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Capítulo 10: A Caminho de Nisan
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A Yggdrasil recolhera os fugitivos no deserto e agora eles estavam rumando
para Nisan enquanto conversavam no convés com Sigurd, e ele perguntou:
_ Bem, Marguerite, agora que já salvamos você, posso fazer uma pergunta? Por quê resolveu ir contra o inimigo sozinha? _ Desculpem... - e ela pareceu acanhada - mas... eu ouvi um rumor na cidade naquele dia... Diziam que as irmãs da seita que haviam sido capturadas por Aveh ainda estavam vivas... _ Obviamente, um rumor infundado começado pelo inimigo a fim de atrair você - concluiu Sigurd, mas Maison interveio: _ Por favor, não seja tão duro com ela. A Seita de Nisan é o lar de Marguerite. É perfeitamente compreensível. Bart ainda não havia se pronunciado, fingindo estar muito ocupado com o timão do convés. Ao ouvir aquilo, voltou-se. _ Então... você achou que podia salva-las sozinha?! Isso foi burrice!! _ Eu achei que podia! E daí?! Eu estava errada. Mas... - e Margie pareceu perder a irritação novamente, voltando as costas e olhando para o deserto - mas... vovó e mamãe já tinham sido executadas... _ Marguerite... Sigurd, bem como os outros, podiam entender o quanto aquilo devia ser doloroso para a moça. Para acalmar os ânimos, Maison pigarreou: _ Seja como for, Marguerite está aqui ilesa. Isso é o que importa! Antes que a sorte acabe, levemos Marguerite para Nisan. Podemos conversar mais lá. Agora, eu irei preparar o seu quarto... Senhorita Marguerite, posso pedir que me acompanhe? Maison se retirou e Margie seguiu logo atrás dele, mas ela não dera cinco passos ainda antes que Bart a chamasse. _ Margie!! A moça voltou-se e viu o olhar do primo, agora bem mais compreensivo, quando ele disse: _ Da próxima vez avise a gente! Nós vamos com você. _ Tá... Eu vou fazer isso. Ela parecia triste, mas um tanto reconfortada, quando deixou o convés. Passado um instante, Sigurd comentou: _ Marguerite está suportando tudo sozinha. Jovem mestre, você deve ser gentil com ela. Eles desceram pouco depois e a primeira coisa que Fei e Bart descobriram foi o bicho de pelúcia rosa que Margie fizera questão de trazer consigo. Estava bem diante da ponte de comando e atrapalhando quem queria entrar e Bart comentou com o amigo: _ Essa Margie! Deixar um bicho estranho desses bem aqui! Agora fica aí, interrompendo o caminho pra a ponte! _ Isso não é estranho! - retrucou uma voz fina e Bart olhou para os lados, antes de olhar feio para Fei. _ Ei Fei!!! Vamos parar com as vozes engraçadas, tá?! _ Hã? Mas eu não disse nada! _ ... Esquisito. Mas que seja, vamos pedir à Margie pra dar cabo disso. E lá se foram os dois rumo ao quarto de Margie, próximo ao hangar de Gears da Yggdrasil. E mal chegaram lá, Bart foi dizendo: _ Ei Margie, livre-se daquele animal de pelúcia estranho que tá sentado diante da ponte! Está no caminho! _ Ela não é um ‘animal de pelúcia estranho’! Tem um nome! O nome dela é Chu-Chu! Mas é esquisito. Ela estava bem aqui, onde eu coloquei, um momento atrás... Foi quando a porta se abriu e o ‘bichinho de pelúcia’ de Margie entrou e falou com a voz fina que Fei e Bart tinham ouvido antes:
_ Prazer em conhecer vochu!! Eu sou Chu-Chu! - e voltou para Fei seus grandes
olhos escuros - Eu me apaichunei por vochu quando vi vochu pela primeira
vez em Bledavik!! Para onde quer que vá, eu vou com vochu!
E ela então virou o rosto, parecendo terrivelmente sem jeito enquanto dizia para si mesma: _ Ah, meus deuses... Eu acabei de declarar o meu amor!! Bart coçou a cabeça e pareceu muito surpreso, mas também estava se divertindo: _ O que nós pensamos que fosse só um brinquedo de pelúcia é na verdade um animal vivo! Esquisito! _ Não admira que ela parecesse tão quente agora há pouco! - comentou Margie de braços cruzados e com ar de quem tinha entendido tudo. Fei foi o único que não achou tanta graça, ao notar que Chu-Chu estivera falando com ele. _ O q-quê? _ Manda ver, Fei!! - Bart deu-lhe um tapinha no ombro - Tá tudo bem. Eu, como capitão, dou a vocês a minha permissão! Chu-Chu pulou de alegria, Fei mandou que Bart ficasse quieto e Margie riu. Vendo a animação da criaturinha rosa e o ar sem graça do amigo,Bart riu mais ainda e se afastou comentando: _ Bom, eu não quero interromper vocês dois, então vou esperar na ponte. Fei balançou a cabeça desconsolado mas, apesar de também estar rindo, Margie ficou um pouco mais séria quando Bart saiu e agradeceu a Fei. _ Obrigada pela sua ajuda no castelo. Eu... ouvi dizer que você esteve ótimo no torneio. Bart estava se gabando do quanto vocês eram companheiros, e tudo o mais. _ M-mesmo? - perguntou Fei voltando-se para ela, parecendo um pouco menos embaraçado. E Margie deu as costas a Fei, baixando a cabeça e parecendo envergonhada. _ Sabe, eu queria poder ajudar ao Bart, mas acabei devendo a ele de novo. Fei - e voltou-se para ele - você já viu as costas do Bart? Ele tem cicatrizes ao longo das costas, e elas parecem muito dolorosas. Há muito tempo, quando nós dois fomos presos por Shakhan, Bart me protegia de levar surras. Naquela época eu decidi segui-lo... para servi-lo e protege-lo! Mas é sempre ele quem me protege... Fei continuou em silêncio. Não era realmente o tipo de imagem que se faria de Bart conhecendo-o superficialmente, mas ele realmente sabia ser responsável quando o assunto era alguém com quem se importava. E Margie pareceu ficar embaraçada de repente por falar de forma tão aberta, e se desculpou. _ Hã, ah, me desculpe... Seja como for, muito obrigada por ter me salvo! Pouco depois na ponte, Fei encontrou Sigurd e Bart conversando e procurou acompanhar o assunto. O imediato de