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O Continente de Ignas, no hemisfério norte do nosso mundo. Neste,
o maior continente, uma guerra tem seguido entre dois países por
centenas de anos. Ao norte do continente jaz o Império de Kislev;
ao sul, está o Reino do Deserto de Aveh.
A guerra durou por tanto tempo que as pessoas esqueceram da causa, conhecendo
apenas o círculo sem fim de hostilidade e tragédias. A obsessão
crônica da guerra em breve encontraria uma mudança devastadora.
Isso se deveu ao Ethos, uma instituição que preserva a
cultura do nosso mundo, reparando ferramentas e armas escavadas das ruínas
de uma civilização antiga. Ambos os países escavavam
estas ruínas e pediam ao Ethos que consertasse as descobertas,
a fim de aumentar seu poder militar.
As variadas armas escavadas das ruínas alteraram grandemente o desempenho
do esforço de guerra. O resultado das batalhas entre os dois países
não era mais determinado pelo combate homem a homem, mas por Gears
máquinas de combate humanóides gigantes que eram obtidos
do interior mais profundo das ruínas. Eventualmente, depois de mudanças
constantes no estado de guerra, Kislev conseguiu ficar por cima. O principal
fator por trás disso estava na enorme diferença entre a quantidade
de recursos enterrados no interior de suas ruínas. Mas, de repente,
uma força militar misteriosa apareceu no continente de Ignas. Chamados
de Gebler, esta força decidiu fazer contato com Aveh. Com a ajuda
desta força militar Gebler, Aveh conseguiu recuperar-se de sua desesperada
minoria para voltar até a fazer par com Kislev. Então, tomando
vantagem de sua recém-conquistada aliança, Aveh começou
a capturar um território após o outro de Kislev, sem mostrar
qualquer indicação de diminuir sua campanha de invasão.
A história começa na vila remota de Lahan, nos limites de
Aveh, próxima à fronteira de Kislev...
A vila está em chamas. Pessoas correm por toda a volta enquanto
a escuridão da noite é rompida pelo tom vermelho-brilhante
das labaredas em seus lares. Um grupo de Gears militares enfrenta um Gear
solitário, pilotado pelo jovem Fei Fong Wong, já cansado
pelo esforço.
_ Huff... Puff... Malditos!
Apesar de nunca ter pilotado um Gear na vida, Fei conseguiu derrubar alguns
dos soldados sem maiores problemas. Mas os Gears inimigos tornaram a se
pôr de pé.
_ O que, raios, é você? ele pergunta Não importa
como eu o derrube, ainda consegue ficar de pé?
A poucos metros da batalha o Dr. Citan Uzuki, amigo próximo de Fei
e do povo da vila tenta se fazer ouvir:
_ Fei, pare! Você não deve lutar aqui!
Uma rajada de metralhadora do Gear inimigo e Fei procurou desviar, sendo
atingido por pouco pelo mesmo que acabara de derrubar. Tornando à
carga, o Gear de Fei atinge mais uma vez o outro e torna a derruba-lo.
_ Maldição... Por quê? Por quê tiveram de vir
aqui? Pra quê fazer isso?
A única resposta é o som das chamas que continuam consumindo
a vila, alheias à luta.
Mais duas pinceladas e parecia pronto. Com um olhar crítico, Fei
se afastou um pouco da tela e achou que bastava por hora, resolvido a tirar
uma folga. Não tinha idéia de onde viera a inspiração
que o levara a pintar aquele quadro, mas quando dera por si, já
estava bem adiantado no trabalho. Geralmente, só pintava os arredores
de Lahan, onde vivia. Era um rapaz alto, de longos cabelos castanhos presos
e também era um mistério. Três anos antes, ele aparecera
em Lahan todo sujo de sangue e ensopado da tempestade. Muitos dos aldeões
não acharam que suportaria, mas o líder da vila o acolhera
e a constituição firme do rapaz impediu o pior. No entanto,
ele não se lembrava de coisa alguma anterior a isso, sabendo apenas
que fora entregue ao chefe da vila por um estranho mascarado. Havia quem
supusesse que o homem fosse o pai de Fei, mas nem mesmo o rapaz podia saber
com certeza. Comentavam também sobre os pesadelos terríveis
que ele tivera pouco depois, onde sempre chamava pelo pai. No entanto,
ele mesmo não tinha qualquer lembrança anterior aquilo.
