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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 09: O Torneio
 

            O dia começou cedo para os conspiradores e Citan já estava pronto quando Fei e Bart despertaram.
          _ Bom dia. A operação ‘Resgate de Margie’ agora está em andamento! Primeiro, Fei e eu iremos nos preparar para o Torneio na arena. Quando o Torneio começar, Bart entrará na trilha d’água pelo poço e rumará até o castelo. Tenho certeza de que conseguirá, mas ainda deverá haver guardas lá. Livre-se deles em silêncio, por favor. Nós faremos um bom trabalho para que o Torneio atraia a atenção dos guardas tanto quanto for possível. Neste tempo, você pode resgatar Margie.
          _ OK, então, vamos por isso pra funcionar! - animou-se Bart.
          _ Então iremos adiante. Cuide-se, jovem.
          Fei e Citan rumaram para a arena na praça do castelo. Ao chegar na ala dos lutadores, foi ordenado que Citan ficasse junto à torcida e o doutor aconselhou Fei a não deixar qualquer batalha terminar muito depressa, pois quanto mais pudesse manter a atenção do público, mais simples seria para que Bart penetrasse no castelo. Curioso com seus possíveis adversários, Fei entrou na Tenda dos Participantes. Entre eles havia um grandalhão de sobretudo vermelho, cabelos verdes e com uma pose que, se significasse poder de luta, indicaria que aquele seria seu adversário mais duro. Fei ouvira falar dele durante sua breve estada em Dazil; era Big Joe. Também havia garotas entre os lutadores, mas o que realmente surpreendeu Fei foi descobrir um conhecido de Lahan entre os competidores.
          _ Dan? O que está fazendo aqui?
          _ É culpa sua que Alice... - o garoto voltou-se para ele com olhos nada amistosos - Eu nunca vou te perdoar. Eu vou matar você!
          _ Dan...
          Nesse momento, um soldado entrou e avisou que o Torneio começaria logo e que todos os participantes deveriam entrar na arena. E Dan saiu da tenda dizendo:
          _ Você é o inimigo de todos em Lahan! Eu vou chutar o seu traseiro diante de todo mundo! E não adianta tentar fugir!
          Dan saiu e misturou-se à multidão sem que Fei pudesse detê-lo, detido de repente por um homem misterioso envolto num manto azul cinzento e com uma estranha máscara branca a ocultar-lhe o rosto.
          _ Ei senhor, você é de Lahan? - Fei voltou-se intrigado para ele, e o homem comentou em tom casual - Me parece que você e aquele menino têm alguma espécie de problema.
          _ Quem você pensa que é? - Fei perguntou irritado - Meta-se nos seus assuntos!
          O homem apenas riu em resposta, e Fei perguntou:
          _ O que é tão engraçado?
          _ Nada... Só estou imaginando que espécie de luta você terá com aquele menino... Bem, acho que terei que esperar para ver, ‘Fei’.
          _ Hã...?
          O homem saiu da tenda e Fei perguntou-se como ele podia saber seu nome, se Dan não o dissera e ele nem ao menos se registrara no Torneio com seu verdadeiro nome. Mas isso seria uma resposta para descobrir mais tarde.
          No hotel, Bart sentia que sua impaciência poderia matá-lo e finalmente ouviu os clarins do castelo que anunciavam o início do Torneio, e voltou-se para a freira de Nisan.
          _ Tá pra começar! Melhor eu me preparar, também.
          _ Esse plano vai mesmo funcionar?
          _ Já começou. Se algo estiver errado agora, então vai ser dose!
          A preocupação dela ameaçava contagiá-lo, e Bart procurou parecer muito à vontade.
          _ Ei, não se preocupe, Fei vai ficar bem! Além disso, Citan também tá com ele. Tudo o que eu preciso fazer agora é invadir o castelo pelo poço. Sem problema. 
          _ Eu rezo para que esteja certo.
          _ Bom, eu vou indo. Margie está esperando na cidadela.
          _ Então, boa sorte. E muito obrigada por estar ajudando a Madre Marguerite.
          _ Sem crise! E é melhor você também sair de Aveh. As coisas vão ficar animadas logo, logo.
           Despedindo-se da freira, Bart seguiu rumo à grade mais próxima do hotel, erguendo a proteção e metendo-se nos túneis d’água enquanto Shakhan aparecia na varanda do palácio de Aveh e começava o discurso de abertura do Torneio:
          _ Bravos jovens estão derramando seu sangue nas linhas de frente. Nosso exército é o melhor, mas as ondas da guerra são incertas. Para proteger a tradição de Aveh e preservar a paz neste deserto, todos devemos fazer resoluções perturbadoras. O deserto é um tesouro precioso passado a nós por nossos ancestrais. Aqui, podemos forjar nossas mentes e corpos em um só. Nossos professores são o sol e o vento. Nos reunimos aqui hoje, com nossos corpos fortes forjados pelo deserto. O sol sobre nós é o mesmo que queima sobre nossos pais no front. O vento soprando aqui é o mesmo que agita nossa resolução e nossas preces e as leva aos nossos filhos no front. Este Torneio eleva nossos espíritos e renova nossas bênçãos deste deserto em que vivemos.
          Eram palavras inspiradas, sem dúvida, mas Shakhan podia estar sendo sincero tanto quanto podia estar fingindo. Sua expressão e o tom de voz continuavam insondáveis. E ele prosseguiu:
          _ Bravos, guerreiros, lutem bem e não envergonhem nossos irmãos no front. Que o 338o Torneio comece!
