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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 12: Desencontro no Deserto
 

            A bordo da sala de estar da Yggdrasil, o velho mordomo Maison procurava manter sua atenção no trabalho para não se preocupar com a futura retomada de Bledavik quando um som atrás de si chamou sua atenção. A xícara do seu jovem mestre Bartholomew caíra e se quebrara, e ele perguntou-se se isso era um tipo de presságio.
          No salão onde a fonte se originava e por onde Bart uma vez entrara estava reunido o pequeno grupo que deveria aprisionar Shakhan. Seguindo o plano, ele subiria com Sigurd e mais dois homens enquanto Citan e os dois homens restantes abririam os portões do castelo para abrir caminho para sua força principal de ataque. Conforme Sigurd lembrou-se, seria útil evitar mortes desnecessárias e combates e, acima de tudo, agir depressa. 
          A idéia seria pegar Shakhan desprevenido, mas quando saíram da fonte na praça central do castelo, as portas principais se abriram para revelar o governante em pessoa e Miang. Citan e Sigurd sabiam que aquilo era um péssimo sinal, mas Bart tomou a frente.
          _ Nos poupou o trabalho de te encontrar, Shakhan! Se prepare!
          _ Nós estivemos esperando por vocês - respondeu Shakhan, com o rosto calmo de quem tinha tudo sob controle. 
          Foi quando Bart e seu grupo perceberam os atiradores posicionados em toda a volta da praça e Sigurd cerrou os punhos.
          _ Maldição! Uma emboscada!
          _ Onde está Kahr...? - perguntou Citan, temendo algo ainda pior do que o fracasso daquele grupo, e Miang prontamente confirmou seus temores:
          _ Vejo que você é rápido para entender. Ramsus deve estar tomando conta de suas forças divididas na fronteira de Nisan enquanto conversamos. Ramsus viu facilmente através do seu plano de usar um ataque menor para nos atrair a muito tempo. Não nos subestimem... - e, olhando com depreciação para Citan - Por acaso, você viveu por tanto tempo aqui embaixo que sua mente se perdeu, Hyuga? E Sigurd... quem iria pensar que você se juntaria aos últimos sobreviventes da dinastia real...
          _ Maldita... Por quê ainda estão apoiando Shakhan? Qual a diferença pra vocês de quem é o rei?
          _ Hah! Você sugere o filho do Rei Fatima assassinado? Ele se recusou a cooperar! Está tentando dizer que, de repente, ele quer ser nosso fantoche? Eu não acredito nisso... mesmo vindo da boca de um traidor como você. Há há há... Além disso, a estupidez nos fantoches tem suas vantagens.
          _ Estupidez? - Shakhan olhou ultrajado para Miang, mas ela meramente se afastou e deixou que ele tomasse conta da situação e defendesse seu posto por si mesmo. Ela pretendia se reunir a Ramsus e partiu, ignorando o chamado de Bart.
          _ Ô garota, espera aí! Volta aqui, que isso ainda não terminou!
          _ Seu pirata... - Shakhan estava furioso pelo insulto, e pretendia descarregar a frustração nas futuras vítimas diante de si - Não, você é apenas um verme da areia. Já me causou vergonha suficiente. Mas isso é o fim; você não soube seu lugar e agora tudo o que espera você é a aniquilação. Preparem-se para atirar!
          O som de armas sendo engatilhadas veio de toda a volta e Bart pensou uma última vez em Margie, desejando que ela pudesse fugir de Nisan se chegasse a tanto...
          E então, todos ouviram o som de hélices ruidosas se aproximando, chamando a atenção até dos atiradores. E diante dos olhos surpresos de Shakhan e de todos os demais, um Caranguejo de Areia pousou entre o grupo de Bart e o usurpador do trono, com ninguém menos que Maison nos controles. Diante dele, uma metralhadora giratória fez mira contra o peito de Shakhan.
          _ Shakhan, seu rebelde maldito! Faça um movimento e essa arma vai cuspir fogo!
          _ Velho Maison?!
          _ Os reforços chegaram, jovem mestre. Por favor, venham a bordo.
          O Caranguejo reclinou-se em suas pernas e todo o grupo subiu, enquanto Maison mantinha o assustado Primeiro Ministro sob mira.
          _ Devemos partir agora? Acredito que os anfitriões não nos desejem por aqui.
          E ligou os rotores para tirá-los dali, enquanto Bart aproveitava sua vantagem:
          _ Te vejo por aí, velho careca! Vamos acertar isso mais tarde. Até lá... mantenha essa cabeça encerada, hein?
          O Caranguejo ergueu-se novamente e pareceu preste a sair... quando um som diferente se fez notar, uma nuvem de fumaça escura começou a brotar dos rotores e Citan foi o primeiro a entender o que isso significava. Os rotores se soltaram e saíram voando sozinhos, deixando a máquina exatamente onde estava. E Shakhan recuperara sua vantagem.
          _ Isso é alguma espécie de piada? Hmm, parece que os vermes da areia não podem realmente voar. De qualquer forma, agradeço pelos risos. Quase me faz odiar ter que atirar em vocês. 
          A situação novamente parecia difícil, mas Maison olhou em volta por um instante, como que inspecionando os arredores, e pediu:
          _ Por favor, abaixem-se todos. E segurem-se com firmeza.
          E tornou a mover as alavancas, obrigando o Caranguejo a correr ao redor da praça. Os tiros espocavam na blindagem e não tardou para Bart entender que não estava chegando a lugar algum.
          _ Ei, Maison, você só tá andando em círculos!
          _ Apenas deixe isso comigo.
          Tendo desenvolvido velocidade suficiente, o Caranguejo saltou para uma das muralhas, para cima da fonte ornamental e por cima da muralha, saindo do castelo e correndo a toda velocidade para o deserto. Shakhan ficou parado imóvel na porta do castelo, sem poder acreditar que perdera sua presa numa situação daquelas.
