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XENOGEARS
(Compilado e Adaptado por Louco)

Capítulo 06: A Caverna de Estalactites
 

            A caverna sob o deserto era muito maior do que Fei imaginava. O primeiro salão era enorme, o chão era coberto com restos de metal do que deveria ter sido uma antiga área de escavação, e do teto caíam filetes de areia por toda a parte. À primeira vista e na escuridão incompleta que as luminárias de emergência ainda enfrentavam, Bart subitamente avisou:
          _ Meus sensores estão detectando o que parece ser uma caverna enorme do outro lado, Fei. Vamos dar uma olhada?
Brigandier          Verificando de perto a direção indicada por Bart, ambos repararam que havia uma rocha enorme bloqueando a antiga saída do pavilhão. Tocando o rochedo com a mão de Brigandier e olhando para a sua altura, Bart comentou:
          _ Se ao menos pudéssemos fazer algo quanto a esta pedra...! Mas eu duvido que possamos simplesmente esmagá-la em mil pedaços!
          _ Pois eu acho... que podíamos tentar empurrá-la. - e Fei passou da palavra à ação, movendo Weltall para empurrar o rochedo enquanto Bart protestava:
          _ Ei, espera aí, não importa o quanto você pareça... - e calou-se atônito, ao ver que o Gear de Fei estava mesmo tirando a rocha do caminho. Em aparência e tamanho, Brigandier era mais forte; como é que aquele ‘Weltall’...?
          _ O que pensa que está fazendo? - indagou Fei ainda empurrando - Se apresse e me dê uma força aqui!
          Com o auxílio de Bart, Fei conseguiu remover o rochedo do lugar e, enquanto o pirata suspirava como se tivesse feito o esforço com seus próprios braços e pernas, saltou para adiante e olhou em volta para descobrir que o novo pavilhão era bem menor do que o primeiro.
          _ Nós podemos conseguir se ajudarmos um ao outro - disse Fei - Basta continuar assim e vamos sair daqui.
          Aborrecia Bart a forma como Weltall saltava da plataforma para o topo do rochedo caído e dele para o piso inferior e ele procurou segui-lo, reclamando:
          _ O cano hidromecânico da junta do meu joelho está à beira de quebrar. E tudo por causa daquela queda do teto... seguida por empurrar esse rochedo mega-colossal. Não vai ter graça se o meu Gear enguiçar numa caverna grande como essa.
          _ Seus amigos não vão vir nos resgatar? - perguntou Fei, ainda admirando as paredes esverdeadas da caverna.
          _ Seria perda de tempo esperar. Provavelmente eles não vêm.
          _ Mas eles não são seus amigos? - perguntou Fei, agora olhando para Bart.
          _ Nós acreditamos em iniciativa própria - ele deu de ombros, falando com simplicidade - Eles vão pensar que podemos fugir por nós mesmos.
          _ Me perguntou se o Doc está bem. - comentou Fei pensativo.
          _ Não se preocupe com o cara que estava com você. Tenho certeza que o meu pessoal já o resgatou a essa altura.
          Fei não respondeu, parecendo pensativo. Isso chamou a atenção de Bart, que perguntou:
          _ O que foi agora?
          Após mais um instante em silêncio, Fei queixou-se:
          _ Nós não teríamos caído aqui se ao menos você tivesse me ouvido.
          _ Não venha pôr a culpa em mim! Você devia ter se rendido ao invés de me desafiar. Eu só queria o seu Gear.
          _ Não seja ridículo! Foi você quem veio me atacando às cegas. O que mais eu deveria fazer? Achei que ia morrer se não lutasse.
          _ Eu estava pegando leve com você - retrucou Bart com uma voz imponente - Não percebeu? Então, você é meio devagar.
          _ Não minta pra mim. Eu sei que você estava levando a sério.
          _ O quê! Você quer mais, é?! - e Brigandier ficou em posição de combate - Vamos lá, então! Pode vir!
          Fei nem respondeu. Após um instante, ele simplesmente saltou mais para baixo e recomeçou a procurar pela saída. Mas Bart não deixaria por isso mesmo.
          _ Espera aí! Acertar isso vem em primeiro lugar! Eu não vou conseguir fazer nada direito até decidirmos isso de uma vez por todas!