          Um gongo soou na praça e a multidão foi ao delírio. Shakhan olhou para baixo, satisfeito com o discurso.
          _ Umm... Uma fala entusiástica, se posso dizer isso de mim mesmo.
           Alguém se aproximou por trás e Shakhan reconheceu a figura marcial de Ramsus.
           _ Ah, Comandante Ramsus. Desculpe tê-lo mantido esperando. Por aqui, por favor.
          Miang entrou logo atrás de Ramsus, mas o comandante não aceitou a poltrona especial que lhe fora destinada.
          _ Temo que eu não tenha tempo para tais frivolidades. Passei apenas para me despedir.
          _ É uma pena - lamentou Shakhan - Não gosta do nosso entretenimento?
          Ramsus deu uma olhada para a praça onde os lutadores se reuniam e respondeu simplesmente:
          _ Eu acho tedioso.
          _ Ora, deixe estar, Comandante. - disse Miang - Shakhan está apenas tentando mostrar hospitalidade. Pessoalmente, eu acho artes marciais muito interessantes. Ficarei esperando para ver o Torneio.
          _ Dizer que este evento é um tributo a você, Comandante, não é subestimar. - floreou Shakhan - Sua graciosa ajuda em nossa hora de necessidade nos permitiu celebrar a fundação do país hoje.
          _ Fundação, que impróprio - e voltou-se para Shakhan - Nem ao menos é o seu país. Hmph, faça como quiser.
          Virou as costas e saiu. Sem se dar por achado, Shakhan perguntou:
          _ Miang, e quanto ao Torneio? Vai nos agraciar com sua companhia?
          _ Sim, seria um prazer.
          _ Ah, está começando!
          O gongo soou novamente lá embaixo, anunciando a primeira luta: Gonzalez contra o ‘Jovem Viajante’. Ante a ovação do público, Miang viu Fei entrando na arena pela ala esquerda e comentou consigo mesma:
          _ Meu...! Que rapaz bonito!
          A luta começou. Gonzalez era um grandalhão careca e barbudo com uma clava de homem das cavernas e um físico bruto, mas Fei logo percebeu que não teria dificuldades para vencer, se quisesse.
          Ainda assim, a fim de tornar as coisas mais simples para Bart, ele procurou encenar uma boa luta. Os primeiros golpes com a clava eram lentos demais, mas Fei levou todos eles, apenas tendo o cuidado de não receber os mesmos em cheio. Enquanto Bartholomew Fatima vencia as alterações de intensidade entre a correnteza subterrânea que seguia até o castelo, Fei levou alguns golpes mais pesados e recuou até a borda do ringue. Enquanto Bart saía do reservatório de água e levava uma bronca do velho zelador, Fei evitou o golpe que o derrubaria para além do ringue e revidou com um Raijin, lançando Gonzalez para o outro extremo da arena, quebrando a clava e pondo o adversário fora de combate.
          Bart acabara de sair para o pátio interno do castelo, olhando desconfiado para os lados, mas não havia qualquer guarda realmente próximo, e os demais pareciam estar olhando para fora das muralhas. Na arena, Fei lutava contra o badalado e exagerado Big Joe, que entrou na arena fazendo alarde e, depois de uma volta por todo o ringue, voltou-se para Fei e apontou para ele, dizendo:
          _ Sinto muito garoto, mas agora é a ‘hora do Joe’!
          Pior do que o trocadilho, só mesmo o estilo de luta do grandalhão de cabelos verdes. Fei não conseguiu entender porquê a platéia delirava tanto, mas ao menos isso tornava a luta um pouco mais fácil de disfarçar; Joe só seria perigoso se sua pose fosse poder de luta. Fei teve que enfeitar muito e fingir sentir os golpes para conseguir segurar a luta mais um pouco, mas quase instintivamente bloqueou um ataque de Joe e o atingiu em cheio, derrubando-o para fora da arena e encerrando a luta, mediante os olhares incrédulos da platéia e da choradeira do grandalhão.
          Bart subia até o segundo andar, escondendo-se entre as bibliotecas e cômodos enquanto procurava por Margie. Teve que enfrentar alguns guardas menores. Problemas, sem dúvida, mas bem menos do que seria de esperar no castelo. Fei devia estar fazendo um ótimo trabalho.
          Na arena, enquanto isso, Fei deparou-se com o mago viajante Scud, uma figura curiosa com um turbante na cabeça e um manto verde que disse para que ele tivesse cuidado com suas pílulas. Pareceu estranho a Fei até ser atingido pela ‘Pílula Estranha’ do mago, que envenenou Fei e o deixou atordoado e fraco, alvo perfeito para o ataque de abelhas do alquimista. Enquanto Fei tentava clarear a mente, Scud o atacou com uma faca e depois recuou, espantado com a resistência do rapaz. 
          Fei esperava que Bart estivesse adiantado dentro do castelo, pois Scud finalmente era um adversário que precisava de atenção. Scud aproveitou o momento de pausa para usar uma ‘Pílula Forte’ e uma ‘Pílula Alegre’ para garantir que seu próximo golpe seria o último. Foi, portanto, uma surpresa para ele quando seu ataque seguinte, rápido demais para qualquer ser humano, como ele pensava, Fei saltou para longe e colocou-se em posição de defesa, já recuperado pelo poder do seu Chi e pela sua técnica do ‘Valor de Ferro’, que aumentaria a sua força.
