<<<===
INICIO
===>>>
XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 14: Amigos de Ontem e de Hoje

            Fei despertou devagar, deitado outra vez na enfermaria. Estava dolorido demais e não percebeu na hora, mas havia em volta do seu pescoço um colar alaranjado de metal da mesma espécie que vira antes em Rico. Olhando em volta, sua primeira pergunta foi:
          _ Uhhhh...? Onde eu estou desta vez?
          _ No mesmo lugar, só numa sala diferente – respondeu uma voz familiar – Você teve um dia difícil, hein?
          Era a mesma doutora que o atendera antes. Endireitando-se na cama e sentindo a cabeça doer mais com o movimento, Fei perguntou:
          _ Ah... Oh, é você? Parece que eu precisei da sua ajuda de novo.
          _ É, mas não se preocupe. Eu não me importo, é o meu trabalho! E de qualquer forma, como se sente?
          _ Hm? Aaah... meio dolorido, mas não é nada que eu não possa suportar. Ultimamente, tenho me acostumado a esse tipo de coisa. Aaah...! A última coisa de que me lembro foram aqueles caras falando de que ‘nível’ eles acharam que eu era digno.
          _ Ah, acho que é melhor se eu te disser...
          _ O quê? Sabe de que posição eu sou?
          _ Você é um bocado forte, não é? Derrotar quatro pessoas nas suas condições... Não me admira que tenham te dado nível A! Mas ir contra o Campeão...? É surpreendente que tenha conseguido voltar vivo!
          _ A luta foi sem sentido. Eu não tinha razão pra... Eu não queria lutar...
          Lutar não o havia levado muito longe, ele pensou. Lahan primeiro, e agora... ele não conseguia se lembrar do desfecho da luta no deserto. A partir do ponto em que os homens do general Maitreya eram derrotados pelo Dora fortalecido e Vanderkaum, tudo era escuridão. E a voz da doutora o chamou:
          _ ... O que aconteceu? Você parece um pouco pálido.
          _ ... Não é nada... não se preocupe. Aliás – finalmente notou a peça de metal – o que é essa coisa em volta do meu pescoço?
          _ Ah, isso? É uma bomba – ela respondeu simplesmente - No momento em que você deixar a vizinhança da Capital Imperial, esse colar explode. É uma pena, mas enquanto estiver com isso, você nunca será capaz de fugir de Nortune. Fora os civis do Bloco D e alguns poucos Lutadores, todos têm que usá-los... Aqui, no Bloco D – ela deu as costas a Fei – este é o único elo que prende os prisioneiros.
          _ Uma bomba...? – o olhar de Fei pareceu perdido – Então, não importa o quanto eu lute, nunca vou fugir daqui.
          _ De qualquer modo, você deveria tentar descansar um pouco hoje. Vai ter que se acostumar à vida nesta cidade em breve.
          Fei resolveu aceitar o conselho, até porque ainda estava abatido depois da luta. Aquela idéia de dormir com uma bomba ao redor do seu pescoço incomodava, mas não havia muito que ele pudesse fazer – então, o melhor era dormir.
          No dia seguinte, Fei Fong Wong resolveu conhecer o Bloco D da Capital Imperial de Nortune. De fato, parecia-se com uma cidade para criminosos. Não havia, no Bloco D, a alegria de vida e o barulho tradicional que ele encontrara em Bledavik e Dazil; existiam muitas pessoas ali, claro, mas as casas tinham um aspecto surrado, não se viam crianças nas ruas e tudo tinha um aspecto sombrio, como se fosse um imenso ferro-velho ou favela. Meio que andando a esmo, Fei acabou entrando num lugar menos escuro, com luzes de néon na entrada, e alguém chamou sua atenção assim que ele entrou. Dirigindo-se diretamente a Fei, um homem rato com roupas de mecânico, um colar metálico igual ao seu e óculos veio imediatamente até ele e se apresentou:
Hammer          _ Ah, então aí está você! Permita que eu me apresente... Me chamam de ‘Hammer – o Fornecedor’. Já faz muito tempo desde que um criminoso tão poderoso foi enviado pra o Bloco D! Heh heh, e isso te deixa muito famoso nesta cidade. Em outras palavras, você hoje é o centro das atenções, mano!
          _ ... Quer parar de me chamar de ‘mano’? – perguntou o rapaz, incomodado com os modos e a intimidade do outro – Meu nome é Fei!