Tendo terminado sua pintura, Fei resolveu ir ter com os amigos no andar
de cima da sua casa, que conversavam animadamente com Lee, o chefe da vila.
Entre eles estava Timothy, que foi o primeiro a vê-lo se aproximar.
_ Oi Fei! Desculpe usar a sua casa desse jeito, mas precisávamos
nos reunir aqui hoje. É preciso conversar com o chefe sobre o grande
dia de amanhã.
_ Ah, claro, o seu casamento com Alice! Isso sim é um grande dia!
_ Bom... é mesmo... mas ainda é meio difícil pensar
nisso como realidade, sabe?
Fei se afastou um pouco, como se estivesse sem graça, antes de dizer:
_ Hã, Timothy... Eu só quero agradecer a você e à
Alice... Há três anos, eu acordei nessa vila sem o menor vestígio
da minha memória... não sabia quem era, onde tinha estado
ou o que tinha feito até aquele dia... não podia me lembrar
de nada. E, apesar disso, você e Alice simpatizaram comigo e me encorajaram
a seguir em frente. Se vocês dois não estivessem lá
comigo, não sei o que teria me acontecido... e, voltando-se para
o amigo: _ Do fundo do coração, Timothy, obrigado mesmo!
Você e a Alice merecem viver juntos pra sempre!
_ Hah, corta essa! riu o outro Não precisa ficar todo sentimental
comigo... Seja como for, sempre senti como se tivesse sido seu amigo desde
que éramos meninos. E vamos continuar sendo amigos pra sempre, certo?
_ É claro!
_ Ah, Fei, a propósito... e pareceu lembrar de algo Será
que você podia ir ver como está a Alice? Ainda tem umas coisas
pra eu discutir com meu pai e o Chefe Lee, mas tenho certeza de que ela
gostaria de companhia.
_ Claro, sem problemas! Te vejo mais tarde, então.
Fei estava prestes a sair quando entrou um garotinho pela mesma porta que
ele usaria.
_ Ah, aí está você, Fei! Eu queria falar com você
sobre uma coisinha!
_ Ei, como é que está, Dan? Tá animado hoje... como
sempre, aliás.
_ Ô, Dan, não seja tão mal educado! cortou Timothy
Pra quê entrar gritando desse jeito?
_ Saco, o Timothy também tá aqui. resmungou o menino -
Não enche, Timothy! Até casar com a minha irmã, você
não tem nada a ver comigo. O meu negócio é com o meu
amigo aqui, o Fei. e virou-se para Fei:
_ Pois é, Fei, eu preciso falar com você depois...
_ O que foi, Dan? o ar grave do menino fazia parecer sério Parece
coisa grave.
_ E é mesmo; por isso eu não posso falar aqui e olhou feio
para Timothy Tem uma certa pessoa ouvindo que podia causar problemas.
Temos que falar sério, um a um, de homem pra homem! Te encontro
lá fora. - E voltando-se para Timothy:
_ Se cuida até amanhã, Timothy. e mostrou a língua
para o outro, saindo logo depois. Fei ficou olhando confuso para a porta
e para o amigo.
_ O que é que há com ele, afinal?
_ E pensar que a partir de manhã eu vou ser cunhado desse moleque...
Timothy deu de ombros e riu: _ Hah! Essa parte não vai ser nenhuma
lua-de-mel!
