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Era uma noite de tempestade violenta, que parecia terrivelmente familiar
a Fei. Estava em alguma mata desconhecida e tudo o que estava claro à
sua volta era o mato sendo agitado pelo vento e os relâmpagos furiosos
no céu.
De repente, ele sentiu três presenças poderosas. Virando-se
na direção delas, o rapaz viu duas auras vermelhas agressivas
familiares e uma terceira aura, azul e nobre, no meio das duas. Apesar
de não conhecer seu dono, ele parecia ainda mais familiar do que
os outros dois. O primeiro homem então falou e Fei reconheceu nele
a voz velada e a aparência assustadora de Grahf.
_ Vamos nos unir, agora.
O segundo homem, da aura azul, era obviamente um rival de Grahf e do rapaz
que o acompanhava. Sua postura de defesa era semelhante às de Fei
ou Weltall e ele respondeu com voz firme:
_ Eu nunca imaginei que estaríamos juntos novamente, desta maneira.
Que irônico.
Um trovão soou à distância e Fei pensou ver um relance
do rosto do homem: severo, com o cabelo da mesma cor e preso à mesma
maneira que o seu e um bigode. O homem parecia cansado espiritualmente,
com a cabeça baixa. Mas seus olhos eram firmes quando ele tornou
a ergue-los, fitando o rapaz à direita de Grahf.
_ Mas eu nunca deixarei que você fique com ele... mesmo que eu tenha
de morrer por isso!
O rapaz que acompanhava Grahf tinha seu rosto meio encoberto pelos longos
cabelos ruivos desalinhados, como se o caos fosse parte de seu ser, e ele
sorriu diante das palavras do homem severo. Houve mais um trovão,
e tudo desapareceu.
A próxima coisa de que Fei teve consciência era de que a cama
onde estava não lhe era familiar, e que não estava sozinho.
Citan o fitava com ar preocupado.
_ Como está, Fei? Você dormiu bem?
_ Hã...? Ah, bem... ou algo assim...
_ Me desculpe ter confundido tudo, Fei. Fui muito descuidado, aquele Gear
é um modelo experimental altamente secreto de Kislev... era natural
que Aveh também estivesse procurando de forma tão afobada
por ele.
Fei ainda não reagiu e Citan notou nele a mesma atitude posterior
à morte do Verme da Areia, e isso não o agradou.
_ Está ferido, Fei? Você não parece muito bem.
_ Bem... acho que você poderia dizer que eu fui ferido...
Citan lembrou-se de tudo o que acontecera e tudo o que ouvira e indagou:
_ Aquele homem de preto falou do destino do seu pai... É isso o
que está errado?
Fei concordou com a cabeça.
_ É isso também, mas... também tem a outra coisa que
ele disse...
Citan obviamente não entendeu e Fei explicou:
_ O que houve em Lahan... Tudo foi planejado pra me fazer pilotar aquele
Gear... ou foi o que ele disse. Isso me deixou preocupado.
_ Fazê-lo pilotar o Gear?
_ Antes da vila ser destruída, Doc, eu vivia sem duvidar de mim
mesmo. Mas agora, tudo está diferente. Eu... não sei quem
sou. Nunca me senti assim antes...
Citan percebeu o estado de seu jovem amigo e pensou consigo mesmo, mas
procurou contornar a situação:
_ Bem, não podemos fazer nada enquanto formos prisioneiros, mesmo
que quiséssemos fazer. Vamos descansar um pouco. Talvez isso tranqüilize
um pouco seus sentimentos.
Fei balançou a cabeça em negativa. Ainda havia mais, Citan
percebeu, e perguntou:
_ Está preocupado com seu pai?
_ Tudo o que eu sei é o que as senhoras na minha casa em Lahan me
contaram... Uma noite, um estranho mascarado me carregou até Lahan.
Eu estava seriamente ferido naquele dia. No meu delírio, eu chamei
pelo meu pai... É tudo o que elas puderam dizer sobre o meu passado.