          _ E o que há de mais nisso? – Hammer não parecia ter entendido – Não é como se eu estivesse te rebaixando. O quê, cê preferia que eu te chamasse de ‘senhor’ ou coisa parecida?
          _ Ah... faça como quiser! – “Não tem outro jeito mesmo!”, Fei pensou, dando de ombros. Não estava com muito ânimo para discutir.
          _ Então, tá decidido: vou continuar te chamando de mano daqui por diante! Aliás, mano, ouvi dizer que você é forte pra valer. Não tem muita gente que consiga nível A, sabia? Tô muito impressionado! E... mas, mano, você parece diferente dos outros prisioneiros.
          _ Diferente, hein...? – olhou Hammer de alto a baixo, com um olhar inexpressivo – Você também não parece muito normal.
          _ Ei, isso não foi um insulto... Só uma impressão que eu tive. Não tem nenhum sentido oculto! Ah, e se tiver qualquer problema, fale comigo! Já que eu sou um fornecedor, eu tenho todas as conexões!
          Fei se perguntava o que havia feito para se tornar tão popular e tão depressa em Nortune, mas afinal, havia tempo para isso. Saiu do bar, então, meio incomodado com a sensação de que todos lá dentro olhavam para ele, e ainda não tinha dado dez passos para fora quando um guarda nas ruas o parou e disse:
          _ Ei, você não é o novo sujeito? O Comitê Imperial está procurando por você. Eles ouviram algo sobre você e os homens do Campeão... Ainda devem estar em algum lugar do Bloco D. Eles decidiram te visitar... É uma boa chance pra um prisioneiro como você!
          Apesar de não fazer idéia do que era um ‘Comitê Imperial’, ou do porquê de o estarem procurando, Fei achou que era melhor encontrá-los de uma vez. Procurando pelas ruas, ele não viu nada nem ninguém que lembrasse um representante do império e acabou voltando aos seus aposentos – seria um bom lugar para encontrar alguém ou ser encontrado. No entanto, não havia ninguém especial á vista por lá, tampouco.
          _ Também não estão aqui... Será que já partiram?
          Mal ele perguntou, dois soldados com o uniforme azul de Kislev surgiram, seguidos por uma mulher de aspecto importante que imediatamente se dirigiu a ele. 
          _ Então, finalmente eu consegui encontrá-lo. Você é Fei, certo? E... 
          Os dois guardas continuavam parados diante dela, olhando para Fei com ar ausente, e isso tornava o diálogo entre ela e o rapaz um tanto mais difícil.
          _ Saiam do caminho!!
          Com o susto, ambos se voltaram para ela, murmurando pedidos de desculpas e abriram caminho, enquanto ela resmungava:
          _ Vocês homens não têm jeito! É por isso que eu não queria vir com vocês dois! Aham! – dirigiu-se a Fei novamente – Permita que eu me apresente; sou Rue Cohen, do ‘Comitê de Batalha Imperial’ do Bloco B desta cidade, a Capital Imperial.
          _ ‘Comitê de Batalha Imperial’? O que querem comigo?
          _ Eu vou direto ao ponto. Queremos que participe do Torneio de Batalha.
          _ ... Batalha?
          _ É um esporte recreacional, onde Gears lutam com outros Gears ou até com monstros, dependendo da programação. Atualmente, não há regras para elegibilidade. E nós, o Comitê, raramente interagimos diretamente com os participantes. Você deveria estar honrado. Teve sorte que aquele pequeno incidente com o Campeão tenha conseguido nossa atenção tão depressa. Bem, e então...? Melhor um Lutador do que um prisioneiro... Não é um trato tão ruim, no final.
          _ É verdade... – comentou um dos guardas.
          _ É, o trato não é nada ruim...
          _ Vocês dois, quietos! – Rue Cohen retrucou – Eu estou falando com ele!
          _ Eu sinto muito – Fei acenou negativamente com a cabeça – mas eu não gosto de Gears. Não tenho nenhum interesse em torneios de recreação deste tipo. E, acima de tudo, eu nem sequer tenho um Gear. Então, mesmo que eu quisesse participar, não poderia. Vocês estão pedindo demais!
          _ É verdade... – concordou o primeiro guarda.
          _ É, estamos pedindo demais!