cabelos brancos estava falando sobre o que Margie lhe dissera a respeito de um causador de problemas da Gebler, e Bart confirmou: _ É, acho que já vi... Então, quem diabos é ele? _ Pela descrição de Margie, acredito que seja Kahran Ramsus, da Agência Especial de Tarefas no Estrangeiro do Império de Solaris. Em outras palavras, ele é o comandante em chefe da Gebler. Parece que a Gebler não está apenas procurando pelas áreas de escavação em torno de Aveh, afinal. _ Tá querendo dizer que eles não estão atrás do Jasper? _ Se este fosse o único objetivo deles, não precisariam enviar um homem importante como ele! Jovem mestre, isso pode se tornar inesperadamente complicado... _ Desculpe interromper, Sigurd - interrompeu Fei - mas o Doc não voltou ainda, voltou? _ Ah, Hyu... digo, ‘Doc’... Bem, não precisa se preocupar com ele, em breve se reunirá a nós. E estamos a caminho de Nisan, através da estrada secreta. O sinal para localiza-la é uma árvore solitária no deserto. Citan chegou à Yggdrasil pouco antes da entrada do cruzador na estrada secreta. Enquanto a nave desaparecia pela estrada subterrânea, Sigurd e Citan trocaram confidências na sala de conferência do cruzador e com ar pensativo, Sigurd disse: _ ... Agora entendo porquê você veio até a superfície... Certo, eu entendo você. Mas Kahran Ramsus... assumir o posto de Aveh é muito inconveniente. _ O país natal pode ter tido algumas razões especiais - comentou Citan pensativamente - mas talvez ainda haja uma chance de sucesso. Você e eu, que costumávamos ser chamados de “Elementos” na escola de treinamento do comandante em Jugend estamos aqui! _ Espero que esteja certo... _ Aliás, ela ainda está...? Sigurd pareceu ainda mais preocupado antes de concordar com um aceno de cabeça. _ De acordo com Fei, havia uma auxiliar feminina ao lado de Kahr, e ele disse que ela possuía olhos e cabelos cor azul índigo... Então, deve ser ela... _ Então, todos os antigos membros dos “Elementos” estão na superfície do mundo agora... _ Acho que sim - e Sigurd voltou as costas ao velho amigo, parecendo um pouco nervoso antes de dizer - Hyuga... Para ser honesto com você... ela me assusta. Ela apóia Kahr e é gentil com todos, eu sei muito bem disso, mas às vezes eu sinto um medo estranho dela. Isso me incomoda mais do que Kahr estando nesta terra. _ Isso não pode ser verdade... Não nela. _ Sim, eu também não quero acreditar nisso, mas não se lembra de como eu sempre pude sentir essas coisas com precisão? _ Sim, me lembro - Citan pareceu mais preocupado, sabendo que os instintos de Sigurd eram dignos de toda a confiança. Meio que para sair do assunto, ele perguntou: _ Aliás, você já contou ao jovem...? _ Não, ainda não. Não quero que ele se preocupe até sabermos exatamente quais são os objetivos de Solaris. Mas, eventualmente, eu terei que contar a ele. Mas de qualquer forma, Hyuga, você conseguiu alguma informação? _ Na verdade não - lamentou Citan - Eu saí de lá antes de penetrar na seção central... Sem que ambos soubessem, Fei estava no alto da escadaria ouvindo a conversa, absorto em pensamentos como o nome pelo qual Sigurd chamava Citan. Estava tão absorto que deu um pulo quando alguém chamou baixinho pelo seu nome. _ ‘Fei!!’ Ele voltou-se sobressaltado, mas viu que era apenas Bart, também chegando devagar para espreitar a conversa. _ ‘Ah, é você Bart?! - ele disse baixinho - Não me assuste desse jeito...!’ _ ‘Foi mal, foi mal - ele olhou para baixo, ficando tão intrigado quanto Fei - Me parece que Sig e seu amigo doutor conhecem muito bem um ao ouro. Sig... que droga, achei que eu sabia de tudo sobre aquele cara! _ Quando o Doc voltou...? - perguntou-se Fei, voltando a olhar para baixo. Mas isso seriam respostas para depois. Não tardou para que a poderosa Yggdrasil aportasse na doca secreta em Nisan. O povo aguardava ansioso, pois Sigurd providenciara para que a cidade soubesse que Marguerite estava retornando e, no momento do desembarque, Maison desceu com os viajantes enquanto Sigurd fazia os acertos finais a bordo. Bart foi o primeiro a descer e perguntou ao primeiro aldeão conhecido como estava a cidade. _ Apesar da alegria do povo com a volta da Madre Marguerite - disse o homem - recebemos notícias há vários dias atrás de que pode haver um exército avançando da Capital Real, e os representantes da Seita estiveram em discussão desde então. _ E o que eles decidiram? _ Até agora, planejam apenas reforçar as defesas locais. E pessoas contrárias a Shakhan foram reunidas aqui... Provavelmente porque eles ouviram sobre o que está havendo. _ Bem, isso é reconfortante. _ Sim. No entanto, os habitantes estão começando a se sentir inseguros. Há pessoas começando a se refugiar nas montanhas ao norte. _ Não dá pra culpa-los. _ É claro. Aliás, como está Marguerite...? _ Melhor do que pensávamos. Mas eu sei que ela passou por maus bocados. Margie desceu pouco depois, e o grupo de recepção ficou visivelmente alegre com o retorno da Grande Madre. Juntamente com Maison, Citan, Fei e Bart, ela cruzou os portões da cidade e olhou maravilhada para tudo o que podia. _ Uau! Já faz tanto tempo desde que eu saí daqui! _ Bem - disse Citan - antes de mais nada, devemos acompanhar Marguerite até o templo da seita... Foi quando notaram Bart olhando para trás, e ele perguntou com ar intrigado: _ O que foi, Velho Maison? Foi quando todos notaram que o mordomo estava chorando, enxugando discretamente uma lágrima no canto do olho. _ *Sniff...