Não lembro de nada sobre o meu pai ou o meu passado. Então,
acho que não sou assim tão solitário ou triste...
– então ergueu o rosto e perguntou diretamente a Citan – Doc, por
que eu não tinha percebido que não tinha lembranças
até agora?
Citan não teve como responder a isso e Fei deitou-se, olhando para
o teto enquanto pensava. Isso deu a Citan espaço para colocar seus
próprios pensamentos em ordem:
“Era ele! Sem engano nenhum... Isso não foi coincidência...
Será que estamos nos aproximando... da ‘Hora do Gospel’...?”
Em sua mente, Citan Uzuki recordou-se de uma outra ocasião em um
outro lugar. Ele estava diante de um trono que não parecia estar
sobre qualquer tipo de piso, assim como a plataforma onde o doutor estava.
Uma figura ancestral de expressão cadavérica, como uma caveira,
confirmou:
_ Sim, ‘O Gospel’. Nós somos o povo expulso do paraíso e
forçado a viver na superfície cruel da terra. Nós,
que povoamos esta terra, retornaremos mais uma vez à presença
de Deus no paraíso e viveremos lá eternamente. Esta é
a ‘Hora do Gospel’. Esta hora está ao alcance da mão. Nós,
os Gazel, devemos encontrar o lugar de descanso de Deus para então
ressuscitá-lo. Esta é nossa prece final...
_ Nossa prece final? – perguntou Citan.
_ Nossa prece final para fugir do ‘Destino’ que foi determinado em nossa
gênese. – Respondeu o Imperador Cain.
Ainda pensando profundamente, apesar de ser um homem da ciência,
Citan Uzuki olhou para o seu amigo, que olhava pela escotilha, e não
pôde deixar de sentir um calafrio.
“Majestade... isso é o fim...?”
Em outra parte, um som de motores fortes também estava presente,
embora modernos e potentes abafadores de som estivessem em uso. Mas o rapaz
gostava daquele murmúrio. Era como se tudo à sua volta estivesse
vivo na presença do som. Olhando pelo periscópio, ele localizou
o que procurava.
_ Bingo! Como dizia o relatório... um transporte de Aveh. E olhe
o que nós temos em cima...!
Um toque rápido num botão e o periscópio aproximou
a imagem. O transporte de areia ficou bem mais visível, bem como
o Gear negro sobre ele.
_ Sem enganos! – comentou o rapaz, satisfeito – É um novo modelo
de Kislev! Tem que ser o Gear roubado de que todo mundo está atrás!!
O rapaz era loiro, seu único olho fora do tapa-olho de pirata era
azul e seus cabelos longos estavam presos. Com ar de satisfação,
ele tirou o rosto do periscópio e comentou, para ninguém
em especial na cabine de comando:
_ Seja qual for o caso... Não podemos deixar aquele sujeito, Shakhan,
ficar com ele... – recolheu o periscópio e sua voz se tornou mais
alta, assumindo um tom de comando:
_ Artilheiro!
Pelo intercomunicador na ponte, veio a resposta:
_ Torre A ‘Anton’ e torre B ‘Belta’ podem iniciar seus ectropômetros
vinte segundos depois de abrir suas escotilhas.
_ Franz! – o rapaz voltou-se.
_ Não ouço nada além do som da areia correndo... nenhuma
atividade de radar suspeita detectada!
_ Marseilles! – chamou o rapaz, tomando posição junto ao
leme.
_ As unidades de Maitreya estão a postos nas catapultas. Serão
capazes de lançar um minuto depois de re-emergirmos!
_ Bom. Vamos lá, então. – ele estava muito satisfeito. Como
de costume, sua tripulação funcionava como um relógio.
Agarrando o timão, ele declarou:
_ Estação de Batalha 1!