          Em pouco tempo, o grupo de ataque fora recolhido pela Yggdrasil e comemorava a sua fuga, embora ninguém fosse mais grato a Maison do que Bart.
          _ Eu sinto muito que você tenha se envolvido diretamente, Maison. Eu... apreciei muito o quê fez. Mas eu não tinha a menor idéia de que você podia operar uma coisa daquelas.
          _ Não é nada de mais. É só uma coisinha que aprendi há muito tempo. Não sou um especialista ou algo do tipo. Na verdade - baixou a cabeça - estou um tanto embaraçado por tê-lo feito.
          _ Jovem mestre! - Sigurd veio correndo da ponte de comando - Os exércitos da capital real estão voltando! Fomos nós quem mordemos a isca. Devemos fugir antes que sejamos pegos!
          Em outra parte, Fei e o grupo de Maitreya estavam parados no alto da cordilheira, tendo uma ótima visão do deserto e da fronteira. Também podiam ver a frota de fronteira de Vanderkaum, um grupo numeroso de veículos de areia. Ao lado de Weltall em seu próprio Gear, Maitreya perguntou:
          _ Nosso trabalho é atrasá-los. Então, como quer fazer isso?
          Fei procurou pensar por um instante, mas acabou simplesmente dando de ombros e respondendo com simplicidade:
          _ Simples. Nós fazemos... isso!
          E Weltall saltou para baixo, acionando seus jatos e partindo para uma ofensiva direta. Tendo ficado para trás por um momento, Maitreya ficou apalermado com aquela impetuosidade toda e comentou consigo mesmo:
          _ ... Ele pode ser ainda mais impetuoso do que o jovem mestre... Falkon! Siga o garoto! O resto de vocês, fiquem com sua unidade, mas me sigam! Não fiquem atrás do garoto! Nós estamos nessa também!
          A nau capitânia da frota da Gebler soou o alarme repentinamente, enquanto o intercomunicador transmitiu o recado:
          _ Bandidos chegando no vetor 3-3-6! Dois grupos, cerca de sete ou oito máquinas, distância 2000!
          _ Transmitir a todas as naves! - ordenou o general - Atirar à vontade, iniciar ação evasiva! Mas não deixem as posições de apoio caírem!
          A nave capitânia dera suas ordens e o grupo começaria a se mover. Os sistemas de controle de tiro rápido iniciariam a operar e as minas aéreas seriam liberadas, quando uma ordem de espera se fez ouvir. Era Vanderkaum.
          _ Oficial de comunicação, mudança de ordens! Contate Von Hipper... Faça o segundo esquadrão de destróieres se aproximar do flanco inimigo. Abram o flanco da frota e os atraiam até o arco de disparo da arma principal de Kefeinzel.
          O general a bordo prontamente colocou sua objeção. Aquilo era estupidez! Não havia como a arma da nave capitânia alcançar Gears velozes! Mas Vanderkaum não estava ouvindo, ocupado em ditar ordens.
          _ Controle de tiros! Chefe de artilharia! Preparar munição tipo três! Retirem os atiradores do convés e preparem-se para ativar o canhão principal do Kefeinzel... Eu vou aniquilá-los com energia pura.
          _ Almirante!! - exclamou o general - O que está fazendo, retirando os artilheiros anti-Gear?!
          _ Cale-se, oficial de aviação! Agradeço por sua opinião valiosa, mas eu estou no comando, e não você! De que adiantam atiradores de ervilha e armas de quarenta sen? Fim da discussão! Não tão depressa, capitão! Não vamos querer que o inimigo fique para trás.
          Todos os soldados seguiram o comando de Vanderkaum, mas seus pensamentos eram semelhantes aos do general: aquele plano não funcionaria nunca. Lá fora, Weltall foi o primeiro a alcançar o grupo em fuga e seu rádio pegou uma mensagem de Falkon:
          _ Vá pelo oeste até a nave mãe! Esqueça o destróier! Eu fico pra trás e cuido disso!
          Weltall acelerou, com Gears inimigos tentando bloquear seu caminho e a artilharia espocando à sua volta e erguendo areia para todos os lados. Isso ajudava a ocultá-lo visualmente dos inimigos, mas também o atrapalhava na localização das minas flutuantes. Com dificuldade ele passou pelo primeiro bloqueio e a voz de Falkon se fez ouvir de novo:
          _ Afaste-se do destróier! Eu vou usar tiros de reação!
          Weltall adernou para longe e os disparos do destróier o perseguiram por mais alguns segundos, antes que uma explosão silenciasse os ataques daquela posição. Na ponte de comando do Kefeinzel, Vanderkaum não se conformava com o que estava vendo.
          _ Aquele idiota do Hipper! Persigam-nos, eles estão só brincando com ele! Você não é bom o bastante nem para ser o meu cão!
          _ Nossa mobilidade é muito diferente... - foi a resposta que veio.
          _ Controle de fogo! Chefe de artilharia! Não deu um tiro ainda! O alcance do Tipo três é dentro de quinhentos! Não atire até ver o branco dos olhos deles!
          _ Gears em velocidade de batalha podem se mover a dois mil por hora.
          _ Esta nave inteira! - bradou Vanderkaum - Todos vocês são idiotas!
          “Você é o idiota maior!” - pensou consigo mesmo o general.
          Lá fora, mais uma linha de defesa estava diante de Weltall, e Falkon avisou:
          _ Logo depois desta linha de naves está a nave mãe Kefeinzel! Vai firme, garoto!
          Fei acelerou e Weltall começou a se aproximar, mas isso não era tarefa fácil. Dois destróieres atiravam pela esquerda e direita e ele não tinha espaço para manobrar, pois havia Gears inimigos e minas flutuantes para comprometer sua aproximação. Os Gears tentavam alcançá-lo e ele procurou jogá-los contra as próprias minas, e Falkon tornou a avisar:
          _ Muito bem, agora evite a escolta! A nave diante de você é a Kefeinzel!