* Os deuses me agraciaram...! E pensar que a pequena Senhorita Marguerite finalmente foi capaz de voltar para cá... É tão comovente! Citan e Fei olharam para Maison, para Bart e novamente para Maison, e Bart pareceu ficar sem jeito diante das lágrimas do seu tutor: _ E-ei! Vê se se controla, velho! Maison mais do que depressa enxugou as lágrimas, também parecendo sem jeito: _ M-me perdoem... Que terrivelmente embaraçoso! Eu não pude evitar... Eu... é melhor que eu volte e dê algumas instruções aos homens que ficaram na nave. Por favor, jovem mestre, vá adiante e acompanhe a Senhorita Marguerite em sua visita às irmãs. Com licença. Maison os deixou e o grupo seguiu rumo ao monastério, onde a notícia da chegada de Margie deixara todas as irmãs numa grande expectativa. Sempre acompanhando a jovem madre, o grupo chegou ao grande monastério. O monastério era um lugar espetacular, com janelas e vitrais ricamente trabalhados e uma aura de tranqüilidade que poderia subjugar o maior dos guerreiros. As freiras estavam reunidas diante do altar em oração quando uma delas ouviu alguém entrar e reconheceu a garota que vinha diante dos três homens. _ Margie! Diante do nome conhecido, todas as irmãs se voltaram e vieram correndo receber a madre desaparecida. A alegria da reunião era mútua e, entre a troca de saudações, ela disse: _ Sim, e é tudo graças ao Bart e a estes homens. _ Nós ouvimos dizer - respondeu uma das freiras - Então, estávamos cantando um hino de alegria e júbilo. _ Bem vinda de volta, Margie - saudou Irmã Agnes, a líder presente das freiras - Nós tínhamos fé em que você e seu primo Bart um dia retornariam em segurança. Nós e seus outros amigos estivemos esperando por vocês. _ Irmã Agnes! - e Margie trocou um abraço com a freira mais velha, que disse com pesar: _ Infelizmente, sua mãe e a abençoada Madre Real... _ Eu já sei, Irmã Agnes... Eu ouvi a respeito na Capital Real... Mas, ao menos, eu consegui voltar. Eu nunca mais vou pra lugar nenhum, nem vou deixar vocês de agora em diante! _ Abençoada seja, minha querida. E a freira mais velha enxugou lágrimas. Lembrando de algo dos modos de Bart, Margie limpou as lágrimas de Agnes e disse: _ Irmã Agnes, isso não parece você! Aqui estou eu, sã e salva! Será que não pode me dar uma bronca, como nos velhos tempos? Agnes sorriu com a brincadeira, e isso dissipou o ambiente triste. _ Hã... Eu sinto muito... mas estou tão feliz que não pude evitar... As demais freiras mantiveram-se num silêncio emocionado, até que Agnes olhou em volta e disse, subitamente parecendo inconformada: _ ... Não há razão para ficar tão solenemente quietas. Para celebrar o retorno de nossa querida irmã Margie e para expressar nossa alegria aos céus, vamos encerrar o nosso hino. _ Obrigada - disse Margie, contendo a emoção - e abençoadas sejam vocês todas. Ah, e irmã... eu posso ir lá em cima? Já faz tanto tempo, e eu gostaria de dar uma olhada lá. _ Ora, mas é claro, querida! Não precisa ter vergonha de ir a lugar algum, a não ser por uma coisa: nunca mais fique longe por tanto tempo. Margie riu, sabendo que Agnes diria aquilo. Já se parecia com a mesma Agnes que ela conhecia. E as freiras retornaram ao seu canto no altar, que soava pela catedral e dava à aura de paz uma presença mais real. Bart ficou á esquerda da prima e comentou, meio para si mesmo: _ Já faz algum tempo desde a última vez em que estive aqui - então viu que algo parecia diferente na expressão da prima e perguntou - Algo errado, Margie? _ ... Não... Nada. É só que... - ela também limpou os olhos e sorriu para Bart - Acho que eu fiquei um pouquinho comovida. Heh, heh heh. _ ... Tá. Mas vê se pega leve agora. Você já passou por coisa o suficiente, tá? _ ... Se está tentando me fazer chorar, não vai conseguir. Ah, já sei! - e olhou para Fei e Citan - Que tal se eu mostrar a vocês a nossa catedral? Me sigam! E foi animadamente correndo na frente, tomando o rumo de uma ampla escadaria, enquanto Citan comentava: _ Que garota forte ela é... É óbvio que ela realmente quer apenas relaxar e chorar... _ É, você acertou - Bart concordou - Ela sempre foi assim. Por tudo o que ela fala, dá pra ver que entende bem sua posição... Talvez hajam umas coisinhas que eu poderia aprender com ela. Eles subiram com Marguerite até os camarotes do segundo andar. A luz do sol entrava pelos vitrais e o canto das freiras era ainda mais nítido ali em cima. O telhado era desenhado de forma a facilitar a acústica, e os entalhes por toda a sacada haviam sido feitos de forma soberba. _ ... Que magnífico! - admirou-se Citan. _ Sempre que aprontávamos quando éramos crianças - disse Margie - Bart e eu costumávamos nos esconder aqui. _ Ei, pare de contar essas velhas histórias! - ralhou Bart - É embaraçoso! _ Mas, pra mim, Bart não mudou muito desde então - comentou Margie, se afastando pelo corredor. _ O quê?! Quer dizer que você acha que eu ainda sou um moleque!? Fei e Citan fizeram sinais para que ele falasse mais baixo; afinal, ainda estavam numa catedral! E eles seguiram Margie até ficarem na passarela exatamente sobre a porta de entrada, de frente para o altar. Margie olhava para o altar, encantada. _ Eu acho que a vista daqui é a melhor. Sobre o altar, entre vários candelabros, haviam duas figuras enormes semelhantes a anjos. Mas havia uma peculiaridade: cada um dos anjos só tinha uma asa, e ambos pareciam estar prestes a segurar a mão um do outro. Citan acenou afirmativamente com a cabeça antes de responder: _ Sim, isso é de tirar o fôlego! A luz externa brilha através do vidro temperado da frente da catedral... Que obra de arte de maestria brilhante é esta! _ Vocês perceberam - perguntou Margie - que os dois grandes anjos só têm uma asa cada um...? O canto das freiras pareceu mais alto e Margie prosseguiu: _ De acordo com uma lenda passada em Nisan, Deus poderia ter criado os humanos na perfeição... mas assim, os humanos não ajudariam um ao outro. E é isso o que estes grandes