As lâmpadas comuns se apagaram, substituídas pelas vermelhas
do estado de alerta. Pelo comunicador vinham as vozes de seus comandados:
_ Combate de superfície, pronto!
_ Sala de torpedos, pronto!
_ Armas Anti-Gear, pronto!
_ Navegação e Engenharia, prontos também!
Ele também estava pronto. Atrás de si, a porta de acesso
à ponte abriu-se e um velho com modos e roupas de mordomo entrou
afobado, perguntando:
_ J-jovem mestre, o que está havendo? Para quê todo este alarde...
Logo atrás dele entrou um rapaz pouca coisa mais velho que o ‘jovem
mestre’ e, inclusive, com uma espantosa semelhança física
em relação a ele. Tinha a mesma cor no único olho
e um tapa-olho a cobrir o outro,embora seu olho cego fosse o direito e
o do rapaz fosse o esquerdo. Seus cabelos eram brancos, bem como o resto
de suas roupas, e ele pareceu desanimado ao perceber o que estava havendo:
_ Ah, de novo não...? Jovem mestre, espere um segundo!
O rapaz loiro pareceu nem ouvir, com as mãos firmes no timão
e ainda comandando:
_ Todos, estações de batalha! Navegação de
superfície, comecem a operar a bomba de areia! Preparar para disparar
canhões de estibordo assim que emergirmos!
_ Jovem mestre!! – chamaram os dois recém-chegados às costas
dele, sem sucesso, pois ele continuou:
_ Direto para a direita! O vento está forte lá em cima e
podemos perder o equilíbrio com ele! ... Jerico! Entregue-me o leme!
O comando da navegação foi passado para o timão principal,
e o ‘jovem mestre’ assumiu o comando. No transporte de Aveh, Citan e Fei
viram algo pela escotilha de sua cela: como uma grande baleia da areia,
um veículo enorme de metal prateado apontou para fora das dunas,
desenterrando seu nariz para depois saltar imponente para a superfície,
e Citan admirou-se:
_ Um cruzador de areia... Devem ser aqueles piratas do deserto!
O cruzador corria paralelo ao transporte agora, seus canhões voltando-se
na direção dele. Uma salva de tiros começou então,
enquanto uma voz soava na ponte de comando:
_ Alternando fogo entre ‘Anton’ e ‘Belta’! Calculando ajustes!
O rapaz deu um brado de satisfação, tudo estava indo perfeitamente.
_ Alternar modos entre as salvas depois dos tiros iniciais! Vamos atrasa-los.
Preparem-se para dar neles uma surra que eles jamais esquecerão!
_ Jovem mestre, por favor, espere! – interveio o mordomo – Pode ser apenas
um navio de requisição, não uma fragata de guerra...
_ Deixe que eu cuide disso – retrucou ele – Seja ou não um navio
de guerra, está levando um Gear novo! Artilheiro! Peguem eles!
E mais uma salva de tiros começou. Em sua cela, Fei e Citan sentiram
o tremendo abalo e também viram sua cela inclinar-se para a esquerda
depois do segundo abalo.
_ A julgar pelo ângulo... – comentou Citan, preocupado – me parece
que um disparo explosivo fez um buraco no casco. Provavelmente vamos afundar
em minutos.
_ Em minutos...? Doc!
Citan correu para a porta, mas ela não abria.
_ Está trancada... alguém nos liberte!
Como que para responder aos gritos do catedrático, mais um disparo
fez o transporte estremecer e a porta abriu-se para dentro, deixando muita
areia entrar consigo. Tomando a frente e esforçando-se para ultrapassar
o fluxo da areia, Fei disse:
_ Vamos cair fora daqui, Doc!
Citan indicou o fim do corredor, desaparecendo depressa sob a areia, onde
uma escada conduzia para o nível superior. Mais do que depressa
ele e Fei rumaram para lá, com dificuldade devido à areia,
mas esforçando-se para se mover. Por fim, conseguiram agarrar-se
aos degraus e escalaram a parede até o piso seguinte.