          A bordo da nave mãe, tiros eram disparados para derrubar o Gear negro que se aproximava e eram completamente desperdiçados. Em sua ponte de comando, Vanderkaum não se conformava.
          _ Controle de fogo, chefe de artilharia! O que estão fazendo? Não estão nem chegando perto! Estão cegos?
          _ O motor do Destróier Iltus se foi! E pelos sinais luminosos de Luveh, o leme deles também se foi!
          A desordem ia alem de qualquer reparo. O general discretamente se afastou quando o sinal de que Weltall estava sobre a nave chegou, e Vanderkaum imaginava o que Ramsus faria se ele sofresse mais uma derrota. Lá em cima, no convés, a artilharia menor fez tudo o que era possível, mas o Gear negro era veloz o bastante para evitar a maioria de seus disparos enquanto ele destruía sem maiores dificuldades o canhão principal da Kefeinzel, fazendo soar o alarme geral de evacuação da nave. Todos a bordo corriam para os casulos de fuga, mas Vanderkaum continuava parado na ponte de comando, como que em choque.
          _ Certo... Eu ainda tenho aquilo. Ainda tenho aquilo...
          Ele continuava repetindo isso, enquanto a ponte se enchia de fumaça.
          Do lado de fora, Maitreya parou seu Deurmod ao lado do Weltall de Fei e comemorou:
          _ É isso aí! Um ponto pro nosso lado!
          _ É... - Fei concordou com um sorriso satisfeito - E tudo graças ao seu apoio. Valeu.
          _ Parar os guardas da fronteira? Hah... Nós os destruímos! Bem... - e retomou um pouco de sua compostura, o entusiasmo voltando aos eixos - terminamos nosso trabalho. Espero que os outros estejam bem.
          _ Bart e o grupo dele - Fei ficou pensativo - Provavelmente ele está bem... Alguma notícia deles?
          _ Nada. Mas dizem que sem notícias significa boas notícias, eu acho. Meu Gear não tem um equipamento de comunicação muito bom. Provavelmente eles se saíram bem.
          (Garras gigantes giraram e se colocaram em prontidão, enquanto canhões inoperantes zumbiram com energia quando foram acionados.)
          Weltall voltou-se de repente para a Kefeinzel arruinada, movido por Fei, e Maitreya notou então que ele parecia subitamente perturbado.
          _ O que foi?
          Weltall ficou em posição de defesa e Maitreya não entendeu, até que luzes brotaram abaixo da antiga ponte de comando da nau capitânia e uma explosão veio em seguida, revelando grandes garras de metal que precederam um corpo enorme semelhante a um tanque de guerra e uma lagosta ao mesmo tempo. E a voz de Vanderkaum veio pelos comunicadores de Fei, Maitreya e do resto do grupo:
          _ Vocês... Eu vou matar todos vocês!! 
          Do outro lado do deserto, Bart decidira-se pelo retorno a Nisan. As palavras de Miang eram claras para ele e mesmo os conselhos de Maison e Sigurd não puderam mudar sua decisão.
          _ Margie e eles ainda estão lá. Nós vamos voltar! Precisamos fazer isso! E isso me lembra... E quanto a Fei e seu grupo? Se eles estiverem bem, nós poderíamos...
          _ Não tivemos contato desde que confirmamos a ordem de ataque deles - comentou Franz.
          _ Maldição, isso não pode estar acontecendo!
          Bart baixou a cabeça, pesaroso de que o amigo e seu grupo pudessem ter sofrido o mesmo destino de Nisan. Então, o instinto de quem nascera e se criara no deserto o fez notar algo antes dos demais.
          _ Por trás...? - ele ergueu a cabeça, silencioso por um instante. Depois, comentou em voz alta:
          _ Tem alguma coisa vindo por trás de nós! Jerico! Me passe o leme... não, fique com ele! Basta se apressar e virar pra qualquer lado!!
          _ Jovem mestre...? - indagou Sigurd, admirado. E Franz de repente começou a falar, alarmado:
          _ Por trás da nossa trilha! Trezentos! Estou pegando o som de torpedos sendo preparados! Um cruzador da areia?! É grande! Velocidade sessenta! Rota relativa 0-0-0! Estavam escondidos por trás de alguns recifes!
          _ Kahr! - murmurou Sigurd, e Franz continuava informando:
          _ Estou recebendo uma propulsão de alta velocidade, partindo da nau inimiga! Torpedos?! Dois deles! Velocidade 87! Torpedos confirmados com o sonar. Eles passaram para perseguição teleguiada!
          _ Estações de batalha! - bradou Bart - Ativar camuflagem! Preparem o perturbador sonoro!
          As luzes da ponte de comando mudaram para vermelho enquanto toda a tripulação da Yggdrasil assumia seus postos de batalha e Bart assumia a postura de comando. Desta vez, no entanto, eles não estavam atacando uma presa; eles eram a presa.
          _ Estações de batalha, todos!
          _ Abrir misturador! Perturbador sonoro, segundo e quarto tubo... preparar!
          _ Emitir Perturbador sonoro! - ordenou Bart - Preparar para desligar o motor!
          Os Perturbadores foram lançados como torpedos na direção oposta, e Bart agarrou-se na grade de apoio.
          _ Leme... agora! Desvie pra a direção oposta o máximo que puder! Parar o motor! Alerta de colisão!!
          A ordem foi repetida pelos intercomunicadores e a Yggdrasil adernou violentamente para a esquerda. Todos aguardaram tensos na ponte de comando até Franz relatar:
          _ Torpedo... 1, ainda perseguindo! Maldição! Impacto em 3!!
          Um estrondo se fez ouvir pelo deserto. A bordo da nave da Gebler, Ramsus e Miang aguardaram pela notícia favorável na ponte de comando, e ela chegou.