          Scud atacou novamente, ainda mais veloz do que qualquer humano comum, mas ele não era realmente um lutador. Seu primeiro ataque com a faca encontrou o vazio, e um Senretsu de Fei o jogou para o alto e para trás, conseguindo uma ovação ruidosa do público. 
          Semifinais do torneio. Fei olhou para o adversário e surpreendeu-se, pois não era ninguém menos que Dan. O menino olhava para ele com o mesmo olhar rancoroso de antes, e não era menos surpresa o simples fato de ele estar ali.
          _ O que está fazendo aqui, Dan?
          _ Hmph! Eu fugi da casa da Yui! Estou aqui pra vingar a morte da minha irmã! Seu assassino! Você vai pagar!
          _ Dan, por favor...
           Nem mesmo para manter o disfarce de seu amigo Fei se obrigaria a lutar com Dan, e o menino aproveitou para atacar com golpes que o próprio Fei lhe ensinara, enquanto dizia atacar por sua irmã, por Timothy e por todos os de Lahan. Fei no entanto não teve problemas para se afastar ou para conter os golpes do menino, até que Dan subitamente se afastou e uniu as mãos, reunindo energia do Chi diante de si.
          _ Heh! Não vai escapar, seu assassino!
          E a liberou num Tiro Guiado que quase lembrava o poder do Weltall em sua aparência e, Fei logo percebeu, talvez quase em força, também. A rajada de energia recobriu o rapaz e o empurrou para trás com violência, e Fei precisou de toda a sua força e concentração para não ser jogado para fora da arena.
          Dan lançou outra vez o Tiro Guiado, e Fei não conseguiu esquivar-se, suportando sem poder se mover e esperando que Bart aproveitasse a chance, porque estava certo de que não passaria daquela luta.
          Bart, enquanto isso, estava num lance de escadas e subindo depressa. Haviam alterado algumas coisas dentro do Castelo Fatima; nem tudo estava como ele se lembrava, e agora, havia guardas atrás dele. Tiros espocaram atrás de si e ele subiu, desaparecendo da visão de seus perseguidores. Eles continuaram a segui-lo e se voltaram para a esquerda, por onde ele fora, e o jovem príncipe os atingiu de repente, balançando nos chicotes que prendera a um caibro do teto e derrubando os guardas de surpresa. Como iria imaginar que haveria vigias responsáveis o bastante para não estarem vendo seu amigo Fei na arena? Ou seria possível que Fei tivesse sido derrotado?
          “Ah não, de jeito nenhum! - ele pensou consigo mesmo - Até parece! Ninguém pode ganhar daquele cara! É melhor parar de pensar bobagem e ir buscar a Margie; mesmo sem perder, uma hora ele vai ser o campeão, e o Torneio acaba. Tenho que me apressar.”
          De volta à arena, não parecia provável para Fei que ele seria o campeão. Seu poder da Cura Interior estava revigorando suas forças e amenizando seus ferimentos, mas não iria agüentar aquilo para sempre. Dan estava descarregando mais e mais Tiros Guiados sobre ele, e a platéia estava de fôlego preso, indagando-se quanto mais o Jovem Viajante suportaria sem revidar. Então, Dan finalmente pareceu ficar cansado.
          _ Droga, Fei... por quê você não revida?! Anda, eu te desafio!
          _ ... Não posso. Não posso me obrigar a atacar você, Dan!
          _ Droga! Derrubar você tão facilmente não vai satisfazer as almas da minha irmã ou do Timothy! Saco! Vou ter que deixar esse duelo pra depois. Da próxima vez em que eu te encontrar, vai ser o seu funeral! Até lá, fique com isso!
          E jogou um tecido branco na direção de Fei. O rapaz constatou com surpresa que era o vestido de casamento de Alice, e Dan ainda disse:
          _ Sempre que olhar pra ele, quero que sofra e sinta a culpa pelo que você fez!
          Dan desapareceu da arena logo em seguida e não ouviu nada do que Fei queria dizer.
          Enquanto Bart finalmente chegava à torre leste, começou a luta final do Torneio entre Fei e o estranho mascarado identificado como “Sábio”. Fei procurou tomar logo a ofensiva, mas não conseguia atingir o oponente.
          O Sábio não revidava seus golpes, mas nenhum deles tampouco tocava o homem de manto. Sem conseguir atingi-lo e já ouvindo as primeiras vaias da platéia, Fei não pôde deixar de comparar a sua luta atual com a que tivera antes com Dan, o mais forte evitando atacar para não ferir o mais fraco, e se incomodou com a facilidade que o outro tinha em evitar mesmo seus golpes especiais, como o Raijin ou o Senretsu.
          Finalmente, ganhando espaço após ter um chute alto repelido, Fei disparou um Tiro Guiado e derrubou o Sábio, que no entanto girou no ar e caiu de pé.
          “Isso não é nada bom - pensou Fei - Desse jeito...”
          _ Bem como eu pensava - disse o Sábio repentinamente, e mediante a surpresa de Fei, ele tornou a perguntar:
          _ Você, onde foi que aprendeu essa técnica?
          _ Quem se importa com isso... Ande! Lute pra valer!
          _ Hmm. Então, por quê está lutando? Por si mesmo? Ou em nome de outros?
          _ Por quê está perguntando? - Fei mantinha a guarda alta, mas as perguntas o haviam perturbado.
          _ Não tem que haver uma razão, ou um objetivo para uma pessoa lutar?
          _ As minhas razões não são da sua conta!
          _ Então, está lutando sem nenhuma razão ou objetivo?