          _ Psssiu, fiquem quietos eu já disse! – bronqueou Rue, conseguindo mais pedidos de desculpas dos soldados e voltando-se para Fei novamente – Hmm, me desculpe... mas não se preocupe com o último problema. O Gear de que precisa para a batalha será providenciado pelo Comitê. E então, vai participar?
          _ Não me faça repetir – tornou Fei – Eu odeio Gears e não estou interessado neste tipo de coisa!
          Rue obviamente não esperava aquela resposta, nem naquele lugar, e muito menos de um prisioneiro como Fei.
          _ Se não mudar de idéia, então você vai...! – mas ela controlou-se no fim, parecendo recuperar a calma, e deu de ombros – Bem, você ainda é novo aqui. Eu vou te dar mais tempo. Talvez tenhamos sido apressados demais... mas, por favor, pense seriamente nessa oferta. Eu vou ficar esperando por uma resposta favorável. Bem então... eu espero vê-lo de novo em breve.
          E abriu caminho, saindo acompanhada por seus guardas. Fei a viu sair e comentou para si mesmo:
          _ Gears, hein?
          Aquilo era fora de propósito; ele, outra vez em um Gear! Resolveu sair novamente, mas mal o fizera, deu de cara com um apalermado Hammer diante de si.
          _ Whoa! Ha, Hammer?!
          _ Mas por quê cê fez isso, mano?
          _ Isso? – o homem rato parecia desconsolado, balançando negativamente a cabeça, e Fei ficou confuso – Espera aí, Hammer, do quê está falando?
          _ Eu ouvi toda a história com os meus próprios ouvidos! Por quê rejeitou o convite deles? É uma ocasião realmente rara o Comitê vir pessoalmente fazer contato! Ainda não é tarde demais! Vai nessa, mano! Ainda podemos conseguir, certo? Você vai ser um Lutador... Um Lutador!!
          _ Ah, isso... Se ouviu a conversa, já deve saber. Eu não gosto de lutar. E Gears, bem...! Mais ainda, não tem razão para eu fazer isso.
          _ Se virar um Lutador – enfatizou Hammer – você pode deixar a prisão e viver no luxo! O poder é tudo aqui! Os sem poder... Os fracos são simplesmente oprimidos! Então vai lá, faz uma tentativa!
          _ É tudo? – perguntou Fei de cabeça baixa.
          _ Hã? O que quer dizer?
          _ Já terminou?
          _ Terminei?
          _ Você já falou o bastante... Agora, poderia sair do caminho? Hammer, eu sinto muito, mas duvido que meus sentimentos vão mudar. Lutar e Gears, eu odeio os dois. Então, lamento!
          _ Ô, mano... – lamentou Hammer enquanto Fei saía.
          Ao menos, não havia mais ninguém à sua procura, pensou o rapaz ao voltar para as ruas. Agora, gostaria de saber da doutora o que um sujeito poderia fazer ali no Bloco D para se ocupar, e resolveu voltar para a ala médica. Mal entrara no prédio quando, da porta oposta do salão, Hammer entrou correndo e gritando:
          _ Mano, eu tenho novidades! Novidades! O novo médico que foi indicado hoje acabou de chegar!
          _ Hammer – Fei olhou para trás, surpreso, e voltou a olhar para o outro – você não devia estar lá atrás...?
          _ Ah, mano, não devia se preocupar com esses detalhes à toa! Se você apenas confiar em mim, o líder da informação, vai saber de tudo! Agora, quanto a este doutor...
          _ Quanto a que doutor?
          _ O quê? Você não soube, mano? A moça doutora anterior foi transferida pra tomar conta do setor civil da cidade! Deixa a gente com inveja, né! Então, arrumamos um novo doutor pra tomar conta do Bloco D. Disseram que ele já chegou aqui!
          _ O novo doutor, hein...? E então, o que raios esse novo doutor tem a ver com você, o ‘grande Fornecedor’?
          _ Do que é que cê tá falando, mano? É claro que eu tenho tudo a ver com ele! Se eu virar camarada dele, posso expandir minhas conexões estabelecendo rotas de tratamento médico no mercado negro!
          _ Então é isso, hein? – Fei pensou consigo mesmo que deveria ter adivinhado; como sempre, era uma questão de lucro para Hammer – O que é que vamos fazer com você, hein Hammer?
          _ Tanto faz, mano, tanto faz! De qualquer forma, vamos lá dizer oi pra ele, vamos?