anjos com uma só asa representam. Para poder voar, eles dependem um do outro. _ Ah, então é essa a razão - Citan fez que sim com a cabeça, começando a meditar profundamente enquanto olhava em volta - Entendo. Numa nova inspeção, o anjo esquerdo parece um tanto masculino, enquanto o da direita parece feminino. Sem dúvida é uma conotação incomum, não? Geralmente, estas descrições não especificam o gênero. Mas estes anjos são claramente distinguíveis como tendo gêneros opostos. E o espaço entre eles é o caminho onde há o advento de Deus... ou seria o caminho levando a Deus? Bem, não sei. Poderia ser qualquer um, ou ambos. Ele pareceu pensativo por um longo momento, sem notar que Bart, Margie e Fei olhavam para ele em silêncio e com ar de estranheza. Ele finalmente bateu nas próprias mãos, concluindo: _ Entendo! Isso tudo coincide com os ensinamentos de Nisan! Bart e Margie olharam par Fei, mas ele meramente acenou que não com a cabeça; também não entendera nada. E Margie riu. _ Ah, Doutor Citan Uzuki, você é um companheiro divertido! Foi quando Citan percebeu que se perdera nas reflexões e pediu desculpas, um tanto embaraçado. Em sua defesa, Fei disse sorrindo: _ O Doc sabe um bocado sobre um bocado de coisas. Às vezes, nem eu entendo do que ele está falando. Todos voltaram a olhar para os anjos enquanto a catedral continuava cheia do canto angelical das Irmãs de Nisan, e pensaram por algum tempo na lenda. Bart acabou por dar de ombros: _ ... Hah! Forçá-los a voarem juntos...? Seria menos incômodo se eles pudessem voar por si mesmos, não acha Fei? _ Bart! - Margie o repreendeu - Você está perdendo o significado mais profundo e belo disso! - e voltou o olhar para as estátuas, com ar sonhador - Algum dia, eu gostaria de poder ajudar alguém desse jeito... Eles continuaram a observar as imagens e a ouvir o canto, imersos nos próprios pensamentos sobre a lenda e os anjos por mais algum tempo, até que Margie voltou-se para os três, tendo se lembrado de algo. _ Ah, não visitamos a ‘Sala de Sophia’ ainda não é? Seria realmente necessário que vocês passassem por alguns procedimentos antes de poderem vê-la, mas acho que vai ficar tudo bem se desta vez eu fizer uma exceção especial. _ Sophia? - perguntou Fei. _ Sim, Sophia. Ela é reverenciada como a madre fundadora da nação de Nisan, e fundadora da religião de Nisan, que segue seus ensinamentos. Há uma sala lá em cima que tem um retrato da Madre Sophia. _ Eu definitivamente gostaria de ver isso! - declarou animadamente Citan - Fei, vamos dar uma olhada. Eles tornaram a seguir margie até o fim da passarela, passando por algumas portas laterais até chegar à última delas, onde havia uma escadaria maior. Ao fim dela, havia um quarto onde a janela curiosamente tinha a forma do pingente em forma de crucifixo de Fei, e a luz do sol desenhava a forma exatamente no tapete central. O trio entrou seguido por Margie e a primeira coisa de que Fei se tornou consciente depois de olhar para a figura ali retratada foi a voz de Citan, comentando que era um retrato peculiar, e a linda dama retratada também estava além de qualquer comparação. _ E, mais ainda... - ele comentou pensativo - isso parece muito familiar...! O que acha, Fei? _ É, eu acabei de pensar a mesma coisa. O cabelo é de uma cor diferente, mas a atmosfera, ou a personalidade dela é exatamente a mesma. _ O quê? - Citan ficou confuso - Cor do cabelo? Do que está falando? _ O que eu quero dizer? - Fei nem sequer piscava, com os olhos fixos na enorme pintura diante de si - Olhe...! É a garota que eu encontrei na floresta... é a Elly! Quero dizer... - e voltou-se para os outros, parecendo confuso também tem algo nela que é idêntico à Elly... você não acha? _ Sim, agora que mencionou... - e Citan estudou mais atentamente a figura - ela se parece com Elly. Mas não era disso que eu estava falando... eu queria dizer que a técnica de pincel e o estilo de cobertura usados neste retrato são parecidos com os seus. _ Mesmo? - e Fei tornou a olhar para o retrato, aproximando-se mais para ver melhor. Vestida num hábito branco de freira, sentada numa cadeira estofada antiga e com um crucifixo gêmeo ao de Fei no pescoço, estava Sophia. O mais intrigante nela era que, a despeito do penteado diferente e da cor diferente do cabelo, qualquer um poderia dizer que aquela era realmente Elly, com um sorriso melancólico no rosto como se estivesse triste no momento da pintura. Fei olhou com cuidado o estilo da pintura e foi para o outro lado antes de dizer: _ Em primeiro lugar... Eu não chego nem perto de ser tão bom artista. _ Não... - discordou Citan - é muito parecido com o seu estilo. Mas... de algum modo, eu posso sentir uma atmosfera de tristeza neste retrato - Fei tornou a olhar para a jovem retratada ali, enquanto Citan comentava - Ela está sorrindo mas, de certa forma, dá a impressão que ela está ansiosa. Talvez o retrato esteja refletindo o interior dela? Ou talvez, sejam os sentimentos interiores do artista sendo refletidos? Citan novamente parecia estar imerso em reflexões. Voltando-se novamente para o quadro, ele deu mais atenção ao canto inferior direito e observou: _ Ah... Se olharem com mais atenção, vão perceber que a pintura não está completamente terminada - todos repararam, então, que havia um espaço branco apenas manchado naquele canto do quadro - O artista largou seus pincéis quando estava quase terminando. Por quê isso? A pergunta fora feita para Margie, mas ela também não sabia responder. _ Acho que a minha avó sabia algo sobre isso... mas e se perguntarmos para Agnes? Ela pode saber de alguma coisa. _ Bom... vamos dar uma passada na cidade? - perguntou Bart. _ Sim, claro - Citan concordou, ainda olhando pensativo