A situação dos motores era irreversível. Havia fogo
e areia por toda a parte e Citan disse:
_ Precisamos chegar ao convés de qualquer maneira! O incêndio
vai causar explosões menores que vão abrir mais buracos no
casco e aumentar a entrada de areia até que tudo isso desapareça!
Precisamos encontrar Weltall e sair daqui antes disso!
E eles subiram tão depressa quanto foi possível, com as explosões
à sua volta apenas aumentando o calor e diminuindo o ar respirável
enquanto a areia continuava a entrar e o piso de metal ficava mais e mais
aquecido e já começava a ruir em alguns pontos. Por fim,
em meio à subida difícil e aos soldados e recrutas de Aveh
que os dois encontraram em meio à subida, confusos demais com tudo
e ainda tentando recapturar os dois, Fei e Citan conseguiram alcançar
o convés do transporte. Ao sair para o ar exterior, no entanto,
Fei percebeu que estava sozinho.
_ Doc? Onde é que você está doc?!
_ Acalme-se, Fei. Eu estou no controle do guindaste – soou a voz de Citan
por um fone do convés – Eu vou move-lo até o cockpit de Weltall.
Aproveite e escale o guincho para alcançar a cabine, depressa! Estamos
afundando muito rápido!
_ Entendido, Doc! Mas, quando tiver terminado aí, procure se apressar,
tá?
O guincho moveu-se até onde o Gear estava e Fei procurou escalar
como podia. Com esforço, ele conseguiu chegar até o cabo
de aço que descia até a entrada da cabine de Weltall e não
conseguiu reprimir um comentário pensativo ao olhar para o Gear
que afundava lentamente:
_ Aí vamos nós de novo... parece que você e eu estamos
destinados a ter um relacionamento!
Citan esperava no alto do convés quando Weltall aproximou-se, já
sob o comando de Fei. Sem tempo para abrir a cabine, o rapaz estendeu a
mão do Gear e, assim que Citan subiu, ativou os jatos e saltou para
longe do transporte que afundava. Pousando nas proximidades, ele deixou
que Citan descesse antes de perguntar:
_ Você está bem, Doc?
_ Bem, Dr. Citan Uzuki! – riu o outro, inclinando-se para a direita e a
esquerda – Parece que você sacudiu suas saculas e apertou seus utrículos
o suficiente para uma vida! Uau!
_ Desculpe por isso, Doc – lamentou Fei – Eu não tive tempo de abrir
o cockpit...
_ Fei, eu só estava brincando. Andar na mão não foi
tão ruim. Posso dizer isso ao ver como você maneja bem uma
máquina experimental altamente secreta.
_ É, por falar nisso, quando eu o liguei, começou a fazer
todo o tipo de coisas sozinho... O sistema de resposta ambiental e a navegação
de redução de peso dispararam... automaticamente! – comentou
Fei, olhando surpreso para o painel diante de si.
_ É mesmo...? Isso é fantástico...!
Foi quando ambos ouviram uma voz desconhecida vindo de trás deles,
dizendo:
_ Salvam a si mesmos, mas deixam seus amigos afundarem num mar de areia...
Vocês não acreditam em camaradagem?
Citan e Fei se voltaram para ver quem falava e depararam com um Gear vermelho
e alto rodeado por outros dois Gears menores. O cruzador de areia pirata
aparecia ao fundo e o que mais chamou a atenção de Fei foi
o fato do Gear vermelho ter um tapa-olho sobre seu visor esquerdo. Fora
dele que viera a voz que ouviram, e que tornou a falar:
_ Não é muito humano de vocês dois deixarem seu pelotão
morrer enquanto fogem num Gear, sabiam?
Os outros dois Gears se afastaram a um gesto do Gear alto e Fei percebeu
que ele estava se preparando para lutar. Apesar de se colocar prontamente
em guarda a bordo de Weltall, ele ainda tentou explicar:
_ Espere um momento! Nós não somos soldados de Aveh!