          _ Eu achei que você queria uma trégua por enquanto. Sair daqui tem que vir em primeiro lugar! - Fei falava como quem tenta convencer uma criança pequena teimosa. Na verdade, quase pareceu a ele que estava discutindo com Dan e ele teria achado graça na comparação se não se lembrasse de Lahan e sua partida ao pensar no menino. Numa negativa silenciosa, ele continuou - Uma vez que nós saíamos daqui, eu luto com você o quanto quiser. Vamos nos apressar e sair logo daqui.
          Bart foi obrigado a desistir da idéia e reconhecer que Fei estava certo, mas continuava resmungando.
          _ Eu não gosto muito de você. Saco! Eu vou te pegar quando sairmos daqui!
          É claro que havia criaturas na caverna. Monstros Meduzóides gigantes que atacavam com choques elétricos, moscas gigantes que atacavam ‘montadas’ em restos de Gears, movendo-os como se fossem próteses biônicas de seus corpos, Gears de modelo Sucateiro, usados pelos nômades do deserto e outras coisas mais, cujos encontros e batalhas com Fei e Bart não precisam ser descritos. Ao atravessar um longo corredor e sair num salão de plataformas, ambos puderam ver à distância uma luz e fumaça saindo de uma caverna no outro lado do salão e Bart comentou:
          _ Quem iria imaginar que haveria alguém vivendo num lugar como esse! Vamos dar uma olhada!
          Weltall e Brigandier chegaram à caverna sem quaisquer problemas, apesar das lutas ao longo da caverna de estalactites não terem melhorado em nada a situação do joelho do Brigandier. Os dois pilotos desceram e entraram na caverna menor, admirando-se ao encontrar ali sinais claros de habitação ainda em uso. Bart, que ia à frente, foi o primeiro a notar que alguém vinha dar as boas vindas.
          _ Ei, Fei, que surpresa! Tem alguém morando nesse lugar!
          O morador era um velho alto e magro, de cabelos já cinzentos de idade, sombrancelhas grossas e um nariz aquilino que andava apoiando-se num cajado. Ele não parecia surpreso com a súbita invasão e comentou, com voz grave:
          _ Hmm, já faz algum tempo, mas achei que tinha ouvido o som de Gears. Eu presumo que sejam seus?
          Ambos confirmaram com um aceno de cabeça e o velho acenou para que entrassem.
          _ Que seja. Venham até aqui, e sintam-se em casa.
          Ele avançou para o interior da caverna e os dois rapazes o seguiram. Servindo-se de algo que estava no fogo e distribuindo o conteúdo em canecos para seus convidados, ele continuou:
         _ Já faz muito tempo desde a minha última visita. O que houve? Vocês caíram da superfície?
          _ É, acho que é isso. - confirmou Bart.
          _ Entendo. Isso é uma pena. - lamentou o velho - Eu posso dizer pelo som que vocês dois estão pilotando bons Gears. Mas as pernas parecem estar fazendo um pouco de jogo.
          _ Você quer dizer - perguntou Fei, incrédulo - que consegue saber o que há de errado só de ouvir o som dos passos deles?
          O velho riu divertido e confirmou com a cabeça. 
          _ É fácil saber o que há de errado com Gears pelo som que fazem. O meu palpite é que um deles precisa de um novo cano hidromecânico em sua junta. Está fazendo um barulho terrível. Deve ser difícil andar assim.
          Fei e Bart se entreolharam. Bart comentara que estava ficando difícil andar com Brigandier pouco antes de entrarem na caverna onde estava a casa do velho. Ainda sorrindo diante da surpresa deles, ele apresentou-se:
Balthazar          _ Ah, e a propósito, o meu nome é Balthazar, mas vocês podem me chamar de Velho Bal.
          _ Ah, é? - perguntou Bart, dando um tapinha admirado no ombro de Bal - Então quer dizer que temos um verdadeiro fanático aqui, hein?  Mas o que é que um velho como você está fazendo num lugar desses?
          _ Eu acho que vocês podem me chamar de ‘louco por fósseis’, ou um ‘colecionador de coisas’. Há muito para ser descoberto aqui, nesta caverna de estalactites.
