou o rapaz e ergueu-o diante de si, e Rico esforçou-se para atacar, mas o monstro desviou Fei por um instante e atingiu o Campeão com suas garras da direita. Por reflexo, Rico protegeu-se com o braço esquerdo e as garras cravaram-se nele, arrancando-lhe um grito. Fei agarrava-se à mão que o prendia, incapaz de respirar ou se soltar, e percebeu com o canto dos olhos que Rico também não ia bem. De algum modo, era como se o monstro estivesse se recuperando as custas da vitalidade do outro, pois Rico fraquejou de repente e quase pareceu que seu braço estava reduzindo-se de tamanho, perdendo o volume muscular impressionante de até então. _ Mufu! Citan atacou pelo flanco desprotegido do monstro, e a fera largou Fei, rosnando e golpeando o doutor com suas garras da mão esquerda, para encontrar apenas o vazio. Citan parecia estar diante da fera e com sua mão estendida para o alto enquanto folhas dançavam à sua volta; na verdade, o aparentemente inofensivo estudioso chegou ao flanco desprotegido do monstro vermelho e o atingiu com uma seqüência de golpes ainda mais velozes que o Ukigumo ou o Senretsu, e só se tornou realmente visível quando subitamente o assassino tombou para trás e soltou o braço de Rico. Enquanto a fera cambaleava aturdida com os golpes rápidos e poderosos, Rico Banderas olhou surpreso para Citan. _ Como você...? _ Depois. Ele vai atacar. O assassino rosnou, subitamente intimidado, mas não iria recuar. Citan estava posicionado e Fei percebeu que não era para se defender. Enquanto o monstro investia novamente, ele ainda ouviu o doutor dizer: _ Eu lamento o que houve com você. Descanse. As garras vieram à frente cortando o ar para atingir Citan, que recuou um passo e atingiu o solo com seus pés, fazendo-o estremecer enquanto liberava seu golpe: _ Jinrei! Citan tomou uma postura diferente enquanto ondas sísmicas leves abalavam o equilíbrio do monstro e a imagem de Citan pareceu novamente incerta. Golpes poderosos tornaram a atingir a criatura, especificamente na cabeça e pescoço com a mesma força que fez o solo tremer, e Citan completou a seqüência com um punho poderoso que lançou o assassino uma última vez para trás, nas águas do esgoto. Dolorido agora, com a mão direita agarrando o braço ferido, Rico ergueu-se e perguntou: _ Mas afinal, que diabos era aquilo? _ E... por quê ele tinha um sino? - perguntou Fei, também ferido. Olhando com ar pesaroso para a forma vermelha envolta em farrapos que desaparecia nas águas, Citan respondeu: _ Ele ainda tinha... ao que parecia... alguma inteligência humana - mas sacudiu a cabeça numa negativa cheia de pesar - Não... Seria melhor dizer, 'ainda lhe restava' alguma inteligência. _ O que quer dizer com... - e Rico interrompeu-se, entendendo tardiamente do que o doutor estava falando - Não... Não pode...! _ Quer dizer que aquilo era...? - Fei também não queria acreditar que o monstro pudesse ter sido humano algum dia, e Citan apenas desviou os olhos. _ ...É realmente muito triste. Pouco depois, já na saída dos esgotos, Rico adiantou-se e disse: _ Preciso... ir a um lugar antes. Encontro vocês no dormitório. E tentou subir as escadas de ferro primeiro, mas o braço ferido pelo monstro doeu mais do que ele poderia reprimir, deixando escapar um gemido baixo. _ Seu braço...! - Fei exclamou - Mesmo a cura do doutor não conseguiu... _ Esqueça. Não é nada... Rico subiu sem olhar para trás nem dar margem a qualquer nova pergunta, e Citan refletiu em voz alta: _ Me pergunto se ele adiará a Batalha no combate por causa daquele ferimento? _ Ele despertou...? _ Sim. Duas vezes... Não... Três vezes, para ser exato. E, se posso indagar... Por quê ele foi removido para um lugar como esse...? Foram os anciões? _ Não - respondeu Cain - Eles estão desejando um afastamento mais imediato. Não que eu os culpe. Eles têm um temor enraizado profundamente quanto a ele. _ Então... - Citan indagou-se o que aquilo significava, já imaginando o que o Imperador diria. _ Sim - Cain confirmou - Provavelmente... _ Seria apressado afasta-lo agora. Não creio que seja tarde demais para aguardar até descobrirmos o