para o quadro - mas esta pintura despertou minha curiosidade. Se importa se eu falar com a Irmã Agnes antes de voltarmos? _ Tudo bem. Vamos passar pelo quarto dela. Todos saíram do aposento, mas Fei deteve-se por mais um instante. Ele voltou-se mais uma vez para o retrato, sentindo uma enorme sensação de familiaridade, e quase pôde ver um rapaz da sua idade e com o cabelo preso como o dele pintando um retrato que ainda não estava naquela parede. A porta do aposento estava aberta, e havia uma jovem dama sentada diante do artista, enquanto esperava que ele fizesse o retrato. Uma jovem dama que poderia ser Elly. E ela dizia um nome... “Lacan...” Fei sacudiu a cabeça, percebendo que esquecera de algo importante que parecera dançar por um momento em sua mente. Citan voltou até a sala e perguntou então: _ Há algo de errado, Fei? Parece que você estava divagando. _ Hã...? Não. Não... é nada. A visão perturbadora se fora e ele quase já não podia se lembrar dela... Correndo com Citan e Bart para alcançar Margie, eles a encontraram nos aposentos de Agnes, na biblioteca do monastério. Margie estava pensando em voz alta, em meio à conversa com Agnes quando chegaram: _ Eu imagino que tipo de pessoa foi Sophia... Eu adoraria tê-la encontrado. _ Margie me contou que viram o retrato de Sophia - Agnes disse aos recém-chegados quando se aproximaram - Ela foi a madre fundadora de nossa seita. Dizem alguns que o retrato foi pintado há pelo menos 500 anos. _ Quinhentos anos... - refletiu Citan - Isso é realmente fantástico. Pessoalmente, eu considero aquele retrato intrigante. Vocês têm algum material histórico de tal período? _ Em nossas mãos, não há tais registros intactos - lamentou Agnes - Todos os registros e materiais referentes à Sophia se perderam... O retrato é a única coisa que resta. Nós também não temos muito conhecimento sobre ela. _ Isso é mesmo uma pena! Então, não há realmente nada restando? _ Para alguém que ajudou Marguerite, eu adoraria ter alguma outra coisa a partilhar, mas infelizmente, eu sou incapaz de ajudar... _ Oh, bem, não importa. Por favor, não se preocupe com isso. Eu só estava indagando. Mas realmente parece estranho... Se uma construção majestosa como esta sobreviveu à história, seria de esperar que um ou dois pergaminhos também deveriam ter resistido. _ De acordo com a tradição, Sophia esteve presente há quinhentos anos atrás... Ela sacrificou-se pelas pessoas e foi convocada para estar com Deus. É tudo o que eu posso dizer a vocês. _ Entendo... - lamentou Citan - Então, tudo se perdeu nas trevas da história. Tendo falado a respeito da lenda de Sophia, mesmo que pouco tivesse ficado claro, Fei, Citan e Bart foram novamente a Nisan onde Maison chamava pelo seu jovem mestre em voz alta, avisando ao encontra-lo: _ O povo de Nisan foi muito generoso em nos permitir alugar esta casa. Portanto, não precisamos nos incomodar com acomodações por algum tempo. E, a propósito, Mestre Sigurd deseja ter uma palavra com vocês a respeito de seu próximo movimento, se puder. _ Tá certo. E cadê o Sig? _ O bom mestre Sigurd espera por vocês aqui dentro. _ Tá. Valeu Maison. Sigurd os recebeu com um cumprimento de cabeça, comentando num tom sereno que lhe era comum: _ Sempre que venho aqui acalma o meu coração. Mas, de qualquer forma jovem mestre... eu quero discutir quais são nossos planos daqui por diante. _ Tudo bem. Mas, antes de fazer isso... tem uma coisa que eu quero te perguntar. _ ...A mim? _ É. Bart entrou num quarto dos fundos, seguido por Sigurd. Citan ficou à porta e não pareceu nada surpreso quando o rapaz perguntou subitamente: _ Sig... O que é que há entre você e aquele oficial da Gebler? Qual é a conexão entre você e ele...? Sabe... Com certeza, você sabe um bocado sobre a Gebler por algum motivo! Sigurd ficou em silêncio por algum tempo, voltando-se para a porta ao ver Citan aparecer e acenar afirmativamente com a cabeça antes de responder. _ ... Muito bem, eu vou contar - Citan veio colocar-se ao lado do amigo, enquanto Sigurd começou a explicar - Eu e... Citan, aqui... costumávamos morar em Solaris. _ Solaris... - Bart parecia estar entendendo devagar - Você quer dizer... de onde vem a Gebler? _ Isso mesmo. “Solaris... chama os forasteiros de ‘Cordeiros’. São usados para trabalho manual. Basicamente é escravidão.” _ Escravidão? Maison, e também Fei, entraram no quarto também para acompanhar a conversa enquanto Bart perguntava: _ É de lá que vocês se conhecem? - e indicou Citan, ao que o doutor respondeu afirmativamente com um aceno enquanto Sigurd continuou: _ Nós trabalhamos para o governo de Solaris por um curto período, mas descobrimos que não gostávamos dos métodos deles e fugimos na primeira chance que tivemos. Bart ficou em silêncio por algum tempo, parecendo sério como raramente se via. Parecia estar considerando tudo o que ouvira. Após a pausa, ele perguntou: _ ...Vocês eram amigos dessas pessoas? Sig - e parou diante do imediato - eu conheci você quando era garoto e estivemos juntos desde então... Assim, isso teria que ter acontecido ainda antes. Provavelmente eu não teria entendido isso se tivesse ouvido antes, mas... por quê você achou que eu não poderia lidar com isso agora? Você com certeza podia ter me contado. Especialmente quando tinha algo a ver com as pessoas que estão apoiando aquele idiota do Shakhan! - e deu as costas a Sigurd, parecendo aborrecido - Eu queria que você tivesse me dito antes. _ ... Não há nada que eu possa fazer a respeito disso agora - respondeu Sigurd, após um instante em silêncio - Mas há uma coisa em que eu quero que acredite: nós deixamos Solaris por vontade própria e por nossas próprias razões. Agora que eles surgiram diante de