          _ Confirmado, som de destruição do veículo... seguido por um rápido som de explosão. Veículo inimigo provavelmente está flutuando depressa até a superfície.
          _ Estática fluida ao redor do veículo inimigo está diminuindo. Manobrabilidade na areia do veículo inimigo caiu em 60%. Parece que o motor principal e os redutores de efeito foram incapacitados.
          _ Assim que seus redutores de efeitos forem destruídos - falou então Ramsus - eles permanecerão enterrados e incapazes de se mover. Ir à superfície foi um movimento esperto. Chefe de Torpedo da Areia! Bom trabalho em reduzir o poder de luta deles. Brilhante!
          _ Desculpe preocupá-lo.
          _ Bem... - Ramsus voltou-se para Miang - o que devemos fazer com eles...?
          _ Oh? É incomum ver você sem saber o que fazer.
          _ Eu prometi a um velho amigo... Preciso ser moderado - ele pareceu ficar pensativo - Um velho... amigo...
          Outro dia no passado veio à memória de Ramsus. Um jovem oficial da Gebler de cabelos brancos longos e ainda com os seus dois olhos azuis partia do hangar sem olhar para trás.
          _ Sigurd!
          Sigurd deteve-se sem no entanto se voltar e esperou que o outro o alcançasse.
          _ Por quê está abandonando esta terra?! - indagou Ramsus, sem entender - Você deveria nos ajudar a criar uma nação ideal!
          _ Eu não o estou abandonando. - replicou o outro, ainda sem se voltar - Tenho vivido aqui para roubar a tecnologia deste país desde o início. Além disso, há alguém esperando por mim. Não seja amargo.
          Ele voltou-se então, com um sorriso tênue no rosto e os olhos fixos nos de Kahran Ramsus.
          _ Não foi tão ruim seguir os mesmos ideais que você, durante aquele curto tempo.
          Não havia mais nada a dizer e Sigurd se foi, deixando um Ramsus perplexo e furioso para trás. Toda a frustração e rancor explodiram por fim quando ele percebeu que Sigurd realmente não voltaria.
          _ Seu traidor!!
          O passado se foi. Ramsus abanou a cabeça para livrar-se das lembranças e voltou sua mente para a questão que tinha diante de si.
          _ Oficial de Comunicação! Use meu nome e exija que eles se rendam. Diga a eles para se renderem se desejam a segurança de Nisan. Todas as divisões, cessar fogo, mas manter-se em alerta! Se algum veículo inimigo tentar atacar, atirem individualmente nele!
          Outro lado do deserto. O Gear de Vanderkaum, Dora, era como um tanque de guerra, a cabeça coberta por uma proteção resistente em que os Gears piratas não faziam qualquer dano, e apenas Weltall conseguia algum efeito. As garras compridas do Gear verde tinham aprisionado dois dos Gears piratas, e atacou Weltall e os demais piratas usando os prisioneiros como armas, ou os seus canhões embutidos.
          Weltall tornou a investir, e Dora tornou a usar os prisioneiros. Desta vez, no entanto, os Turbos do Gear negro foram ativados e ele era muito superior ao pesado Dora, passando com facilidade entre as garras do oponente e atacando sua cobertura com um Hazan, quebrando-a por fim.
          A capa protetora despedaçou-se enquanto Weltall aterrisava com um salto mortal e os prisioneiros piratas foram libertados, e pelo rádio Fei avisou:
          _ Depressa, eu destruí a cobertura! Ataquem agora e ele vai ceder!
          Os Gears piratas não precisaram de outro comando e Fei finalmente pôde ver em primeira mão o estilo deles. Ao destruir a capa protetora, Weltall liberou um canhão central poderoso do Dora, mas como já haviam dito a Vanderkaum, era difícil manter em mira um grupo de Gears velozes correndo para todos os lados.
          Vanderkaum estava nervoso, se esforçando atrás dos controles para conseguir fechar seus oponentes na mira do canhão principal do seu Gear quando Weltall surgiu à sua frente e descarregou um Tiro Guiado. Como Fei esperava, um Gear tão sólido quase não sofreu danos, mas a luz do disparo deixou Vanderkaum sem visão por tempo suficiente para Maitreya e seus homens atacarem em série, cada um deles atingindo em fila rápida a base das garras do Gear, enquanto o próprio general obstruía a saída do canhão. Quando Vanderkaum, ainda recuperando a visão, percebeu tantos alvos próximos da arma principal, disparou... e ela explodiu, jogando Dora para trás e evidenciando a derrota.
          Vanderkaum ficou muito abalado, sem saber o que fazer. Sua reputação e tradição de guerreiro haviam sido jogadas no ralo e seus rivais estavam afastados. Se ainda houvesse alguma arma funcionando... se o Dora ainda tivesse força...
          _ Você quer o poder?
           A voz sinistra veio num clarão de luz, e diante da surpresa de Vanderkaum, um Gear de bronze mergulhou dos céus numa velocidade vertiginosa para deter-se a poucos metros do solo e bem diante dele, de braços cruzados. Uma aura vermelha agressiva começou a fluir dele, e um rosto encapuzado apareceu no monitor do Dora.
          _ Eu sou Grahf, aquele que procura o poder. Tu desejas o poder?
          _ O poder... Sim, o poder... eu o quero. Eu quero o PODER!
          _ Pois que seja.
          O Gear de Grahf ergueu sua mão direita e ela começou a cintilar com o mesmo brilho vermelho que se aglomerava em torno de toda a máquina. E Grahf disse:
          _ Meu punho é o sopro divino! Desabrocha, ó semente caída, e revela teus poderes ocultos!! - a mão estendeu-se na direção do Dora e Grahf completou - Concedo a ti o poder da gloriosa ‘Mãe da Destruição’!