          _ Bem, sim... É, acho que ao menos deveríamos dizer alô.
          Os dois desceram até a enfermaria procurando o novo médico, mas uma vez lá embaixo, não puderam ver ninguém. Fei entrou na ala de tratamento olhando em volta e comentando:
          _ Você disse que um novo médico tinha vindo... mas não tem ninguém aqui!
          _ Hã? Isso é estranho! – comentou Hammer, ajeitando os óculos sobre os olhos – De acordo com as minhas fontes, ele deveria estar aqui...!
          _ Pena que ele não esteja aqui, hein Hammer – Fei perguntou com ironia – Parece que você vai ter que esquecer sobre aquele mercado negro de tratamento médico que estava...
          Foi quando o som de uma porta abrindo se fez presente. Os dois se voltaram e Hammer comentou:
          _ Uma porta se abrindo! Parece que o novo doutor estava na sala ao lado!
          Sim, estava, e ele entrou ao ouvir vozes em sua enfermaria. O novo médico tinha cabelos negros longos presos, se vestia de verdade e usava óculos de quatro lentes. Mais ainda, era alguém familiar para Fei.
          _ D-d-doc? Citan? O quê está fazendo aqui?!
          Com um sorriso satisfeito no rosto, o Dr Citan Uzuki explicou:
          _ Estive monitorando as comunicações de rádio de Kislev, e os ouvi falar de um Gear recuperado em Kislev que combinava com a descrição de Weltall. Disseram que o haviam transportado para a Capital, então eu vim para cá, contando com a chance de que também encontraria você por aqui.
          _ Hã? – Hammer olhava para os dois com um ar perdido – Por acaso, você já conhecia esse doutor, mano?
          _ Seja como for, Fei – Citan ignorou Hammer – já tomou alguma atitude?
          _ Atitude? Do quê está falando, Doc?
          _ Não pode ficar aqui para sempre, pode? Você não vai fugir?
          _ Fugir? – Fei perguntou com um ar tão confuso que Citan se admirou, perguntando:
          _ Fei! Não está pretendendo passar o resto de sua vida aqui, está? Então, não se importa em quebrar sua promessa?
          _ Que promessa...?
          _ Oh, Deus! Como pôde esquecer uma coisa tão importante quanto esta? – perguntou o médico, indignado – Você prometeu a Bart que protegeria Margie e o povo de Nisan se algo acontecesse a ele!
          _ Ah, isso? É, eu prometi, não foi...? Mas... – e pareceu atinar com o sentido maior por trás da pergunta de Citan – aconteceu alguma coisa com Bart?
          _ Temo dizer que sim – Citan respondeu com ar grave – Ele lutou bravamente contra as novas forças do inimigo, mas foi em vão! A Yggdrasil foi seriamente danificada e naufragou no fundo do mar de areia. Pouco antes de a nave naufragar, eu fui colocado num módulo de fuga e ejetado para fora de lá, para que não fosse tragado. Desde então, eu lamento dizer que não pude encontrar coisa alguma sobre o paradeiro ou destino dos demais...
          Fei sentiu um grande pesar com a notícia. Seu amigo Bart, e toda a tripulação da Yggdrasil... perdidos? E ele outra vez só estava se preocupando com sua própria situação, pouco se importando com o que fosse. Como podia...?
          _ Quem teria imaginado... O que estive fazendo...?
          _ Em nome dos céus, o que aconteceu, Fei?
          Após um instante de silêncio, de rosto afastado, Fei respondeu com a voz baixa:
          _ Outra vez... perdi a memória... e todo o sentido de tempo. Enquanto estava lutando com aquele sujeito, Vanderkaum, ele apareceu. Grahf apareceu. Então, percebi o apelo de Bart e da tripulação. Os outros comigo foram derrotados por Vanderkaum e seu Gear tamanho gigante. Depois daquilo...
          Ele pareceu ainda mais aborrecido, olhando para as próprias mãos como se pudesse se lembrar de algo ao fazê-lo.
          _ Depois daquilo... foi como na Vila de Lahan outra vez! Quando acordei, eu estava no bloco de prisioneiros de Nortune. Doc – voltou-se para Citan – Doc, o que houve com o esquadrão da fronteira? Qual a razão de eu estar aqui e do Weltall ter sido recuperado por Kislev...?