nós, não podemos apenas nos sentar e não fazer nada. Se necessário, eu darei minha vida para detê-los. Bart olhou para Sigurd, para Citan, deu uma olhada para Fei como que pedindo apoio e acabou abanando a cabeça afirmativamente, e respondeu: _ Tá bom, eu entendo. Mas dá pra detalhar um pouco mais? - sentou-se na cama atrás de si - O que me incomoda é esse negócio de ‘Habitantes da Superfície’... É como se Solaris fosse em outro lugar. Como nas nuvens, ou coisa do tipo? _ Sim, bem... - Sigurd resolveu começar do princípio - Etrenank, a capital do Império Solaris, é localizada nos céus. Solaris é separada da terra por campos de distorção dimensional conhecidos por ‘Portões’. A travessia entre os dois requer meios especiais de transporte... tais como aeronaves. Para chegar a Aveh, nós embarcamos num vôo regular até a superfície. _ Eu vim bem depois de Sigurd - comentou Citan - ms também escapei da mesma forma. _ Hmmm... tá. E o que são ‘Cordeiros’? _ É a palavra que os solarianos usam para indicar aqueles que vivem na terra. Como eu disse antes - prosseguiu Sigurd - tais ‘habitantes da superfície’, ou ‘habitantes da terra’, são usados para trabalho manual, que pode ser qualquer coisa. Desde soldados até trabalhos administrativos. Solaris reúne sua mão de obra dos habitantes da terra. Os trabalhos são divididos entre os mais apropriados. Algumas vezes, as pessoas sofrem lavagem cerebral. _ Lavagem cerebral?! - perguntou Bart, agora parecendo indignado. _ Eu... quando você, jovem mestre, ainda era menino, eu fui usado como objeto de testes. Provavelmente havia algo que eles valorizavam dentro de mim. Bart e Fei ficaram em silêncio. Isso parecia demais. Voltando-se para Citan, Fei perguntou: _ Você também, Doc? _ Não... Eu nasci nos níveis mais baixos da cidade. Não é um segredo completo... mas acho que eu sou um solariano. Sabem... Você sempre precisa de gente para conduzir um país... Não importa o quão cientificamente avançado seja, você não tem apoio sem pessoas. _ Solarianos puros são raros - comentou Sigurd - Na verdade, eles não chegariam a um quarto da população total de Aveh. Então, eles sustentam seu país roubando habitantes da superfície. Bart sacudiu a cabeça negativamente, como que afastando o pensamento de que qualquer um poderia servir, como acontecera a Sigurd. Ao invés disso ele perguntou: _ Aquele cara da Gebler com quem eu e Fei lutamos... quem é ele? _ O nome dele é Kahr... Kahran Ramsus - respondeu Sigurd - Como já sabem, ele é o Comandante da Gebler. _ Ramsus...? _ Nós o chamamos de Kahr. Em Solaris, há uma escola de treinamento de oficiais chamada ‘Jugend’. Ele se tornou o comandante depois de sair de lá. _ Ele é um cidadão dos níveis baixos, assim como eu - disse Citan - No entanto, com suas habilidades fantásticas... depois de se graduar, ele subiu pelos postos com velocidade inigualável. _ Aquele homem tinha um ideal - continuou Sigurd - alcançar uma consolidação de todos os seus colegas. Mesmo habitantes da terra, se tivessem talento, eram trazidos para o exército. _ Então, vocês dois foram pegos pelo Ramsus...? - perguntou Bart. _ Não... - respondeu Citan - Não fomos pegos por ele. Nós mesmos nos aliamos a ele. _ Naquela época, concordávamos com ele. _ Naquela época, Ramsus era a nossa esperança. Ele tinha ideais altos e queria mudar o sistema de Solaris. Para nós, objetos de teste e cidadãos de nível baixo, ele era realmente tudo o que podíamos querer. _ Um benfeitor? - Bart não conseguia imaginar a figura arrogante com quem lutara como esperança, fosse para quem fosse. _ Sim - confirmou Sigurd - Mesmo eu, um objeto de testes, fui movido pelos ideais dele. _ Então, por que vocês quiseram sair de Solaris? _ Fomos colocados em posições militares chaves por Ramsus - explicou Sigurd - e graças a isso, soubemos do relacionamento entre Solaris e os habitantes da superfície. _ Os... ‘Cordeiros’, né? _ Eles não usavam a nós, ‘Cordeiros’, apenas para trabalho escravo - o rosto de Sigurd pareceu mais sombrio - Eles também escolhiam alguns de nós, como eu, para serem usados como objetos de experiências para refinar suas drogas... Drogas que mudam as personalidades das pessoas, para torna-las mais agressivas e para retirar suas habilidades latentes. Estavam nos usando como cobaias humanas para testar suas drogas de alteração psicológica. _ Cobaias humanas...? - Bart não parecia acreditar - Experiências em humanos? _ Sim - confirmou Sigurd - Por exemplo... ‘Drive’. Essa droga e todas as outras como ela são produtos derivados de experiências humanas. _ No entanto - completou Citan - o papel de tais objetos de experiência não era limitado apenas a isso. _ Essa droga ‘Drive’ - perguntou Fei pensativo e parecendo preocupado - é uma coisa que qualquer um no exército de Solaris pode usar? _ Pelo menos, qualquer um nas forças Gebler que seja enviado para a superfície - respondeu Citan, e Bart voltou-se para Fei, entendendo o que preocupava o amigo. _ Está preocupado com ela, né? - Fei voltou-se depressa para ele, e Bart fez que sim com a cabeça, sério - Eu vi um pouco disso... no quarto dela. _ Não... _ ... Que seja ... Usar escravos como cobaias... Quanto esses caras podem ser baixos...? Saco! - sentou-se novamente na cama e fez um sinal afirmativo com a cabeça - É... acho que entendi a maioria. Velho Maison! Reserve o salão da cidade pra nós. Vamos terminar de conversar lá. Eu vou lá fora respirar um pouco. Bart saiu sozinho, e Sigurd comentou um tanto pesaroso: _ Eu deveria ter sido honesto com ele antes... _ É melhor não se preocupar com isso - atalhou Citan - Você fez tudo o que pôde no tempo certo. O jovem vai entender. Fei saiu em seguida, encontrando Bart numa passarela de