          A luz vermelha irradiou-se do punho do Gear de Grahf e banhou o Dora, e Vanderkaum sentiu que mudava dolorosa e totalmente.
          Distantes demais para entender o que fora dito, mas vendo o Gear de bronze se afastar dos restos do Dora, tanto Fei quanto os piratas estavam confusos.
          _ ... O que era aquilo? O sujeito de agora há pouco? - perguntou Maitreya, mas Fei estava perdido nos próprios pensamentos. Aquilo se parecia com alguma técnica, mas não era nada que ele conhecesse.
          “Eles... Por quê eles...? O que fizeram?”
          Apenas o vento do deserto respondeu por algum tempo, enquanto a fumaça das naves destruídas de Vanderkaum esmorecia aos ventos. Então, um comunicado de rádio alcançou os Gears piratas, e um dos pilotos transmitiu a mensagem.
          _ Oh não! General! General Maitreya! Pegamos uma mensagem em código R! Não estou certo, mas parece que o jovem mestre está em apuros!! Não temos tempo pra esse sucateiro!
          Foi a última coisa que o soldado disse antes que um disparo de energia maciça varresse seu Gear do deserto. Fei, Maitreya e o resto da unidade se voltaram para ver o Dora de Vanderkaum novamente ativo e cintilando com poder, mais ameaçador do que nunca.
          _ Vocês aí... O que estão fazendo, me ignorando e olhando para o lado...? Eu vou matar todos vocês!!
          E para provar o que dizia, vários jorros de energia começaram a brotar dos canhões do Dora e colunas de luz subiam em cada ponto onde atingiam, enchendo o deserto de sons e luzes intensos. Maitreya avançou com seu Gear e deteve-se por um momento, voltando-se para Weltall.
          _ Fei, reúna os feridos e volte para o jovem mestre. Depressa! Minha unidade vai ficar pra trás e tentar conseguir algum tempo.
          _ Não seja idiota! Eu vou ficar também!
          _ Cale a boca e escute, garoto! Você é o convidado do jovem mestre! Eu não posso te deixar morrer aqui!
          _ Mas...
          _ O jovem mestre... - a voz de Maitreya agora era baixa, como quem fazia um pedido - O que ele realmente precisa agora é a sua força. Por favor, vá ajudá-lo. Eu imploro.
          Fei ficou sem palavras diante do apelo do General Maitreya. Não lhe parecia certo partir daquele jeito, mas como negar aquele pedido? E Maitreya ativou seu Gear, ordenando:
          _ Farrant! Vind! Vamos andando!!
          Tudo o mais pareceu um filme em avanço rápido para Fei. Os Deurmods vermelhos dos piratas correndo, confrontando o gigantesco Dora...
          (Pare!)
          ... e sendo subjugados por seus canhões e garras. 
          (Pare com isso!)
          Um a um, aqueles homens valorosos e suas máquinas caíram. E o som de seu próprio coração pareceu de repente alto, terrivelmente alto, a ponto de encobrir até mesmo o som da batalha.
          (P-por favor... Pare!)
          Mais sons. Metal sendo destroçado, e o pulso do seu coração. Gritos que se perdiam em meio às explosões, e seu coração. O pulso do seu coração parecia crescer e engolir a tudo. Fei pedia baixinho que tudo aquilo parasse, incapaz de fazer qualquer coisa. Foi quando ele soube o que fazer, ergueu a cabeça e abriu seus olhos.
          Longe no deserto, a Yggdrasil corria desabaladamente na superfície e deixando um rastro de fumaça atrás de si. O incêndio fora extinto, mas as condições estavam péssimas. O Brigandier de Bart conduzia a nave através do grande timão exterior e o líder dos piratas pesou sua situação.
          _ Cercado, hein? Como é que estão os reparos?
          _ O motor principal e os osciladores dos redutores de efeito estão quase ilesos - avisou o engenheiro - mas as conexões elétricas entre eles foram perdidas. Estamos desviando a conexão principal e tentando remendar toda a energia que pudermos, mas só vai nos dar 70% da nossa força máxima costumeira na melhor das hipóteses. As brocas propulsoras não estão danificadas, mas se a areia não puder ser granulada, elas podem ser. Nós faremos velocidade de batalha três... mal e mal.
          _ Sig! - chamou Bart - O que o ‘Sr. Manda Chuva’ da Gebler tem pra dizer?
          _ Ele esteve quieto desde a primeira exigência de rendição.
          Bart ficou em silêncio por instante, olhando em volta. A Yggdrasil estava cercada por uma frota inteira da Gebler que corria ao seu redor como uma cerca viva. A coisa mais sensata a fazer, dada a sua situação e a de Nisan, seria aceitar a rendição imposta por Ramsus. Então ele sorriu, feliz consigo mesmo por nunca ter sido muito sensato.
          _ Todo o pessoal para os postos de batalha. O plano é escapar à força assim que os conectores estiverem ligados.
          _ Jovem mestre! - exclamou Sigurd.
          _ Sig, escuta: a rendição não vai mudar o destino de Nisan. Vamos perder a Yggdrasil, o núcleo da nossa força, pra salvar Aveh e Margie. Eu sei que parece ruim, mas você ainda pode contar com a gente!
          _ Bem dito, jovem mestre! - afirmou Maison, entusiasmado - Este velho o seguirá até os poços do inferno!
          _ Desculpe, Velho Maison, eu não vou morrer hoje!! Até porque eles não parecem querer nos acertar.
          _ Com certeza parece ser assim - analisou Sigurd, pensativo - Talvez eles tenham motivos políticos que envolvam Margie ou o jovem mestre.
          _ Provavelmente é isso, Sig! Mas eles tão esquecendo uma coisa... É mais difícil levar um animal vivo do que morto!
          _ Jovem mestre! - chamou o engenheiro - as conexões de emergência estão completas. Use o motor como quiser!