Ainda rindo, Fei saiu logo atrás de Dan. Era bom que Timothy tivesse
aquele gênio animado; com o mau humor de Dan por causa do casamento
iminente da irmã, ele obviamente iria precisar de ânimo!
Dan estava no meio do caminho para a casa de Alice e, vendo Fei se aproximar,
chamou o rapaz de canto e perguntou:
_ Podemos conversar agora, Fei? É importante.
_ Claro Dan. O que foi?
_ Como você sabe, amanhã finalmente é o dia do casamento
da minha irmã... falou o menino num ar solene e é bem
sobre isso que eu quero falar: o casamento da Alice. Pra ser perfeitamente
honesto com você, Fei... eu sempre quis que você fosse meu
irmão. Ainda não é tarde demais. Você podia
seqüestrar a Alice e fugir com ela! E, se precisar da minha ajuda,
eu adoraria fazer qualquer coisa!
Fei ficou sem ação diante da surpresa enquanto, num tom mais
calmo e baixo, Dan segredou;
_ Pode ser meio esquisito eu dizer isso, mas a minha irmã é
bonita, cozinha bem... (e, só entre nós, ela é bem
dotada, também! Heh, heh heh!) E aí? O que você acha?
_ Tá bom, Dan, você venceu. Acho que eu vou simplesmente pôr
Alice no colo e correr com ela pra longe daqui!
_ Mesmo? o rosto do menino se iluminou Eu sabia que gostava de você,
Fei! Esse é o espírito! Mas... ia ser preciso mudar os sentimentos
dos dois, também. E você precisaria gostar dela...
Como Fei esperava, era mais uma das idéias de Dan. Bastava dar corda
suficiente e ele próprio percebia os furos do plano. O menino era
genioso, mas tinha bom senso. Apesar de ter sido obrigado a se resignar,
ele ainda parecia satisfeito.
_ Seja como for, você se dispôs a me ajudar. Obrigado, Fei!
Você é um cara legal.
Fei despediu-se de Dan e chegou logo à casa de Alice. Era o bom
de viver numa vila pequena; não demorava nada chegar de um lugar
a outro. A vizinha na porta foi a primeira a recebe-lo, animada:
_ Oi, Fei! Veio ver Alice? Bom... é costume não se deixar
homem nenhum ver a noiva... mas acho que você pode ser uma exceção.
Entre!
Apesar de ser um forasteiro, não nascido em Lahan, Fei havia sido
como que adotado pelo Chefe Lee, era um pintor habilidoso e o conhecimento
de artes marciais que tinha, mesmo sem lembrar como aprendera, já
salvara mais de uma vez as pessoas de Lahan dos monstros que habitavam
nas redondezas. A coragem do rapaz e seu bom caráter tinham conseguido
a confiança de todo o povo dali naquele curto intervalo de três
anos. Cumprimentando a tia de Alice, que criara a moça e o irmão
dela depois da morte de seus pais, Fei subiu até o quarto de Alice.
Ela estava lá, fazendo retoques no vestido branco que usaria no
dia seguinte.
_ Oi, Alice. Esse é o seu vestido de casamento?
_ Hã? Fei, você me assustou! e voltou-se para o vestido
É sim. Eu acabei de terminar. Demorou mais do que eu pensava.
_ Hmmm... Fei se aproximou e deu uma boa olhada, com ar de aprovação
Você fez um bom trabalho! Vai ficar muito bem em você, Alice.
Parabéns.
_ Obrigada...
Ela desviou o rosto e alguma coisa no silêncio parecia querer dizer
que havia mais a ser dito. Fei sentiu-se inquieto, pensando no que devia
ou não dizer, e quando resolveu falar, Alice fez o mesmo.
_ Hã, Alice...
_ Sabe, Fei...
Os dois pararam e se olharam, meio sem jeito, até Fei fazer sinal
para que ela falasse.
_ Desculpa, Alice. O que foi?
_ Ah... nada.
_ Sei...