Nisan, pensativo. Pondo a mão em seu ombro, ele perguntou: _ Você está bem, Bart? _ É, acho que sim - mas continuava olhando para frente - Eu não tinha idéia de que Sig tivesse um passado desses... _ Ainda está desconfiado dele? _ Bom... Quero dizer... Foi tão repentino. Acho que eu esperava ouvir alguma coisa diferente... como que nós fomos rivais na infância, ou coisa parecida. Mas isso nem se compara à história que ele acabou de nos contar, né? _ Então, ouvir a história dele confundiu você porque não era tão simples. Citan chegou logo e juntou-se aos dois - Houve um tempo em que ele esteve cooperando com um dos generais da Gebler. E mais, Solaris era uma terra da qual você sequer havia ouvido falar. _ Ei, o que você tá querendo dizer? _ Não, não estou querendo dizer nada, nem culpando você por nada. O que estou dizendo é isso: se pensar em como ele se sente, então vai entender porque ele não podia falar sobre isso com você até agora. Olhando para as atividades de Solaris em relação aos outros países até então, percebe-se que não era nada além de simples manutenção do seu próprio império, ou ‘autopreservação’. E, como você viu, o poder militar deles é imenso. Então provavelmente Sigurd estava pensando adiante. “Ele provavelmente estava se concentrando em dar conta dos problemas aqui, no continente de Ignas, primeiro. Uma vez que as coisas estivessem em ordem por aqui, isso daria a ele uma fundação mais forte para lidar depois com Solaris, o que é um plano bem melhor do que correr diretamente para uma guerra que ele sabia que não poderia vencer. Muito lógico, na verdade.” _ Parece que vocês entendem um ao outro muito bem - comentou Bart, ainda olhando para frente. _ Bem, nós não somos exatamente desconhecidos, não? - Citan deu de ombros - E nós costumávamos conversar sobre várias coisas até decidirmos fugir de Solaris. _ Falando nisso... por quê vocês fugiram? Aquele sujeito, Ramsus, deveria ser uma ‘Estrela da Esperança’ ou coisa assim, não devia? _ Sim, eu certamente pensava assim no início. Mas então percebi que o modo de pensar dele realmente não era uma grande mudança no sistema prévio. Basicamente, a única diferença era que eles ignoravam a posição e classe da pessoa, ou sua habilidade. As palavras haviam mudado, mas ainda não havia diferença do que Solaris havia feito até então. Ele não tinha nenhuma intenção de trazer a todos um modo de vida melhor. _ Em outras palavras, ele é um elitista - Bart cruzou os braços, parecendo aborrecido - Acho que não gosto muito dele. Fizeram silêncio por algum tempo então, perdidos nos próprios pensamentos. Por fim, Bart perguntou: _ E então, Citan... Acha que eu consigo vencer a Gebler? _ Por quê? - Citan voltou-se para ele - Está planejando enfrenta-los? _ Enquanto estiverem trabalhando com Shakhan, não há como evitar isso. Da forma que as coisas vão, eu tenho certeza de que vamos ter que lutar com eles mais cedo ou mais tarde. _ Hmmm... Imagino que sim, mas... mesmo que derrotássemos as forças Gebler aqui, ainda há Solaris para se lidar. Se não formos cuidadosos, é possível que nos envolvamos com uma guerra muito mais longa do que essa com Shakhan. Não concorda que continuar da forma em que está é muito mais difícil para todos? Eu acho que é hora de tentarmos conseguir a ajuda de um número maior de pessoas. _ Então, derrotar Shakhan não vai dar cabo daqueles tipos da Gebler - voltou-se para Citan - Eu sei o que tá tentando dizer: “Para conquistar Gebler, primeiro recupere teu trono!” Certo? _ Hmmm... Você poderia colocar dessa maneira. _ O que quer dizer com ‘poderia colocar dessa maneira’? Mas, mesmo assim, talvez seja hora de eu fazer algo sobre isso. Foram então até a casa de reuniões da cidade e encontraram Maison e Sigurd lá, com uma mesa no centro da sala que Sigurd emprestara na loja de ferramentas. _ O proprietário da loja disse: “Se o jovem mestre precisar de qualquer coisa, é só pedir”. _ Eu estou grato - Bart foi até os quadros de Nisan na parede dos fundos e comentou, distraído - Quando eu era um guri, costumava emprestar coisas de lá e sempre me metia em apuros. _ ‘Emprestar’...? - Fei imaginou se Bart avisava o que estava emprestando e perguntou - E o que você levava? _ Um barco de brinquedo... Acho que era isso. Eu colocava fogos de artifício nele e deixava flutuar no lago da catedral. Eu sempre costumava brincar de marinha - olhou por uma janela voltada para o lago e continuou - Não tenho certeza, mas acho que eu fingia que o lago era o mar aberto, e eu era o comandante da frota. Mas... que seja. Esqueçam essas histórias velhas. É melhor nós começarmos. Deixando a janela e as lembranças para trás, Bart tomou posição junto à mesa com Fei, Citan, Sigurd e Maison e começou-se a reunião. _ Primeiro... a Gebler é o problema maior. _ Sim - concordou Citan - Ramsus está a caminho de cumprir seus objetivos. O fato de ser agora o comandante da Gebler é prova disso. Um homem comum não poderia progredir tão depressa ao longo da organização daquele país. E agora, ele está atualmente aqui em Ignas. Francamente, a situação não é muito favorável. Precisamos de algum modo encontrar um ponto fraco e atacar com todo o nosso poder. Bart olhou pensativo para o mapa e os companheiros, antes de se decidir: _ Primeiro, vamos nos concentrar só em Shakhan. Assim que ele estiver fora do caminho e Aveh estiver segura de novo, podemos pensar no que fazer quanto à Gebler. - cruzou os braços - Com nossa força atual, devemos ser capazes de conter as forças da guarda real. O problema é como lidar com a Gebler ao mesmo tempo... Eles com certeza devem reagir a pedido de Shakhan. Não vão simplesmente sentar e ficar quietos. _ Posso dar uma olhada no mapa? - pediu