_ Hm. – fez o pirata – Não pode fazer um apelo melhor pela sua vida?
Vocês saem de uma nave de Aveh e dizem que não soldados de
Aveh! Sem essa de tentar me enganar!
_ Eu estou dizendo, é verdade!
_ Tsk. Como pode ser tão patético? – perguntou o entediado
pirata – Mesmo que seja o mais fracote dos soldados, que tal mostrar um
pouquinho de audácia e me dar uma luta decente?
_ Pare com isso! - Fei se lembrava de Grahf e do que acontecera em
Lahan, e temia que o Gear ou ele próprio tornassem a sair do controle
- Eu estou dizendo que não sou um soldado! Eu não quero lutar!
_ Que nauseante! Por quê não pára de resmungar, sai
do Gear e foge de uma vez?
Para enfatizar a idéia, o pirata investiu com o Gear vermelho e
atacou com os chicotes embutidos em seus braços. Apesar da surpresa
e de realmente não ter amores por Weltall ou coisa do tipo, Fei
não pretendia simplesmente sair como o outro sugeria. Quando o primeiro
chicote caiu, Weltall moveu-se para a esquerda e evitou o golpe com a mão.
O segundo golpe foi devidamente bloqueado pelo antebraço de Weltall,
que recuou e tornou a parar em postura de defesa. Fei e seu Gear não
haviam sofrido um único arranhão, o que não deixou
de surpreender o pirata.
_ Pra alguém que não quer lutar, você é bem
poderoso... – deu uma avaliação visual no Gear negro
à sua frente e comentou – Já entendi... um modelo pra qualquer
terreno, hein? Agora é que eu o quero mesmo!
Cobrindo seu rosto com os punhos, o Gear vermelho revelou o único
visor livre de repente e um clarão atingiu Weltall. Fei reconheceu
nisso um ataque de Ether como o seu Tiro Guiado, e percebeu espantado que
a câmera de Weltall estava defeituosa. Diante da surpresa, ele não
teve como impedir que o ataque seguinte do chicote do Gear vermelho o derrubasse.
E a voz metálica soou pela cabine:
_ Aviso: ataque de Ether do inimigo comprometeu visores e movimentação
desta unidade. Sistemas de auto-reparo trabalhando, tempo estimado de recuperação:
quarenta e três segundos.
_ É tempo demais pra esperar. Muito bem – e procurou ficar de pé,
movendo a alavanca de combustível para o modo ‘turbo’ – vamos agüentar
até lá!
Com a aceleração, Weltall superou a lentidão causada
pelo ‘Sorriso Selvagem’ do pirata e reagiu instintivamente, ouvindo com
atenção o movimento do Gear vermelho. Golpeou uma vez à
esquerda às cegas, encontrando o vazio, um segundo golpe à
direita também não encontrou nada e Weltall foi atingido
por trás pelos chicotes do outro. Mais do que depressa, Weltall
voltou-se e agarrou os cabos dos chicotes, puxando o Gear vermelho para
si e atingindo-o com o pé, derrubando-o.
O pirata ficou surpreso. Depois do ataque de Ether, o outro deveria ficar
cego por algum tempo; deveria estar cego até então, mas conseguira
agarra-lo e derruba-lo, e sem dúvida o golpe certeiro acrescentara
um ‘Nível de Ataque’ em sua máquina.
_ Até que esse cara não é ruim... – sorriu ele, movendo
seu Brigandier para deixa-lo de pé – mas vamos ver se ele gosta
disso!
Todo o Gear de combate acumulava energia para golpes mais potentes em modo
automático, o que era chamado ‘Nível de Ataque’. Era como
o golpe Raigeki que Fei descobrira durante a luta com o Rankar, mas o Brigandier
do pirata também tinha seus recursos. Enquanto os monitores de Fei
estavam quase normalizados, Weltall foi atacado pelo Nível 1 do
pirata.