          Por um instante, Citan considerou a idéia de não contar tudo a Fei, mas a verdade era a melhor escolha, ele sabia, e respondeu:
          _ Aquele esquadrão... foi aniquilado! Também havia destroços de um Gear de tamanho gigante... de uma forma como eu nunca havia visto antes!
          Fei não teve o que dizer, sentindo o peso da realidade cair sobre ele. De alguma forma ele fizera novamente. Uma grande destruição, da qual não conseguia se lembrar. Citan colocou a mão sobre o ombro do rapaz, tentando animá-lo:
          _ Ora, vamos Fei! Ninguém está apontando o dedo para você! Pode ter sido causado por outra coisa!
          _ Está tudo bem, Doc. Pouco a pouco, eu venho entendendo isso. Só pode ser que talvez... – tornou a olhar para as próprias mãos com pesar, e se corrigiu – Não, bem provavelmente... eu fiz outra vez...
          _ Ora, Fei...
          Por um longo momento, ninguém disse nada. Suspirando fundo, Fei ergueu a cabeça e falou novamente, sua voz agora mais firme:
          _ Eu vou manter minha promessa. Caso contrário... nunca mais vou conseguir olhar Bart nos olhos... Porque Bart e os outros estão vivos em algum lugar. Eu simplesmente sei que estão!
          _ Então – Citan ficou mais animado – isso significa...
          _ Que eu vou fazer o que for preciso pra sair daqui! Vai me ajudar, doutor?
          _ É claro! Será um prazer!
          _ Não, mano, eu duvido! – Hammer tornou a se meter na conversa, alarmado e também aborrecido de ouvir falar de coisas que não entendia – Qualquer idéia de sair daqui é só sonho!
          _ Por quê diz isso?
          _ Por causa dessas coisas! – mostrou para Citan o seu próprio colar explosivo, reparando que o médico não tinha um – São colares explosivos! Enquanto estivermos usando essas coisas, nunca seremos capazes de pôr os pés pra fora daqui!
          _ Colares explosivos...? É perigoso da parte deles, não? – Citan parecia surpreso – Permita-me dar uma olhada neles, por favor.
          E foi examinar o colar de Hammer, tocando com cuidado no metal e testando-o com cautela, enquanto murmurava pensativamente. Depois do exame, ele voltou-se para Fei e Hammer e declarou:
          _ Podemos ser capazes de fazer algo quanto a eles.
          _ M-mesmo? – Hammer não podia acreditar – Até engenheiros mecânicos desistiram deles, em desespero!
          _ O Doc sempre foi bom em mexer com máquinas – Fei comentou com um sorriso – Então, acho que há esperança.
          _ Eu não sei, mano – Hammer, ao contrário, não parecia nada esperançoso – Vamos deixar eles em paz! Não importa o quanto ele seja bom... Um enganozinho de nada, e é BUM! BANG! Fim de jogo, cara! Aceita o toque do Hammer, mano!
          _ Está tudo bem – Fei acenou a cabeça – Eu acredito no Doc.
          _ Bem... então, vamos começar?
          Citan aproximou-se, examinando o colar de Fei, mas antes de começar sua tentativa, perguntou novamente:
          _ Está absolutamente certo de que quer continuar com isso, Fei? Não quer pensar melhor primeiro? Só para ter certeza, se bem que você pode confiar em mim... espero!
          _ Então vamos nessa, Doc! Quando estiver pronto!
          Agradecido pela confiança, Citan começou a mexer na algema de Fei, mediante os olhares preocupados de Hammer. Sons de metal se fizeram presentes, soando, rangendo e batendo quando Citan subitamente arregalou os olhos e disse:
          _ Oh Deus, saiu!
          _ Saiu?? – perguntaram Fei e Hammer ao mesmo tempo.
          _ Sim – e estendeu a mão, mostrando uma fina barra de aço – a trava da bomba saiu. Presumo que, agora, ela não tenha mais isolamento contra choques mais fortes.
          Fei e Hammer olharam para a varinha sem poder acreditar, e Citan comentou um tanto encabulado.
          _ De qualquer forma... hããã... ela deve estar vulnerável agora, e não seria seguro continuarmos mexendo com isso. É melhor que procuremos outro meio.
          _ Ah, esqueci de dizer! – Hammer tomou em suas mãos a trava – Tem um jeito de ter os colares removidos. Mas é preciso vencer os Jogos Imperiais pra conseguir um ‘Perdão Especial’.