Os dois continuavam um tanto encabulados, e Alice recomeçou:
_ Ah, sim. Fei... você viu o Dan?
_ Vi sim. Ele tá lá fora. sorriu Resmungando como sempre.
_ Ai, esse menino! E eu pedi a ele para se apressar! Queria que ele me
fizesse um favor.
_ Que tipo de favor?
_ Pro meu casamento amanhã. Eu queria que ele emprestasse uma câmera
e alguns flashes do Dr. Uzuki, no pico da montanha.
O Dr. Citan Uzuki era conhecido de toda a Vila de Lahan. Vivia com sua
esposa e a filha pequena no pico da montanha próxima à vila
e também era muito considerado pelas pessoas dali por sua ajuda
médica e, também, por seus inventos estranhos. Era um amigo
de longa data de Fei, que se ofereceu:
_ Se é só isso, eu ficaria feliz em ir pedir pra você.
_ Mesmo? Ah, Fei, mas ia ser abusar...
_ Que nada, não é incômodo nenhum. Além disso,
não me deixa muito à vontade pensar no Dan carregando coisas
que quebram tão fácil. E pra completar, eu posso ter a chance
de provar mais um pouco da comida da Yui se for até a casa do Doc.
_ Esse é o meu Fei.
O riso de Alice espantou um pouco aquele clima de desconforto de antes,
e Fei já estava quase na escada quando ela tornou a chamar.
_ Fei... espere um pouco.
_ Hã? ele voltou-se Tem mais alguma coisa que quer que eu traga?
Ela tornou a se voltar, um tanto sem jeito e torcendo as mãos de
nervosismo antes de responder:
_ Não... não é bem isso...
Fei ficou sem entender e ela, ainda sem olhar para ele, perguntou:
_ Fei... Alguma vez você pensou nas coisas assim? foi até
a janela e continuou, sempre evitando olhar para Fei Se... Se, ao menos,
você tivesse nascido nesta vila... e se tivéssemos nos conhecido
antes...
Agora foi a vez dele de ficar sem jeito. Houve silêncio, porque nenhum
dos dois sabia o que dizer, até que Alice disse:
_ ... N-não é nada. Me desculpe...
_ Bom... Acho que é melhor eu... ir andando, então.
_ Ah... tudo bem. Cuide-se e dê minhas lembranças ao doutor.
Fei ainda olhou para ela um instante antes de sair. Alice ouviu a porta
lá embaixo se fechando e perguntou a si mesma:
_ Isso é o destino? e baixou os olhos, vendo Fei tomar o rumo
da montanha - Eu me sinto tão idiota. A quem estou enganando?
Aquela conversa com Alice acompanhou Fei durante todo o seu caminho rumo
à casa do Dr. Citan Uzuki. Quando algo como o plano de Dan vinha
exclusivamente da cabeça dele, era fácil pensar numa bobagem
de criança; vindo de Alice, no entanto, fez Fei se surpreender perguntando
o que realmente teria acontecido se as coisas fossem como ela imaginara.
Meio aborrecido consigo mesmo e sem jeito com o que estava quase pensando,
ele chegou ao topo da montanha sem maiores problemas.
A casa do doutor tinha três andares, sendo o primeiro a sala de visitas
e a cozinha, o segundo os quartos e o terceiro um observatório de
onde se viam todos os arredores , incluindo a fronteira de Kislev. Ainda
havia um último cômodo nos fundos do terreno onde o doutor
fazia sua experiências com eletrônica. Fei imaginou se ele
não estaria lá quando chegasse. E, de fato, quem o recebeu
foi a esposa de Citan.
_ Olá, Fei! Há quanto tempo.
_ Oi, Yui. Onde está o doc?
_ Meu marido está mexendo na sua sucata lá nos fundos, como
sempre.
_ Eu já imaginava. Será que ele nunca se cansa de brincar
com essas coisas? Bom, é melhor eu ir falar com ele. Com licença,
Yui.