_ Chicote em Cadeia!
Ainda avançando, o Gear vermelho girou sobre si mesmo e seus dois
chicotes atingiram Weltall num único movimento, para caírem
novamente sobre ele depois. A perda do equilíbrio fez o Gear de
Fei cair sobre um dos joelhos, mas sua visibilidade voltara e novamente
ele e o Gear agiram como uma coisa só. Diante da surpresa do pirata
que já julgava a batalha vencida, Weltall ficou de pé, evitou
um contragolpe dele abaixando-se e subiu de repente, pegando sua cabeça
desprotegida com um soco por baixo em gancho, o que jogou o Gear vermelho
para trás e no chão de forma pesada. Só depois do
movimento Fei se deu conta do que fizera, movendo Weltall de forma eficiente
e fluida como se fosse o seu próprio corpo, e a voz metálica
do painel tornou a dizer;
_ Nova seqüência de ataque automático registrada e transferida
para o banco de dados. Denominação ‘Reppu’.
O quê? Fei não se lembrava de dar qualquer nome que fosse...
de ter adicionado nada. Mas tudo isso teria que esperar, pois com a queda
pesada do Gear vermelho, as areias por toda a parte começaram a
tremer mediante a surpresa de Fei e o aborrecimento evidente na voz do
pirata.
_ Essa não! Isso não é nada bom! – tanto Weltall quanto
Brigandier começaram a afundar depressa na areia e o pirata praguejou
– No calor da batalha, fiquei preso na areia movediça! Logo eu,
entre todas as pessoas...! Isso é tudo culpa sua!
_ O quê?
_ Cara, você vai levar mais tarde. Então, se prepara!
Mas, com ou sem reclamações, nenhum deles teve como evitar
que a areia tragasse a ambos e os dois Gears desapareceram nas areias.
Fei não podia acreditar que ainda estava vivo. Depois de afundar,
Weltall acabara ressurgindo em um amplo salão natural por onde areia
entrava em filetes vindos do teto, e não era completamente escuro.
_ Ei, desce aqui um pouco! Eu não vou te matar!
Ele procurou pela voz e viu, pelos monitores do Gear, que o Gear vermelho
estava logo ao seu lado e o piloto descera. Estava chamando-o lá
de baixo e Fei resolveu descer também. Queria mesmo ver o tipo de
pessoa que o fizera parar ali.
_ Escuta, tudo o que eu quero – o outro estava falando lá embaixo,
enquanto Fei abriu seu cockpit e desceu – é que você deixe
este Gear...
O pirata silenciou subitamente ao ver o rapaz civil diante de si e recuou,
visivelmente surpreso.
_ Ei... você não é um soldado de Aveh!
_ Eu disse isso antes, durante a minha transmissão pelo intercomunicador
– disse Fei com uma voz de poucos amigos – Foi você quem se recusou
a me ouvir, certo?
_ Há, há, há! Desculpe por isso! – o pirata concordou,
levando a mão à cabeça e rindo sem jeito – É,
acho que eu me lembro de você dizendo algo assim. Eu saí todo
disposto e achei que você era o inimigo!
Fei continuava aborrecido. Aquele sujeito parecia um garoto! Ainda sem
jeito, o pirata estendeu a mão e apresentou-se:
_ Hã, aham... O meu nome é Bart. Eu sou o pirata que age
neste território.
_ Meu nome é Fei. – respondeu ele, apertando a mão do outro
– Eu fui preso sem razão aparente, empurrado pra dentro daquele
transportador de Aveh e estava prestes a ser mandado pra um campo de concentração
até você aparecer e explodir a coisa toda em pedaços.
Seja como for... estou feliz de ter conseguido sobreviver.