          _ Colecionador, hein? - e Bart deu uma longa olhada nas estantes de Bal ao longo das paredes - Parece interessante. E essas coisas nas estantes são algumas das que você descobriu?
          _ Está falando dos fósseis? Eles são apenas uma das coisas que coleciono. Fiquem a vontade para vê-los.
          Bart não esperou por um novo convite para ir até uma estante mais ao fundo que estivera chamando sua atenção. Apesar de mais discreto, Fei seguiu logo depois com Bal vindo por último, explicando:
          _ Nesta área, podem-se cavar máquinas antigas juntamente com fósseis humanos e animais. Está notando algo particular nesta estante? - e indicou com o cajado a estante à frente deles - As amostras seguem da mais antiga, à esquerda, para a mais recente, á direita.
          Os dois puderam ver três prateleiras naquela estante. A primeira tinha crânios semelhantes aos de algum animal bovino, a segunda tinha crânios semelhantes aos humanos e a terceira tinha caixas de metal com etiquetas, de aparência muito antiga. Fei reparou que a fileira humana começava praticamente na metade da sua prateleira, enquanto as outras duas vinham de um extremo a outro da estante. Depois de uma boa olhada, Bart perguntou:
          _ Você é um arqueólogo ou coisa do tipo, velho? Eu não vejo muito por aí esse tipo de coisa de que você tá falando. Parece só um monte de ossos velhos pra mim. Fei, o que você acha?
          Aproximando-se mais da estante e olhando-a longamente, ele respondeu: _ Me deixa ver... No início, não tem ossos humanos ali. Então, daqui para a direita, algo está visivelmente diferente... eu acho.
          _ Sim, é isso mesmo. - confirmou o Velho Bal, indicando o início da fileira humana com o cajado - De um certo ponto do tempo, os fósseis humanos subitamente não aparecem mais. Este ponto é em cerca de 10.000 anos atrás.
          _ O que isso quer dizer? - perguntou Bart.
          _ Não me pergunte. - respondeu Bal - Eu não sei com certeza. Mas o meu palpite é que não havia humanos neste planeta antes disso. Pelo menos, é o que parece. 
          _ Como é que pode? - Bart parecia inconformado - E quanto àquela história toda de evolução?
          _ Está falando da teoria da evolução como foi ensinada pelo ‘Ethos’, correto? - Bal fez um gesto de desprezo - Você não pode confiar numa coisa dessas! No meu caso, eu prefiro acreditar nas velhas lendas e mitos.
          _ Lendas? Mitos? - perguntou Fei, confuso.
          _ Você nunca ouviu essa história...? - e Bal foi para os fundos da caverna, enquanto dizia com uma voz um pouco mais solene - Dizem que os humanos e Deus viviam juntos num paraíso no céu. Com a proteção de Deus, não havia o medo da morte e os desastres naturais eram inteiramente desconhecidos.
          Os dois seguiram Balthazar até o fundo da caverna e o encontraram olhando para uma parede ao fundo, e ele continuou:
          _ Então, um dia, os humanos comeram uma fruta proibida que lhes deu uma incrível sabedoria. Mas Deus afastou a humanidade de seu paraíso pelo seu pecado. Amargurados por terem sido retirados do paraíso, os humanos usaram a sabedoria que tinham conseguido para criarem gigantes. Com estes gigantes, eles planejavam desafiar Deus em pessoa. Mas Deus derramou sua ira sobre eles. Todos os que desafiaram Deus foram destruídos. Mas mesmo Deus não escapou ileso. Levando o paraíso consigo, o deus ferido enterrou-se sob o oceano para dormir por eons. Antes de dormir, Deus usou seu poder restante para criar humanos de coração correto para viverem neste planeta. Diz-se que estas pessoas foram... nossos ancestrais.
          Neste ponto, ele deu de ombros e forçou um sorriso, dizendo:
          _ Mas, de qualquer forma, eu vou parar de divagar agora - e voltou-se então para eles, e parecia ainda mais sábio aos olhos de Fei e Bart. Podiam ser apenas lendas, mas eram impressionantes. Meio que despertando depois do relato, Fei perguntou:
          _ A propósito, por acaso essa caverna tem...