          _ Quer calar a boca? Eu estou a caminho de descobrir o meu propósito!
          _ ... Então esqueça! Pois não há meio de você encontrar tal coisa.
          _ O quê?
          _ Você parece estar olhando adiante, mas, na verdade, só está olhando para baixo! Só está olhando para si mesmo. Desse jeito, não vai encontrar nada.
          _ Como você pode saber...?
          _ Eu sei - e deu as costas a Fei de braços cruzados, quase parecendo rir sob a máscara - Apenas trocando golpes com você posso fazer uma boa idéia.
          _ Ah, cale-se!
          Fei tornou a atacar, mas o Sábio o evitou como se ele fosse uma criança, e respondeu:
          _ Fraco, fraco... Não vai sequer me tocar com esse tipo de ataques... Mas, superficialmente ao menos, você parece ter amadurecido fisicamente.
          Fei continuou sem entender. Quem era aquele homem? E ele continuou, deixando Fei ainda mais surpreso.
          _ Você se saiu bem se recuperando daqueles ferimentos, Fei...
          _ Hã? Como você sabe o meu nome?! Eu deliberadamente não usei meu nome verdadeiro quando entrei nesse concurso. E isso de me recuperar dos ferimentos...? Você não é quem eu penso que é?!
          De repente, o Sábio curvou-se como se sentisse dor e, diante da dúvida de Fei, ele perguntou-se:
          _ Oh, Deus... já é hora? Acho que não posso evitar... Tenho que partir!
          E foi exatamente o que ele fez, embora Fei ainda tivesse perguntas a fazer e a platéia ainda quisesse ver uma luta. Pela desistência do Sábio, Fei foi aclamado vencedor... mas ele sentia que as perguntas não formuladas eram importantes demais para sentir-se como tal.
          Bart descobriu uma ala bem protegida no palácio e achou melhor investigar. Infelizmente, havia mais guardas ali que não haviam se retirado para ver o Torneio e não estavam dispostos a conversar. 
          Margie ouviu um som de confusão do lado de fora da porta do seu quarto. Depois, pareceu que a coisa agravara-se. A confusão virou uma luta que saiu do controle, e ela ainda se indagava se deveria se aproximar e ver o que acontecia quando um dos guardas arrebentou a porta com o corpo, arremessado por um poderoso golpe de um jovem, um rapaz loiro de um olho só que ela conhecia muito bem.
          _ Bart!Margie
          _ Vamos pra casa, Margie!
          Ela correu até ele e o abraçou aliviada, e o alívio era mútuo. Bart e Margie haviam crescido juntos e eram muito próximos, e só recentemente tinham descoberto o quanto podiam sentir falta um do outro. Com Margie ali, abraçada a ele, Bart sentia sua força voltar, e tudo parecia possível de novo. Sentira muito a falta da prima, e não voltaria a se afastar dela. Era bom sentir o rosto dela em seu peito. E ela disse, numa voz carinhosa:
          _ Eu sabia que você viria por mim.
          Foi quando Bart lembrou-se do lugar onde estava, e que ainda corriam perigo. Era bom estar com Margie outra vez, mas precisavam sair dali.
          _ Eu vou te tirar daqui. Anda, vem comigo!
          _ Tá. Ah, espere só um segundo - ela foi até um dos sofás e agarrou um estranho bicho de pelúcia rosa, dizendo meio sem jeito - Eu gosto muito disso.
          Margie ainda não perdera muito do seu jeito de menina ao que parecia, pensou Bart. De qualquer forma, ele a conduziu pelo corredor, pretendendo alcançar a fonte e sair dali do mesmo modo que entrara. Antes que chegasse à escadaria principal, a porta abriu-se e apareceram ninguém menos que Ramsus e Miang, e Margie agarrou seu braço.
          _ Bart, olhe!
          _ Saco, a Gebler!
          _ Parece que nós temos ratos - disse Ramsus, à sua maneira fria e impessoal - Onde planeja levar essa menina, garoto?
          _ Garoto? Hah, garoto?!? Experimente me chamar disso de novo! E quem diabos é você, afinal?
          _ Você tem audácia. Mas eu não preciso dar meu nome a ratos como você.
          _ O quê?
          Bart não gostara realmente nem um pouco de Ramsus e sua atitude superior, e o pior era que o outro não se incomodava nem um pouco com isso.
          _ Agora, entregue a menina - ele disse apenas - Ela é uma convidada muito importante. Até que ela nos diga onde um certo pedaço do Jasper de Fatima está, não podemos permitir que ela seja levada.
          _ Dá um tempo! Você acha que eu vou entregá-la só porque você mandou? Sai do caminho, seu cretino da Gebler!
          Nem isso pareceu perturbar Ramsus, e Bart tomou a frente de Margie. Ia haver encrenca, e ele não queria que nada acontecesse a ela. Ramsus deu um passo à frente e disse, ainda com seu porte Altivo:
          _ Hmm. Eu presumo que você saiba onde uma linguagem tão abusiva levará você.
          E sacou sua espada, enquanto Bart soltou seus chicotes. Ele se sentia estranhamente tenso. Havia algo naquela calma imperturbável do outro que o deixava inseguro, mas não deixaria que prendessem Margie de novo. A garota de cabelos curtos e olhos azuis escuros atrás do soldado finalmente falou:
          _ Se realmente quer proteger aquela criança, então se renda agora... Príncipe Bartholomew!