          _ ‘Perdão Especial’? – perguntou Citan.
          _ É. Todo ano eles têm os Jogos de Batalha Imperiais. O próprio Kaiser assiste as disputas de Batalha e cancela qualquer sentença que o vencedor esteja cumprindo. Como bônus adicional, o vencedor recebe uma posição como oficial militar.
          _ Bem, nesse caso, tudo o que precisamos é vencer os Jogos! Não é, Fei?
          _ Estou dizendo que é impossível! – interveio Hammer – Pra fazer isso você tem que vencer o atual Campeão, Mestre Rico! Mas nosso mano aqui foi totalmente vencido por essa mesma pessoa poucos dias atrás! E, desta vez, estamos falando de Batalha! Com Gears, mano, Gears! Não dá pra garantir sua segurança. Ele poderia muito bem te matar fingindo que foi um acidente!
          Fei pareceu preocupado. A julgar pela última luta com Rico, ainda mais se levando em conta o quanto ele próprio não gostava de lutar com Gears, parecia difícil que o resultado fosse diferente da luta anterior. E enquanto Fei pensava, Citan indagou:
          _ Isso é verdade?
          _ É... mas, da última vez, eu não tinha o desejo de lutar com eles – emendou Fei – Se bem que, se fosse obrigado a lutar a sério com ele... não tenho certeza se venceria ou não.
          _ Ele é realmente tão mais forte que os outros quatro lutadores, esse tal ‘Campeão’?
          _ Coloque desta forma – atalhou Hammer – Ele é o rei invicto, reinando no cume dos Torneios de Batalha da Capital Imperial! Com um histórico de 40 disputas encerradas em 40 nocautes, a maioria ocorrida nos primeiros 30 segundos de luta... Se vencer os Jogos Imperiais deste ano, então será o Campeão reinante por três anos consecutivos!
          _ Só um segundo! – interrompeu Citan – Esta pessoa é um prisioneiro?
          _ É sim.
          _ Isso é estranho... O vencedor deveria receber um perdão, certo? Por quê ele é um prisioneiro até então?
          _ Aí é que tá a coisa! Mestre Rico podia ter dito adeus à vida de prisão a essa altura! Mas disseram que ele rejeitou o seu perdão. Acho que ele deve gostar pra caramba da sua luta...
          _ Bem, não podemos ficar simplesmente parados aqui falando nisso – interrompeu Fei – Não me importa se é luta na Batalha ou o que for! Se há uma chance então eu vou tentar!
          _ Tá falando sério? – perguntou surpreso Hammer.
          _ Estou sim.
          _ Você acha que pode vencer?
          _ Não, não acho – negou Fei com a cabeça – Mas por ora, eu posso ao menos fazer uma tentativa.
          _ Bom... se é assim, então vou agora mesmo te registrar!
          E saiu imediatamente, muito pouco parecido com quem não acreditava na vitória de Fei até há pouco. Mesmo Fei ficou olhando para o rumo que o outro tomara com ar surpreso.
          _ Esse Hammer... Ele pareceu muito alegre de repente!
          _ Mas você está mesmo certo disso? – Citan parecia em dúvida, por conhecer bem o rapaz - Sobre o que falamos há pouco? Seja você forçado a isso ou não... não queria fazê-lo, certo? Lutar com Gears, eu digo.
          Fei ficou em silêncio, parecendo aborrecido, e Citan prosseguiu.
          _ Há, bem provavelmente, outras formas de sair daqui. Não quero forçá-lo a algo que não queira fazer, Fei.
          _ Eu sei, Doc. Eu ainda não gosto de Gears – o rapaz concordou – Isso não mudou em nada. Quando eu os piloto, me torno a par de quanto o meu ‘ser’ é instável... Mesmo que eu não queira pensar nisso! Mas, ao mesmo tempo, é também uma conexão com alguma ‘peça’ perdida dentro de mim. Se for o caso, então, recentemente eu decidi que ia continuar com isso até o fim. Elly também esteve preocupada pelo mesmo motivo. E se eu apenas ficar deprimido por causa disso, nada vai melhorar!
          Citan ficou quieto por um momento, olhando para o jovem amigo com um ar solene e satisfeito.