          _ ... uma saída? - perguntou Bal - Há uma saída na área de escavação além da barreira de areia. Vocês podem chegar ao exterior por lá.
          _ ‘Barreira de areia’? - indagou Bart - Está falando daquela parede enorme que dá pra ver da sua porta?
          _ Sim, isso mesmo. Do outro lado há uma velha área de escavação de Aveh. Eles construíram a muralha quando Aveh estava escavando aqui, para impedir a areia de cair. Mas agora, não estão mais trabalhando lá.
          _ Bem, - perguntou Fei - e como nós abrimos uma coisa daquele tamanho?
          _ Se é uma parede, provavelmente dá pra quebrar - opinou Bart.
          _ Devagar aí, jovens. - interrompeu Bal - Não importa quão bom seja o Gear que têm, vocês nunca vão conseguir derrubar aquela parede. É forte demais. Então... façamos um trato. 
          _ Trato? - perguntou Bart, naturalmente desconfiado.
          _ A muralha se fechou pela reação dos ‘Sensores de Areia’ - explicou o velho - Com isso, eu agora não tenho como sair também. Talvez tenha acontecido quando vocês dois caíram aqui. Por acaso vocês estavam lutando lá em cima, ou coisa parecida?
          Bart coçou a cabeça e desviou o rosto, meio sem jeito, enquanto Fei concordou.
          _ Parece que você consegue dizer qualquer coisa! De qualquer modo, o que podemos fazer?
          _ Muito simples. Vocês só precisam desligar os sensores. Isso vai impedir a barreira de fechar novamente. Enquanto vocês fazem isso, eu a abro. 
          _ Certo, entendido! - concordou Fei, batendo uma das mãos na outra.
          Os dois partiram nas direções indicadas por Balthazar e não tiveram maiores problemas, além de certas lutas com Meduzóides e mais nômades do deserto que vagavam por lá. Por fim desativaram os dois sensores de areia e voltaram à caverna de Bal, onde foram saudados com surpresa pelo velho.
          _ Ah, boa atuação a de vocês! Chegaram bem na hora em que eu vou abrir a barreira de areia.
          Balthazar moveu uma alavanca numa estante e a imensa parede desceu pesadamente, liberando o caminho para fora.
          _ Muito bem, velho!  - comentou Bart - Isso conclui o nosso trato. Agora, tem uma coisa que eu quero te perguntar, ouvi em algum lugar que há um Gear perdido que é muito superior a todos os outros. Segundo eu ouvi, era chamado de ‘Deus Gear’ e foi feito em tempos antigos, mas foi escondido em algum lugar. Sabe algo a respeito disso?
          _ Um deus feito pelo homem, criado com a sabedoria de Deus!  - exclamou Bal - Tal Gear teria o poder de mil Gears. Com um movimento de seu braço, poderia destruir cidades inteiras! Seu brado de batalha seria o trovão nos céus! Você deve estar falando do ‘Omnigear’.
          _ Você sabe sobre ele? - perguntou Bart - Então talvez fosse dele que você estava falando naquela história que nos contou sobre a luta com Deus...
          _ Deuses graciosos, você também, rapaz? - perguntou Bal, com tom de riso - Essas histórias foram feitas para inspirar a alma do homem, mas são apenas lendas. Eles não existem de verdade! Mas, que seja. - ficou de pé e foi para fora, dizendo que iria dar uma olhada nos Gears dos dois e pediu que esperassem um pouco, pois não ia demorar. Bart pediu que ele esperasse, mas não adiantou, e Fei percebeu que algo estava subentendido na conversa.
          _ Ei Bart, você acha que o Gear da história está enterrado em algum lugar?
          _ É , acho que sim. Pelo menos, foi o que eu ouvi.
          _ Será que um dos Gears que estamos usando poderia ser ele?
          _ Ah, claro! - Bart fez um gesto com as mãos que afastava totalmente a idéia - Quais as chances disso acontecer?
          Fei não pareceu achar isso tão impossível, mas Bart explicou:
          _ Os Gears que tem sido descobertos ultimamente têm apenas algumas centenas de anos de idade. Não há nada nem perto de ter uma idade como a do Gear da lenda.
          _ Então, por quê todos eles estão enterrados?