          _ Valeu! Tá bom, vamos... pegar esses idiotas!!
          Toda a Yggdrasil se preparou para o que seria a sua última batalha. A bordo do cruzador da Gebler, Ramsus ouviu o aviso assim que a nave pirata começou a se mover novamente.
          _ Confirmado, um Gear inimigo em ação. Curso direto. Veículo inimigo, som de motor aumentando... Aumento de velocidade, som de desvio confirmado, mudanças de curso... Tomando ação evasiva.
          _ Comandante...? - Miang não conseguia manter totalmente a seriedade - Há há há.
          _ Não puderam evitar, hein...? - Ramsus suspirou - Todas as divisões, trajetória de espera cancelada! ... Resumir ataque!
          _ Arco de tubos de torpedo 1 a 3, míssil Namthal. Ajustar 1 e 2 para perseguição, 3 para anti-radar. Tubos 4 a 6, torpedos de areia Makara Mk5. Todas as unidades, iniciar fogo defensivo. Mirar para a nave principal.
          _ E-esperem!!! - uma outra voz soou de repente, alarmada - Explosões ao longo do perímetro da frota confirmadas. Sons múltiplos de destruição de veículos! Reações de alta energia... Que espécie de arma é essa!? Comandante!! Eu não posso acreditar nisso! Este... Gear...? É como cargas de reação voando à nossa volta...!
          _ Acalmem-se - ordenou Miang - Coloquem a figura analisada no monitor.
          _ S-sim, senhora...
          Uma imagem externa foi apressadamente transferida para a tela principal da nave mãe e, a despeito do susto que todos os oficiais possam ter tido, era o medo de ver um demônio desconhecido. Para Ramsus, no entanto, o medo era ainda maior, pois ele conhecia o monstro.
          “Ah...! Isso é...!!”
          As naves, destróieres e Gears de areia da Gebler desapareciam a cada movimento de braço do Gear vermelho, que cruzava o céu com uma velocidade inacreditável e despejava sobre o deserto tanta energia que fazia os disparos do Dora parecerem lanternas. Todo o cerco à Yggdrasil foi desaparecendo inapelavelmente, e a câmera da nave mãe conseguiu uma visão frontal bem nítida do demônio vermelho, lembrando Ramsus do pesadelo que tivera. Desta vez, no entanto, era tudo real. 
          No convés da Yggdrasil, Bart acompanhava as explosões ao longo do perímetro sem entender o que acontecia. Toda a frota inimiga estava desaparecendo e o milagre parecia tão grande que ele não queria agradecer, temendo o que seria cobrado dele por aquilo. Brigandier voltou-se na direção das explosões e então seu piloto viu que algo se aproximava.
          _ Está vindo... pra cá?
          Um brilho vermelho cresceu e ficou cada vez mais intenso, fazendo a própria Yggdrasil tremer à sua aproximação. Na ponte de comando de sua nave mãe, Ramsus deixava seu ódio sobrepujar o medo.
          _ A-aquele Gear! Não há engano! É ele! Demônio de Elru...! Vamos Miang!
          E ele correu sem pensar duas vezes para o hangar de Gears. Miang tentou chamá-lo à razão, mas não havia como fazê-lo e ela também o seguiu. Antes de deixar a ponte, no entanto, a enigmática imediata voltou-se ainda uma vez para a tela principal e sorriu.
          Bart não sabia o que fazer ou dizer. Diante dele, flutuando sobre a escotilha de entrada da Yggdrasil, estava o Gear vermelho que estivera atacando a Gebler. Ele gostaria de poder dizer que estava grato pela ajuda, se não fosse pela incômoda e certa sensação de morte que acompanhava aquela máquina. Se aquele Gear e seu piloto haviam entrado na batalha, não era por intenção de ajudar quem quer que fosse.
          Aquela coisa tinha uma cor vermelho sangue e asas de energia pura emanando de suas costas, e elas milagrosamente o mantinham voando. O que mais incomodava Bart, no entanto, era a terrível sensação de familiaridade que havia nele. Era como se já tivesse visto aquela máquina em algum lugar.
          _ Você é forte?
          A voz que soara pelo comunicador era fria e impessoal, e no entanto tinha um som familiar, também, embora o rosto do recém-chegado não estivesse no monitor. Era um estranho, e lhe fizera uma pergunta estranha.
          _ ... O quê? Quem é você...?
          Bart se incomodaria em notar como sua voz parecia assustada em relação à sua voz costumeira, mas a verdade era que estava mesmo assustado. E o estranho insistiu:
          _ Eu perguntei, ‘Você é forte?’!
          E sem esperar resposta, ele levou sua mão diante do que seria o rosto e uma luz intensa brilhou, pouco antes de lançar um ataque de energia intensa. 
          Movido às pressas por seu piloto, Brigandier saltou do convés e ganhou distância da Yggdrasil, ficando de pé. Antes de se voltar, porém, Bart sentiu uma terrível presença flutuando logo acima e atrás de seu Gear.
          (Atrás de mim!?)
          O suor frio escorria da fronte do pirata, e ele quis de coração ver sua prima Margie uma última vez. Mesmo o cerco que Ramsus promovera não o havia assustado, mas agora...! Tenso, tentando ganhar tempo e entender o que acontecia, Bart perguntou:
          _ ... Por quê você vem, tão de repente, me atacando?!
          _ Heh, heh, ótimo - o outro respondeu, debochando - Então banque o tolo! Você, forte... Hã?
          A atenção do Omnigear vermelho foi subitamente atraída para algo que se movia à sua direita e Bart pôde ver dois Gears em aproximação ligeira. O Gear branco apenas deteve-se a uma certa distância, mas o dourado parou com suas asas de dragão abertas e segurou sua espada, preparado para a luta, enquanto o pirata reconhecia a voz que falou em seu comunicador.