_ Sei... – Bart olhou para cima, curioso, para Weltall – Bem, estou grato
por ter podido ajudar pelo menos um pouco. Mas eu não esperava que
um civil como você pudesse estar pilotando um Gear militar. Além
disso, esse Gear deve ser um modelo zero quilômetro. Eu nunca vi
este tipo antes.
_ Vamos apenas dizer – respondeu Fei, baixando a cabeça – que um
bocado de coisas aconteceu. Não é como se eu quisesse pilotar
ou coisa assim.
Bart continuou olhando admirado para Weltall e Fei resolveu dar vazão
à sua curiosidade:
_ E, afinal, onde é que nós estamos? Parece que caímos
num lugar bem estranho. Eu nunca ouvi falar que existisse uma caverna de
estalactites tão grande quanto esta sob o deserto.
_ O quê? Você não sabe de nada, não é?
– perguntou Bart com ar convencido – De onde é que você é?
O deserto só cobre cerca de 1000 sharls da superfície do
planeta. O estrato subterrâneo consiste de rocha ígnea.
_ De um mar de árvores para um mar de areia – comentou Fei, desanimado
– e agora, uma caverna de estalactites... O que vem depois?
_ Do que está falando?
_ Ah, nada. Deixa pra lá.
Que seja. Nós estamos em apuros. Veja. – e apontou para o alto –
O buraco por onde caímos desapareceu. É melhor encontrarmos
outra saída. Então, que tal uma trégua por enquanto?
Pelo menos, até acharmos uma saída e escaparmos daqui.
E novamente estendeu a mão, que Fei tornou a apertar.
_ Tá... Eu concordo. E é melhor irmos andando.
No deserto acima deles, os últimos sobreviventes do transportador
de Aveh estavam sendo recolhidos a bordo do cruzador de areia. Apesar de
alguma hostilidade para com os piratas que os recolhiam, todos achavam
melhor a prisão do que ficar à deriva no deserto. Não
havia nenhum ferido grave, pois a despeito de odiarem Shakhan, Bart e sua
tripulação evitavam tanto quanto possível ferir gente
inocente. Junto ao timão externo, Citan acompanhava os procedimentos
de resgate ao lado do jovem imediato de Bart.
_ Entendo... Significa que o seu ‘jovem’ não sai apenas atirando
em tudo e em todos, Sigurd.
_ Isso mesmo – concordou o outro – na verdade, ele calculou este ataque...
ou é o que ele diz! De qualquer forma, como pode ver, ninguém
morreu desta vez.
Um dos Gears menores que acompanhavam o Brigandier de Bart veio ao cruzador
e relatou então:
_ Sigurd, senhor! A coleta de artigos e soldados do transporte de Aveh
está quase completa. Ainda não conseguimos localizar o jovem
mestre... O pelotão do General Maitreya vai procurar mais uma vez.
_ Certo. Estou contando com vocês.
_ Sim, senhor. Já que sou parte da unidade, também devo pedir
licença e ir.
E decolou novamente rumo ao deserto. Curioso, Citan perguntou:
_ Então, o que houve com este ‘jovem’ que você chama de mestre?
_ Ele caiu numa caverna subterrânea juntamente com aquele outro sujeito
no Gear. Foi perto de uma velha área de escavação,
então ele provavelmente vai conseguir sair de alguma forma... Nós
tentaremos achá-lo e, se não der certo, vamos esperar por
ele no nosso ponto de encontro.
_ Parece que você confia muito nele... – observou Citan.
_ Confiar nele... – retrucou Sigurd, com ar de dúvida – Sim, eu
confio em que ele vai nos colocar em apuros.
Deixando isso de lado, Sigurd voltou-se para o velho amigo e comentou:
_ Mas eu nunca imaginei que encontraria você aqui, ‘Hyu’...
_ Isso não é coincidência... É uma conseqüência
inevitável, eu presumo.
A voz de Citan deixava algo subentendido e Sigurd perguntou com ar preocupado:
_ Hyuga... está dizendo que algo está para acontecer? |
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