          _ Hã? Ah, então você sabe de mim, hein? - Bart estava realmente surpreso, mas não pareceu muito aborrecido - heh. Não é uma impressão tão ruim ter o nome conhecido por alguém tão bonita quanto você.
          _ Ba-arty! - repreendeu Margie atrás dele. Miang, ignorando os comentários, disse:
          _ Você pode ter tido seus problemas com Shakhan, mas nós não vamos tratá-lo tão mal. Quanto a Shakhan, nós achamos que ‘qualquer um’ é satisfatório para nós.
          _ É bom saber disso, mas eu não posso aceitar.  - Bart meneou a cabeça - Sabe, pra mim, ‘qualquer um’ é ruim.
          _ Então está decidido - e Ramsus tomou a frente, a espada em posição de ataque. Bart se colocou em guarda e disse sem se voltar:
          _ Tch... Margie! Se esconda ali atrás!
          _ Não! Eu vou lutar, também!
          _ Tanto faz, só se esconda!
          Bart iniciou a luta com seu golpe ‘Caçador de Cabeças’, abrindo a guarda de Ramsus com seu chicote direito enquanto prendia suas pernas com o esquerdo para depois derrubá-lo. O comandante da Gebler, no entanto, meramente rolou para trás e partiu para o contragolpe, e os dois imediatamente começaram a se atacar com golpes equivalentes em força e velocidade.
          O fato de ter uma arma a mais não favorecia Bart, ele logo percebeu, pois Ramsus era bom o bastante com a espada para conte-lo e ainda revidar; não tardou para que mais e mais talhos se desenhassem em suas roupas e seu corpo, com ferimentos cada vez mais pesados. Mesmo recuando, Bartholomew não conseguia evitar os ataques de Ramsus, embora se sentisse revigorar aos poucos. 
          Ramsus investiu pela frente e ele precisou de seus dois chicotes para desviá-lo, e foi então que viu que Margie estava rezando por ele atrás da pilastra, e entendeu de onde vinha sua resistência maior; ter uma prima que era a Grande Madre de Nisan, com orações que eram como uma técnica Ether de cura, tinha as suas vantagens. 
          Detendo-se e tornando a investir, Ramsus repeliu os chicotes de Bart e atacou pela direita, e o jovem pirata decidiu que era hora de terminar com aquilo; com seu ataque mais forte; “Duplo Sônico”, seus dois chicotes caíram sobre Ramsus enquanto sua guarda estava aberta e o jogaram para o alto, e o balé furioso das armas perseguiu o comandante da Gebler mesmo enquanto este caía ao chão. 
          Os ferimentos de Ramsus, no entanto, não pareciam muito graves e ainda se curavam visivelmente depressa. Bart voltou-se na direção de Miang e viu que ela parecia concentrada, de olhos fechados e mão direita erguida. A imediato obviamente estava curando Ramsus assim como Margie fazia com ele, mas num ritmo muito mais acelerado.
          _ Você não é ruim, garoto - Ramsus disse - Nesse caso, é melhor que terminemos logo com isso.
          Bart preparou-se para o pior, já respeitando a força do rival, mas tudo o que Ramsus fez foi manter a espada em riste diante de si próprio e fechar os olhos, como se concentrasse suas forças. Sem querer esperar pelo que poderia ser um ataque devastador, Bart ergueu a mão esquerda e condensou a energia Ether diante dela na forma de uma moeda, arremessando-a contra Ramsus antes de seu ataque.
          _ Disco Celestial!!
          Foi um erro. O Disco deteve-se na espada do comandante, que girou sua arma no ar contra Bartholomew e lançou toda a energia do Disco Celestial de volta contra Bart na forma de farpas dispersas, o que feriu o rapaz seriamente, a ponto de quase nocauteá-lo. 
          Margie deixou seu esconderijo e abraçou Bart, esperando poder curá-lo a tempo, enquanto Ramsus veio até os dois com ar imponente.
          _ Foi tolice atacar durante a minha “Defesa Espelho”, moleque. Posso voltar a força de qualquer ataque contra meu inimigo. Você não deveria ter me desafiado.
          Bart sabia o que viria, e praguejou consigo mesmo por não ter sido capaz de proteger Margie como deveria. A espada de Ramsus em breve terminaria seu serviço, e ele sequer conseguia ficar de pé.
          _ Bart!
          Miang, Ramsus e Margie não reconheceram a voz da figura que entrou pela janela, mas Bart sabia quem era. Fei penetrou no castelo e chegou em cima da hora, afastando Ramsus com um golpe facilmente bloqueado e depois emendando com um indefensável ‘Raijin’ que afastou Ramsus e Miang e deu a Margie o tempo necessário para recuperar os ferimentos de Bart, enquanto o próprio Fei se mantinha entre os amigos e os inimigos.
          _ Você tá bem, Bart?
          _ Estou feliz... que esteja aqui, Fei.
          _ Fei?
          Havia algo no nome que ouvira e na técnica que o atingira que perturbaram Ramsus, mas Fei não percebeu naquele momento, ocupado em bronquear com o amigo.
          _ O que houve, Bart? Eu pensei que esse era só um simples resgate.
          _ Ah, cala a boca! Que culpa eu tenho que esse asno tenha aparecido e me atrasado?
          Margie estava curiosa quanto ao amigo de Bart que chegara numa hora tão oportuna, mas estava ocupada recuperando os ferimentos do primo. E Ramsus não interviu, também sem ação.