          _ Não sei. Não há registros, exceto... - e ele pareceu ficar pensativo.
          _ Exceto o quê? - perguntou Fei ao perceber que o outro parecia supor algo.
          _ Deve haver alguma verdade nos contos de que eles foram enterrados depois de uma grande guerra... As marcas de bala que cobriam a maior parte da armadura dos Gears poderiam confirmar isso.
          _ Está querendo dizer que não há registros dos últimos séculos? E antes disso?
          Bart meneou a cabeça negativamente: 
          _ Nada desse período, também. O ‘Ethos’ controla todos os registros dessa época. Talvez eles tenham alguns registros bem antigos, também... Tudo o que sabemos da nossa história vem de pedacinhos que encontramos por nós mesmos. Aliás, Fei - e saltou de onde estivera sentado - o que você acha do velho?
          _ Como assim?
          _ Por quê alguém tão velho viveria sozinho nessa caverna abandonada?
          _ Eu... não sei. - deu de ombros - Talvez esteja escavando atrás de Gears antigos, ou coisa assim?
          _ Isso! Então, você também acha isso?
          _ Ei, isso foi uma piada. Não leve tudo tão a sério. São apenas lendas, você sabe.
          _ Não - Bart balançava a cabeça negativamente de novo, com ar pensativo - esse velho tá armando alguma!
          Então, o som de ferramentas lá fora parou e pareceu que algo metálico caía ao chão, acompanhado pela voz de Balthazar.
          _ Não pode ser...!
Weltall          Os dois correram para fora imediatamente, imaginando o que teria acontecido. Não havia monstro ou inimigo algum quando chegaram ao lado de fora, mas Fei e Bart logo viram que Balthazar estava olhando perturbado para Weltall. Sem se voltar, ele perguntou:
          _ Este é o seu Gear?
          _ Bem, mais ou menos... - tentou contornar Fei.
          _ Onde foi que o conseguiu?
          _ Eu... só o estou emprestando.
          Mas Bal mal parecia ter ouvido Fei, murmurando surpreso e um tanto aterrorizado:
          _ Este é... o hospedeiro para o espírito do... assassino de Deus...
          _ Espere aí! O que foi que disse?
          Fei subitamente sentiu que havia algo ainda mais terrível em Weltall do que ele suspeitara, mas Balthazar perdera a vontade de conversar.
          _ Nada. Eu não disse nada!!
          _ Não, eu ouvi! Você disse, assassino de Deus... não foi isso, velho!!
          _ Seus Gears estão consertados - disse Bal, tornando a entrar em sua caverna - Vocês não têm mais o que fazer aqui. É uma hora ruim pra mim. Sigam seu caminho!
          _ Seguir nosso caminho...? - mas Fei ainda não tinha terminado - Espera aí, velho...!
          Mas Balthazar fechou a porta atrás de si e não puderam ouvir mais nada dele. Fei olhou para Bart que, depois de um instante em silêncio e de braços cruzados, meramente fez que não com a cabeça e deu de ombros. Confuso e ainda mais preocupado, Fei silenciosamente subiu em Weltall e encaminhou-se para a passagem aberta.
          Weltall e Brigandier continuaram através da passagem e descendo cada vez mais na caverna, rumo à saída que deveria estar num dos níveis mais baixos. Nenhum dos pilotos falava muito, pensando nas últimas palavras do velho. Bart estava intrigado, e Fei preocupado. Os modos de Balthazar haviam se alterado completamente depois que o velho vira Weltall. 
          “O hospedeiro para o assassino de Deus? O que isso quer dizer?”
          Ele lembrava-se também do que Grahf dissera. Precisava de seu poder para matar Deus. Não gostava da idéia, mas o que os dois haviam dito combinava. O que estava havendo, afinal?
          Seus pensamentos foram interrompidos pelo som estrondoso de jatos enormes num ambiente fechado como aquelas cavernas. Tanto ele quanto Bart voltaram-se para o alto para ver um Gear enorme, de aparência forte e desconhecida, que circulou próximo ao teto daquele salão da caverna e dirigiu-se para a escuridão mais adiante, onde desapareceu. Havia restos semidestruídos de uma ponte asfaltada naquele trecho da caverna, e uma vez que desceram por ali, Bart disse:
          _ Ali, finalmente a saída, Fei! - indicou alegremente um caminho aberto - Vamos sair dessa caverna de uma vez!