Midori, a filha do casal, estava tão quieta quanto de costume. Fei
costumava brincar com ela durante suas visitas, mas a menina não
estava disposta a sair do lado da mãe naquela tarde em particular.
Indo para os fundos da casa, no entanto, Fei não via o doutor em
parte alguma e nem ouvia o costumeiro som de ferramentas. Olhando em volta,
ele perguntou em voz baixa:
_ Afinal, onde é que você está, Doc?
Um som de explosão pareceu fazer o quarto dos fundos tremer e Fei
olhou para o alto, procurando a razão do barulho. Foi quando ouviu
uma voz conhecida de lá;
_ Ahhh, isso não é nada bom! Por quê eles usam essas
peças tão inferiores? É por isso que a intervenção
deles às extrações...
E lá estava ele, óculos de quatro lentes no rosto e o costumeiro
sobretudo verde, olhando para uma máquina que mais parecia um caranguejo
com uma hélice e com ar de reprovação a um painel
fumegante.
_ Doc! Então era aí que você estava!
O doutor voltou-se. Tinha cabelos negros e olhos da mesma cor e um aspecto
de intelectual que combinava com a sua figura. Esse mesmo aspecto traía
sua natureza de estudioso, mas escondia sua outra natureza: o Dr. Uzuki
conhecia técnicas de ether como o próprio Fei e seu conhecimento
de artes marciais no mínimo rivalizava com o do rapaz. Ninguém
sabia ao certo do passado do doutor e sua família e, como sempre
eram tão bons com todos, ninguém o incomodava procurando
saber. Ele deixou o ar de decepção de lado e abriu prontamente
um sorriso ao reconhecer o rapaz.
_ Ah, olá, Fei! É bom ver você!
_ Você tá bem, Doc? O que está tentando fazer aí
em cima?
_ Ah, achei que poderia tentar consertar este Caranguejo de Areia. E, quanto
àquela explosão, não precisa se preocupar. Acontece
o tempo todo.
Ambos riram. Sim, Fei podia se lembrar de visitas anteriores e de algumas
vezes em que ajudara o doutor. Explosões eram um tanto comuns na
casa do Dr. Uzuki quando ele começava com suas experiências.
_ Pode esperar um pouco, Fei? Estou prestes a terminar por hoje. Ah, e
a propósito, tem uma coisa interessante no depósito. Por
quê não dá uma olhada enquanto eu termino aqui? Não
vou demorar.
_ Claro, Doc. Mas, por favor, se apresse. Vai escurecer antes que perceba.
Fei não achava nada ruim a idéia de ficar para o jantar.
Como dissera à Alice, a comida de Yui era mesmo excelente. Mas o
doutor já se machucara cismando em prolongar afazeres até
depois do pôr do Sol e foi pensando nisso que o rapaz entrou no depósito.
Lá, bem no meio de várias das coisas do doutor, havia uma
caixa dourada grande sobre uma mesa.
_ Então, era disso que o Doc estava falando e começou a
tatear a caixa, intrigado Vamos ver... O que há de tão
interessante em...?
Foi quando ele tocou num botão lateral e engrenagens começaram
a se mover. Fei deu um pulo de surpresa para trás enquanto a caixa
abriu-se para todos os lados, revelando uma estatueta branca de anjo belíssima,
ao mesmo tempo em que luzes coloridas se fizeram presentes e a estatueta
começou a girar lentamente e uma canção suave se fez
ouvir, como numa caixa de música.
_ O q-que... é isso?
Talvez fosse a estatueta, ou talvez as luzes, mas Fei de repente sentiu
um estranho calor dentro de si. Haviam... lembranças... algo dentro
de si que moveu-se inquieto, e então ele percebeu que era a música.
_ Essa música...? Eu... tenho a impressão de ter ouvido antes,
em algum lugar...?
_ O que você acha? Nada mau hein?