          A forma como Fei surgira era semelhante a alguém de seu passado. Havia tropas inteiras de Gears, mas aquela figura vestida em rubro-negro e com longos cabelos ruivos soltos derrubava-os com facilidade sem sequer pilotar um Gear. Um disparo seu, e um Gear caía. Um golpe seqüenciado que Fei chamaria de ‘Senretsu’, e outro Gear foi ao chão. Um terceiro Gear caiu diante de um golpe onde o desconhecido carregara seu poder no punho e depois o liberou explosivamente num ‘Raijin’, como o que Fei acabara de usar.
          Miang subitamente lembrou-o de que agora havia dois inimigos a enfrentar, e Bart afastou Margie ao ver o outro erguer novamente a espada e clamar:
          _ Chega de falar! A batalha revelará a verdade sobre você.
          Fei e Bart ficaram lado a lado em guarda, e o pirata preveniu:
          _ Cuidado aí, Fei! Esse Gebler pode ser um asno, mas é um asno muito forte!
          A luta recomeçou. Os dois amigos atacaram juntos, mas a reputação do oficial não viera à toa. Sua espada dançava com mestria diante de si para evitar os chicotes de Bart, e então Fei atacou com seu golpe Hagan, saltando, atacando com vários chutes e finalmente caindo sobre si mesmo com um salto mortal, após um chute mais potente. 
          Um ataque poderoso, mas que quase não abalou Ramsus, ainda sendo recuperado à medida que se feria por Miang. Mesmo sem ela, no entanto, o fato do oficial resistir sozinho aos dois demonstrava uma capacidade impressionante, e ele quase não era atingido, apenas recuando quando tal acontecia e atacando a cada bloqueio, ferindo os dois. Quando ele posicionou sua espada novamente numa defensiva, Fei teve seu ataque detido por Bart que disse:
          _ Espera aí, Fei, que isso é a tal ‘Técnica Espelho’ dele. Se atacar agora, você não vai gostar.
          _ Isso está demorando muito, Bart - as preces de Margie não os recuperavam com velocidade suficiente, e Fei estava usando todo o seu treinamento marcial para resistir ao cansaço - Se ficarmos lutando aqui por muito tempo, logo vão aparecer guardas e nós não temos como lutar com tanta gente assim.
          _ Se tiver uma idéia melhor, eu tô ouvindo.
          _ Pra falar a verdade, tenho - e voltou-se para Bart, falando em voz baixa - Vamos combinar os nossos golpes.
          _ Quê?
          _ A garota de cabelos azuis está mandando energia Ether pra curar ele quase na mesma proporção em que nossos ataques o ferem. Se combinarmos vários golpes de uma só vez...
          _ É... pode funcionar. Mas vamos ter que ser rápidos e pegar ele de guarda baixa.
          Ramsus agitou a espada, desfazendo a postura de defesa e completamente recuperado. Fei posicionou-se para atacar e perguntou:
          _ Pronto?
          _ Quando você quiser, Fei!
          Fei correu na direção de Ramsus, e o outro veio contra ele com a espada pronta. Golpeou, mas Fei saltou sobre ele e passou pelo adversário enquanto Bart atacou com seu ‘Caçador de Cabeças’, aproveitando a guarda baixa do comandante e fazendo Ramsus atingir pesadamente a pilastra em seu caminho.
          O comandante ainda se punha de pé quando Fei o alcançou com um Raijin, fazendo Ramsus atravessar a pilastra com seu corpo e derrubando partes do teto sobre o oficial da Gebler, que se ergueu furioso. O poder de Miang ainda o revigorava, mas a seqüência de ataques fora dolorosa. Viu Fei tornando a atacar e ergueu sua espada para a Defesa Espelho, mas o primeiro chute do Senretsu jogou longe a lâmina, e os chutes seguintes pegaram Ramsus desprotegido, atingindo-o em cheio.
          O encerramento do ataque, um golpe de mãos juntas de Fei, jogou Ramsus na direção de Bart, e o líder dos piratas castigou o comandante Ramsus com um ‘Sônico Duplo’, atingindo-o com um balé rápido e furioso de seus chicotes. Por fim, prendeu o pescoço de Ramsus e o girou na direção de Fei, que saltou sobre o oponente e caiu sobre ele com um Hagan, quebrando sua armadura, ferindo-o pesadamente e jogando-o quase inconsciente ao chão.
          Aturdido mediante a violência e velocidade dos ataques seguidos, Ramsus pensou consigo mesmo: “Ele parece... completamente diferente... e não há resposta. Seria só a minha imaginação? Mas... aquelas técnicas são realmente as dele...”
          Por um instante, a imagem do estranho de cabelos ruivos tempestuosos e sua arrogante postura de combate tremeluziu ao lado de Fei e parecia fazer par com a dele. Miang veio ficar ao seu lado e guardas começaram a entrar pela porta atrás deles. 
          Fei atacou os guardas da frente com um novo Raijin, lançando-os sobre os de trás e para além da porta. Foi quando Margie se pronunciou;
          _ Deixem o resto comigo!
          _ Margie? - Bart não entendeu nada, até que a garota usou sua oração e, de parte alguma, vários e vários ratos cinzentos irromperam e investiram contra Ramsus, Miang e os guardas que entrariam em breve. Em meio ao tumulto, um rapaz com uniforme militar entrou por uma porta paralela e Fei comandou:
          _ Agora!
          E os três correram para lá, empurrando o jovem soldado para trás e entrando pelo elevador em que ele viera. Ainda ferido e em meio aos ratos, Ramsus pensou enquanto Miang o curava:
          “É ‘ele’? Ou apenas quero pensar que é ele...”