seu propósito. _ Se este é o seu julgamento, então que seja. _ Sua vontade é a minha vontade, Sua Majestade - curvou-se Citan respeitosamente - Bem então, permita-me... _ Espere um momento... Citan não pôde entender a princípio, mas logo se lembrou. O Ministério e Cain estavam de certa forma conectados, e o Imperador podia sentir as decisões deles em meio aos seus pensamentos. Após um longo instante, Cain acenou afirmativamente com a cabeça. _ Entendo... _ Sim...? _ O julgamento deles... já foi passado. _ ... O que foi, então...? - Citan não podia imaginar, mas temia até onde o temor do Ministério quanto à 'ele' poderia leva-los, e a resposta do Imperador depois de uma longa pausa apenas confirmou seus temores. _ ... Uma purga! Naquele momento, o grupo havia sido designado para uma missão de escolta e ouvia os detalhes necessários de um oficial comandante. _ ... O Gerador do Portão número um está a 200 kelt a sudoeste de Nortune e a 4000 sharl no subsolo. Suas ondas de interferência tornam o uso de armas guiadas impossível nesta área. Então, até o último minuto, a Hecht deve ser pilotada manualmente. Depois de cancelar o modo de ocultamento, vocês proverão escolta direta para a Hecht dentro da zona de defesa inimiga. Perguntas? _ Bem... _ Sim, tenente? _ Eu entendo as nossas ordens de escolta, mas qual é o nosso objetivo principal? _ Isso é confidencial. _ Mas sem qualquer conhecimento do nosso objetivo - insistiu Elly - nossa resposta a qualquer ordem será lenta. Ainda que só tenhamos sido ordenados a prover cobertura. Precisamos ao menos conhecer o objetivo de ataque... _ O objetivo será revelado durante a missão - respondeu evasivamente o oficial - Estará diretamente ligado aos pilotos da Hecht. _ Mas... _ Sua única preocupação é proteger a Hecht das armas antiaéreas do inimigo. Algum problema quanto a isso? _ ... Não... - Elly não estava satisfeita, mas sabia que não conseguiria mais nada. Provavelmente aquele idiota também não saberia informar o que ela queria saber - Se é só esse o caso... _ Algo mais? Nenhum dos demais se pronunciou, e o relatório principal foi dado por concluído. _ Confirmem as condições climáticas e de terreno antes do início da missão. Este se dará a 1700. Até então, aguardem em suas unidades designadas. Não creio necessitar lembra-los de que esta missão é uma purga. Lembrem-se, temos autoridade completa sobre os Cordeiros. Dispensados. E o oficial se retirou da sala. Com sua saída, Elly foi a primeira a se levantar, e assim que o fez, Stratski desabafou: _ Isso tá cheirando mal, Tenente. Como é que podemos prosseguir com isso? O que ele quer dizer com 'o objetivo não tem nada a ver conosco'? _ Fique quieto! - retrucou Elly - Eu estou pensando! _ Ei, não desconta em mim! Os seis saíram da sala então, e Vance comentou com ar distraído: _ Detesto mulheres histéricas. _ Está pronto pra assumir as conseqüências por esse comentário - Elly perguntou detendo-o na porta, e Vance engoliu em seco e calou-se. Os pensamentos da tenente, no entanto, estavam mais do que afastados do comentário fútil de seu subordinado, e Renk tocou no ombro dela ao sair. _ O que foi? Tem alguma coisa te incomodando? _ Desculpe por eu estar tão sensível - o grupo chegou à sala de espera onde aguardariam até o início da missão, e ela explicou à sua unidade - Aquelas bombas de autodetonação são só unidades aéreas com bombas de classe Kief a bordo. Não vejo porquê eles precisam usa-las todas tão de repente... Os semblantes dos Cavaleiros mostravam alguma dúvida, e Elly desabafou da forma mais simples que era capaz: _ É que há muitas delas. Uma sozinha teria poder de fogo suficiente, mas oito delas é além do exagero. Não nos disseram o nosso alvo ainda, e não vamos derruba-las apenas por diversão. Podem apostar que estou preocupada. _ Talvez pra purgar os Cordeiros? - sugeriu Helmholz. _ Eles são humanos... - Elly tornou - O mesmo que nós, certo? Eles têm que nos dar uma razão. Não posso continuar com isso só porque é uma ordem. _ Hmm... - fez Renk, chamando a atenção de Elly. _ O que? _ Nada... - ele pensou consigo mesmo, ainda de