          _ Você aí... garoto pirata! - exigiu o tom autoritário de Ramsus - Você o conhece!? É isso mesmo... Afinal, você estava com aquele pirralho, Fei!
          _ Não, eu não conheço ‘ele’! Mas, mesmo que conhecesse, com certeza eu não diria a você!
          _ Bom! Então, não vai se importar se eu der conta dele. Eu devo a ‘ele’ muita coisa!
          Dito isso, o Wyvern de Ramsus apontou sua espada e investiu, e o Omnigear pousou no deserto sem palavra. Bem diferente do quase alucinado comandante da Gebler.
          _ Eu finalmente o encontrei! Agora, devo desafiar você!!
          Os dois Gears investiram, o Wyvern com a espada erguida para o golpe... que nunca foi desferido, pois o braço da espada foi arrancado com um golpe simples do Omnigear vermelho.
          Antes sequer que pudesse ficar surpreso, Bart viu o estranho atacante agarrar o Gear dourado de Ramsus pela cabeça e decolar, erguendo-o sobre o deserto sem esforço e sem tempo de reação. O comandante da Gebler, transtornado e indefeso, o chamava de monstro e se debatia tentando reagir, mas o Omnigear mergulhou na areia escaldante fazendo o Wyvern atingir o solo com a cabeça e depois tornando a erguê-lo diante de si com desprezo evidente.
          _ ... Guha! M-mal... dito seja... - Ramsus praguejou, agora por um comunicador que chiava com estática devido ao dano sofrido - Se não fosse por você...
          Sem parecer dar qualquer atenção ao outro, o Omnigear o soltou no ar e girou, atingindo-o com um chute e jogando-o na areia completamente fora de combate, tendo ainda arrancado sua perna esquerda com o último golpe. Mas ele ainda estava longe de ficar satisfeito e correu na direção de Brigandier, e Bart ficou em guarda.
          _ Tch! Fique longe!!
          O Gear branco de Miang alcançou o que restava do Wyvern e pairou sobre ele, abaixando-se gentilmente para recolhê-lo.
          _ Comandante... vamos nos retirar!
          _ Não faça nada precipitado, Miang! - advertiu Ramsus - Eu ainda tenho um braço!!
          _ Estamos nos retirando! - ela insistiu, sem dar espaço a contradições - Parece que aquele cachorro louco tem um novo brinquedo.
          As asas de energia criavam uma aura esverdeada em torno do Omnigear e espalhavam areia por toda a parte, enquanto ele pairava diante do Brigandier.
          _ Bem, agora que minha mola motora está aquecida... vamos começar o evento principal!!
          _ Hoje é o meu dia de azar - Bart comentou, quase parecendo conformado - Por quê isso tem que acontecer agora? Ah, bom... vamos acabar com isso!
          Apesar da sua fama de brigão, Bart realmente não gostava de combater. No entanto, ninguém poderia chamá-lo de covarde. A diferença de forças era patente e, mesmo assim, ele não tentou fugir em momento algum. Ramsus, que quase o vencera até a chegada de Fei em Aveh, não pudera sequer incomodar o Omnigear... mas ele tratou logo de partir para o ataque, ativando seus Turbos e tentando atacar mais depressa.
          Usando seu novo ‘Golpe da Serpente’, Brigandier saltou e prendeu a cabeça do Omnigear, mantendo-o preso no chicote direito enquanto o esquerdo afundava na areia, prendia as pernas do adversário e o puxava para derrubá-lo... mas o Omnigear meramente saltou para trás quando puxado, caindo de pé e continuando na espera.
          Ele tentou seu ‘Disco Celestial’, usando a Máquina de Ether do Brigandier. O Omnigear ficou parado e mal se moveu quando atingido.
          Brigandier usou o ‘Sorriso Selvagem’ para diminuir a visão do outro e depois um ‘Chicote em Cadeia’. E mesmo assim, o Omnigear nem tentou se mover para desviar. Cansado, assustado e um tanto irritado com o descaso do outro, Bart comandou o Brigandier para um ataque direto, que foi subitamente interrompido quando o Omnigear agarrou o braço direito do Gear pirata e Bart ouviu apenas:
          _ É a minha vez.
          O Omnigear empurrou Brigandier para trás e Bart mal começara a cambalear quando o outro o atingiu com as duas mãos espalmadas no peito, fazendo o Brigandier voar para trás e Bart gritar, enquanto seu Gear tombava e todos os sensores de dano indicavam problemas.
          Antes mesmo que ele caísse propriamente no chão, o Omnigear encerrou o ataque com uma nova seqüência de seus punhos que dilacerou completamente a armadura do Brigandier com ondas de choque negras, uma técnica muito parecida com a que Fei usara no Calamidade durante a saída da Caverna de Estalactites, caso Bart tivesse visto ou se lembrasse para comparar. 
          Brigandier caiu semidestruído no deserto enquanto a tripulação da Yggdrasil emudecia. Mas Sigurd viu seu jovem mestre cair e passou imediatamente à ação.
          _ Motor, preparar para força máxima!! Jerico! Me dê o leme!
          _ Mas primeiro imediato - objetou o navegador - agora, com os redutores de efeito fora de funcionamento, se correr à velocidade máxima, a nave não vai resistir à fricção!
          _ Ela pode ‘saltar’ devido ao Efeito Bernoulli nas asas de superfície ao invés disso! - retrucou Sigurd, preparando-se.
          _ Primeiro imediato!
          _ Nunca se esqueça disso! - Sigurd voltou-se com olhos decididos para o navegador, que emudeceu - A Yggdrasil não é nada sem o jovem mestre!! Força total! Velocidade máxima!!
          Quem tivesse a oportunidade de ver com certeza não se esqueceria nunca daquele momento. A gigantesca nave pirata Yggdrasil começou a correr pelo deserto com dificuldade, os trancos aumentando com a velocidade, mas sempre seguindo rumo ao local onde Bart caíra. As asas de superfície se abriram e a proa começou a empinar. O controle ficou mais e mais difícil, mas o pulso firme de Sigurd manteve a direção firme. E a nave começou a subir.