          Na verdade, a idéia de que Fei pudesse ser aquele de quem Ramsus se lembrava trazia uma sensação desagradável, que ninguém que tivesse vivido ou servido com o comandante poderia imaginar nele: medo.
          “Se for ‘ele’... eu... eu sou...”
          E novamente aquela voz feminina familiar falou em sua mente, parecendo ter dito aquilo havia muito tempo e, ainda assim, perigosamente real...
          “Sem valor... Um rejeitado...”
          _ Guarda! - sua voz e a presteza em se pôr de pé negavam seu estado debilitado quando ele deu suas ordens - Dobrem a guarda em todas as saídas! E não deixem aqueles ratos entrarem aqui outra vez!
          Descendo pelo poço, o trio de fugitivos não podia estar menos disposto a voltar. Curioso, Bart perguntou:
          _ Ei, Fei! Sabe aonde este elevador vai?
          _ Não sei. Pra onde ele vai?
          _ Eu é que tô perguntando! Essa coisa não estava aqui antes.
          Então, nenhum dos dois sabia para onde estavam indo. Fei imaginou que isso era bem típico das situações em que se metia com Bart, mas o pirata já estava consolando a prima com voz calma:
          _ Não se preocupe. Nós vamos te levar de volta pra casa... de algum modo!
          _ Eu não estou preocupada.
          O elevador continuou descendo, e Bart pareceu lembrar-se.
          _ Ei, Fei, como é que foi o Torneio?
          _ Ah, eu venci... acho.
          _ Como eu pensava. Eu sabia que você podia!
          O elevador finalmente chegou lá embaixo, e eles seguiram por um corredor metálico até o que parecia um hangar. Olhando em volta, Fei reconheceu a enorme nave de batalha aérea da Gebler que vira da floresta, quando estava com Citan. E Margie disse:
          _ Olhem só o que está saindo dela...!
          Uma fileira interminável de soldados Gebler estava saindo, todos correndo na direção do trio. Sacando os chicotes, Bart perguntou:
          _ Por acaso vocês tão com disposição pra outra batalha?
          _ Bart - Margie segurou no braço do primo - é melhor nós sairmos daqui... e rápido!
          _ Corram, depressa!
          E, seguindo Fei, eles fugiram para a direção oposta e entraram pela primeira porta à sua frente, com uma verdadeira legião de soldados em seus calcanhares.
          Nos alojamentos dos soldados dentro do hangar, Elhaym Van Houten ouviu o sinal de alerta e uma voz de aviso:
          _ Há intrusos na base! Três intrusos atualmente seguindo pela área da doca. Os dois homens devem ser mortos, mas a garota não deve ser ferida!
          Como bom soldado, Elly saiu de seu aposento, na direção indicada pelo alerta e teria se unido à equipe de perseguição se, naquele momento, o trio de fugitivos não tivesse chegado até ela, e foi uma figura conhecida quem acabou esbarrando na jovem. Depois da surpresa do encontro, veio à surpresa de um reencontro.
          _ Fei!
          _ Você... Elly? O que está fazendo aqui?
          _ Eu era quem devia estar te perguntando! - olhou atrás de Fei e viu Bart e Margie com o cansaço de quem tinha corrido muito e não quis acreditar - Não me diga que vocês são os intrusos, Fei?
          _ Hã?
          Bart estava agitado com a perseguição e a adrenalina em seu sangue estava alta. Ele pôs a mão nos chicotes e começou a dizer, enquanto avançava:
          _ Se ela está em nosso caminho, é só...
          _ Espere um segundo, Bart! - replicou Fei, contendo-o - Ela não... Elly não é inimiga!
          _ Não é inimiga? Cê tá maluco? Olha só o uniforme dela! É uma oficial da Gebler!
          Antes que Fei pudesse responder, a porta no fim do corredor abriu-se e eles puderam ouvir seus perseguidores chegando. Depois de um tenso segundo sem saber o que fazer, Elly abriu a porta de seu alojamento e comandou:
          _ Depressa, por aqui!
          Ela fechou a porta assim que eles entraram, e puderam ouvir o som de passos apressados correndo do outro lado. O som persistiu por algum tempo e depois acabou.
          _ Parece que eles se foram... - comentou Elly, ainda junto à porta. Passado o susto, Bart indagou:
          _ Fei, quer me explicar como é que você conhece uma oficial da Gebler?
          _ Bem... é complicado...
          _ Olha, eu não sei de onde você a conhece, mas não importa como veja, ela é uma oficial da Gebler! Não é uma inimiga? De onde você tirou essa?
          Ao invés de responder, Fei voltou-se para Elly como quem pede uma confirmação, e ela fez que sim com a cabeça:
          _ Sim. Forças Especiais do Império Sagrado de Solaris, também conhecida como Gebler... Eu sou a Tenente Elhaym Van Houten, da Terceira Divisão de Ataque do Exército de Ignas. E... enquanto voltava de uma missão para capturar o mais novo modelo de Gear de uma fábrica militar de Kislev, fui atacada por Gears perseguidores de Kislev e fiz um pouso forçado na sua vila.
          Fei apenas ficou em silêncio e Elly pareceu subitamente sem jeito - Eu queria contar, mas não consegui me obrigar a... - ela baixou seus olhos, sem conseguir olhar para ele - Quando ouvi o que o meu pouso de emergência causou na sua vila... não consegui dizer...
          _ Eu sabia.
          Elly olhou para ele sem acreditar, e só depois de um instante percebeu que ele falava sério.