Fei voltou-se e o doutor entrou, tornando a saúda-lo.
_ Olá outra vez, Fei. Desculpe te-lo feito esperar. foi diretamente
para a caixa e também admirou a estatueta por algum tempo, perdido
em pensamentos A música é uma coisa misteriosa... às
vezes, faz as pessoas se lembrarem de coisas que não esperavam.
Pensamentos, sentimentos, memórias... Coisas quase esquecidas...
Pouco importando se o ouvinte deseja se lembrar delas ou não...
_ Doc, o que é isso...?
_ Foi retirada de algumas ruínas antigas, e ainda está em
reparos. Obviamente é um equipamento de áudio de algum tipo.
e tornou a olhar pensativamente para a estátua giratória
Há muito tempo, pessoas ouviam esta melodia, como estamos fazendo
agora... Às vezes, eles podem ter ficado alegres... enquanto às
vezes podem ter sido levados às lágrimas.
Fei ficou em silêncio, pensando consigo mesmo o quanto o que o doutor
dissera parecia combinar com ele. Ouvindo aquilo ele sentia algo caloroso
em seu coração, mas também uma profunda e inexplicável
tristeza, como a lembrança de algo precioso perdido várias
vezes. Perdido em pensamentos, Fei foi trazido de volta pela voz do doutor:
_ Aliás, o que traz você aqui hoje?
_ Hã? Ah, é mesmo! Alice pediu para emprestar a sua câmera,
Doc.
_ Ah, claro. O casamento dela é manhã, certo...? Então,
é melhor irmos pegar o que ela pediu. E, a propósito, Fei,
o jantar deve ficar pronto em breve. Gostaria de se juntar a os?
_ Claro que gostaria! Eu estava esperando que o senhor convidasse.
_ Bem, eu ainda tenho que fazer uma limpeza por aqui. Importa-se de fazer
companhia à Midori lá em casa?
_ Claro. Fique à vontade, Doc. Eu vou na frente e como quando o
jantar estiver pronto.
_ Ótimo. riu o doutor Vá na frente, então. Mas
eu não vou ser responsável se você ficar com dor de
estômago por comer a comida de minha esposa, Yui.
Fei foi até a porta, ainda sorrindo, mas voltou-se para comentar
com Citan, sério de novo.
_ Doc... Eu me sinto estranho quando ouço essa música...
Sinto... algo quente por dentro.
Com o ar pensativo de sempre, com a mão sob o queixo, o doutor comentou:
_ Talvez seja porque você tem alguém vivendo dentro de você.
E ele também deve ter gostado desta música há muito
tempo atrás, antes de se tornar parte de você...
Fei fez cara de quem não estava entendendo e saiu, enquanto Citan
comentava consigo mesmo:
_ Meu Deus, o casamento de Timothy e Alice é mesmo amanhã.
seus pensamentos divagaram Pode mesmo ser melhor viver uma vida comum,
nesta condição... como um filho de homem...
Citan balançou sua cabeça, como se para escapar de um pensamento
mais profundo antes de lembrar do que estivera consertando.
_ Bom, que seja. Acho que seria melhor eu consertar o rotor, pelo menos...
Foi quando ele percebeu que as luzes coloridas estavam diminuindo depressa,
bem como a música. Voltando-se para a caixa, Citan percebeu que
a estátua parara de girar e parecia se mover de forma diferente.
No começo só um balanço, que se tornou uma tremedeira
frenética e cada vez mais forte, até que subitamente se quebrou
em pedaços sem que nada a atingisse. E o doutor Citan Uzuki sentiu
um calafrio.
_ Não pode ser... S-será que... isso é um presságio?
Aproximou-se e examinou a estatueta. O anjo parecia ter se quebrado de
dentro para fora, apesar de ser uma estátua maciça. Citan
tornou a pôr a mão no queixo, como costumava fazer quando
meditando ou preocupado.
_ ... E agora, o que vai acontecer...?
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