          O Omnigear vermelho estava parado, enquanto Bart juntara seus pedaços e pretendia fazer um último movimento. Era tudo o que Brigandier ainda poderia fazer depois do ataque sofrido, e ele pretendia ao menos tombar lutando. Então, o deserto pareceu escurecer e ambos olharam para o alto, enquanto o casco da Yggdrasil encobriu o sol e caiu sobre eles.
          Bart, que planejara um último golpe, mudou de idéia e usou seu último movimento para se afastar da área de impacto. E até mesmo o Omnigear vermelho, se houvesse alguém para ver, parecia estar profundamente admirado daquilo. Um segundo depois, a nave pirata aterrou violentamente e todo o deserto estremeceu. Brigandier, no entanto, estava fora da área da queda. 
          _ Jovem mestre! - chamou Sigurd - Você está bem?!
          _ Não exagera, Sig... Tentar fazer a nossa nave ‘voar’?! - ele parecia ótimo, com o mesmo tom brincalhão de sempre, o que foi um alívio para Sigurd - Quando voltarmos, vai levar um mês pra colocar essa pilha de sucata funcionando de novo.
          _ Há... Há há... Você parece estar bem!
          _ Putz!! - e Bart suspirou de alívio - Afinal, o que era aquele monstro?
          Antes que Sigurd pudesse responder, o casco subitamente se moveu como se enrugasse e Bart soube no ato que aquilo não era efeito da queda. Algo não estava certo.
          _ Sig! O que é que tá havendo?
          _ A nave...? - Sigurd também estava confuso - O motor deveria ter se perdido, mas...
          A Yggdrasil começou a centelhar e ranger, protestando contra a impossibilidade que acontecia, e mediante os olhares surpresos de Bartholomew Fatima e toda a sua tripulação, o cruzador de areia deixou o solo do deserto. Abaixo dele, com o braço direito erguido enquanto flutuava para cima, o Omnigear vermelho estava ileso.
          A visão era aterrorizante. Aquela... coisa estava erguendo a nave inteira com uma só mão e sem fazer qualquer esforço aparente. A nave vazava areia por todos os lados e manteve-se inteira só por um instante, antes que a proa e a popa se curvassem e apenas o corpo central continuasse inteiro, sustentado pelo Omnigear.
          _ Isso foi muito interessante - comentou a voz desconhecida, num tom de quase admiração - Mas derrubar uma nave de guerra em mim é trapacear... Pegue de volta!
          Bart tornou a ver o sol ser encoberto enquanto a sua Yggdrasil foi arremessada sobre si sem qualquer esforço. Desta vez, no entanto os sistemas do Brigandier estavam exauridos e ele simplesmente não tinha para onde correr. Todo o seu painel apagara, e ele sabia que não sairia dali.
          _ Sig, Maison! Aaahhhh!!
          Na ponte de comando a nave inteira se inclinara e as luzes e sinais de alerta gritavam enquanto a voz da tripulação se confundia nos comunicadores internos:
          _ A bomba de areia, redutores de efeito e as brocas de propulsão estão todos fora do ar!!
          _ Motor principal, motor de apoio, ativar a autofuga! Transferir energia para as baterias! Índice de saída 0.5, tempo para operação... 500!
          _ A terceira ponte... está arruinada! - avisou Franz.
          _ A seção do hangar, a seção de armamentos e até o casco de pressão foram destruídos!!! Não podemos impedir a areia de entrar!
          _ Trancar cada seção completamente - ordenou Sigurd - e iniciar operação independente!!
          _ Assim o controle de danos não vai se mover! - objetou Franz - O buraco não será coberto!
          _ Está tudo bem... De qualquer modo, é impossível salvar a nave inteira. Nossa prioridade é garantir a ponte! Reúnam todos na ponte imediatamente!
          A ordem de Sigurd foi passada e o imediato voltou-se com pesar. Então, deparou com Citan e Maison ainda ali e lembrou-se de mais um dever.
          _ ... Hyuga... Não... Você agora é Citan. Você precisa sair. Vou pedir a Maison que o leve a um casulo de fuga.
          _ Eu não posso deixar todos vocês assim...?!
          _ Não temos o direito de mantê-lo aqui e fazê-lo se envolver - Sigurd tornou - Se vir Kahr e Miang outra vez, tenha certeza de fazê-los pagar por mim. Maison... por favor, mostre o caminho a ele.
          _ Por aqui, por favor.
          Sem mais nada que pudesse ser dito ou feito, Citan se foi. Ele e seu Gear Heimdall estavam a bordo do casulo e se afastaram da condenada nave pirata, para aterrisar coincidentemente nos limites da fronteira de Kislev. Talvez fosse obra do vento.
          E uma visão curiosa o aguardava quando desceu, o que o fez investigar mais depressa ao passar pelas proximidades da colina onde um dia a frota de Vanderkaum estivera. O som de passos metálicos de Heimdall se fez ouvir até que ele parou diante de uma pilha de escombros fumegantes. Não dava para dizer com certeza o que aquilo tudo fora, mas haviam garras de metal retorcidas e canhões destroçados largados sobre a areia, e isso bastou para que Citan o reconhecesse.
          _ Isso é... o Dora. Ele estava estacionado aqui? Isso foi muito descuido da minha parte...
          Mais surpreendente que o Gear pesado ali, no entanto, era a situação em que ele estava. Conhecedor das forças da Gebler, Citan não podia pensar em muitas coisas que pudessem reduzir o Dora àquela condição. Mas...
          _ Mas, sua condição... é exatamente a mesma dos outros que ‘ele’ destruiu...
 
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CAN FIND THE ANSWER, AND THEN