          Quando Brigandier encaminhou-se para a saída, no entanto, o som de jatos tornou a se aproximar e o Gear desconhecido pousou diante deles, bloqueando claramente a saída. No instante seguinte, ele atacou.
          O Gear branco era enorme e pesado, logo no primeiro ataque ele atingiu e derrubou os dois Gears de uma só vez, lançando seus punhos como mísseis na direção de Brigandier e Weltall. Sem ter como evitar o ataque de surpresa, ambos foram atingidos e derrubados pesadamente. Refazendo-se depressa, Bart procurou colocar Brigandier em condição de combate e iniciou com seu ataque de Ether.
          _ Sorriso Selvagem!
          A máquina amplificadora de Brigandier lançou o ataque de Bart e o Gear branco pareceu vacilar, como se perdesse a visão. Fei ainda estava se refazendo quando Bart chamou sua atenção:
          _ Anda, Fei, ataca logo! Ele não vai conseguir ver a gente! Acerta ele!
          Pressionado, Fei agiu por reflexo e usou a força do seu Chi. Weltall projetou as mãos para frente e a energia amplificada de Fei concentrou-se diante delas, liberando-se com o comando:
          _ Tiro Guiado!
          A rajada avassaladora de energia espiritual desabou sobre o Gear branco parado diante de Weltall e Brigandier. Desta vez, no entanto, não houve nenhum efeito.
          _ O quê? Ele nem se mexeu...
          _ Deve ter uma proteção Anti-Ether muito boa! - exclamou Bart - Peguei ele de surpresa, ou a proteção não impede mudanças de estado ou danos, mas...
          Guiado pelo ataque falho de Fei, o Gear branco alçou vôo e arremeteu na direção dos dois. Bart conseguiu afastar-se e evitar o golpe, mas Fei não reagiu depressa o bastante e Weltall tombou com um segundo golpe dos punhos pesados do Gear branco.
          _ Catzo, esse cara é uma calamidade! - Bart recuara o bastante e estava novamente em posição de atacar - Agüente aí, Fei! Lá vai a cavalaria!
          Brigandier investiu com seus chicotes desta vez, prendendo a cabeça do ‘Calamidade’ com seu chicote esquerdo e atingindo pesadamente com o direito. Apesar de não poder enxergar bem, no entanto, Calamidade tinha seu agressor próximo o bastante para atingi-lo com um movimento brusco, e a força do golpe às cegas foi suficiente para jogar Brigandier à distância, indo parar do outro lado do salão.
          Weltall reagiu com um Raigeki. Conseguira ficar de pé graças ao ataque de Brigandier, e o Calamidade ainda estava desequilibrado e voltado depois de atacar o Gear de Bart. A este golpe mais forte, o agressor pareceu sentir... mas isso apenas chamou sua atenção e ele golpeou Weltall de cima a baixo com os punhos como um martelo, causando um dano pesado e quase desmaiando Fei em sua cabine. Os efeitos do Sorriso Selvagem estavam se dispersando depressa, e Calamidade não precisava de muita visão para atingir um alvo que estivesse próximo. 
          _ Feeeeeii!!
          Bart também estivera perto de perder os sentidos devido ao último ataque e apenas o som do metal sendo duramente castigado o manteve desperto. Calamidade estava chutando Weltall e Fei não reagia. Ativando os Turbos de Brigandier, ele investiu com o ataque mais pesado de que podia dispor:
          _ Chicote em Cadeia!
          O primeiro golpe desabou sobre Calamidade e ele tentou revidar às cegas, mas os propulsores davam mais velocidade a Brigandier. Saindo agilmente do golpe, o Gear pirata despejou mais dois golpes de cima a baixo e terminou girando o corpo, atingindo Calamidade de frente e com força o bastante para fazer mesmo o enorme Gear cambalear e recuar alguns passos. Ficando diante do amigo caído, Bart gritou:
          _ Fei! Acorda e liga os propulsores, cara! Ou você o vence na velocidade ou estamos mortos! Eu não posso com esse monstro sozinho!