Citan, considerando o cenário por algum tempo em silêncio e por fim dizendo: _ Resumindo, nós queremos que a Gebler parta por algum tempo. Pelo menos, até que recuperemos a capital real, Bledavik. Ele então indicou o mapa de Ignas, com alguns pontos assinalados, e confirmou: _ Estas são as unidades Gebler atualmente em Aveh, correto? - mostrou o ponto próximo à estrada para Nisan - Os guardas do oeste... - depois o ponto central do continente - a força de defesa da Capital Real e... - por fim, indicou o ponto a nordeste - as unidades ao longo da linha divisória na fronteira com Kislev. Há três grupos, cada um feito de uma mistura das forças de Aveh e da Gebler. Só dois deles são muito grandes: as unidades de defesa da Capital Real e as unidades de fronteira de Kislev. A guarda reunida na fronteira de Nisan é pouco mais do que um grupo de vigilância. _ Para recapturar a capital real - observou Sigurd - será necessário retirar essas unidades de defesa de Bledavik. _ Nós temos alguns Gears em Kislev, correto? - perguntou Citan e Bart confirmou, dizendo que haviam conseguido alguns. Citan apontou para a fronteira com Nisan e perguntou: _ E se usarmos estes Gears para lançar um ataque aos guardas do oeste aqui, na fronteira com Nisan? _ Entendi - disse Bart - Vamos atraí-los fazendo parecer que Kislev está invadindo Aveh. _ Mas o problema é: atacar os guardas da fronteira será o bastante para pôr o centro em movimento? - perguntou Sigurd. _ Para garantir isso, Nisan terá que parecer estar aliada a Kislev - explicou Citan - Se eles virem as coisas desta forma, certamente irão se mover. _ Está dizendo que quer usar Nisan como isca? - era óbvio em seus olhares que tanto Bart quanto Fei reprovavam a idéia - Logo Nisan, em batalha...? _ Shakhan é muito sensível às ações de Nisan e Kislev - ponderou Sigurd - Se Nisan começar a agir ele provavelmente deixará o serviço para a Gebler, mas... _ É claro que eu não pretendo fazer isso de início - explicou Citan - mas olhando para a situação, nós podemos ser levados a chegar a este ponto. A idéia de envolver Nisan no confronto não parecia muito boa e Bart tornou a se aproximar do mapa e planejar. _ Primeiro, nos infiltramos na capital. Pra derrubar Shakhan, vamos nos encontrar com nossos agentes que já estão na cidade. _ Estamos esquecendo de uma coisa - comentou Citan - As unidades próximas à fronteira de Kislev. Ele indicou a fronteira e explicou: - A força principal da frota de Aveh é a nave de batalha Kefeinzel. Ela esteve em serviço desde o reinado do último rei. Devido ao seu poder de fogo, a unidade inteira é chamada de ‘a frota invencível’. Pelo que me lembro, o relatório da inteligência de ontem disse que a nave está próxima da fronteira. _ Saco... Isso coloca tudo em xeque! _ Não fique tão deprimido. Eu apenas queria que você visse a distribuição atual de forças na área. Mesmo que no pior caso eles venham, não será um problema tão grande. _ O que quer dizer? - perguntou Bart, confuso, e Citan explicou: _ Eu tenho algumas informações adicionais sobre a frota de fronteira de Aveh. O comandante supremo aposentado de Aveh foi transferido para lá. Bem, não realmente transferido... melhor dizer removido... O seu nome é Vanderkaum. _ Vanderkaum... - Sigurd pareceu reconhecer o nome - Não está falando do mesmo Vanderkaum que esteve em Jugend? _ O próprio - e, voltando-se para Bart - Jovem, ele não foi capaz de adaptar-se às mudanças de táticas... particularmente o que veio depois da introdução dos Gears. Ele é um homem que nunca vai se afastar de sua dependência de grandes armas navais. _ Tá querendo dizer que ele é convencido. Ele é todo tamanho e nenhum poder militar verdadeiro... - Bart pareceu satisfeito - Um alvo excelente pra piratas! _ Jovem mestre! - exclamou Maison, horrorizado - isso não vai ser um ato de pirataria! _ Só estava brincando. _ Na verdade, o número de Gears designados para a frota parece ter sido reduzido - observou Citan - Mesmo assim... que generoso da parte dele ser tão cheio de si. _ Ele é assim, tão miolo mole? - perguntou Bart, animado - Vai ser divertido bagunçar ele! _ Jovem mestre! - tornou a protestar Maison. _ Eu sei, eu sei! Que seja; Citan, você acha que ele pode atacar nossa força de Gears? _ Isso não é problema. Mesmo com Vanderkaum, nós temos forças suficientes restando para agir. No entanto, não seria sábio subestimar nossos oponentes. _ Bem, agora que sabemos contra quem estamos lidando, aqui está o que faremos: - e Sigurd mostrou o mapa - Além de fazer nosso grupo principal atacar Bledavik, temos que impedir a frota nos limites de Kislev de voltar para a capital. _ Então, está sugerindo que tenhamos outra unidade? - perguntou Bart, e Citan confirmou com a cabeça. _ Uns poucos soldados eficientes para manter o inimigo longe... Uma força pequena é melhor. _ Força pequena...? - perguntou Sigurd. _ E se Fei conduzir um grupo de Gears até lá. _ Eu...?! - Fei perguntou com todos olhando para si. _ Espere um pouco! - objetou Sigurd - Não há razão para envolver todos vocês nisso! _ ... Eu vou fazer isso - concordou Fei, após pensar por um instante - É, deixe que eu faço isso. Então, quando partimos? _ ... Você tem certeza? - quis saber Bart. _ Nós já chegamos até aqui... Ei, somos amigos até o fim, agora! Bart concordou com um sorriso, e Citan disse: _ A velocidade é tudo. Devemos cuidar disso assim que for possível. _ Tá bom, amanhã. _ Eu... estou realmente grato... Fei, Citan... - Sigurd parecia sem palavras, e Bart confirmou com animação pelos dois. _ É isso aí, não tem jeito de nós perdermos! Ninguém vai morrer em vão! _ Muito bem dito, jovem mestre! - concordou Maison. |
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