          _ ... Fei?
          _ Eu ouvi enquanto você falava com o Doc.
          _ Então, por quê?
          _ Foi... tudo culpa minha. Mas eu descarreguei em você os meus próprios sentimentos... me desculpe.
          _ Não, não foi...
          Elly não sabia bem o que dizer. Não quisera falar a Fei sobre sua identidade por temer a reação dele, e agora... ele se desculpava. E fez que não com a cabeça, dizendo:
          _ Basta esquecer disso. Você não podia evitar... tinha seus próprios problemas.
          _ Mas, Fei... - e olhou curiosa para Bart e Margie - por quê está com eles?
          _ Eu estou cooperando com Bart e sua tripulação. Viemos resgatar Margie, que tinha sido feita prisioneira no castelo.
          _ Entendo...
          Elly tomara sua resolução depois de ouvir aquilo, e abriu a porta para o corredor, sobressaltando Bart.
          _ Ô, espera um minuto! Onde você acha que está indo?
          _ Vocês querem sair do castelo, certo? Nessa confusão, vocês podem fugir pela porta de lançamento de Gears.
          _ Grande idéia! Mas... será que nós realmente engolimos essa? Não, acho que não! Ela fala manso, mas provavelmente tá planejando nos entregar pra aquele velho careca. É um truque, Fei!
          Fei simplesmente não acreditava nisso, sabendo inconscientemente que Elly nunca faria uma coisa dessas, e não era apenas opinião sua, pois Margie tocou o braço do primo e disse:
          _ Espere, Bart! Ela não é má pessoa. Ela disse que nos ajudaria, então vamos seguir o seu plano.
          _ Ah - respondeu ele com um gesto de impaciência - você é sempre assim! Não dá pra ver... que ela é da Gebler?! Não seja tão confiante, droga!
          _ Isso não é verdade - e voltou-se para Elly - é, Elly?
          _ Ah, é? Olha só onde a sua habilidade de julgar caráteres te colocou...! - mas ele só estava reclamando por hábito, pois sabia que não iria convencer Margie do contrário, e procurou apoio em Fei - E quanto a você, Fei? Acredita nela?
          _ Eu já tomei minha decisão há muito tempo. - e olhava para Elly, que não soube o que responder. E Bart ficou exasperado.
          _ Gah! Primeiro você, agora ela! Que me importa! Vocês dois podem pular de um barranco que eu não me importo nem um pouco!
          A decisão já fora tomada. Elly saiu primeiro para verificar o corredor e pediu que esperassem, chamando-os em seguida.
          _ A costa está livre. Depressa, sigam-me!
          Os três acompanharam Elly até o hangar de Gears, não encontrando qualquer obstáculo. Diante de um dos Gears militares, Elly entregou uma combinação de números a Fei.
          _ Esse é o código de partida do Gear. Podem ativar qualquer Gear padrão com este código.
          Fei pareceu confuso, até entender que Elly não pretendia ir com eles. Ela fez sinal com a cabeça e disse:
          _ É tudo o que posso fazer por vocês. O resto cabe ao destino.
          _ Tá certo - e Bart tomou a frente, quase empurrando Margie consigo - Vamos, Fei!
          Mas Fei continuou parado olhando para Elly, que também olhava para ele. Parecia faltar algo a se dizer ali, e Bart chamou com impaciência:
          _ O que está fazendo? Anda logo!
          _ Venha com a gente, Elly! - Fei surpreendeu a moça, e continuou - Você não é o tipo de pessoa adequada a um lugar destes!
          _ Fei...
          _ Ô, vocês tão perdendo tempo falando! - Bart interrompeu de novo - Eles vêm vindo! Nós vamos ser presos!
          Fei também sabia que o tempo era curto, mas voltou-se mais uma vez para a moça ao invés de atender Bart.
          _ Elly...
          Com pesar, ela acenou que não com a cabeça - Obrigada, mas isso é impossível. Eu... sou um soldado de Solaris. Este é o lugar ao qual pertenço. Eu não posso ir com vocês.
          E afastou-se, então. Fei ainda chamou por ela mais uma vez, e ela parou sem se voltar para dizer:
          _ Fei, na próxima vez em que nos encontrarmos... nós seremos inimigos.
          E afastou-se correndo, sem dar mais chance para que ele dissesse nada. Depois de vê-la desaparecer pela porta do corredor, Fei voltou-se e entrou no Gear sem dizer palavra, e quando Bart quis fazer algum comentário foi silenciado por um gesto de Margie. As comportas se abriram e o Gear deixou o hangar pela porta de lançamento.
          Pouco depois, Elly estava alinhada com vários outros soldados e oficiais da Gebler, com Ramsus diante de si dando ordens à sua imediata:
          _ Miang, prepare o meu Wyvern! Eu tenho que persegui-los...
          _ Comandante!
          Ramsus voltou-se para o jovem oficial que o interrompera e ele cochichou:
          _ Comandante, eu recebi uma mensagem de Hyu...’
          Elly não pôde ouvir o que fora dito, mas Ramsus subitamente perguntou em voz alta - O quê?!
          Ele deu um suspiro, como que se resignando a algo que não o agradava e depois fez um gesto, ordenando:
          _ Desliguem a força! Chamem todos os homens de volta para a base e esperem por ordens posteriores!  - e cruzou os braços, parecendo pensar consigo mesmo - Aquele tolo... O que ele está fazendo aqui agora...?
 
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BROKEN MIRROR, A MILLION SHAPES OF LIGHT