          Já livre dos efeitos do Sorriso Selvagem, Calamidade tornou a lançar seu punho direito contra o Brigandier. A velocidade extra permitiu que Bart enviasse o impacto direto, mas mesmo o golpe enfraquecido o jogou para trás, abrindo caminho para que Calamidade tornasse a atacar Weltall.
          “Engraçado - pensou Bart, procurando ficar de pé - dá até a impressão que ele só quer pegar o Fei; fica me afastando o tempo todo e ataca o Weltall...” - e, em voz alta: _ Fei! Sai logo daí!
          Calamidade erguera vôo de novo e estava caindo sobre Weltall. Alertado pelo grito de Bart, Fei ativou os jatos de seu Gear e saiu do alcance por pouco, conseguindo atacar com velocidade e pegando Calamidade desprevenido com a opção Reppu. O golpe do punho de Weltall por baixo de sua cabeça fez Calamidade cair para trás, mas seus jatos tornaram a sustentá-lo e ele alçou vôo antes de se chocar com o chão.
          _ Que sujeito difícil! Você está bem, Bart?
          _ É... Podia estar melhor, eu acho. Mas cuidado! Lá vem ele de novo!
          Apesar do seu tamanho e peso, Calamidade voava pelo salão da caverna com facilidade e tornou a cair sobre Weltall. Fei fez o que pode para evitar o choque, mas os dois punhos de Calamidade o alcançaram em meio à fuga e ele caiu pesadamente para trás. Brigandier tornou a atacar, mas Calamidade nem sequer se voltou, abrindo escotilhas na parte superior de seus jatos e liberando vários mísseis vermelhos que choveram sobre Brigandier, causando dano pesado e derrubando Bart e seu Gear para trás.
          _ Bart! - Fei colocou Weltall de pé e novamente em posição, enquanto Calamidade decolou e arremeteu sobre ele - Você está bem?
          _ Ai... Claro que não. - a voz vinha dolorosa, mas a resposta ao menos era um sinal de vida - Eu tô de péssimo humor. Vamos pegar esse cara, Fei!
          Calamidade atingira Fei como um míssil e o peso de seu corpo e do golpe de seus punhos abalou Weltall, enquanto os sensores de danos acusavam risco em toda a estrutura. O problema era que, mesmo em modo turbo, nem Weltall nem Brigandier estavam conseguindo abalar demais o Gear inimigo. Sendo arrastado para trás, Weltall foi atingido ainda por uma nova salva dos mísseis de Calamidade e Fei gritou. Foi então que um dos chicotes de Brigandier agarrou os pés de Calamidade e puxou-o, fazendo com que atingisse a parede pesadamente.
         _ Fei, eu vou manter esse cara preso como uma pipa! - gritou Bart - Acerte agora, enquanto ele não pode bloquear!
          O Reppu ainda parecia o melhor ataque disponível, mas Fei não achou que era o bastante. Os monstros mais fortes da caverna tinham caído diante daquele golpe, mas era hora de tentar algo novo. Na velocidade Turbo, ele atacou o Gear branco paralisado por Bart e lembrou-se de uma vez em que Citan lhe dissera que equipamentos novos aumentavam as capacidades de um Gear. Haviam conseguido motores novos com Balthazar, e teoricamente a capacidade de Weltall aumentara. O Gear saltou e atingiu Calamidade com ambos os pés, caiu ao chão e tornou a subir, com um impulso poderoso de seus jatos, atingindo Calamidade de baixo para cima com uma seqüência rápida e forte de seus pés antes de cair sobre si mesmo num salto mortal, com o grito de Fei:
          _ Hazan!
          Os ataques anteriores haviam enfraquecido o suficiente o Gear branco ao que parecia, porque o novo golpe de Fei fez com que este caísse pesadamente para trás e não tornasse a se erguer. Soltando seu chicote e parando ao lado do amigo, Bart comentou:
          _ Hah, que idiota! - a voz confiante dele fez Fei voltar-se, visivelmente surpreso - Tenta assustar a gente com esse showzinho e não mostra nenhum poder de verdade, hein Fei?
          Ele não tinha mesmo jeito, pensou Fei. Weltall e Brigandier precisariam de reparos pesados depois daquilo. Ao menos, Calamidade estava no chão.