olhos fechados e refletindo, e expôs então seus pensamentos - Mesmo que sejamos chamados Solarianos, somos cidadãos de Terceira Classe, ou 'Abelhas Operárias'. Nós, da Terceira Classe, temos nossas origens nos 'Cordeiros'. Posso entender que tenhamos dúvidas com tais ordens... Mas você, você é diferente. É uma cidadã de Primeira Classe pura, e vem de uma boa família. Ouvi dizer que seu pai tem uma tremenda importância no exército... _ Minha família e meu pai não têm nada a ver com isso - respondeu Elly. _ Bom, se me perguntarem - Renk disse com simplicidade - uma cidadã de Primeira Classe pensando assim é... um pouco incomum. _ Nem tanto... É muito natural. _ ... Bom, e aí? - indagou Helmholz - Você vai fazer isso? _ O exército vai rebaixar todos nós de volta ao nível de cidadãos de Terceira Classe! - lembrou Stratski. _ Não se preocupe, eu vou simplesmente cumprir o meu dever - assegurou Elly - Mas vou só escoltar a Hecht. Não vou ajudar com mais nada. _ ... mas, e se alguma coisa a mais acontecer? - ponderou Helmholz - Você está simplesmente se pondo na berlinda. _ ... não dá pra evitar, eu acho... - Elly comentou meio que para si mesma, e Renk deu de ombros. _ Bom, de qualquer jeito está bom pra nós. Fazer só o que for dito. O resto é resto. _ Estão atrasados! Me fizeram esperar por eras aqui! _ Ah, er... desculpe. É que, depois, o Doc resolveu ficar um pouco mais pra fazer a gentileza de sepultar o monstro... Então, eu esperei do lado de fora. _ ... mesmo? Bem, pelo menos os assassinatos chegaram a um fim. _ Sim, exato - concordou Citan - E Fei provou sua inocência, também! _ É... - admitiu Rico - E a ordem de restrição aos esgotos foi removida, também, eu acho. Seja como for, minha aliança com você termina aqui... Da próxima vez que nos encontrarmos, Fei, nós seremos oponentes! Fei e Citan se entreolharam, um tanto surpresos com a atitude do outro. Era simplesmente natural para o Campeão mostrar sua superioridade, mas com aquele braço ferido isso parecia absurdo. Mas ele falava a sério. _ Vamos, tente me pegar! Eu adoraria ver você tentar ajustar as contas comigo! E deu as costas aos dois, dirigindo-se para a saída. Fei resolveu perguntar: _ Ei, e quanto a aquele ferimento no seu braço? Não pode tentar lutar na Batalha nesse estado! Rico parou de andar e ficou assim por um momento. Sem se voltar, perguntou: _ ... pode mesmo permitir-se preocupação com seu oponente? _ Mas, Rico... _ Preocupe-se com você mesmo antes dos outros! Não se contenha agora! Me dê sua melhor luta! - e voltou-se então, os olhos apertados numa expressão furiosa - Se não fizer o seu melhor, pode ser você quem vai morrer... Fei ficou muito impressionado. Rico era mesmo um Campeão, inclusive em sua atitude. Tamanha altivez merecia sua admiração, e respeito. _ Entendido... _ Certo - Rico pareceu relaxar um pouco em sua expressão séria - Isso é bom... E deu as costas aos dois, deixando o recinto. Após um instante, Citan comentou: _ Certo, agora que esta questão foi resolvida, fiz tudo o que podia para ajudar... O que resta cabe a você, Fei. Tem que solucionar este outro problema com suas próprias mãos. _ Acho que sim... A fisionomia pensativa dele chamou a atenção de Citan, e o médico resolveu certificar-se de que seu jovem amigo estava realmente a par do que dizia: _ A ferida no braço dele o incomoda tanto assim? Fei, você percebe que não temos... _ Eu sei, Doc. - Fei interrompeu com voz decidida - Não temos tempo a perder! E mais, o que ele disse é verdade - você não deve se conter numa Batalha. A honra exige uma luta de verdade! Não posso esquecer disso. _ Parece que eu estava desnecessariamente preocupado - comentou Citan com um sorriso - De qualquer modo, vamos descansar agora. _ A propósito, Doc, eu não sabia que você lutava tão bem! Onde foi que aprendeu...? _ Fei, lembre-se de que passei algum tempo em Solaris - comentou Citan com ar grave - Não quero falar muito sobre isso. Vamos, temos que descansar para estar prontos amanhã. Lembre-se de que você deve primeiro vencer as Finais da Liga, e o Campeão não é o único que tem para vencer. |
|
|
|
|