          _ É assim que se sente...? Eu acho que o entendo melhor agora, Fei. Que seja, devemos descansar hoje. Vamos ficar ocupados a partir de amanhã! 
-o-
          Em outro lugar...
          Um gigantesco globo negro computadorizado flutuava no ar. Não se parecia com nada mais que uma bola escura repleta de monitores. Alguns deles tinham barras coloridas, como aparelhos fora do ar. Em algumas das telas, bem como nos doze globos menores que flutuavam numa órbita regular ao redor do maior, apareciam rostos escondidos por um tipo de máscara metálica, similar a tubos de respiração. Nenhum deles tinha cabelo, as bocas não eram visíveis e suas expressões eram rudes. Aquilo parecia mais uma espécie de suporte vital, e não estaria de todo errado se alguém o chamasse assim. Dentro daquela estrutura computadorizada, doze seres tão velhos quanto à humanidade ‘viviam’, e planejavam. E continuavam a fazê-lo até então, partilhando dados.
          _ Mais rápido do que esperávamos... – falou um ancião numa tela azulada.
          _ O despertar do intocável... – observou outro, girando, e em uma tela vermelha.
          _ Faz três anos desde que ouvimos qualquer notícia – acrescentou outro numa tela azul, diferente dos demais por não ter o olho direito – De acordo com o Cubo de Memória, ‘ele’ está atualmente em Nortune, a Capital Imperial de Kislev.
          _ Detestável – falou outro, num azul quase esverdeado – Vexaminoso... Amaldiçoado...
          _ Se ao menos ‘ele’ não existisse, os Cordeiros não teriam sido tornados no ‘Animus’ – disse outro, numa tela vermelha, com uma expressão feroz – Já faz quinhentos anos desde nossa queda nos ‘Dias de Destruição’ que ‘ele’ causou... Nós não teríamos que fazer isto de uma forma tão incômoda, como fazemos atualmente.
          _ A escavação das ‘Relíquias Anima’ em cada área – lembrou outro, numa tela azul e de expressão calma – está seguindo conforme planejado. É tarde demais para mudar as coisas agora. Mas, no futuro, nós decidiremos que forma as coisas terão.
          _ Murchar – repetiu o outro menos eloqüente – Sumir... Desaparecer.
          _ No entanto – lembrou outro, tela vermelha e olho esquerdo desaparecido – não sabemos de que rota veio... Somos afortunados que o ‘guardião do portão’ estivesse ativo.
          _ Pelo ‘Ethos’? – perguntou outro vermelho – Ou...
          _ Não faz diferença – replicou o primeiro em azul – No entanto...
          _ Então, está dizendo que não devemos quebrar o equilíbrio de Ignas? – perguntou o azul mais tranqüilo.
          _ Bem, é a superfície... – lembrou outro ancião, de tela vermelha e expressão arrogante – e aquela terra é impura!
          _ Isso é só uma desculpa!
          _ É uma razão justificável – objetou outro vermelho, de ar ponderado – Mesmo Cain não se oporia.
          _ Mas nós não podemos usar a ‘Chave Gaetia’ – tornou o azul a quem faltava um olho – Não até que a hora adequada chegue.
           _ Há uma terceira frota em Bledavik – contornou o vermelho arrogante – As unidades reserva deles servirão.
          _ Ah, a frota dele – concordou o vermelho caolho – Suas ordens?
          _ Purgar – comandou o primeiro ancião, o azul de expressão severa – Não dê motivos. Se ele soubesse de nossos motivos, é óbvio que faria alguma coisa imprevisível.
          _ Mas, não precisaríamos de mais homens para devastar a área inteira de Nortune? – questionou o azul de um único olho.
          _ Há um antigo reator em Nortune – lembrou um vermelho – Nós o usaremos. O tempo de vida estimado é mil anos. Nada vai ser capaz de sobreviver dentro de trezentos kelts da explosão. No entanto, eles passaram por isso antes. Não vão morrer assim tão facilmente.
          _ Mas devemos ao menos eliminar a ‘ele’ – ponderou o azul mais calmo.
          _ Sim, não há nada de que precisemos lá – concordou o vermelho arrogante – Então que seja, dê conta disto.
          _ Se for um impacto direto... – comentou o caolho azul.
          _ Então...
          _ Suas ordens estão dadas. – concluiu o líder.
 
<<<===
INICIO
===>>>
WE CAN RUN TO THE END OF THE WORLD.