          _ Que seja. - disse Bart, voltando-se - Parece que isso é a saída. Em breve vai ser ‘adios’ a esta velha caverna!
          Foi quando Fei ouviu alguma coisa. Calamidade ficou de pé novamente e investiu sobre Bart, que estava mais próximo, enquanto o pirata apenas tomava consciência de algo atrás de si.
          _ O que...!?
          Um som de pulsação ficou alto demais aos ouvidos de Fei, enquanto Weltall colocou-se em guarda e arremeteu e ele gritou:
          _ Saia do caminho, Bart!!
          Weltall entrou na trilha reta entre Calamidade e Brigandier e ficou equilibrado sobre a perna esquerda, enquanto uma onda negra pareceu concentrar-se em suas mãos. Ante os olhos surpresos de Bart, a postura do Gear era a de um mestre marcial, e a voz de Fei soou no comunicador:
          _ Kishin!!
          E uma seqüência de golpes rápidos demais para serem acompanhados atingiu o ventre de Calamidade com a energia negra, rasgando a blindagem resistente como se fosse papel e fazendo o Gear branco tombar derrotado para trás.
          _ Uuuoooouuuu!! - fez Bart, surpreso e animado - Como diabos foi que você fez isso?!
          Weltall continuou imóvel, em guarda, e a voz de Fei não respondeu. Isso levou Bart a insistir:
          _ Ô, Fei, eu tô falando!
          _ ... Hã?
          _ Como assim, ‘hã’? Como catzo você fez aquilo?! Você não sabe?
          _ ... Não, eu... errr,... não sei.
          _ Aquilo foi incrível! Você simplesmente transformou aquela montanha em pedacinhos! Por quê não usou essa técnica um pouquinho antes?
          _ ... Eu não conheço essa técnica... Eu... nem sequer tenho idéia de como é que eu fiz isso...!
          Era inegável que ele derrotara Calamidade. O Gear branco estava destruído e além de qualquer recuperação... mas ele não se lembrava de ter feito nada. Percebendo a confusão do outro, Bart deu de ombros.
          _ Hmm. Ah, bem, acho que não importa. Que seja... Valeu por me ajudar!
          Fei não respondeu, ainda aturdido, e Brigandier deu um tapinha nas costas de Weltall para acabar com a confusão.
          _ Bom, já que nos livramos daquele incômodo, vamos cair fora daqui, hein, Fei!
          Meio que conduzido por Bart, Fei dirigiu Weltall rumo até a saída da caverna, agora iluminada pelo sol lá de fora. Ainda voltou-se uma última vez, encontrando os restos de Calamidade e perguntando-se como aquilo acontecera.
          O vento do deserto estava forte lá fora com o fim de tarde, jogando areia nos Gears. Respirando profundamente como se não estivesse fechado em sua cabine, Bart exclamou:
          _ Uau... Eu nunca pensei que terminaríamos aqui...
          _ Onde estamos?
          _ Tá vendo aquelas montanhas gêmeas logo ali? - e Brigandier indicou o horizonte à frente deles, onde duas sombras levantavam-se do deserto - É onde Bledavik, a Capital Real de Aveh, e o Castelo de Fátima estão localizados. Atualmente, não tem rei nenhum morando lá. Mas, que seja, é a minha velha cidade natal.
          _ Cidade natal...
          Fei estava aborrecido consigo mesmo por não lembrar nada de seu passado antes da chegada a Lahan, e pensar outra vez em sua cidade natal o fez lembrar de que desastres podiam acontecer à sua volta. Alheio ao estado do amigo, ou percebendo e tentando disfarçar, Bart pigarreou e disse com voz grave:
          _ Eu gostaria de ir em frente e acertar a nossa disputa, mas considerando o quanto estamos próximos da capital de Aveh, provavelmente seríamos presos.
          Fei não respondeu à provocação e outra vez Brigandier deu um tapinha nas costas de Weltall.
          _ Ei pare de parecer tão de bode, chapa! Acho que é melhor eu te devolver depressa ao seu amigo ou cê vai morrer de angústia ou algo parecido. Que seja, o ponto de encontro com a Yggdrasil é logo ali. Não esquenta, você vai encontrar seu amigo sem perda de tempo.
 
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